A ameaça turca em Idlib, na Síria

No dia 12 de outubro tropas turcas atravessaram a fronteira da Síria e entraram na província de Idlib, para alegadamente instaurar uma “zona de distensão” na região, conforme recente acordo firmado entre Turquia, Irã, e Rússia em Astana, capital do Cazaquistão. Mas o que pode estar por trás de verdade dessa incursão militar turca na província de Idlib, noroeste sírio?

ACORDO EM ASTANA

Encontros em Astana reuniram Rússia, Turquia e Irã

Ao longo de 2017, Astana sediou reuniões entre Rússia, Turquia e Irã, que tinham, segundo os próprios países, o objetivo de promover um diálogo e buscar soluções de paz para a guerra na Síria. Foi então que em maio de 2017 os países chegaram a um acordo que previa o estabelecimento de quarto “zonas seguras” na Síria, dividindo entre eles a responsabilidade de colocarem em operação esse plano. Essas zonas seguras, ou também chamadas de “zonas de distensão”, seriam criadas em Idlib, noroeste do país, em Homs, no centro do país, em Ghuta Oriental, na periferia de Damasco e entre as províncias de Deraa e Qouneitra, sul do país.

Na última reunião em Astana, Idlib foi a pauta principal. Para a província, cada país destacará 500 soldados para garantir que os conflitos sejam acentuados, levando em conta que a região é a que reúne mais grupos armados rebeldes do país, desde os “mais moderados” (Exército Livre Sírio), até jihadistas, como a Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), exército salafista surgido da Al-Qaeda, que controla a maior parte da região e é atualmente o maior grupo rebelde da Síria.

Com esse acordo, os preparativos para uma incursão militar turca em Idlib tiveram início, e, neste dia 12 de outubro, a sua operação foi finalmente lançada.

REGIÃO ESTRATÉGICA DE IDLIB E A “ZONA DE DISTENSÃO” NA REGIÃO

Particularmente para Ancara, essa operação deveria ser bastante delicada. Isso porque a região para a qual ela foi destacada para se instalar é exatamente a controlada pelo HTS. Mas seria uma grande ingenuidade acreditar que Erdogan efetivamente busca paz na região, e que não esteve diretamente inclinado na escolha do território escalado à intervenção turca. É sabido, mas não faz mal recordar, que a sua maior obstinação política é a eliminação dos curdos e de suas iniciativas políticas, militares e revolucionárias na região. E seria igual ingenuidade acreditar que a escolha de Idlib para a intervenção turca não tivesse sido embasada por essa política anticurda. No mapa abaixo, vemos onde situa-se a província de Idlib, e por onde, por alguma ironia, o exército turco entrou e se instalou.

Mapa da Síria com detalhe para região de Idlib, onde as forças turcas entraram e se instalaram.

No mapa, a região amarela é o Cantão de Efrin, em Rojava (curdistão sírio), que tem como fronteira de todo o oeste ao norte a própria Turquia, e que conta com militares russos dando suporte aos curdos. A entrada e instalação pela fronteira ao sul com Efrin surgem em sintonia com o que parece se concretizar em um cerco o cantão curdo – que, a propósito, já foi alvo de bombardeios turcos.

Analistas pró-Turquia defendem que o objetivo central dessa operação é de fato a garantia da paz por meio do controle militar da região, e que a estratégia turca se daria por etapas, sendo a primeira e imediata a instalação ao sul de Efrin, e então trabalhar para uma (re)aglutinação de “rebeldes moderados” em torno do Exército Livre Sírio, visando acumular forças em um aparato aliado e, por consquência, isolar e enfraquecer o HTS, que é um inimigo em campo. Mas por outro lado, rumores dão conta de que o que está ocorrendo de verdade é uma aproximação entre Ancara, HTS e outros grupos jihadistas como o Ahrar Al-Sham (já aliado de Erdogan), com o intuito de se estabelecer plenamente na região e consolidar uma estrutura que cerce Efrin e que tenha condições plenas de atacar ou mesmo invadir o cantão pelo sul. Mas essa relação com grupos jihadistas vou comentar melhor mais adiante.

