A Ascensão da Extrema Direita no Contexto Eleitoral do Brasil

O atual cenário político brasileiro apresenta não apenas uma polarização dos discursos midiáticos sobre as massas e que são por elas reproduzidos, o que até então costuma ser comum em um período eleitoral, mas mostra também o agravamento de um cenário que já podia ser visto após as jornadas de Junho de 2013. Estas tiveram início por conta de demandas específicas de movimentos sociais como a redução das tarifas do transporte público de algumas das principais capitais e foram ganhando grande adesão popular unificando atos com novas pautas como reajustes salariais de professores da rede pública, e principalmente, as medidas aplicadas pelo Estado para sediar a Copa do Mundo em 2014. Tais medidas incluíram diversas isenções fiscais à grandes empresários e à própria FIFA e esquemas de favorecimento de licitações das obras de infraestrutura para a Copa às empreiteiras relacionadas ao financiamento de campanha de diversos partidos políticos.

Após esse primeiro momento, há uma massiva adesão popular às ruas, motivado por uma indignação multifacetada com diversas pautas, desde os movimentos sociais iniciais até uma classe média instigada pela mídia neoliberal em discurso de oposição ao governo federal, já ensaiando um discurso de aversão aos programas de redistribuição de renda direcionado aos mais pobres.
Desde esse período há uma forte parcialidade na difusão de informações no campo das instituições, como os setores da mídia e da esfera jurídica do Estado. Através da mídia corporativa filtrando denúncias sobre os partidos neoliberais e denunciando políticos de centro-esquerda, enviesando o debate, moldando a opinião pública e tornando possível a cooptação e distorção das pautas das manifestações por setores da direita e pelo discurso do antipetismo, defendendo assim os interesses econômicos dos setores das burguesias nacional e internacional.

Essa narrativa construída pela grande mídia consistiu em inundar as diversas mídias televisivas, impressas e digitais de publicações denunciando a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT) em diversos esquemas de corrupção, mas evitando disseminar notícias dos processos investigativos de outros partidos envolvidos em denúncias de corrupção, como o PMDB, o PSDB e suas legendas auxiliares. Boa parte das denúncias e análises feitas de forma sensacionalista e algumas delas sem fundamento material, bem como as investigações e condenações arbitrárias do judiciário, que culminaram no golpe jurídico- parlamentar que derrubou Dilma Rousseff do governo.

Esse fenômeno social do antipetismo consiste em projetar sobre os anos de gestão do PT, e no programa de governo social-democrata adotado por esse, toda a indignação popular brasileira e a perda da credibilidade às instituições do Estado. Isso é gerado pela circulação de críticas falaciosas aos projetos implementados pelo partido, como medidas assistencialistas direcionadas ao estrato mais pobre da população, aumento do acesso ao ensino público superior e técnico, dentre outros avanços nas áreas sociais, discurso esse que rapidamente se capilarizou pela classe média brasileira, disposta a defender seus privilégios de classe e reproduzir a narrativa que projeta nos pobres e nos programas de redistribuição de renda, implementados pelo governo em combate à enorme desigualdade socioeconômica, os problemas econômicos e políticos do país.

O discurso antipetista tem como principal agente reprodutor o cidadão brasileiro com forte aversão à política e suas instituições conexas, entendidas como não confiáveis e desonestas. Eles estão indignados com métodos políticos tradicionais e querem uma mudança radical, e por esse fator, não se limitou apenas à classe média mas também se enraizou em outros estratos sociais desacreditados no sistema político representativo.

Tal discurso é cooptado por uma nova direita que se sustenta em uma linha argumentativa antissistema de combate à corrupção nas instituições do Estado, e é assimilado pela população, que então se identifica e passa a reproduzi-lo. Outro fator importante pela rápida adesão popular é que essa nova direita possui fundamentos morais conservadores, se sustenta na defesa da família tradicional, cristã e patriarcal. Essa ideologia se projeta na figura do atual candidato à presidência, deputado por quase de 30 anos, o Capitão da reserva do Exército Jair Bolsonaro, que adota como lema “Deus, Pátria e Família”. Apesar disso, ele tem afinidade com os interesses econômicos e militares norte-americanos de intervenção na América do Sul.

Bolsonaro faz uso da postura conservadora e fundamentalista cristã em seus discursos de ódio contra minorias, esses reproduzidos por boa parte de seu eleitorado, que endossam ideias xenofóbicas e racistas direcionadas à população do Nordeste do país, onde há muita desigualdade de renda e grande aprovação dos programas de assistência, aos imigrantes, sendo esses compostos principalmente por Venezuelanos e Haitianos, e à população periférica, reafirmando que a Polícia Militar deve ter aval para matar em operações nas comunidades, quando essa já é a polícia que mais mata no mundo. Além de outras afirmações do candidato explicitamente sexistas, misóginas e homofóbicas ditas sob o pretexto da moral cristã e com forte apoio de lideranças das igrejas neopentecostais.

