A Ironia Dolorosa de ‘Winter on Fire’

Por Lev Golinkin , Originalmente publicado no The Nation em 18 de janeiro de 2016.

O documentário do Netflix indicado ao Oscar  Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom  mostra aos espectadores uma história de cidadãos comuns enfrentando a tropa de choque brutal controlada pelo então presidente da Ucrânia Viktor Yanukoych , apoiado pelo presidente russo Vladimir Putin. Um conjunto amplo de ativistas, artistas, babushkas de lenço na cabeça, padres barbudos e jovens de rostos radiantes fazem parecer que o povo da Ucrânia em todas as camadas sociais participou do levante de Maidan. Mas faltam alguns Neo-nazistas, que foram cortados na edição.

‘Um papel crucial”

A Ucrânia já tinha um movimento forte de extrema direita muito antes da turbulência de Maidan no fim de 2013i-início de 2014. Em 2010, o então presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko recebeu condenação internacional generalizada por homenagear  Stepan Bandera, um colaborador dos nazistas e líder de um exército clandestino responsável por massacrar centenas de judeus e poloneses durante a Segunda  Guerra Mundial. A Ucrânia pré-Maidan já era lar da Aliança Nacional-Social, uma organização supremacista branca  liderada por Andriy Biletsky, que escreveu que a missão de seu grupo “liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final por sua sobrevivência”. Também tinha o partido Svoboda, liderado por Oleh Tyahnybok, um deputado que exigiu em 2004 uma investigação sobre  o controle da ‘máfia judeu-moscovita”sobre Kiev que provocou manchetes internacionais. Em 2012, um político do Svoboda chamou atriz Ucraniana Mila Kunis de “judia suja”. Tudo o que esses grupos precisavam era de uma oportunidade para sair das sombras: Maidan deu a chance  a eles.

Inicialmente,  as dispersas facções neo-nazistas ficaram na periferia de Maidan. Mas à medida que os protestos foram se tornando violentos no fim de 2013-o que levou à  deposição de Yanukovych, à guerra civil, à Crimeia, etc- a extrema direita “cumpriu um papel crucial, oferecendo força bruta aos manifestantes que estavam em grande medida  desequipados para lutar sua própria luta” conforme a New Yorker  descreveu. De fato, o papel instrumental dos grupos de extrema direita foi reconhecido por jornalistas e analistas de publicações tão diversas como o Guardian, a BBC, a Reuters e a  National Interest . até Hannah Thoburn– uma comentarista que escreveu inúmeros artigos em apoio a Maidan- notou que Winter on Fire falhou em mostrar “grupos nacionalistas de extrema-direita que estiveram envolvidos na luta.”

A evidência mais sombria do envolvimento da extrema direita vem de Ivan Katchanovski, um professor da Universidade de Ottawa, que pesquisou os eventos de 20 de fevereiro de 2014 , o  “Massacre de Snipers de Maidan” quando misteriosos atiradores mataram 50 pessoas. Além de ser a reviravolta que levou à renúncia de Yanukovych, os massacre é o climax de Winter on Fire. Katchanovski argumenta, com consideráveis evidências forenses e outras além delas, que os grupos de extrema direita não apenas provocaram o combate atirando na polícia como também perpetraram o assassinato de manifestantes em Maidan em uma operação de falsa bandeira, o governo de Kiev foi incapaz de oferecer uma explicação definitiva para o que aconteceu aquele dia.

A ausência da extrema direita em Winter on Fire se torna ainda mais gritante quando comparada com outros documentários sobre a Ucrânia. Maidan: Tonight Tomorrow, que recebeu uma crítica positiva na New Yorker,  conseguiu incluir a extrema direita, apesar de ter apenas 9 minutos. Enquanto Masks of the Revolution, um filme francês, focou apenas no papel dos ultranacionalistas durante e após Maidan.(ironicamente, o governo Ucraniano tentou evitar que a  França passasse este filme por considerar que ele “ cria equívocos”.)

Sem os grupos neonazistas, maidan não teria conseguido derrubar o presidente eleito da Ucrânia-o título ‘winter on fire’(inverno em chamas) deveria esfregar isso na cara(?). Ainda assim, o filme não faz nem menção a eles.( uma análise quadro a quadro revelou  alguns flashes de bandeiras e símbolos no fundo, e um entrevistado usando uma echarpe com a imagem de Bandera, e duas cenas com Tyahnybok andando no fundo, mas nenhuma dessas faria nenhum sentido para o espectador americano.n) o fato ed que Evgeny Afineevsky, diretor do filme, tenha escolhido ignorar o próprio fato que fez o filme possível é surpreendente.

