5 razões do porque a Esquerda deve querer a liberação de armas

Últimamente, o Brasil vem importando para o país a concepção política dos Estados Unidos: a direita defendendo o acesso às armas e a esquerda a sua regulamentação. Eu, justamente por ser de esquerda, me somo ao coro pela liberação. Explico.

A esquerda favorável ao desarmamento é pacifista, normalmente liberal, e portanto favorável ao status quo. Ela não quer o fim do Capitalismo, do Estado ou da sociedade de classes. Ela quer apenas medidas paliativas que amenizem os problemas relacionados.

Autodefesa norte-americana

Não é revolucionária. Por que socialistas radicais, como anarquistas e marxistas, deveriam ser contra o armamento popular? Acreditamos na segurança proporcionada pelo Governo burguês?

É claro que nossas razões diferem bastante daquelas da direita. Os conservadores e reacionários querem armas para matar sem-terras, indígenas, moradores periféricos e minorias. Querem formar organizações paramilitares para assassinarem pessoas de esquerda. E eles já se preparam para isso, ainda que clandestinamente. Talvez a liberação de armas favoreça alguns grupos civis de extrema-direita que possuem mais dificuldades, mas a sua proibição nunca impediu os grupos de extermínio da polícia, as milícias cariocas ou os jagunços do latifúndio. Há também, é óbvio, as microditaduras do narcotráfico em inúmeras comunidades pelo país a fora, muitas sob a influência de políticos e pastores.

Ao povo que quer se defender só há um caminho: as autodefesas populares.

Obviamente, quando defendemos a liberação de armas, não queremos apenas isso e ponto final. Defendemos a organização de clubes de tiro, a preparação técnica e psicológica para o manuseio das armas. A articulação das autodefesas junto aos movimentos sociais, organizações comunitárias e sindicatos é fundamental para não sair do controle.

Vou listar a seguir 5 razões do porque a esquerda deve SIM exigir a permissão de armas.

1 – Conflitos agrários

O Brasil é um dos países com maior concentração de terras do mundo. Os donos do agronegócio conseguiram isso através da fraude, da grilagem e da escravidão, e querem mais. Somos campeões no assassinato de ambientalistas, que denunciam o desmatamento ilegal promovido pelos fazendeiros.

E se o MST tivesse armas?

A todo momento, somos testemunhas de homicídios contra sindicalistas rurais e membros dos movimentos sem terras, e o próprio porta-voz da extrema-direita, Jair Bolsonaro, defendeu o armamento dos ruralistas para isso.

Não esqueçamos que todos os principais candidatos à presidência defendem aliança com o latifúndio: da ambientalista Marina Silva até os desenvolvimentistas Lula e Ciro Gomes, passando pelo tucanato.

Hoje, a Bancada Ruralista articula o fim das demarcações de terras indígenas, e as regiões quilombolas seguem em permanente risco. às vítimas no campo, a construção de organizações armadas é a única chance de proteção.

2 – A Polícia

Nós temos a polícia que mais mata no mundo. As “tropas de elite”, como o Bope e a Rota, foram criadas exatamente para isso. Caco Barcellos demonstra bem o modus operandi da versão paulista em seu livro “Rota 66, A História da Polícia que mata”.

Quando as mortes não ocorrem sob fardas, elas são realizadas pelos grupos de extermínio, que agem com plena conivência dos governadores de todos os partidos. No Rio de Janeiro, ainda se popularizaram as milícias, que já se expandem para outras localidades.

São inúmeros os eventos policiais onde figuras como Bolsonaro são aplaudidas, demonstrando uma forte simpatia da nossa “segurança pública” pelo extremismo de direita. É nas mãos dessas pessoas que queremos confiar o monopólio das armas?

Há aqueles, inocentes, que acham que a solução seria apenas a desmilitarização. Bom, a polícia norte-americana não é militar e vemos do que ela é capaz. E mesmo aqui no Brasil, as Polícias Civil e Federal não são melhores exemplos.

Se não podemos confiar na segurança proporcionada pelo Estado, devemos confiar na feita por nós mesmos.