Essas lideranças de igrejas neopentecostais possuem uma forte bancada no congresso, entre outras áreas de influência que incluem a terceira maior emissora televisiva do país, sendo uma relevante formadora de opinião de massas e utilizando isso na campanha eleitoral do mesmo. Além de outros grupos que o apoiam, incluindo banqueiros, setores da burguesia nacional como o agronegócio, uma grande parcela da direita jurídica de tradição antidemocrática, marcada por uma herança histórica colonial e escravocrata, bem como uma parcela significativa do oficialato militar brasileiro. Entre o apoio externo, estão corporações do capital estrangeiro que possuem interesses neoliberais alinhados ao projeto econômico do já anunciado futuro Ministro da Fazenda Paulo Guedes, ph.D em economia pela Universidade de Chicago – a mesma de Milton Friedman e dos Chicago Boys, um grupo de aproximadamente 25 jovens economistas chilenos que formularam a política econômica liberal da ditadura do general Augusto Pinochet, no Chile – contando também com o apoio de Steve Bannon, chefe da campanha de Donald Trump pra presidente dos EUA em 2016 e um dos ideólogos do atual movimento conservador norte americano.

Esse fenômeno da ascensão de uma extrema direita populista não é isolado, mas um fenômeno global, assim como a campanha de Bolsonaro vem sido construída com monitoramento de dados das redes sociais, uso de bots e a criação e difusão de notícias falsas na rede, foi a campanha vitoriosa de Trump, arquitetada por Bannon utilizando sua empresa Cambridge Analytica, que coleta dados pessoais de usuários do facebook, para a manipulação da opinião pública no período eleitoral. A empresa coletou dados de mais de 50 milhões de usuários e utilizou para categorizar perfis comportamentais e psicológicos dos mesmos, e entender como manipulá-los, e engajá-los emocionalmente, e não pela racionalidade, para atingir o objetivo esperado no resultado eleitoral.

Após a eleição de Trump já atua em processos eleitorais democráticos de países Europeus, na França com a campanha de Marine Le Pen, Matteo Salvini na Itália, Viktor Orbán na Hungria, Andrzej Duda na Polônia, entre outras campanhas na Suécia e Alemanha, e também no México, na Malásia, em países africanos e, agora, no Brasil. Somado a isso temos o interesse norte-americano em estabelecer relações de exploração econômica e intervenção política neoliberal nos países da América Latina, como já estão em curso no nos governos Sebastian Piñera no Chile, Maurício Macri na Argentina e Ivan Duque na Colômbia sob influência da Atlas Network dos irmãos Koch (que tem relação também aqui com parte dessa nova direita, o MBL) em seus respectivos processos eleitorais para garantir a implementação de programas neoliberais de acordo com os interesses econômicos do capital estrangeiro, tendo por consequência a aplicação de planos de austeridade, altos juros e elevada inflação para a população desses países.

A partir desses ideais conservadores defendidos por Bolsonaro, assim como por outros elementos dessa nova extrema direita populista que já foram capilarizados e são reproduzidos pela massa, por motivos como a indignação com as instituições do Estado, pelos diversos escândalos de corrupção atrelados à manipulação ideológica sob os pilares do conservadorismo amplamente popular como a moral cristã, a família tradicional e o nacionalismo, vem o discurso falacioso contra a esquerda, as minorias, pautas identitárias, questões de saúde pública como a descriminalização do aborto e das drogas, debates que são necessários numa democracia moderna, mas acabam reduzidos a críticas moralistas de lideranças políticas e religiosas, formadores de opinião pública, matérias sensacionalistas das mídias alinhadas a esses interesses, e correntes de notícias falsas com o objetivo de atingir o emocional sob o pretexto de preservação da família tradicional, sua moral e bons costumes.

“Como não seria possível ao fascismo conquistar as massas através de argumentos racionais, sua propaganda tem de necessariamente se desviar do pensamento discursivo: ela precisa ser orientada psicologicamente e mobilizar os processos regressivos irracionais e inconscientes. (…) A propaganda só tem de reproduzir a mentalidade existente para seus próprios propósitos; não precisa induzir à mudança. A repetição compulsiva que a caracteriza forma uma só coisa com a necessidade fixa dessa reprodução. Ela repousa inteiramente na estrutura de conjunto tanto quanto em cada traço particular do caráter autoritário engendrado pela internalização dos aspectos irracionais da sociedade moderna. ”.(ADORNO, Theodor W. A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda. Psychoanalysis and the Social Sciences 3 (408-433) 1951.)

Assim como analisa Adorno sobre as formas de difusão de conceitos fascistas reproduzidos pela massa e os fatores psicológicos dessa reprodução, atualmente temos no Brasil discursos completamente irracionalistas e sem qualquer embasamento que não correntes falsas de informações disseminadas por redes sociais. Uma dessas correntes de pensamento afirma a importância combate ao chamado, falaciosamente, “marxismo cultural” acaba sendo um pretexto para discursos anti-intelectuais, atacando às universidades públicas, descredibilizando cientistas das áreas sociais, professores doutores, especialistas em suas áreas, esse é apenas um dos sinais do surgimento de uma ideologia protofascista reproduzida pelas massas.