OPERAÇÃO “ESCUDO DE EUFRATES” E A DITA LUTA CONTRA O DAESH

Para que possamos perceber por completo a estratégia de cerco de Erdogan a Efrin, é preciso tirar um pouco mais o zoom no mapa da região. Em 2016, após um atentado atribuído ao ISIS contra um casamento turco que culminou na morte de mais de 50 pessoas, a Turquia lançou a operação “Escudo de Eufrates”, que tinha por objetivo alegado a eliminação do ISIS da fronteira com o país, mas também o impedimento de os curdos tomarem a região e estabelecerem o controle em toda a fronteira turco-síria. Vale destacar que no mesmo período as forças YPG e YPJ (Unidades de Proteção do Povo e Unidades de Proteção Femininas – braços armados curdos), mobilizadas na Operação Ira de Eufrates, deflagravam vitórias e capturavam a passos largos territórios libertados das mãos do ISIS.

Temendo uma captura da cidade de Jarabulus (fronteira com a Síria) por parte dos curdos, e, por consequência, do resto do território de Rojava em poder do ISIS situado entre Kobani e Efrin, a Turquia se prontificou em acelerar o processo de invasão dessa região. Tendo recrutado, treinado em solo turco e dado todo o suporte operacional e militar necessário para rebeldes anti-Assad, em questão de dias a Turquia tomou o controle dessa região do norte sírio ao oeste do rio Eufrates, identificada no mapa abaixo, deixando instalados aí os rebeldes fiéis a Ancara.

Desde então, Rovaja passou a estar dividida em duas regiões por rebeldes pró-turcos, estando do lado ocidental Efrin, e do lado oriental os cantões de Jazira e Kobanî,que corriqueiramente entram em conflito com os curdos em suas fronteiras.

Mapa da Guerra da Síria com destaque para Idlib, Efrin e a região invadida pela Turquia em Rojava

Levando em conta que Efrin faz limite ao oeste e norte com a Turquia, ao leste com rebeldes pró-Ancara, e agora ao sul com a “zona de distensão” turca, fica-nos ainda mais claro que essa ocupação de Idlib era o passo final para um possível e provável estrangulamento do cantão curdo por parte de Erdogan.

“FORA ASSAD!”, CLARO, MAS, MAIS IMPORTANTE, “MORTE AOS CURDOS!”

É curioso pensar que nessa mesa de negociação de Astana sentam-se dois países fiéis aliados de Assad (Rússia e Irã) e, de outro lado, a Turquia, assumidamente pró-derrubada do presidente alauíta, cuja família governa o país há quase 50 anos pelo partido Baath. Mas quando trata-se da guerra da Síria, em que as peças postas na mesa não são poucas e tampouco simples, essa divergência sobre o futuro de Assad não pôs-se como determinante no firmar de acordos militares entre esses países. Para a Turquia, embora tenha tal predileção pela deposição de Assad, esse posicionamento está abaixo, em escala de prioridade, de sua política anticurda.

E tem mais um ponto que agora fortalece um laço entre Turquia, Irã, Iraque e até Síria: a união desses países para barrar a efetivação da independência curda iraquiana, cujo resultado foi referendado em mais de 90% de votos pró-independência numa votação organizada por Massoud Barzani, presidente do Curdistão Iraquiano e do Partido Democrático do Curdistão (PDK), em setembro agora.

