A justiça é um artigo de luxo na vida das mulheres

Na tarde desta quarta-feira, aconteceria o julgamento do recurso que quer o cancelamento da certidão de óbito de Eliza Samúdio – que digo com infeliz convicção, está morta desde 2010 – e o pedido de revisão da condenação do goleiro Bruno Fernandes. A defesa de Bruno busca a anulação do júri e, principalmente, a redução da pena do goleiro que já se encontra em regime semi-aberto.

A notícia deste recurso que pode soltar o goleiro Bruno caiu como uma bomba sobre a minha cabeça. Não porque eu acredite que décadas de encarceramento desumano ressocializem alguém (não acredito) ou ache que o princípio da ampla defesa não deva se estender a feminicidas (não acho) – mas porque o reavivamento deste caso me fez lembrar que muitas de nós não tem nem 24 horas e que a justiça quase sempre vem tarde demais
Muitas mulheres abusadas por seus parceiros não denunciam por medo ou vergonha, mas esse, definitivamente, não era o caso de Eliza Samúdio. A justiça não tinha desculpas para não prever o desfecho trágico dessa história que poderia ter sido evitado com a prisão de Bruno em 2009, quando Eliza prestou queixa pela primeira vez.

Em 13 de outubro de 2009, Eliza foi à delegacia denunciar Bruno por tê-la espancado, mantido em cárcere privado e obrigado a tomar substâncias abortivas após descobrir sua gravidez. Na época, a juíza responsável por atender ao pedido de proteção solicitado pela mulher negou-o, alegando que a Lei Maria da Penha “tem como meta a proteção da família, seja ela proveniente de união estável ou do casamento, bem como objetiva a proteção da mulher na relação afetiva, e não na relação puramente de caráter eventual e sexual”, ignorando completamente o fato de Eliza estar grávida de 5 meses e ter sido agredida e ameaçada de morte pelo goleiro. O Instituto Médico Legal e a Polícia só concluíram os exames periciais e toxicológicos que comprovavam as denúncias de Eliza quase um ano depois, quando ela já estava desaparecida e seu caso já era tratado como homicídio.

 

Eliza Samúdio denunciou.

 

Eliza cumpriu à risca todos os protocolos do que a “vítima perfeita” ou a “vítima que fala a verdade” deve fazer para receber proteção social e do Estado. Ainda assim, seus pedidos de socorro foram ignorados pela justiça. O Estado responde por essa negligência? Além de Bruno, Macarrão e Russo, quem são os outros agentes responsáveis pela morte dessa jovem de 25 anos? E por que nós não estamos falando deles? Esse feminicídio, como todos os outros feminicídios, tem mais culpados do que simplesmente aqueles que apertaram o gatilho, ou que estrangularam, ou envenenaram, ou espancaram até a morte (ou todas as opções anteriores, uma vez que o corpo de Eliza nunca foi encontrado). Esse feminicídio tem como culpados também o Estado e todos os outros intermediários que da denúncia até as vias de fato, falharam miseravelmente em fazer a justiça que, pelo menos na norma, todas as mulheres têm direito.
Não há justiça para as mulheres. E não haverá justiça para as mulheres enquanto a polícia for incapaz de enxergar o mais flagrante indício de violência masculina para começar uma investigação e o judiciário precisar lidar com um caso de homicídio para reconhecer a urgência das nossas denúncias. Toda vez que eu sou relembrada pela mídia deste caso, sou relembrada também que a justiça para as mulheres é um artigo de luxo concedido a nós, com sorte, quando já estamos mortas. Me relembra também de Andrea Dworkin quando disse que “Nós não temos tempo. Nós, mulheres. Nós não temos para sempre. Algumas de nós não têm nem uma semana ou um dia a mais para que vocês tenham tempo para discutir o que quer que seja que faça que vocês vão para as ruas para fazer alguma coisa. Nós estamos muito perto da morte, todas as mulheres estão.”. E de que ela estava certa.

O goleiro Bruno, preso ou solto, não me interessa. Eu não acredito que algum tipo de justiça possa ser feita sobre este caso. Eu não acredito que algum tipo de justiça possa ser feito sobre o cadáver de qualquer mulher vítima de uma morte brutal e altamente evitável, pelo menos não no que consta no meu dicionário do significado de justiça. Algum tipo de justiça só será feita no dia em que as mulheres tiverem a possibilidade de serem acolhidas pelo Estado e saírem dessa experiência vivas para contar história. Até lá, nosso tempo está acabando e não há justiça alguma.

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.