“A Insurreição Que Vem”?

Anarquismo Insurrecionário vs Anarquismo de Luta de Classes

Escrito por Wayne Price e publicado originalmente na plataforma Anarkismo.net, em 15 de Novembro de 2010.

Tradução de Matheus Saldanha.

O panfleto “A Insurreição Que Vem” atraiu muita atenção. Uma discussão sobre seus pontos centrais é útil, considerando as diferenças entre o “anarquismo insurrecional” e o “anarquismo de luta de classes”.

Houve um surto de interesse em um pequeno livro radical intitulado “A Insurreição Que Vem”. Com autoria atribuída ao “Comitê Invisível”, foi publicado originalmente na França em 2007. A polícia francesa citou o panfleto como prova no julgamento dos “9 de Tarnaq”, radicais acusados de planejarem sabotagem. O Ministro do Interior francês qualificou-o como um “manual de terrorismo” (citado na página 5). A edição estadunidense teve um impulso improvável do palhaço de talk show de extrema-direita, Glen Beck. Ele classificou o livreto repetidamente como um manual da esquerda para a tomada dos EUA, e para ele, esquerda é qualquer liberal mais ameno do Democratas. “Esse [é um] livro de esquerda perigoso… Vocês devem ler para saber o que está por vir e estarem preparados quando isso acontecer” (Beck, 2009). O interesse de muitos na esquerda foi despertado; diz-se que até Michael Moore o leu.

De uma perspectiva do socialismo libertário revolucionário (ou anarquismo de luta de classes), eu acredito que muitas coisas desse panfleto estão erradas. Mas também está certo sobre coisas muito importantes. Essa é uma parte importante de seu encantamento, apesar da estética oposicionista (são autores formados na filosofia radical francesa e isso é evidente). Os membros do Comitê Invisível dizem que, numa escala global, nossa sociedade está moralmente corrompida e na mais profunda das crises estruturais. Eles denunciam a sociedade em todos os sentidos, e se opõem a todos os programas reformistas por tentar melhorá-la pelas margens. Eles dizem que uma mudança completa é necessária e que ela só pode ser alcançada através de algum tipo de revolução. Seus objetivos são os objetivos corretos: um mundo autogerido sem classes, sem Estado, ecologicamente equilibrado e descentralizado. Essas visões estão bem longe do alcance usual de conversas políticas consideradas aceitáveis. Infelizmente, eu acredito que as táticas e a estratégia que eles propõem estejam equivocadas e pouco provavelmente alcançarão os objetivos propostos.

Em “Black Flame”, Michael Schmidt e Lucien van der Walt revisam a história da tendência predominante no movimento anarquista – que é frequentemente mencionada como comunismo anarquista. Os autores descrevem duas estratégias principais dentro da ampla tradição anarquista. “A primeira estratégia, o anarquismo insurrecionário, argumenta que as reformas são ilusórias e que movimentos organizados de massas são incompatíveis com o anarquismo, e enfatiza a ação armada – “propaganda pelo fato” – contra a classe dominante e suas instituições como o principal meio de evocar um levante revolucionário espontâneo” (2009; p. 123). Apesar de ser, historicamente, uma tendência minoritária no anarquismo, é provavelmente o que a maioria das pessoas pensa que é “anarquismo”.

“A segunda estratégia – a qual nos referimos, por falta de um termo melhor, como anarquismo de massas… enfatiza que apenas o movimento de massas pode criar uma transformação revolucionária na sociedade, e que tais movimentos são normalmente construídos através de lutas em torno de questões imediatas e reformas (…) e que os anarquistas devem participar desses movimentos para radicalizá-los e transformá-los em alavancas de transformação revolucionária” (idem; p. 134). Eu prefiro chamar essa segunda estratégia pelo termo mais amplamente usado: “anarquismo de luta de classes”. (Essa é uma discussão de amplas tendências políticas. Os anarquistas individualistas não são tão evidentemente divididos entre os tipos “insurrecionário” ou “classista”. Quaisquer que sejam os rótulos, suas atividades constantemente se sobrepõe umas às outras.)