Referendo no Curdistão Iraquiano obteve vitória esmagadora do sim à independência, e irritou demasiadamente os governos do Iraque, da Turquia e do Irã

TURQUIA, EUA, UE, OTAN E RÚSSIA

Nesse ínterim do médio-oriente, a respeito das relações internacionais da Turquia, cumpre-se destacar que, mesmo com o fato de o país ser membro da OTAN, e mesmo com o fato mais delicado de a Turquia ter derrubado um avião russo no disputado espaço aéreo sírio-turco em novembro de 2015, Erdogan cada vez mais se inclina a Moscou, enquanto, por outro lado, vê suas relações com Washington paulatinamente se esfriarem. Fatos como essa mesa de Astana, as reuniões e acordos firmados com Putin, a compra de sistemas de defesa antiaérea russos S-400, as reiteradas declarações contrárias ao apoio estadunidense aos curdos e o recente conflito diplomático com os EUA relativo aos embaixadores dos dois países demonstram essa guinada ao “lado Putin da força”.

Soma-se a isso tudo uma gradativa crise com o ocidente em geral, haja visto os recentes conflitos diplomáticos com países como Alemanha e Holanda, que em 2016, em ocasião do referendo para aumentar o poder de Erdogan, protagonizaram episódios de acusações e sansões mútuas com a Turquia. Declarações delicadas envolvendo o genocídio armênio, por parte de Merkel, e envolvendo o holocausto nazista, por parte de Erdogan, deram o tom pesado das declarações. O resultado desse referendo turco, a propósito, também foi um passo atrás no outrora muito desejado ingresso da Turquia na União Europeia, pois provocou manifestações oficiais da comunidade do velho continente contra a maior centralização do poder em torno do presidente Erdogan, a escalada de autoritarismo, perseguição política e violação de direitos humanos contra grupos opositores (entre eles, os curdos e pró-curdos). Com todo esse cenário e com e um Vladmir Putin de braços abertos estampando um arguto sorriso no rosto, Ancara cada vez mais se vira para o lado do mundo em que nasce o sol, dando as costas para o ocidente.

Relações com o ocidente se esfriam, enquanto aquecem as relações com a Rússia

A RELAÇÃO ISIS-TURQUIA E APROXIMAÇÃO COM O TAHRIR AL-SHAM

Não é novidade que grupos armados, com suas distintas matizes ideológicas, políticas ou religiosas, recebem eventual ou permanente apoio de Estados nacionais com interesses específicos no que esses grupos possam provocar em seus territórios de atuação. Foi assim com os EUA durante a guerra do Afeganistão, por exemplo, quando financiaram grupos jihadistas para lutarem contra a invasão soviética e que, anos depois, tornaram-se Al-Qaeda; e continua assim até hoje, como o exemplo da Arábia Saudita, que dá suporte e apoio na Síria para o Hayat Tahrir al-Sham, e como também foi o caso de dar apoio, de forma velada, ao próprio Estado Islâmico.

Não é de se espantar, portanto, que no início da guerra, a Turquia tenha sido denunciada várias vezes por dar apoio e suporte ao Estado Islâmico, comprando petróleo produzido nas regiões sob o seu controle e dando retaguarda e livre trânsito em suas fronteiras. A suposição mais certa é que tal apoio teria se dado por conta de o ISIS lutar simultaneamente contra os curdos e contra Assad. Foi somente após a opinião internacional ter se virado com mais veemência contra o grupo jihadista, principalmente diante dos recorrentes atentados terroritas contra países ocidentais, como também do contra-ataque fulminante dos curdos com o apoio dos EUA e de Assad com o apoio da Rússia, dando início à initerrupta derrota do ISIS até hoje, que a Turquia parece ter recuado.

