A extrema-direita ucraniana – e o perigo que ela representa.

Por Lev Golinkin

Texto originalmente publicado em 5 de Dezembro de 2016

Deveria ser uma prioridade para o recém-eleito Donald Trump reavaliar o papel dos EUA na crise da Ucrânia. No último ano, Washington se focou apenas na falha de Kiev em quebrar a corrupção endêmica da Ucrânia, ignorando outro obstáculo fundamental à Ucrânia: as forças de extrema-direita ucranianas.

Na Ucrânia hoje, o poder se divide entre Kiev e batalhões armados ultra nacionalistas de direita, que têm um longo histórico de não só bater de frente com Kiev mas também de desafiar a vontade da União Européia e de Washington.

A influência ultranacionalista através de uma política de veto via violência é melhor exemplificada através do contínuo descumprimento dos Acordos de Minsk, o acordo para pacificar o conflito na região de Donbass, no leste ucraniano. Os acordos também são elementos chave para o fim das sanções anti-russas que estão danificando as economias européias e fomentando o ressentimento em países como França e Itália. Não é surpresa que Paris, Berlim e a ONU reiteradamente afirmaram que eles são a única solução para o conflito da Ucrânia. Para a extrema-direita ucraniana, todavia, os acordos – que exigem que Kiev conceda status especial para o Donbass, incluindo o direito de usar a língua russa – são um verdadeiro anátema. E assim, toda vez que o Ocidente pressiona a Ucrânia a cumprir as obrigações contraídas em Minsk, a extrema-direita aparece, sempre com violência.

Em Julho de 2015, o Departamento de Estado dos EUA se desgastou enormemente pressionando Kiev a implementar o estatuto legal especial requerido pelos acordos de Minsk: a Secretária de Estado auxiliar Victoria Nuland viajou a Kiev e, junto com o então embaixador Geoffrey Pyatt, assistiu enquanto o Congresso ucraniano discutia o projeto. Um mês depois, durante a primeira leitura do texto legal, ultranacionalistas mataram quatro policiais e feriram outros 100 em um ataque a granada fora do prédio do Congresso; a lei de estatuto especial permaneceu em um limbo legislativo desde então.

Quase um ano depois, líderes da França e da Alemanha, cujas economias sofreram em razão das sanções ligadas aos pactos de Minsk, tentaram dar um novo alento ao processo de paz ao recomendar a Kiev que conduzisse eleições no Donbass (outro elemento previsto no mapa da mina). Dessa vez, a extrema-direita não esperou nenhuma votação. Andryi Biletsky, o comandante do Batalhão Azov, com cerca de 3 mil em efetivo, proclamou publicamente que suas forças removeriam o Congresso todo se ele permitisse que tais eleições ocorressem, enquanto 10 mil homens marchavam pela capital para sublinhar a ameaça. Desnecessário dizer, tal questão das eleições não foi trazida à votação.

Além de perturbar o processo de paz ucraniano e o fim das sanções entre a UE e a Rússia, a extrema-direita atrapalhou o Estado de Direito, estimulou a instabilidade e minou instituições democráticas básicas na Ucrânia. Gangues ligadas aos batalhões Aidar, Azov, Aidar e o Setor Direito tiveram trocas de tiros com a polícia, intimidaram procedimentos judiciais, anularam eleições locais, queimaram prédios da imprensa, atacaram monumentos soviéticos indesejado, ameaçaram violentamente jornalistas e falaram abertamente em derrubar o governo.

É difícil imaginar qualquer administração estável tolerar três anos de tão grandes desafios ao seu monopólio do uso da força, e ainda assim quase todas as ações da extrema-direita não foram punidas.

Um dos motivos da inabilidade e falta de vontade de Kiev em dispersar os batalhões é porque eles permanecem sendo algumas das unidades mais ferozes e experientes na guerra nas forças armadas; é difícil mandar a Força Nacional restaurar a ordem quando ela própria é composta de grupos ultranacionalistas. Outra razão perturbadora é que ela possui o apoio de dois políticos extraordinariamente poderosos: o Presidente da Câmara dos Deputados, Andriy Parubiy, e o Ministro do Interior Arsen Avakov.

Os dois tiveram papel central em utilizar a força de rua neonazista durante o levante de 2013-2014 no Maidan que resultou na derrubada do corrupto, ainda que democraticamente eleito, Presidente Viktor Yanukovich. As ligações de Parubiy com a extrema-direita datam de décadas: ele fundou e liderou o Partido Social-Nacional da Ucrânia, o qual usava símbolos neonazistas e cujo nome, de acordo com o Der Spiegel, é uma referência intencional ao Partido Nazista.