Os termos podem ser confusos. Por “insurreição”, a maioria das pessoas quer dizer um levante revolucionário das massas populares para derrubar a classe dominante e esmagar o Estado. Por essa definição, são os anarquistas classistas que estão trabalhando por uma insurreição. Por outro lado, os chamados insurrecionários não defendem claramente uma insurreição – um levante popular -, mas estão principalmente interessados em atividades rebeldes promovidas por eles mesmo, uma minoria revolucionária. Como veremos a seguir, “A Insurreição Que Vem” é especialmente ambígua sobre querer uma insurreição popular. No entanto, vou usar os rótulos políticos de costume.

Na verdade, os autores não identificados desse livros não se identificam explicitamente com o “anarquismo”, que eles mencionam de forma negativa. Eles preferem o rótulo de “comunistas”. Provavelmente eles foram influenciados por tendências autônomas derivadas do marxismo, embora também não se identifiquem como “marxistas”. Eu acho que é seguro incluí-los na tradição do “anarquismo insurrecionário”. Sua defesa da descentralização é tipicamente anarquista, e não marxista. De qualquer forma, até agora tem havido muita sobreposição e interação entre o anarquismo e as tendências libertárias do marxismo, que não é possível (ou relevante) desenhar uma linha nítida entre elas.

Oposição Às Organizações da Classe Trabalhadora

De acordo com “A Insurreição Que Vem”, os sindicatos são um inimigo imediato. “Todo  movimento social encontra como primeiro obstáculo, muito antes da polícia propriamente dita,  as forças sindicais…” (p. 142). Essa visão confunde diferenças entre (1) os trabalhadores, que são mal direcionados pelos sindicatos, mas que obtém benefícios concretos deles; (2) os próprios sindicatos enquanto organizações que foram criadas pelos trabalhadores; e (3) a burocracia sindical, que é um agente da classe capitalista dentro das organizações de trabalhadores. Em outras palavras, os trabalhadores, os sindicatos e os burocratas são vistos como uma coisa só, exatamente como as burocracias (e seus partidários reformistas) vêem.

Participar de sindicatos geralmente faz com que trabalhadores recebam salários mais altos e melhorem suas condições de trabalho, e isso é algo que o Comitê Invisível ignora, e também não se importaria. Poderíamos esperar que, ao menos, o Comitê Invisível se importasse com o fato de que trabalhadores em greve podem parar a sociedade como nenhum outro setor – mas eles também não se importam. “…  as greves trocaram o horizonte da revolução pelo do regresso à normalidade” (p. 124). “Trocaram”, sim, exceto nas inúmeras vezes em que as greves fizeram parte de revoluções. Em vez de se organizar entre trabalhadores, o Comitê Invisível aconselha seus leitores a encontrar criminosos e cometer fraudes no sistema, fora do trabalho remunerado. “O que interessa cultivar e difundir é essa necessária disposição para a fraude…” (p. 120)

Numa certa época era comum a extrema–esquerda ridicularizar os sindicatos como somente agentes dos capitalistas. Supunha–se que a única função dos sindicatos era controlar os trabalhadores de acordo com os interesses da classe dominante, mas essa visão foi refutada pela história. Os patrões passaram a usar os sindicatos quando os tempos ficaram difíceis – como desde o fim do boom pós–Segunda Guerra Mundial (por volta de 1970). Os capitalistas se opõem ao poder dos sindicatos, forçam ajustes salariais e cortes de pessoal, e lutam com unhas e dentes contra a organização de novos sindicatos. Os sindicatos dos EUA, que representavam 33% da força de trabalho em empresas privadas, passam a representar cerca de 6%. Claramente, a classe capitalista acredita que, no geral, é melhor para eles que não haja sindicatos. Mesmo achando que a burocracia trabalhista é útil a seus propósitos, os capitalistas concluíram que os sindicatos trazem mais benefícios para os trabalhadores do que para a burguesia. E eles estão certos.

