A Formação Do Materialismo Na História da Filosofia – João Barreto Leite

“Cogito, Ergo Sum” (DESCARTES, Meditações Metafísicas. 1641)

A história poderia ter começado de qualquer outro ponto do tempo em que a humanidade pratica a reflexão propriamente filosófica, mas quando René Descartes (1596 – 1650) diz “Penso, logo sou”, ele está afirmando que o questionamento é a prova de que existimos de fato. Essa reflexão muda o rumo do pensamento filosófico-científico que viria.

Descartes parte do princípio de uma dúvida rigorosa e detalhada sobre tudo o que acreditava saber para então se dar conta de que ele poderia duvidar de tudo, menos de sua própria dúvida, seu próprio pensamento. Por isso ele prova que sua existência é indubitável por portar seu questionamento.

Essa é a base do que vem a ser a escola francesa de pensamento denominada como racionalismo. Outros autores do racionalismo são Baruch Spinoza (1632 – 1677) e Gottfried Liebniz (1646 – 1716), ambos muito importantes para a formação e desenvolvimento do pensamento racionalista.

Em oposição ao racionalismo, surge na Inglaterra uma escola de pensamento também muito importante em sua época para o progresso científico, conhecida como empirismo. John Locke (1632 – 1704) um dos principais nomes empiristas, acreditava que o homem não era nem bom, nem mau necessariamente.

O homem agiria como uma tábula rasa que conforme sua criação fosse, se obtivesse acesso a educação e uma boa criação, seria uma boa pessoa. Esta abordagem de Locke foi posteriormente alvo de diversas críticas, mas a importância que os adventos de repetitivas experiências tiveram na ciência é inegável.

Junto a Francis Bacon (1561 – 1626) e David Hume (1711-1778), essa escola mostrou que tanto a experiência pode ser usada para construir conhecimento como nossos hábitos explicam nossa cultura e vida.

Surge então na filosofia um embate. Qual a fonte mais confiável para nos embasar a respeito dos conhecimentos do universo? Experiência ou pensamento? Nesse momento de acirrado debate e disputa entre as escolas, que surge Immanuel Kant (1724 – 1804), um filósofo alemão que é conhecido como o pai do idealismo.

Usando uma antiga ferramenta da filosofia, a dialética, concilia dois pensamentos para formar o que seria conhecido como a escola de pensamento idealista, importantíssima para a compreensão dos filósofos que surgem posteriormente.

Kant cria duas categorias diferentes de pensamento, juízos empíricos e juízos a priori. Os juízos empíricos correspondem ao que conseguimos experiência enquanto os juízos a priori correspondem a informações adquiridas por pensamento e lógica.

É notável como a tríplice da dialética (tese, antítese e síntese) é estrutura que Kant utilizou para desenvolver as suas ideias e que mais tarde culminariam na ética kantiana e o imperativo categórico.

O imperativo categórico é a ideia de Kant de que a ética devia se embasar no questionamento “o mundo ficaria melhor ou pior se todos agissem como estou agindo agora?” antes de tomar uma decisão. Kant foi um grande filósofo e influenciou unanimemente os círculos filosóficos da Europa posteriores a suas obras.

Georg Hegel (1770- 1831) foi um dos idealistas que se inspiraram em Kant, ele é fundamental na história da própria historiografia. Hegel defendia que a realidade, o homem e o conhecimento são todos processos históricos, seu conceito principal é o Zeitgeist que traduzido significa espirito do tempo.

Zeitgeist é o conceito usado por Hegel como uma forma de encarar os processos sociais de cada época identificando algo comum e recorrente em cada época, reconhecendo assim o presente como sempre sendo um potencial momento histórico.

O principal livro de Hegel é chamado A fenomenologia do espírito (1807) um livro denso e de difícil compreensão, muitos dizem que poderia ser mais sintético. De qualquer forma é importante e autêntico, influenciou movimentos políticos e filosóficos.