Imagem mostra proximidade pacífica entre o ISIS e o exército turco

Dessa forma, voltando os olhos para Idlib, as especulações de que a Turquia esteja articulando uma aliança (ou ao menos um pacto de não agressão) com Tahrir Al-Sham e Ahrar Al-Sham estão completamente dentro de cogitação. Embora tenham reagido com ataques, num primeiro momento, à entrada das tropas turcas na região, não demorou um dia para que a HTS se resguardasse e não atacasse mais as posições turcas. Hoje o que percebemos é que a Turquia se instalou ao sul de Efrin e não está sofrendo mais nenhuma retaliação ou agressão pelos jihadistas. No cerne da política turca o critério de aliança não é moral, ético: o que for necessário para atingir o objetivo anticurdo e que esteja ao alcance, sendo avaliados os efeitos suas proporções, será feito sem juízo de valor ou peso na consciência.

Tharir Al-Sham é uma frente armada jihadista, sendo a continuidade da antiga Frente Al-Nusra

APONTAMENTOS PARA UM FUTURO (NÃO TÃO) INCERTO

Quem escreve esse texto não é um estudante, um acadêmico ou professor de RI, de alguma ciência política ou mesmo especialista em guerras e Oriente Médio. Quem escreve é um militante anarquista muito interessado na questão curda em particular e no Oriente Médio em geral, que busca acompanhar, na medida do possível, as notícias, textos, análises e debates que cercam esses temas, e que se arrisca também a tecer suas próprias opiniões.

Postas essas considerações, me inclino a achar que se avizinha um ataque turco sistemático ao cantão de Efrin (ou mesmo uma invasão), consequentemente uma debandada russa do local e um EUA que não reagirá. Nesse bojo, estão sendo estreitados os laços dos países “com curdistão” (Turquia, Síria, Iraque e Irã) em torno da pauta anticurda, por conta do referendo de Ebril. Raqqa já está virtualmente tomada, Deir EzZor em breve ficará sob controle de Assad e os curdos continuarão tomando territórios ao leste do rio Eufrates, até que o ISIS seja literalmente varrido do mapa. Essa região é particularmente delicada, pois nela existem poços de petróleos, o que parece ser um dos últimos objetivos estadunidenses com os curdos. Tem ainda que, uma vez eliminado o ISIS, não existe cenário, ao meu ver, que inclua a permanência militar dos EUA na Síria, mesmo que em territórios controlados pelos curdos.

Esse pós-ISIS é também uma incógnita: como Assad reagirá com o controle dos curdos de quase 40% de seu território? Negociação, incursão militar, garantia de certo grau de autonomia aos curdos? Mas isso mesmo após o precedente de independência lançado pelo Curdistão Iraquiano? E mesmo sabendo que, os curdos são sim, pelo menos por enquanto, um porta aberta à interferência e influência estadunidense? E outra indagação não menos importante: em que momento essa questão seria colocada na mesa, uma vez que o fim do ISIS está muito mais próximo que o fim dos grupos rebeldes e jihadistas em Idlib? Cabe levar em consideração também que, mesmo que potenciais aliados na luta contra a independência dos curdos, a presença da Turquia na Síria não é interessante a Assad; primeiro porque Erdogan ainda permanece como inimido de Assad, e segundo, porque Erdogan já sinalizou várias vezes que cidades sírias e iraquianas são historicamente cidades turcas, mas que “respeita as fronteiras atuais”, o que demonstra seu interesse especial em toda essa região que foi abruptamente recortada pós queda do Império Otomano.

Diante de todo esse xadrez sírio, o que bate à porta nesse momento é a presença turca em Idlib, chamada de “zona de distensão” mas que na realidade é uma verdadeira “zona de tensão” para os curdos. Resta-nos acompanhar com bastante apreensão o desfecho dessa operação, a reação curda (será que eles parariam as operações em Raqqa e Deir EzZor para defender Efrin? E o que Assad faria nesse caso?), bem como o desfecho das relações entre os estados da Turquia, Síria, Iraque, Irã e Rússia com a questão curda daqui para frente.

Revolucionárias com bandeiras do YPJ e YJS no centro de Raqqa
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P.A Gatti

Interessado no Oriente Médio e na questão curda em especial, posto eventualmente no Coyote sobre esses e outros assuntos políticos.