3 – O tráfico de drogas

Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN)

Dezenas são as facções que impõe o terror sobre as populações periféricas. O PCC em São Paulo e o triunvirato carioca (CV-ADA-TCP) são os mais conhecidos, mas inúmeros satélites destes e outros independentes agem pelo país. Ainda que há quem considere eles menos piores que a polícia, não deixam de ser um problema.

Muitas dessas facções se aliam à partidos políticos e agem como auxiliares do status quo. Algumas até abraçam o fundamentalismo religioso, sendo um pequeno exemplo de um Daesh em nosso território.

O México nos deu exemplo onde a criação de autodefesas populares enfrentaram os temíveis cartéis de drogas e os expulsaram, implantando o poder popular e garantindo a liberdade local.

4 – Paramilitares de extrema-direita

Organizações extremistas estão treinando o manuseio de armas. Se amanhã o Estatuto cair, elas já estarão prontas para se armar, enquanto a esquerda não. Mais: várias já possuem armas através de contatos com policiais e militares.

Ignorem a pirralhada do Movimento Brasil Livre e os pseudo-liberais juvenis. Pensem nos grupelhos de intervenção militar, nos Carecas, nos White Powers e neofascistas em geral, de Terceira ou Quarta Via. Pensem em religiosos fanáticos, como católicos da TFP ou neopentecostais.

São dezenas de gangues apenas na capital São Paulo: Devastação Punk, Impacto Hooligan, Kombat RAC. Não são poucos os casos que ouvimos de agressões e até mesmo assassinatos de LGBT’s, nordestinos ou pessoas de esquerda.

Vamos esperar que as milícias de direita armem-se contra nós, fundem seus CCC’s?

5 – A Revolução

Anarquistas armados na Síria

Não sabemos o que vai ser amanhã. E se houver um novo golpe militar? E se uma eventual polarização levar o país para guerra civil? E se formos invadidos por um governo imperialista estrangeiro? Faremos o que? Ciranda e Sarau?

A única alternativa é a construção de um exército revolucionário popular, e para isso precisamos justamente do acesso às armas, ou ficaremos reféns da covardia dos líderes reformistas, como ocorreu com João Goulart em 64.

Com as autodefesas populares organizadas, poderemos nos opor aos inimigos e dar início à Revolução Social.

 

MAIS ALGUNS PONTOS

Algumas pessoas levantaram algumas críticas sobre o assunto depois do lançamento do texto, por isso vou acrescentar respostas às questões que não foram abordadas anteriormente:

1 – Um dos argumentos é que a população não estaria preparada, que é semelhante à afirmação dos conservadores sobre o assunto da legalização das drogas.
Minha resposta é simples: num contexto onde a Polícia, braço armado do Estado, segue se radicalizando ideologicamente, nós não podemos ficar desarmados esperando mudar a hegemonia cultural da sociedade. Um lado está armado e o outro não está. Esperar não me parece uma boa ideia.

2 – Outro argumento é de que revolução não se faria com armas “legalizadas”. Entre o momento atual e uma eventual revolução, há muito chão para percorrer. Até um momento de ruptura, existem ataques de pistoleiros e esquadrões da morte ocorrendo. Se o MST começar a colocar armas contrabandeadas em um assentamento para se defender de jagunços, cria-se um argumento legal para o Estado invadir e prender ou matar as pessoas presentes. Se as armas são legalizadas, a situação muda. Muitos movimentos negros norte-americanos se utilizam de armas para proteger suas comunidades de ataques racistas. Pode-se falar que o Estado atacaria de qualquer forma, mas precisamos entender que seu funcionamento é complexo, caso contrário não lutaríamos por nenhum tipo de reforma (trabalhista, agrária, urbana, etc) que, em certa instância, são garantidas pelo próprio Estado.

E é claro, se eu escrevesse um texto pautando a aquisição de armas contrabandeadas, eu seria preso por apologia. Defendendo a legalização, podemos falar a importância da esquerda discutir autodefesa sem sermos alvos da lei antiterrorista.

 

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