A oposição do Comitê Invisível aos sindicatos e, de fato, à classe trabalhadora, é baseada numa teoria de que não existe mais uma classe trabalhadora. “… os trabalhadores  se tornaram supérfluos. Os ganhos de produtividade, a deslocalização, a mecanização, a automatização e a numerização da produção progrediram tanto, que reduziram a  quase nada a quantidade de trabalho vivo necessário à confecção de cada mercadoria” (p. 42). Esse exagero leva a ver o trabalho como uma imposição capitalista, a fim de controlar a população, e não como uma forma de exploração do trabalhador e de acúmulo de mais–valia.

Se isso fosse verdade, seria como se nós não vivêssemos mais sob o capitalismo. “… o capital teve de se sacrificar enquanto relação salarial para  se impor enquanto relação social” (p. 98). Na opinião de Marx, o capitalismo nada mais é do que a relação capital–trabalho ( a “relação salarial”); portanto, esse seria o fim do capitalismo, enquanto permanece algum novo tipo de opressão. Sem uma classe capitalista que compre a força de trabalho dos trabalhadores, não há a classe trabalhadora moderna (não há “proletariado”). Portanto, para “A Insurreição Que Vem” não há mais necessidade de focar nas lutas da classe trabalhadora. (Do meu ponto de vista, a luta de classes interage com lutas que não são de classe, como em relações de gênero, raça, nacionalidade, idade etc.)

Reformas Podem Ser Conquistadas Enquanto Rejeitamos o Reformismo?

De acordo com os autores de “Black Flame”, “… o anarquismo insurrecionário é impossibilista, tendo em vista que considera as reformas, mesmo conquistadas, como fúteis…” (SCHMIDT & VAN DER WALT, 2009, p. 124). Mas os anarquistas classistas, de massas, pensam que esse impossibilismo significa estar afastado da classe trabalhadora. Significa desprezá–la por seus desejos de um bom emprego, salário digno e moradia, o fim da discriminação racial ou sexual, outros direitos democráticos, o fim das guerras e a segurança contra catástrofes ecológicas.

“A Insurreição Que Vem” mostra desdém pelas lutas de reforma, limitadas. Sobre as lutas por emprego, diz, “Que nos seja permitido estar pouco se fudendo para isso” (p. 40). O perigo da crise econômica e do desemprego em massa “…nos comove tanto quanto uma missa em latim” (p. 66). Ele rejeita desdenhosamente daqueles que advertem sobre desastres ecológicos e energéticos. “…toda esta “catástrofe”, da qual nos alimentam tão ruidosamente, não nos toca” (p. 78). “O que torna a crise [ecológica] desejável é que, nela, o meio-ambiente deixa de ser o meio-ambiente” (p. 87). Desejável?

Em contrapartida, “… o anarquismo de massas é possibilista, acreditando que é possível e desejável forçar concessões da classe dominante…” (SCHMIDT & VAN DER WALT, 2009, p. 124). Nós acreditamos que as reformas devem ser defendidas como parte de uma estratégia revolucionária, não reformista. Meu único adendo a esse ponto de vista é que essas conquistas limitadas só vigoram por um curto período de tempo. A economia piorará – e outros desastres ocorrerão, como a disseminação de armas nucleares e o aquecimento global. Como resultado, as reformas se tornarão mais e mais difíceis de conquistar, difíceis de pôr em prática, e difíceis de permanecer sob o contra-ataque da direita.

A questão não é se algumas conquistas limitadas podem ser ganhas por um tempo. Elas podem, e lutar por elas é necessário para a construção de um movimento revolucionário, como Schmidt e van der Walt escreveram. A questão é se é possível conquistar o tipo de mudança que é necessária para evitar um desastre total. E não é possível. (Esse ponto importante não está em “Black Flame”.)

Oposição Às Organizações Democráticas

A rejeição do Comitê Invisível às organizações populares, de massas, não se limita à rejeição aos sindicatos. Eles alegam que frequentemente “cruzamos com as organizações – políticas, sindicais, humanitárias, associativas etc” (p. 114) e nos encontramos com boas pessoas nelas. “Mas a promessa contida no encontro apenas se poderá realizar fora da organização e, necessariamente, contra ela.” (p. 115)

Da mesma forma, convocam à “abolir as assembleias gerais” (p. 142). Há uma longa história de insurreições populares que criaram assembleias de bairro, conselhos municipais, comitês por local de trabalho, conselhos de fábricas, sovietes, shoras (conselhos) e várias formas diretas, cara a cara, de democracia comunal. Os membros do Comitê Invisível não rejeitam apenas as formas de federação delegada de tais assembleias, mas as próprias assembleias populares.

