A batalha latino-americana em torno da “ideologia de gênero”

Conservadores Sociais estão combatendo o Feminismo e os Direitos LGBTs

Texto original da Economist

Este ano, o Peru introduziu novo currículo para as escolas primárias como parte de um esforço para melhorar a educação. Um dos princípios é que os meninos e meninas têm o mesmo direito à educação. Observa que “enquanto o que consideramos ‘feminino’ ou ‘masculino’ é baseado em diferenças biologico-sexuais, os papéis são os que construímos dia a dia, nas nossas interações”. E “alguns desses papéis [socialmente] atribuídos” levam as meninas a saírem da escola para assumir tarefas domésticas.

Para muitas pessoas, esta é uma declaração óbvia. No entanto, proporcionou combustível para uma campanha crescente que sustenta que há uma conspiração na América Latina, conhecida como “ideologia do gênero”, cujo objetivo é feminilizar meninos, transformar as meninas em lésbicas e destruir a família. Isso pode soar como uma notícia para muitos em uma região notória por machismo. No entanto, os seus adeptos estão obtendo vitórias.

Em março, um grupo chamado Con Mis Hijos No Te Metas (“não mexa com meus filhos”) realizou uma grande marcha em Lima contra o novo currículo e contra Marilú Martens, a Ministra da Educação em exercício. No mês passado, eles conseguiram o seu objetivo. Martens foi censurada pela maioria conservadora da oposição no congresso, ostensivamente sobre sua posição quanto a greve de professores. Seu substituto, Idel Vexler, favorece a retirada de referências a gênero.

Na Colômbia, no ano passado, Gina Parody, que é abertamente lésbica, também perdeu seu emprego como Ministra da Educação depois que seu ministério produziu um manual para ajudar as escolas a cumprir uma decisão do tribunal constitucional que impediu a discriminação por orientação sexual. Uma das razões pelas quais um acordo de paz entre o governo e as FARC, um grupo de guerrilha de esquerda, foi rejeitado de forma em um referendo em outubro passado foi porque os mesmos grupos se opuseram ao uso do termo “equidade de gênero”.

No México, oponentes da proposta do presidente Enrique Peña Nieto de legalizar o casamento gay organizaram manifestações nacionais no ano passado. Um ônibus da campanha vem percorrendo o país sob o slogan de Con Mis Hijos No Se Metan (“ninguém toca nos meus filhos”). Protestos similares ocorreram na Europa, por exemplo, na França e na Polônia.
Eduardo Bolsonaro, Kim Kataguiri e Marco Feliciano: conservadores brasileiros

Atrás desses eventos, há uma longa campanha dos conservadores na Igreja Católica contra o feminismo, desencadeada por uma Convenção da ONU contra a Discriminação de 1979. Esta campanha ampliou e ganhou energia da oposição ao casamento gay e outros direitos dos homossexuais, uma causa que atrai protestantes evangélicos e católicos. “Essas pessoas tentam estabelecer um pânico moral e a ideia de que a família está se dissolvendo, o que não tem base”, diz Maxine Molyneux, socióloga da América Latina no University College de Londres.

O gênero não é uma “ideologia”, mas é um pára-raios. As feministas argumentam que a representação das mulheres da igreja – como moralmente superior mas fisicamente subordinada ao homem dominante – contribuiu para injustiça e violência. No entanto, nas últimas décadas, as sociedades latino-americanas se tornaram um pouco mais seculares, as mulheres se tornaram menos subordinadas e a homossexualidade é mais tolerada.

Seja qual for o ensino da Igreja, a contracepção é amplamente utilizada e, talvez, mais surpreendentemente, é a pílula “do dia seguinte”. As mulheres têm muito menos crianças do que no passado. Houve uma tímida liberalização das leis rigorosas do aborto em alguns países. Em agosto, o tribunal constitucional do Chile confirmou uma lei que permite abortar em caso de estupro ou deformação fetal, ou se a vida da mãe está em perigo. O casamento gay é legal na Argentina, no Brasil, no Uruguai e em algumas partes do México. Em média, em 2012, as mulheres latino-americanas foram pagas 84% menos que os homens com qualificações similares, mas esse é um aumento de 12 pontos percentuais desde 1994.

Estes avanços são incompletos e contestados. Estudos descobriram que cerca de um terço das mulheres latino-americanas sofrem violência doméstica ou sexual. Os assassinatos de gays no Brasil estão aumentando. Embora muitos países incluam educação sexual no currículo escolar, na prática muitas vezes não é fornecido. Nas zonas rurais mais pobres, a contracepção pode ser difícil de encontrar.

A Sra. Molyneux observa que uma nova geração de feministas tomou as ruas em países como a Argentina para denunciar a violência contra as mulheres e exigir o aborto legal. Mas são os conservadores que parecem ter a iniciativa. Em uma região ainda lutando contra desigualdades profundas, isso é preocupante. Como escreveu Maria Martens em El Comercio, um jornal, violência e discriminação contra as mulheres se originam “em preconceitos subconscientes”. O caminho para erradicar esses preconceitos, prosseguiu, é através da educação. É por isso que essa batalha importa tanto.

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