25 teses sobre o fascismo.

 

Por Shane Burley , Originalmente publicado em Institute for Anarchism Studies

 

Com o crescimento da Alt-Right e o movimento pró-Trump nos EUA, a esquerda luta sobre como compreender e definir o fascismo no contexto do século XXI. as condições, os atores e táticas são fundamentalmente diferente que nas suas primeiras manifestações, e muitos estudos antiquados deixaram  descrições desarticuladas para a esquerda ou delinquentes inadequados como modelos para compreender o fascismo hoje. Em vez disso, essas vinte e cinco declarações são uma proposta para compreender o cerne essencial do fascismo- o que  o mantém como um impulso moderno apesar e suas diferentes manifestações pelas culturas e  pelo tempo.

1-O fascismo no século XXI tem uma linha direta e continuidade  com os movimentos insurgentes que dividiram a Europa , culminando na Segunda Guerra Mundial. Os métodos , as táticas , e as estratégias mudaram, mas o potencial da máquina genocida-racista continua, e as ideologias estão ligadas pela história.

 

2-O fascismo não precisa de um tipo específico de Estado( nem de Estado), nem exige um aparato partidário específico,  uma democracia ou capital fixos, ou depressão econômica. Ele precisa de política e massas, apoio popular, e da contínua agitação destrutiva da sociedade de classes.

 

3-Quando a desigualdade é santificada, identidades são feitas para se tornarem fixas e essenciais, e um passado mítico é reivindicado em um  mundo claramente pós-industrial, moderno, o fascismo é a manifestação da “verdadeira direita” , uma distinta identidade política se revoltando contra a democracia  e a igualdade. Essa direita real existe pela história, com o fascismo agindo como a versão “modernista reacionária” da tendência  em direção à desigualdade violenta e identidade essencializada. O fascismo representa a manifestação icônica da “verdadeira direita” quem se apresenta como  repúdio dos fundamentos  básicos da democracia liberal.

 

4-O niilismo, como um força destrutiva apolítica, é parte do processo fascista, aquela que exige a destruição da antiga infraestrutura da moralidade para que uma  nova moralidade mítica possa ser construída . o fascismo frequentemente tenta colonizar os métodos usados na esquerda para conseguir essa destruição criativa,  adotando desonestamente a desconstrução revolucionária

 

5-A natureza impulsiva da violência reacionária é excitada pela ideologia e pelos ideólogos fascistas em um esforço para centralizar um resposta irracionalista à fúria desarticuladora da modernidade. Em uma cultura que educa a classe operária com sistemas de  intolerância, a energia é direcionada aos bodes expiatórios em vez  de  para a alienação nas instituições opressivas que  a criaram.

 

6-Hoje, o fascismo está assentado majoritariamente na metapolítica em vez da política. Projetos fascistas tentam influenciar a cultura, as perspectivas, e a moralidade como precursoras da política. Isso coloca muito do trabalho deles no campo da arte e da música, filosofia e palestras, contra-instituições e contrapoder. É assim que se dá o desenvolvimento de valores e estética fascista, não simplesmente um programa político fascista.

 

7-Os valores desenvolvidos pelos fascistas permitem que estes usem metodologias tradicionalmente associados com a esquerda, incluindo política de massas, pós-colonialismo, anti-imperialismo e anti-capitalismo. Fascistas  empregam  o poder das classes marginalizadas e direcionam sua raiva contra a desigualdade e alienação sistêmicas contra outras pessoas marginalizadas, desta forma redefinindo a origem da crise.

 

8-Por causa de sua orientação estratégica e revolucionária, os fascistas  foram capazes historicamente de atrair áreas insatisfeitas da esquerda. Não há tradição revolucionária que esteve livre de infiltração da extrema direita,  nas falhas na análise e prática da  esquerda radical permite que os fascistas se apresentem como alternativa e recrutem.

 

9-O nacionalismo em si é considerado o cerne da visão motivadora do fascismo, ainda que na verdade seja apenas um subgrupo da dinâmica identitária. Tribalismo, do qual o nacionalismo é só um tipo, é o componente chave dessa dessa afirmação de identidade essencial. Nacionalismo é uma versão disso que sempre esteve atrelado ao Estado-nação, e portanto o tribalismo levado a um contexto moderno necessita passar pelo nacionalismo, ainda que isso nãos eja universal. O movimento fascista moderno se redefine consistentemente na prática, reimaginado o que o tribalismo significa que eles dividindo tribalmente, as autoridades sociais que reforçam as fronteiras dessa tribo, podem mudar.

