3.”Até quando, Catilina?”. A infiltração neofascista no PDT, parte II.

 

O impacto do Encontro Nacional Evoliano de 2014 foi grande, tendo repercutido na Câmara de Vereadores de São Paulo e gerado ações da Confederação Israelita do Brasil [12]. Tamanha atenção serviu como inspiração às pessoas que orbitavam em torno desse novo campo político brasileiro gestado ao redor dos Encontros Evolianos, em especial da QTP, e a partir daí instaurou-se um processo de disputa pela liderança desses grupos. Entre fins de 2014 e meados de 2015, surgem ou se consolidam vários grupos ligados a esse campo político, como a Legião Nacional Trabalhista (LNT), Matria, a Ação Identitária Paulista (AIP) e a Nova Resistência, entre outros. Para se demarcar de antigos grupos ligados a certa ideologia surgida no entre-guerras do século XX brasileiro, passou a ser corrente a auto-identificação entre membros desse campo como “dissidentes”.  Vejamos um pouco como cada um desses grupos atuou nos anos recentes.

3.1 . Novos grupos.

    A LNT assume relevância aqui pois foi o primeiro desses grupos a utilizar de forma clara o trabalhismo brasileiro como fonte de inspiração para uma “terceira posição” no Brasil, instrumentalizando figuras como Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas nesse sentido, criando raízes discursivas para a posterior infiltração desse campo dentro do PDT – esforço no qual a LNT não se envolveu, devemos apontar. Algum trânsito entre membros da LNT e da Nova Resistência deve ter ocorrido pois, embora a LNT não se identifique como ligada à Quarta Teoria Política, a adoção do discurso trabalhista pela Nova Resistência é posterior ao surgimento da LNT.

    A Ação Identitária Paulista (AIP) foi um grupo de ativismo próximo ao separatismo paulista, tendo participado de diversas atividades caras a esse campo político, como o desfile de Nove de Julho no Parque do Ibirapuera junto a separatistas paulistas como o Movimento São Paulo Independente (MSPI). A  AIP afirmava que seu foco não era o separatismo em si, mas sim a valorização de aspectos do que chamam de “cultura paulista”, difundindo de forma menos ostensiva a sua versão de identitarismo. Se tratava, como já vimos em outros artigos, do emprego da tática “metapolítica” de infiltração e cultivo de um ambiente público favorável às suas ideologias, portanto. Apesar dessas afirmações, a AIP dialogava abertamente com movimentos separatistas como o MSPI e o SPLivre, afirmando que a versão de separatismo deles era “(…) insustentável e sem alma (…)” [13]. De fato, o representante da AIP era, ao mesmo tempo, secretário-geral do MSPI [14]. Ao longo dos anos, esse grupo se enfraqueceu e foi desativado. As relações da AIP com a Nova Resistência se baseavam em alguma colaboração, e a primeira até pouco tempo atrás constava na lista de parceiros da última, como uma busca no Google nos permite ver ainda [15]. Deveria ser desnecessário dizer, mas diremos, por via das dúvidas: não há simpatia entre movimentos separatistas paulistas à figura do patrono maior do PDT, Getúlio Vargas, por mótivos óbvios envolvendo os fatos de 1932.

    O grupo Avante! também se identificava como sendo um grupo ligado à Quarta Teoria Política.  Esse movimento chegou a colaborar com a Nova Resistência em alguns eventos que contribuíram para a habilitação da Quarta Teoria junto à esquerda, como no caso de evento em defesa da Coréia do Norte na UNB [16]. Por motivos desconhecidos, o grupo debandou, não se sabendo ao certo o nível de cooptação ou trânsito de seus membros para a Nova Resistência. Entretanto, é plausível supor que houvesse alguma disputa de liderança entre eles, tendo em vista a falta de unidade plena mesmo quando havia compartilhamento dos mesmos espaços, como no caso da UNB.

    O grupo Mátria atua como um grupo de mulheres ligado à Quarta Teoria Política. Suas atividades se centravam sobretudo na divulgação digital, embora tenham ocorrido ações filantrópicas e de divulgação nas ruas. O grupo funciona (ou funcionava) transversalmente, acolhendo membros do CEM, Nova Resistência e do Avante!, como se pode perceber pela página do grupo [17]. Recentemente, o Matria se tornou oficialmente o braço feminino da Nova Resistência, sendo isso um indício de que o Avante! se fundiu à Nova Resistência sob a hegemonia desta, embora não seja possível afirmar plena certeza quanto a isso.

3.2. Nova Resistência.

    Por fim, a Nova Resistência surgiu no Brasil liderada por Raphael Machado em 2015. É importante ter em mente que a Nova Resistência faz parte de uma rede internacional fundada e liderada pelo estadunidense James Porrazzo. Porrazzo participou de redes de apoio à Coréia do Norte hoje deslegitimadas pelo  próprio governo desse país asiático (evidenciando a repetida estratégia de infiltração dentro da esquerda), entre outras atividades [18].