Ainda que Parubiy não seja filiado formalmente a organizações de extrema-direita desde o início dos anos 2000, ele já falou com prazer de seu passado; quando pressionado a repudiar seu passado em uma entrevista de 2015, ele insistiu que seus “valores” não tinham mudado. A sua história o serviu bem: ele foi o responsável por organizar os ultranacionalistas no Maidan em “unidades de auto-defesa” que tornaram possível a deposição de Yanukovich, e asseguraram a  Parubiy um papel proeminente no novo governo (a informação de que o homem passou uma década liderando organizações neofascistas estava gritantemente ausente das conferências de imprensa durante suas visitas em 2015 e em 2016 com membros do Congresso dos EUA e think-tanks de Washington).

Avakov, por sua vez, transformou as unidades maidanitas de “auto-defesa” em unidades paramilitares fortemente armadas que lutaram no Donbass e ajudaram na repressão brutal de qualquer sinal de secessão em cidades falantes de russo que ainda não tinham caído na mão dos rebeldes. No processo, essas unidades deixaram um rastro horroroso de estupros, torturas, sequestros e assassinatos, além de possíveis crimes de guerra, como atestado por numerosos relatórios da Anistia Internacional e das Nações Unidas.

Depois de se tornar Ministro do Interior, Avakov promoveu figuras como um veterano do grupo neonazista Patriotas da Ucrânia e do Batalhão Azov, que recentemente se tornou o chefe interino da Polícia Nacional da Ucrânia. A Polícia Nacional – que foi financiada, equipada e treinada por Washington – já foi usada como o exemplo luminoso de como Washington  estava guiando a Ucrânia à democracia. O fato de que ela é agora liderada por um homem com ligações ao neonazismo é um exemplo particularmente irônico de consequências não planejadas.

Não é uma surpresa que, com líderes influentes ligados à extrema direita, inquéritos sejam arquivos por Kiev. Requisições do Conselho Europeu para investigar o Massacre de 2 de Maio de 2014, no qual 48 ucranianos pró-russos foram queimados vivos depois de terem sido caçados e encurralados em um prédio de um sindicato em Odessa por grupos radicais não deram em nada. Quando um site ultranacionalista vazou informações pessoais sobre jornalistas que atuavam na zona de conflito do Donbass, os classificando de “colaboradores de terroristas”, houve reclamações internacional do “The New York Times” e do “The Daily Beast” à Organização para Segurança e Cooperação na Europa. O site, todavia, é ligado a Avakov e a despeito do barulho e das vociferações da mídia ocidental, ele não foi fechado.

A tolerância de Kiev à extrema-direita está gerando até pressões da Polônia, um dos maiores apoiadores da Ucrânia e certamente um país longe de ser amigo do Kremlin. Nesse verão, a Ucrânia renomeou uma grande praça em homenagem a Stepan Bandera, o líder de grupos guerrilheiros responsáveis pelo massacre de milhares de judeus e cerca de 100 mil poloneses durante a Segunda Guerra Mundial. Em resposta, o Congresso Polonês aprovou uma lei classificando tais massacres como um genocídio cometido por nacionalistas ucranianos. A insistência de Kiev em glorificar as organizações de Bandera erodiu as relações entre Ucrânia e Polônia a ponto de uma bandeira ucraniana ter sido recentemente queimada publicamente em Varsóvia.

Washington age corretamente ao pressionar Kiev para lutar contra a corrupção e estabelecer o domínio da lei – como o New York Times disse duramente, os EUA “não podem continuar a enterrar dinheiro em um pântano de corrupção a menos que o governo comece a colocar em prática o domínio democrático que os ucranianos pediram em seus protestos”. A presença de formações armadas de supremacistas brancos com rédea livre para influenciar questões domésticas e externas é uma ameaça à democracia que é no mínimo tão grave quanto a corrupção. É especialmente necessário resolver isso em 2017, já que o ultranacionalismo, o racismo e o antissemitismo estão despontando por todas as nações da Europa, muitas das quais não possuem salvaguardas democráticas presentes nos EUA. Washington deveria parar de fingir ignorar a extrema-direita ucraniana, ou se arrisca a estar enviando uma mensagem insalubre de tolerância a supremacistas brancos, tanto nos EUA quanto em outros países.

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