 

10-Nacionalismo étnico é um princípio básico do fascismo hoje, um tipo de tribalismo racial, que não está relegado apenas ao nacionalismo branco ou nacionalismo cívico das nações ocidentais. Ele estabelece uma ética etno pluralista de “nacionalismo para todos os povos” que tenta aliar com componentes nacionalistas dos movimentos de libertação do Terceiro Mundo, movimentos nacionalistas de minorias, e aqueles que resistem aos poderes imperialistas ocidentais. Quando nacionalismo racial é usado como um componente da solução para confrontar poderes opressivos, ele se torna um aliado potencial de uma lógica fascista que vê a resposta ao capitalismo e imperialismo em formas autoritárias de identitarismo.

 

11-O foco do fascismo na imigração, baseado no desejo e países mono raciais,  e atrai pelas ansiedades que frequentemente são ligadas Às organizações de esquerda. A “exportação” de postos de trabalho devido à globalização neoliberal, a retórica isolacionista no movimento anti-guerras, o medo dos trabalhadores imigrantes baixarem os salários dos instituições trabalhistas, os medos ambientais associados com o crescimento populacional, a transformação dos imigrantes Muçulmanos em bode espiatŕorio por supostamente repudiarem as normas liberais,  secularismo liberal presunçoso das costas dos EUA, são bem mobilizados pelas tentativas dos movimentos fascistas de usar as formas liberais de pensamento para seu próprio populismo anti-imigração.

 

12-A Alt-Right é o movimento fascista mais coerente e  bem formado em várias décadas.  A rotulação errada de todos os apoiadores de Trump como verdadeiros   partidários da Alt-Right,  tanto aqueles nas nas organizaçẽos patrióticas ou nas milícias, quanto aqueles nos projetos  de populismo da New-Right ou na Alt-Lite, criaram uma espetáculo barulhento na mídia que deixa passar as verdadeiras motivações da alt-right. A crença na desigualdade humana, no tradicionalismo social, nacionalismo racial, e uma visão autoritária  baseada na ressurreição de mitologias heroicas são o que distingue a Alt-Right como um movimento fascista.

 

13-A Terceira Posição, que arrasta ideias da esquerda para a política fascista, é a forma dominante do fascismo publico cotidiano. Os verdadeiros ideólogos fascistas, os “criadores de ideias” nesses movimentos que atualmente maqueiam o elemento mais radical, necessariamente se consideram anti-imperialistas, anti-capitalistas, e opostos aos atuais governos ocidentais.

 

14-O fascismo frequentemente é descrito como um processo e vários estágios,  de forma que começa de uma facção radical e se desenvolve até o ponto de adquirir poder político. Mas essa é uma descrição de um momento histórico particular do fascismo, e não uma descrição universal da sua trajetória operacional.  Essa compreensão deve ser revisitada para períodos e países diferentes onde o poder, a influência e a coesão social são diferentes.  Por exemplo, na Europa do entreguerras, partidos políticos desenvolveram coligações pelo poder estatal, mas em outras épocas e outros lugares o poder também pode envolver  a igreja, a mídia, ou centros culturais. Na América moderna, os fascistas têm usado uma cultura online que ajudou a  Alt-Right a crescer e tomar espaços culturais influentes com a habilidade de  influenciar  partes essenciais de uma sociedade maior. Nos EUA do Século XXI, a política partidária teve sua influência minguada enquanto celebridades a internet são mais influentes que qualquer um jamais sonhou.

 

15-Enquanto “os  cinco estágios do fascismo” descritos pelo academico Robert O. Paxton  esboça o processo pelo qual o fascismo toma o poder, e então entra em declínio na Europa antes e durante a Segunda Guerra Mundial, ambas condições e movimentos são fundamentalmente diferentes agora. Prever o processo de aquisição de poder e a possível falha em um período em que o fascismo continua  como um influenciador primário na cultura e nos movimentos insurgentes  completamente é impossível.

 

16-A crise para os fascistas hoje vem das contradições na abordagem que os levou ao crescimento. O fascismo no período entre guerras contava principalmente com organização política,  que então tinha que considerar a representação midiática. A Alt-Right do século XXI se desenvolveu quando inteiramente online por meio da cultura de memes e hashtags. Enquanto isso deu a eles um salto  enorme na expansão de sua mensage, desde então eles tem tido problemas em traduzir isso em engajamento no mundo real e na organização seguinte. A vulgaridade da sua linguagem, o estilo de sua abordagem, e a demografia de seus retuítes não se estende o suficiente para organizações radicais e militância.

 

17-Se os fascistas vêm os espaços culturais como preparação para os políticos,, então o movimento dos fascistas nos espaços culturais é efetivamente política. Se o discurso fascista público é  com o fim de  recrutar e organizar, então a expressão pública fascista é indistinguível da organização fascista. Se  a militância fascista resulta em violência, ainda que as explosões pareçam  violência de rua “aleatória”, ou genocídio se eles assumem o poder, o fascismo tenta santificar a violência,  construída diretamente da sua concepção de identidade é de uma sociedade hierarquicamente correta. Portanto , até o mais silencioso dos ideólogos fascistas mantém seu cerne na brutalidade.