  O lado da manteiga pra cima

Outra distorção grosseira em Winter On Fire é a apresentação de Maidan como um fenômeno livre de interferência ocidental. Enquanto o filme aumenta os laços entre o governo Yanukovych e Moscou, ele retrata os protestos como um movimento espontâneo, de base, e , acima de tudo, desligados de quaisquer interesses estrangeiros. Políticos americanos visitantes aparecem em uma única cena de dez segundos quando eles, de acordo com  a legenda ‘ se encontram com Yanukovych de forma a encontrar uma solução diplomática para atual crise”.

As evidências, entretanto, demonstram o papel da América durante a crise do inverno de 2013-14 era mais o de Zagueiro que o de árbitro. O exemplo mais emblemático vem por meio de um grampo em uma ligação entre a  secretaria de estado adjunta, Victoria Nuland  e o embaixador de Washington na Ucrânia, Geoffrey Pyatt. Durante a ligação, Nuland e Pyatt soavam como dois gerentes seniores preparando alguma  reorganização empresarial, com Nuland instruindo Pyatt sobre qual líder Ucraniano deveria ser nomeado ministro, como se alinhar com a ONU e  a UE nas negociações, e a melhor estratégia para fazer Ucrânia “cair com a manteiga pra cima”, como um entusiasmado Pyatt descreveu.

A ligação, que  foi vazada em Fevereiro de 2014, não era a primeira vez que Nuland e Pyatt estiveram  profundamente envolvidos em Maidan. Em 11 de DEzembro de 2013, a dupla fez uma tour bem noticiada às barricadas levando cookies aos manifestantes. Três dias depois, o senador john McCain voou para falar À multidão; McCain e o Senador Chris Murphy dividiram o palco com Tyahnybok, líder do Svoboda. Ambas visitas foram filmados pela imprensa ucraniana e ocidental, e ainda assim ficaram ausentes do documentário. Compreensivelmente, o envolvimento de altos funcionários do governo os EUA trabalhando pra  fazer a Ucrânia “cair com a manteiga pra cima” influenciou a narrativa de “pessoas comuns, professores, médicos, garis” de Winter on fire.

“Um cineasta, não um jornalista”

O que chama atenção sobre Winter on Fire não é como ele encobre a história de Maidan mas o fato de Afineevsky, o diretor, descaradamente admitir. Em uma Entrevista para a Rádio Free Europe, financiada pelos EUA, levantou a discussão que o filme havia “encobrido” o Setor Direito, uma organização neonazista que cumpriu um papel de proeminência em Maidan e mais tarde foi acusada de tortura, entre outros crimes pela Anistia Internacional.”quer saber? O setor direito lutou por tudo aquilo igual todo mundo. Eles foram parte deste povo” ironizou Afineevsky. O que Afineevsky queria dizer com essa resposta, não é claro assim como na declaração em que ele disse que é” um cineasta, não um jornalista”  com a qual a Radio Free Europe diz que ele respondeu às acusações de que ele super simplificou a narrativa.

Afineevsky repetiu a mesma frase em uma entrevista com o Mashable, quando respondeu sobre sua decisão de ignorar os protestos anti-Maidan que surgiram nas regiões de maioria russa na Ucrânia Oriental e que foram violentamente suprimidas por gangues de extrema direita na primavera de 2014. De acordo com o artigo do Mashable, que notou que Winter on Fire”falha em abordar muitas das complexidades da revolução’, “ a decisão de excluir visões alternativas foi uma decisão consciente”.

As “visões alternativas” excluídos por Afineevsky são, claro, as opiniões de cerca de 22 milhões de ucranianos que foram contra o levante de Maidan, conforme  relatado pelo Kyiv Post(um publicação pró-Maidan) em dezembro de 2013. Para dar uma perspectiva dessa decisão, imagine um cineasta estrangeiro criando um documentário brilhante sobre a NRA chamado “A Luta pela Liberdade na América” enquanto ignora o ponto de vista de milhões de americanos que são contra a NRA.

Ponto de vista x Propaganda

Documentários não estão muito longe da controvérsia sobre a apresentação de assuntos controversos(o atual debate sobre Making a Murderer, outro documentário da Netflix, é um caso assim). Embora não existam diretrizes claras, a questão se centra no quão fortemente um cineasta pode empurrar um certo ponto de vista antes que a omissão dos fatos cruze a fronteira da propaganda.

Winter on fire omite fatos, o que resulta em uma audiência que tem uma compreensão extremamente limitada(ou não existente) da história, da política, das regiões e da composição sociológica e das línguas recebendo uma visão unilateral dos acontecimentos na Ucrânia. Afineevsky- cujo filme é propagandeado para uma audiência ampla e conseguiu uma ampla distribuição pelo Netflix e  teve uma superexposição por sua indicação ao Oscar-apresenta uma visão altamente tendenciosa de eventos pouco familiares em um país estrangeiro, eventos que levaram a uma guerra civil ainda em curso e ao pior confronto EUA-Rússia como “ a luta pela liberdade na Ucrânia”. No processo, o diretor cinicamente ignora metade da Ucrânia-22 milhões de pessoas!- que se opuseram veementemente a Maidan e de fato a luta não foi feita por amantes da liberdade, mas por supremacistas brancos e outros neonazistas.