Uma luta de massas requer decisões sobre ações de massa, mas o CI rejeita especialmente a ideia de tomada de decisão democrática através da discussão e votação. Ao invés disso eles têm uma ideia mística de indivíduos que recolham informações e então “… a decisão virá por si mesma, tomar-nos-á mais do que nós tomaremos a ela” (p. 145). Essa fantasia é autoritária, com grandes possibilidades de ser açambarcada por “panelinhas” e líderes carismáticos.

Nós, anarquistas de luta de classes, costumeiramente distinguimos dois tipos de organização. Há as grandes organizações populares, como sindicatos, associações comunitárias ou (em períodos revolucionários) assembleias de trabalhadores e/ou de bairro. Estas são heterogêneas, compostas por pessoas de diversas opiniões. E há as organizações politicamente revolucionárias, mais estreitas, forjadas ao redor de um conjunto de ideias e objetivos. Estas são formadas pela minoria da população, que enxerga a necessidade da revolução e tem o desejo de espalhar suas ideias entre a maioria, que ainda não é revolucionária. Entre essas organizações estão as federações anarquistas e os partidos leninistas – as agrupações anarquistas não são “partidos” porque não querem tomar o poder, seja pelas eleições ou revoluções.

“A Insurreição Que Vem” rejeita tanto as organizações de massa quanto as de minorias. “As organizações são um obstáculo ao propósito de organização” (p. 170). Ela não vê a necessidade da abordagem dualista organizacional, porque não vê um problema em que só uma minoria é pela revolução.

Ao contrário, insiste: “Todo mundo sabe. Isto vai explodir” (p. 161). “O sentimento da iminência do colapso está tão generalizadamente vivo nos nossos dias…” (p. 122). Na verdade, todo mundo discorda. Aqueles que concordam tendem, pelo menos, a ser ou de extrema-direita ou de extrema-esquerda. Esse é o motivo pelo qual Glen Beck promove esse livro. Entretanto, em “A Insurreição Que Vem”, não existe discussão sobre os perigos da extrema-direita, isso para não falar do fascismo de ponta a ponta. O mais perto que fica é “… à medida que se espera da população um acréscimo de trabalho policial – da delação à participação ocasional em milícias cidadãs” (p. 134). Mas isso é imediatamente seguido por uma discussão sobre infiltração policial e provocação; o perigo de ataques por “milícias cidadãs” armadas de direita é abandonado.

A crise da nossa sociedade nos levará (está levando) a um declínio no centro político moderado e ao crescimento dos extremos. Nos E.U.A., republicanos conservadores falam da necessidade de “remediar a Segunda Emenda” caso não consigam tomar o poder pelas eleições. Posicionando-se como herdeiros da Revolução Americana, eles falam da possível necessidade de derrubar violentamente a democracia burguesa, como os “peregrinos” derrubaram a monarquia britânica.

Para combatê-los, socialistas libertários revolucionários precisam participar em organizações populares de massas como sindicatos e associações comunitárias. Precisamos organizar a nós mesmos, como parte do processo de auto-organização popular. Em vez de auto-organização democrática, de massas, AIQV defende “… guerrilha difusa, eficaz, que nos conduz à nossa ingovernabilidade, à nossa indisciplina primordial. É perturbante que entre as virtudes militares reconhecidas aos guerrilheiros se encontre precisamente a indisciplina” (p. 129). Os membros do Comitê Invisível fariam muito bem em ler relatos do exército guerrilheiro anarquista de Makhno em 1918 na Ucrânia, ou da coluna militar anarquista de Durruti durante a Revolução Espanhola, ou qualquer outro relato de guerrilha ou resistência subterrânea antes de disseminar tal idiotice. Não há processo revolucionário sem autodisciplina e auto-organização democrática.

O que o CI acha que deve ser feito?