    A Nova Resistência, assim como a maior parte dos grupos surgidos a partir de 2014 no seio do Encontro Nacional Evoliano, investiu na retórica anticapitalista como um de seus elementos fundantes, assumindo por diversas vezes posições tipicamente de esquerda para consolidar sua identidade política. Não é incomum em suas publicações encontrar defesa de posições favoráveis à reforma agrária, contrárias a reformas neoliberais e a defesa de países tradicionalmente defendidos pelo campo anti-imperialista, entre outras coisas. Mesmo quando adotou posições tipicamente direitistas, como a crítica aos direitos LGBTs ou à legalização de drogas, a Nova Resistência buscou fundar suas posições em uma retórica contra o capital. Esse elemento fez com que uma parcela da esquerda passasse a simpatizar com o grupo, com eventuais cooptações e recrutamentos ocorrendo.  

    É difícil determinar o que fez o grupo central da Nova Resistência deixar de defender ostensivamente o separatismo da época da Frente Popular Austral, embora, como já tenhamos sugerido, o senso de oportunidade política que soube captar a conveniência da adoção de um discurso e uma imagética nacionalista seja o motivo provável. De qualquer modo, devemos ressaltar que no Sul do Brasil a Nova Resistência parece ter uma atividade diferenciada, com um grupo distinto especificamente voltado a atuar naquela região, a Resistência Sulista. É de se sublinhar que a Nova Resistência continuou a atrair pessoas de antigos meios separatistas por algum tempo, como se tratou do caso de membros do Movimento São Paulo Independente, possivelmente pela apologia de certo tipo de autonomia política que ela faz – um tipo que dá plena legitimidade para o surgimento de discursos defendendo enclaves etnicamente isolados.

    Dessa forma, só podemos concluir que a defesa que a Nova Resistência faz do nacionalismo é algo sem profunda convicção. Essa conclusão se reforça quando lemos o que autores usados e amplamente divulgados pela Nova Resistência pensaram sobre o nacionalismo, como é o caso de Julius Evola em “Revolta contra o Mundo Moderno”, o italiano que inspirou os encontros que desembocaram no surgimento da Nova Resistência:

“Consideração final sobre o nacionalismo moderno: (…) ele age de acordo com o plano geral da subversão mundial. Os nacionalismos modernos, com sua intransigência, cego egoísmo e crua vontade de poder, seus antagonismos, com o caos social e guerras que geraram foram os verdadeiros instrumentos para a concretização de um processo destrutivo: a mudança da era do Terceiro Estado para a do Quarto Estado”. [19]

Lembremos que Evola vê a passagem do Terceiro Estado (isso é, da burguesia) para o Quarto (isso é, a classe trabalhadora) como uma degeneração, algo negativo. O nacionalismo é algo subversivo e deletério.

    Como o próprio grupo divulgou em seu site, a Nova Resistência tem realizado com sucesso atividades de infiltração junto a embaixadas de governos estrangeiros como a Síria e a Coréia do Norte (adotando aqui uma tática de infiltração similar à de elementos da Nova Resistência estadunidense), instituições acadêmicas e, o mais grave, sindicatos para divulgação da Quarta Teoria Política ao longo dos últimos quatro anos. Na medida em que se vale de uma retórica anticapitalista e anti-imperialista, a esquerda tem deixado esse grupo ocupar espaços tradicionalmente seus de forma impune, talvez confundida pela rejeição verbal que a Nova Resistência faz do fascismo.

3.3. “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?” ou: qual é o caráter da Nova Resistência?

  Todavia, não é difícil encontrar elementos que denunciam as ligações da Nova Resistência a certa ideologia surgida no entre-guerras do século XX, a despeito de sua alegações. Afinal de contas, como ensina Marx, existe uma grande diferença entre o que um indivíduo alega ser e aquilo que ele de fato é. A base teórica da Nova Resistência se assenta centralmente em autores que não deixam dúvidas quanto ao seu pertencimento à ideologia acima referida, como Martin Heidegger e Alexander Dugin, ainda que seja a uma corrente específica dela. Heidegger, como é de amplo conhecimento, foi membro do Partido Nazista e jamais fez qualquer menção de se retratar de seu pertencimento ao nazismo. Dugin, por sua vez, possui um histórico de textos defendendo a necessidade do fascismo na Rússia [20] e uma jornada inegável de ativismo em círculos políticos – além de mesmos textos seus que pretendem negar a sua filiação ao fascismo apenas tornarem mais difícil distinguir a Quarta Teoria Política do que ele próprio chama de fascismo, afirmando grande proximidade entre a primeira e o segundo: segundo ele, “é muito mais fácil para os ex-fascistas dar o passo seguinte sobre a base de uma fria análise geopolítica e ideológica da história intelectual e política do século XX, e unir-se à Quarta Via”  [21].

    Acrescente-se a isso o fato de que não é nada incomum encontrar entre militantes da Nova Resistência a apologia a figuras e símbolos pertencentes ao universo de certa ideologia política. Vejamos as fotos a seguir:

    Aqui, vemos uma foto de capa no Facebook do fundador da Nova Resistência dos EUA, James Porrazzo, prestando homenagem a Heinrich Himmler, líder das SS nazistas, através de sua citação. O link da postagem encontra-se na referência [22]. Na imagem, se lê: “Nós temos apenas uma tarefa, nos manter firmes e conduzir a luta sem misericórdia”. Por motivos óbvios, Porrazzo resolveu esconder o nome do autor da frase, referindo-se a ele como “H.H.”.