Outro ponto comum na campanha de notícias falsas, é o uso do termo “Cidadão de Bem”, – mesmo termo que dava nome ao jornal da Ku Klux Klan fundado em 1913 nos Estados Unidos e se firmava sobre os mesmos conceitos tradicionais como a família, a moral cristã e o discurso patriota para destilar racismo, aversão a imigrantes, submissão feminina entre outros discursos de ódio – sendo o cidadão de bem no contexto atual brasileiro o que valoriza e preserva a moral e a família tradicional, e todo esse pretexto criado pela extrema direita para mobilizar às massas e incitar uma inexistente ameaça comunista, segundo eles como projeto de um partido social-democrata que esteve por 13 anos na presidência, o que não faz sentido algum quando analisado racionalmente, ou à luz de algum material teórico que dê embasamento histórico, político ou sociológico sobre o comunismo e as democracias liberais. Vale lembrar que o mesmo discurso de ameaça comunista foi difundido durante o golpe militar em 1964, após a eleição democrática de Jango e seu plano de governo progressista que contrariava os interesses da direita conservadora e da burguesia liberal.

Nesse novo contexto no qual os eleitores são nutridos por um sistema capilar e horizontal de comunicação, sem qualquer responsabilidade com a verdade, as mensagens da campanha de Bolsonaro são lidas da forma como é conveniente para cada trajetória pessoal e familiar, cooptando e organizando as diferentes frustrações, identificando causas e soluções imediatas. Tudo isso em meio a uma sociedade que, desde 2013 e, principalmente, após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, vê-se desprovida de autoridade, regras e coesão. É aí que a extrema-direita tem encontrado solo fértil

Seja esse discurso conservador nos costumes ou o discurso liberal na economia que difunde o espantalho do antipetismo, o eleitorado de Bolsonaro se concentra nas cidades mais ricas e mais brancas do país, atingindo até 75% dos votos em municípios com renda média ou alta mas ficando abaixo dos 25% em municípios pobres, como visto na matéria do El País: “Bolsonaro foi o mais votado em 95% dos municípios mais ricos (aqueles com renda acima de 350 reais por mês), enquanto Haddad prevaleceu em 9 de cada 10 municípios mais pobres (aqueles com renda inferior a 200 reais). As divisões raciais também se refletiram nas votações do primeiro turno: Bolsonaro venceu em 9 dos 10 municípios com maioria branca; Haddad venceu em 7 dos 10 municípios com uma maioria não branca.“

No atual processo eleitoral, que se mostra o mais fraudulento ao menos desde o período de redemocratização, envolvendo toda a casta togada, perseguições políticas e ações arbitrárias do TRE em inúmeras universidades federais, agindo em algumas delas sem mandados, de forma truculenta e totalmente enviesada ao censurar faixas em apoio à democracia e ao antifascismo, sob alegação de serem essas propagandas eleitorais, ou seja, declaração a algum dos candidatos, o que é absurdo, ameaçando diretores e professores e inclusive censurando postagens em redes sociais e abrindo processos contra esses e as instituições; entre outras ações e processos, mostra que as instituições democráticas do Estado estão agindo de acordo com seus interesses políticos e que a única ação que se pode fazer para barrar essa ascensão do pensamento conservador conduzido pela extrema direita populista é a organização popular para além das urnas, trabalhadores, estudantes, comunidades e movimentos sociais organizados são a única resposta, nas ruas, frente a ameaça que as ideias de Bolsonaro representam e contra o modelo de democracia liberal que se mostra mais do que nunca ineficiente.

Bibliografia e outros textos importantes:

ADORNO, Theodor W. A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda. Psychoanalysis and the Social Sciences 3 (408-433) 1951.

O Comando que está caçando ‘esquerditas’ nas universidades e já perseguiu 181 professores: https://theintercept.com/2018/10/26/universidades-censura/

O dia em que a justiça impediu universidades de lutas contra o fascismo no Brasil: https://theintercept.com/2018/10/26/justica-eleitoral-universidades-fascismo/

STF suspende ações da Justiça Eleitoral em universidades; entenda a polêmica: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46005982

Steve Bannon declara apoio a Bolsonaro, mas nega vínculo com campanha: ‘Ele é brilhante’: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45989131

Um mapa de como votaram os brasileiros nos mais de 5.500 municípios: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/24/actualidad/1540379382_123933.html

O que é extrema direita. E por que ela se aplica a Bolsonaro:
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/10/17/O-que-%C3%A9-extrema-direita.-E-por-que-ela-se-aplica-a-Bolsonaro

Os três tipos de eleitores de Bolsonaro:
https://theintercept.com/2018/10/16/tipos-eleitores-bolsonaro/

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