Em meados do século XIX surge na Alemanha um coletivo de estudantes que promovia discussões políticas antiautoritárias e pró-trabalhistas denominado Esquerda Hegeliana, dentro destes debates estavam grandes nomes do pensamento filosófico e político. Um deles, também idealista, era Ludwig Andreas Feuerbach (1804 – 1872) tinha a tese de que toda teologia é uma antropologia, ou seja, toda vez que você estuda uma religião, você não estuda algo divino e sim as pessoas que cultuam aquilo. Uma visão objetiva que visa explicar processos históricos.

Nesse momento está no início de seu desenvolvimento o pensamento materialista, sob influência de todo o contexto europeu do século XIX.

Mikhail Bakunin (1814 – 1876), Friedrich Engels (1820-1895) e Karl Marx (1818 – 1883) também participaram ativamente da esquerda hegeliana e lá a formação das ideias materialistas começam. Qual o ponto de virada entre o idealismo e o materialismo? No materialismo se considera o contexto da revolução industrial, produção e monopólio. O mundo precisa ser mudado e a história não mais deve ser apenas estudada, deve ser feita e praticada (do grego Práxis)

O materialismo considera que os meios de produção são pontos-chave para se entender a sociedade que os utiliza. Estuda a forma com que a sociedade se altera quando se altera a forma de produ
ção do que se consome. O materialismo coloca em pauta a questão trabalhista e define como a produção é alienada da classe trabalhadora pelas elites.

Além disso, os materialistas definem a importância dos trabalhadores por serem a força produtiva, força essa que é usada pelo capital e da qual a classe burguesa depende.

“Por muito tempo os filósofos se dedicaram a entender o mundo, o que importa é mudá-lo” – (MARX & ENGELS. A ideologia alemã. 1845)

Marx e Engels criam o conceito de luta de classe e defendem que, como exposto na obra mais famosa dos dois, O manifesto do partido comunista (1848) a classe trabalhadora deveria se conformar em um partido, estes socialistas eram contra o capital e defendiam a manutenção de um estado, que, conforme defendiam, se dissiparia com o tempo e deixaria de existir após a revolução em que o estado cessaria sua existência e a sociedade teria socializado os meios de produção de forma justa e igualitária no controle da produção.

O ponto de discordância dos materialistas se dá em métodos políticos posteriores ao pensamento que o
baseia. O materialismo era unanime em concordância a respeito do que estava acontecendo, mas discordavam e métodos e forma de prática para a libertação da classe trabalhadora.

“Se você pegar o mais ardente revolucionário, e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele seria pior que o próprio Kzar.” – (BAKUNIN, Mikhail. O Império Knuto-Germânico e a revolução social 1871)

A divergência política é clara: manutenção ou não do estado em alguma etapa do processo revolucionário, Marx defende a existência do estado e a conformação da classe trabalhadora em partido e Bakunin defende o sindicalismo revolucionário e no fim de sua vida o anarquismo.

Bakunin afirmava que a eliminação da propriedade em uma sociedade estatal só reconfiguraria a organização das classes de forma que os burocratas se tornariam a nova elite.

Esse foi o processo histórico no qual se desenvolveram grandes ideias filosóficas e políticas e de conceitos debatidos e pensados até nos dias de hoje. O pensamento materialista acarretou grandes transformações e revoluções sociais, bem como proporcionou meios para que a sociedade conseguisse perceber de suas amarras.

Bibliografia:

DESCARTES, Meditações Metafísicas (1641)

SPINOZA, Baruck. Ética (1677)

LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano (1689)

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura (1781)

KANT, Immanuel. Crítica da razão prática (1788)

HEGEL, Georg. Fenomenologia do Espírito (1807)

FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo (1841)

MARX & ENGELS. A ideologia alemã (1845)

MARX & ENGELS. O manifesto do partido comunista (1846)

BAKUNIN, Mikhail. O Império Knuto-Germânico e a revolução social (1871)

ABRÃO, Bernadette. História da Filosofia, Nova Cultural (1999)

Vários Colaboradores. O livro da filosofia, Editora DK (2011)

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