Em oposição do que ele é contra, o que AIQV propõe? Eles rejeitam organizações, mas dizem, “É necessário que nos organizemos de modo consequente” (p. 107). Isso será realizado supostamente através de “comunas”. “Comunas” são uma versão expandida do que é tradicionalmente chamado de “grupos de afinidade” ou “coletivos”. “A comuna constitui-se quando seres se encontram, se entendem e decidem caminhar juntos…” (p. 116) Comunas crescerão em todos os lugares e tomarão conta de tudo. “Em cada fábrica, em cada rua, em cada aldeia, em cada escola… uma multiplicidade de comunas que substituíssem as instituições da sociedade: a família, a escola, o sindicato, o clube esportivo, etc” (p. 117). As comunas manterão contato umas com as outras (é difícil dizer “coordenar-se-ão”) através dos membros viajantes. Para AIQV, a revolução é essencialmente a disseminação e a integração de comunas. “Uma escalada insurrecional não é mais do que a multiplicação de comunas…” (p. 137)

As comunas farão uma série de coisas, mas o central da estratégia é a “sabotagem”. Isso significa “… máximo de estragos… quebrar as máquinas, ou travar o seu funcionamento… A infraestrutura técnica da metrópole é vulnerável… é possível atacar… Como inutilizar uma rede elétrica? Como descobrir os pontos fracos das redes informáticas, como perturbar as ondas de rádio e deixar no nevoeiro a pequena tela?… uma certa apropriação do fogo… “foder tudo” exerce talvez o papel” (pp. 129-131). Estradas serão bloqueadas. Alimentos, remédios e outros bens deixariam de circular. (Como já mencionamos, o CI não parece interessado no poder da classe trabalhadora de acabar com a economia capitalista pelas greves gerais.)

Se realizado, o uso generalizado da destruição técnica, como defendido em “A Insurreição Que Vem”, causaria grande sofrimento, e isso não parece incomodar o CI. Entre todas as coisas, este parece ser o objetivo. Depois que os insurrecionários derrubarem a sociedade capitalista pela sabotagem e o caos, o que se seguirá é o “comunismo”, pelo menos é assim que pensam. “A interrupção dos fluxos de mercadorias… libertam potencialidades de auto-organização” (p. 140). Mais provavelmente, a sabotagem em massa causada pela esquerda teria como resultado o ódio generalizado a esses “comunistas” que deliberadamente causaram tanto sofrimento. Haveria uma demanda por um estado fascista forte para fornecer “ordem”.

“Insurreição” sem Revolução

Enquanto a polícia francesa rotulou o CI de “terrorista”, o mesmo não defende o assassinato de funcionários públicos nem atentados a bomba em lugares lotados. Em vez disso, defende a destruição da propriedade por meio da sabotagem generalizada. Mas, caso ocorra, isso causaria ao menos tanto sofrimento – e possivelmente mortes – quanto qualquer “terrorismo”.

Sua atitude em relação à violência é confusa. Eles declaram: “Não existe uma insurreição pacífica. As armas são necessárias…” (p. 151). O que é imediatamente seguido por um chamado aos rebeldes portarem armas – mas não usá-las! “Uma insurreição é muito mais uma tomada de armas, uma “permanência armada”, do que uma passagem à luta armada” (idem). Numa situação revolucionária, esperam que o exército seja chamado, para que então as pessoas possam se misturar com o exército e conquistá-lo para a insurreição, sem disparar um único tiro! “Diante do exército, a vitória tem de ser política… E acontece que diante do exército, precisamos de uma multidão numerosa, que invada as fileiras e confraternize” (p. 151-154). Não discuto que as forças armadas – filhas e filhos da classe trabalhadora – podem e devem ser conquistadas por meios “políticos”. Mas é provável que haja um núcleo de oficiais, “carreiristas” de direita, que precisarão ser fisicamente suprimidos caso usem a força contra o povo.