Talvez se Afineevsky, que escolheu excluir pontos de vista alternativos , tivesse viajado para  Ucrânia oriental depois de ver a polícia reprimir manifestantes em Kiev, Winter on Fire seria diferente. Se ele tivesse nadado pela terra de ninguém de Donbass,  assediada por armas pesadas no fim de 2014, encontrado os sobreviventes de tortura nas mãos dos batalhões de extrema direita, falado com as viúvas daqueles assassinados  pelos bombardeios indiscriminados de todos os lados do conflito,e encarado os mais de 2 milhões de ucranianos forçados a se tornarem refugiados, ele não teria deletado sua existência. Infelizmente, parece , no caso,que  Afineevsky já tinha decidido desde o início quem eram os heróis da história.

Depois de Winter on Fire

Se omitir  inconveniências como ultranacionalistas armados, políticos americanos, e  a opinião de 22 milhões de ucranianos exigiu uma edição meticulosa, talvez até digna de um Oscar; Apagar esses fatores da vida real provou ser muito mais problemático. De fato, nos dois anos após as forças de Maidan tomarem controle  de Kiev,o impacto da extrema direita e do governo americano na sociedade ucraniana só se aprofundaram.

Os enfrentamentos com a tropa de choque deram  a oportunidade às organizações supremacistas brancos de tomar o papel central no levante de Maidan: a guerra posterior com os rebeldes da Ucrânia oriental permitiu que a extrema direita se expandisse de gangues para batalhões organizados, marchando sob o símbolo neonazista do Wolfsangel e a bandeira preta e vermelha de Bandera

Por cerca de um ano, esse desdobramento mal foi coberto pela mídia ocidental, que, assim como Winter on Fire, evitou largamente o lado obscuro de Maidan. As histórias de batalhões neonazistas lentamente vazaram para o ocidente  devido ao jornalismo perseverante do repórter investigativo Robert Parry assim como da atenção dos congressistas dos EUA John Conyers e Ted Yoho, que propuseram uma emenda banindo a ida de fundos dos EUa para o infame Batalhão de Azov , que foi formado por uma das organizações de Biletsky e foi  classificado como “abertamente neonazista” pelo New York Times e recebeu atenção no USA Today.

Além  do esmagamento brutal da oposição no sudeste da Ucrânia, o s paramilitares de extrema direita addumulma um historico terrivel dde violações dos direitos humanos. Vários batalhões e extrema direita foram acusados de tortura, sequestro, assassinato e crimes de guerra pela Anistia Internacional. Ocasionalmente, os paramilitares se viram contra o governo, enfrentando a polícia e a guarda com consequências fatais; conforme apontado por comentaristas, o controle de Kiev sobre esses ultranacionalistas armados é tênue, para dizer o mínimo.

Na parte política, as armações de Nuland e Pyatt deixaram a Ucrânia sob uma influência considerável dos EUA. de acordo com o respeitado repórter investigativo ucraniano Sergei Leschenko,  conforme citado pelo colunista do Bloomberg Leonid Bershidsky “Pyatt e o Governo dos EUA tem mais influência que nunca na história da Ucrânia independente”. Em agosto passado, Pyatt e Nuland conseguiram a aprovação  relutante pelo parlamento Ucraniano de uma lei impopular, a aprovação requereu uma pressão americana considerável. O vice-presidente Joe Biden  declarou que conversa mais com o presidente ucraniano Petro Poroshenko que com sua esposa, em uma mistura esconfortǘel de piada e confissão do envolvimento de Washington em Kiev.

 No final de Winter on Fire, um jovem ativista diz: “por 23 anos, nós só tivemos nossa independência no papel, mas agora… ela se tornou real.” por volta do fim de 2015, o governo de kiev apoiado pelos EUA teve uma taxa de aprovação menor que o ex-presidente Yanukovych antes de sua  derrocada, e na medida que presságios de uma crescente desilusão do povo com o governo de Maidan e do perigo de um golpe de extrema direita aumenta. Parece que , assim como no Iraque, no Afeganistão e na Líbia. As semestes de uma democrcia nos moldes dos EUA não acharam solo fértil em Kiev.

E essa é a ironia dolorosa de Winter on Fire. O documentário, assim como a maioria da cobertura ocidental do Ucrânia, escolhe apresentar ao oeste uma versão mítica e falseada da ‘revolução’ de Maidan como um movimento composto apenas por democratas, amantes da liberdade. Agora os elementos ignorados por esse mito ameaçam a possibilidade de uma ucrânia livre e democrática.

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....