    Aqui, uma postagem da página da Nova Resistência estadunidense presta homenagem a Miguel Serrano, nazista chileno e apoiador do golpe de Augusto Pinochet contra Allende em 1973, ao citá-lo como estando no mesmo espírito das recentes declarações anti-imigração do Dalai Lama. O link da postagem se encontra na referência [23]:

    Como se pode ver, abundam entre os militantes e espaços ligados à Nova Resistência os símbolos e referências a certa ideologia surgida no entre-guerras do século XX. Esses exemplos foram obtidos rapidamente, mas um olhar acurado encontraria facilmente outras referências e outros exemplos para afirmar que a rede que se desenvolveu em torno da Nova Resistência no Brasil e no exterior é, basicamente, uma rede global liderada por neofascistas. De modo irônico, um dos principais critérios que a Nova Resistência utiliza para negar o seu caráter neofascista é aquilo que tanto execram quando praticado por elementos da esquerda liberal: o fato de não se declarar fascista, isso é, a auto-declaração. Acaso tomam a esquerda brasileira por completos imbecis que não conhecem seus inimigos históricos, bajuladores e conspiradores que apoiaram golpes que levaram a América Latina a sangrar para a maior glória do imperialismo?

4. Conclusão.

    O tipo específico de grupo político que surgiu a partir dos Encontros Evolianos desaguou na conformação e articulação ao redor da Nova Resistência como sua principal organização. Como base desse processo, internamente à Quarta Teoria Política, as redes de contatos às quais Raphael Machado teve acesso através de James Porrazzo e outros certamente o beneficiaram na disputa pelo controle desse campo político no Brasil, o posicionando melhor para explorar as relações com sua autoridade política maior, Dugin. No plano público a Nova Resistência adotou a tática de rejeitar publicamente o fascismo e o nazismo – ainda que entre seus militantes convivendo sem problema algum com referências e homenagem a figuras pertencentes a certa ideologia do entre-guerras do século XX. Constituiu-se aqui aquilo que Dan Glazebrook chamou de “fascismo politicamente correto” [24], com a apologia semi-velada ao isolamento étnico-racial vindo embalada em um discurso de valorização da diversidade. A essa postura, somou-se a estratégia de adoção de um discurso anticapitalista, que serviu bem à imagem de radical e portadora de uma alternativa absolutamente nova que a Nova Resistência buscou projetar. Dessa forma, a Nova Resistência acabou explorando politicamente o espaço criado pela crise política instaurada a partir de 2013 – espaço acentuado pela falta de uma esquerda forte e capaz de encarar o Minotauro do capital de forma radical e consequente, sem ilusões para com pequenas concessões cosméticas.

    Veremos na parte final do artigo os indícios do nível de infiltração da Nova Resistência dentro da esquerda e, em especial, do PDT.

[12] Conferir: http://www.conib.org.br/confederacao-israelita-do-brasil-repudia-congresso-evoliano-racista-e-negacionista-em-sao-paulo/.

[13] Disponível em: https://vk.com/acaosp?w=wall-129855623_23

[14] De acordo com o disponível em https://www.saopauloindependente.org/blog/por-que-devemos-ser-identitarios e em http://agazetarm.com.br/?p=12212.

[15] Basta digitar “ação identitária paulista df dissidência mobilização” no item de busca do Google para conferir.

[16] Para vídeo do evento no qual é possível ver um palestrante utilizando camiseta com o emblema do Avante!, conferir: https://www.youtube.com/watch?v=Pvpb-ecmlFY.

[17] De acordo com http://matriamulheres.blogspot.com/p/nossos-parceiros.html.

[18] A atuação de Porrazzo junto a diversos grupos políticos e religiosos está disponível em: https://www.nknews.org/2013/05/white-power-and-apocalyptic-cults-pro-dprk-americans-revealed/; https://medium.com/@eggfordinner/nazi-satanist-cults-want-your-blood-2a89c1578a65.

[19] Julius Evola, “Revolt Against the Modern World”, Editora Inner Traditions, página 341, tradução livre.

[20] Exemplo disso: https://legio-victrix.blogspot.com/2012/01/fascismo-sem-fronteiras-e-vermelho.html

[21] Exemplo disso: https://legio-victrix.blogspot.com/2015/04/aleksandr-dugin-por-que-o-fascismo-erae.html

[22] Link original da postagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1005765579526946&set=pb.100002805407026.-2207520000.1563296602.&type=3&theater

[23] Link original da postagem: https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fnrnewresistance%2Fposts%2F2211569772232294

[24] Disponível em: http://elcoyote.org/vestindo-a-esquerda-de-camisas-pretas-alexander-dugin-e-a-ascensao-do-fascismo-politicamente-correto-parte-ii/.


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