Anarquistas de luta de classes revolucionários acreditam que a burguesia deve ser derrubada e que o Estado e outras instituições capitalistas precisam ser desmanteladas. Elas precisam ser substituídas por conselhos federados. O CI não acredita nisso. Com toda essa conversa sobre “insurreição”, sua visão se aproxima mais da visão reformista-etapista de substituir pacificamente o capitalismo e o Estado através de instituições alternativas. “…por todos os lugares onde a economia está bloqueada… interessa colocar a menor ênfase possível na derrubada das autoridades. Estas devem ser depostas com um escrupuloso escárnio e indiferença… O poder já não se concentra num determinado ponto… Da mesma maneira, quem o desafia localmente cria uma onda de choque planetário através das redes” (pp. 155-156)

O “9 de Tarnac” foram presos na França e acusado de planejar sabotar as linhas elétricas aéreas da ferrovia nacional. Eles moravam na pequena cidade rural de Tarnac, cultivando sua própria comida, administrando uma cooperativa e um armazém, e geralmente ajudando a população local. Exceto pela – alegada – tentativa de sabotar os trens, eles estavam simplesmente seguindo a não-violenta e reformista estratégia de abandonar as grandes cidades e as instituições tradicionais para construir gradualmente instituições alternativas. E não há nada de mal em tais atividades. Mas elas não são uma estratégia de derrubada do Estado, do capitalismo e de todas as outras opressões. O poder é muito concentrado e muito forte, e terá que ser confrontado pelo povo organizado – em uma verdadeira insurreição. (Para uma discussão mais aprofundada entre a estratégia do anarquismo revolucionário de luta de classes e a do etapismo, instituições-alternativas, ver Price 2009)

A insurreição grega

Estas são questões importantes e muito práticas. Em 2008, estourou uma rebelião na Grécia depois que um jovem foi baleado por um policial (no contexto do início da Grande Recessão). Houve uma insurreição virtual nacional entre jovens, de secundaristas a universitários, de jovens trabalhadores a desempregados. Anarquistas e outros socialistas libertários tiveram grande influência sobre a rebelião juvenil, incluindo especialmente os de tendência insurrecionalista.

A juventude é a linha de frente da revolução. Mas sua importância vital não faz dela, sozinha, capaz  de alavancar a classe trabalhadora. Infelizmente, os anarquistas gregos não tiveram a mesma influência entre trabalhadores sindicalizados como tiveram entre estudantes universitários. Os grandes sindicatos ainda são controlados pelo Partido Socialista (PASOK ou SYRIZA?), pelo Partido Comunista (KKE), e até mesmo pelos Conservadores (ND). A pressão dos trabalhadores forçou os sindicatos a se engajar em manifestações e em greves gerais limitadas e simbólicas, mas não mais que isso. Grandes setores da indústria protagonizaram greves selvagens. Trabalhadores radicalizados ocuparam a sede do maior sindicato grego em protesto à falta de apoio à rebelião. Isso foi bom, mas mais era necessário.

Na Grécia, e em qualquer outro lugar, não há alternativa para os socialistas libertários revolucionários que não o enraizamento na classe trabalhadora e seus sindicatos. Precisamos disseminar um programa revolucionário e nos organizar contra a burocracia reformista. Os anarquistas de luta de classes gregos tentam fazer isso há algum tempo. Se terão sucesso, é a pergunta-chave para saber se a Revolução grega vencerá.

Os anarquistas revolucionários de luta de classes concordam com a rejeição dos insurrecionalistas ao capitalismo e ao Estado. São nossos companheiros, lutando contra o mesmo inimigo, pelos mesmos objetivos. Mas não concordamos com sua análise e estratégia. Cultivar alimentos em comunidades rurais alternativas não substitui uma abordagem de luta de classes, nem estão havendo rebeliões que se limitam a jovens isolados. O que nós precisamos não é insurreição, mas revolução.

Referências

Beck, Glenn (7/1/2009). www.foxnews.com/story/0,2933,529784,00.html

Comitê Invisível. A Insurreição Que Vem. Brasil: Edições Baratas, 2013. Disponível em <http://dazibao.cc/wp-content/uploads/2015/11/A-insurreic%CC%A7a%CC%83o-que-vem-CI.pdf>

Price, Wayne (2009). “The Two Main Trends in Anarchism.http://www.anarkismo.net/article/13536

Schmidt, Michael, & van der Walt, Lucien (2009). Black Flame: The Revolutionary Class Politics of Anarchism and Syndicalism; vol. 1. Oakland CA: AK Press.

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