 

18-O fascismo só pode esconder sua violência por algum tempo. A história do nacionalismo branco é a história do terrorismo sangrento,  o elemento que demarca todos os partidos e organizações fascistas  em todos os países em todas as épocas. Enquanto os intelectuais fascistas e os líderes do movimento desesperadamente querem separar a imagem das ideias nacionalistas identitárias da violência de rua  e da violência estatal, isso é impossível no mundo real. Em um período de tempo suficientemente grande isso sempre é um problema.

 

19-O fascismo não poderia existir em um período anterior à política e massas. Mesmo sendo decididamente elitista- ele acredita que a sociedade deve ser governada, em parte, por uma casta- ele também precisa da participação massiva do público. Isso significa recrutar grandes segmentos da classe operária, exigindo sua cumplicidade na opressão intensificada. Hannah Arendt descreve o funcionamento disto como “a banalidade do mal”, caracteriza a cumplicidade casual e  o mal-estar burocrático no povo alemão nos eventos da Segunda Guerra Mundial e no Holocausto. Essa banalidade é um requisito para que o fascismo assuma o poder, para que a massa acredite que seus benefícios valem seu preço. É a unidade entre populismo e elitismo, resetando a mentalidade das massas para que elas pensem que elas podem seguir com seus próprios pés para a destruição.

 

20-As condições que criam o fascismo, a equação não solucionada do capitalismo tardio,  provavelmente só ficarão mais entranhadas e dramáticas. A crise é essencial ao capitalismo e  vai se intensificar  enquanto os mercados globais continuarem a tremer com a  instabilidade. Essa tendência para a crise, misturada com a estratificação do capitalismo e  a confiança do estado na discriminação, torna explosões fascistas inevitáveis.

 

21-A inabilidade da esquerda  em prover uma alternativa real e viável ao atual sistema, e sua capitulação às instituiçẽos de poder, são o que dá ao fascismo seu apelo retórico mais forte. Um movimento antifascista efetivo precisa fazer mais que simplesmente se opor aos fascistas de forma  a recolocar a sociedade em sua ordem anterior. Ao contrário, a esquerda deve apresentar uma visão radicalmente diferente que responda aos mesmos sentimentos de alienação e miséria aos quais o fascismo se apresenta como um solução.

 

22-A habilidade do fascismo de se adaptar muda de acordo com a tecnologia, os sistemas sociais, os valores, a ética e as políticas e práticas da esquerda. Enquanto os círculos de esquerda fazem progressos confrontando os legados do colonialismo, supremacia branca, patriarcado, heteronormatividade, e outros sistemas de opressão, os ideólogos fascistas  vão encontrar formas de manipular esses projetos para seu próprio avanço. Prevenir a cooptação requer compreender o cerne da ideologia e as metodologias do fascismo enquanto se é consistente sobre as ideias motivadoras da militância de esquerda, , sempre se esforçando para garantir maior liberdade e igualdade

 

23-Donald Trump,  conduzido à casa branca pelo mesmo tipo de populismo que levou ao Brexit, a saída do Reino Unido  da união europeia,  que encorajou Marine Le Pen e a Frente Nacional na França, e permitiu a Alternativa para a Alemanha com sua política anti-imigrantes entrar no Estado. Isso cria uma possível ponte entre a massa da população e ideologias fascistas ou proto-fascistas, que querem ver uma sociedade com  desigualdade reforçada e identidade essencializada. Essa ponte é uma pré-condição necessária para uma mudança fascista na sociedade,  e que deve ser vista como parte dos círculos concêntricos que dá ao fascismo sua habilidade de  pôr em pratica  violência em massa.

 

24-A resistência ao fascismo precisa tomar a forma da política de massas também, indo em direção à macro política do populismo de direita que faz a ponte entre o conservadorismo mainstream  com a facção fascista. Isso não pode ser feito só por uma fatia mais radical, isso precisa ser feito mobilizando tanto a base que o fascismo recruta e as comunidades massivamente marginalizadas em que ele mira(que são a vasta maioria da classe operária). A forma mais eficiente de ir contra o recrutamento fascista é a mobilização da esquerda, a única coisa que para a violência em massa é a  recusa em massa.

 

25-Supremacia branca e hierarquia social são implícitas na sociedade de classes, mas o fascismo busca torná-las explícitas.  Para que a esquerda se contraponha a isso ele também precisa tornar essa opressão explícita, para  retirar das hierarquias estruturais da civilização também como minar o desenvolvimento fascista. A única coisa que vai acabar com  a perpetuação do fascismo  é destruir os mecanismos que permitem que ele possa ressurgir. Destruir os impulsos do autoritarismo e da desigualdade inerente é uma necessidade para a erradicação do fascismo da consciência coletiva. A única coisa que pode fazer isso é um movimento revolucionário que vai bem além de simples reações aos movimentos brutais dos fascistas.

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....