A miséria do apoliticismo e as raízes de esquerda do anarquismo (Parte I) – Rafael V. da Silva

Os elementos problemáticos e o caráter incompleto da práxis teórica anarquista não encontram soluções numa mutação genética baseada na recusa da luta de classes ou num posicionamento, cheio de veleidades, para “além da direita e da esquerda”. Pier Francesco Zarcone

Porém, para aqueles que reivindicam ser de esquerda, deveria existir uma clara compreensão de que a utilização do termo “esquerda” envolve a aceitação de princípios fundamentais que, literalmente, definem e justificam a utilização da palavra. Murray Bookchin

            O filósofo Norbert Bobbio debatendo a validade em se usar os conceitos de esquerda e direita, afirma que “estes não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas ao universo político […] Representam uma determinada topologia política” (BOBBIO, 2011, p. 91). Isso quer dizer na prática, se é de esquerda sempre em relação ao que é de direita e vice-versa. Tendo em vista, que ser de direita ou de esquerda se traduz numa tomada de posição relativa a um universo político concreto, adotar (ou não adotar) determinadas posições num universo (como por exemplo, numa crise política num país) é se filiar às posições de esquerda ou de direita. Por isso, não existe nenhuma pessoa que seja “nem de direita, nem de esquerda” (mesmo que queira), porque a topologia é como um mapa. Você pode negar a sua posição espacial, mas isso não significa que você não está lá.

            Bobbio também chama atenção para o fato de que historicamente, a oposição esquerda versus direita se constitui por um lado, com aqueles que partem da “convicção de que a maior parte das desigualdades que o indignam, e que gostaria de fazer desaparecer, são sociais e, enquanto tal, elimináveis” e por outro, aqueles que acham que “as desigualdades são naturais e, enquanto tal, inelimináveis” (BOBBIO, 2011, p. 105). O anarquismo, claramente esteve ao lado do primeiro grupo e nas palavras do pesquisador Lucien van der Walt, “a ampla tradição anarquista teve um enorme impacto na história do movimento operário e camponês, bem como da esquerda em geral” (WALT, 2017, p. 83).

            Há certo consenso entre os historiadores e os cientistas políticos em identificar o surgimento da díade esquerda e direita dentro do processo da Revolução Francesa e sua busca, ainda em marcos muito limitados de igualdade política e social. É conhecida a história de que foi dentro da Assembleia Nacional Constituinte francesa que se inaugurou a posição entre aqueles que defendiam políticas mais próximas dos anseios populares e aqueles que defendiam interesses das camadas aristocráticas e burguesas, estas últimas, que ascendiam com sua agenda no cenário político francês.

            Numa reunião, ocorrida no Manège, um salão de reunião situado atrás do palácio de Tuileries, a configuração de Esquerda, Direita e Centro ocorreu devido à forma com que as cadeiras estavam organizadas. À esquerda do presidente da Assembleia, sentavam-se aqueles que defendiam direitos populares, à direita, conservadores, que desejavam o fim da revolução e ao centro, os que defendiam uma monarquia constitucional, com o poder do rei sendo limitado por leis feitas pela Assembleia. Cabe dizer que ainda não havia partidos na França, mas logo se formaram setores políticos com identificação própria.

            O Primeiro (clero) e o Segundo Estado (nobreza) estavam à direita do Terceiro Estado (alta e pequena-burguesia, camponeses e trabalhadores urbanos). O Terceiro Estado correspondia a mais de 80% da população; não era um bloco homogêneo e sua unidade se esfarelou devido às suas divisões internas e divergências de classe. Os san-cullotes, setor urbano que compunha o terceiro Estado, por exemplo, forneceu importantes quadros para os enragés, um setor popular que defendia um programa para atender os mais pobres, confisco do trigo, imposto para os ricos e outras ações radicais, que estavam à esquerda dos conservadores e dos jacobinos. Como apontado por Daniel Guerín:

Havia, de fato, no seio da Revolução francesa, dois tipos muito diferentes de revolução ou, se é preferido, duas variedades contraditórias de poderes, um formado pela ala esquerda da burguesia, outro por um protoproletariado (pequenos artesãos e assalariados). O primeiro estado autoritário, e até mesmo ditatorial, centralizado e opressivo contra os não privilegiados. O segundo estado democrático, federalista, composto daquilo que será conhecido hoje por conselhos operários, isto é, as 48 sessões da vila de Paris associadas na quadra da Comuna parisiense e as sociedades populares nas vilas de província(7). Não hesito em dizer que este segundo poder era em essência libertário, em alguma medida o precursor da Comuna de Paris de 1871 e dos soviets russos de 1917, ao passo que o primeiro foi batizado, mais somente depois do golpe, durante o século de XIX, jacobino. (GUERÍN, 1973)

            Portanto, a configuração de esquerda e direita não nasce apenas à partir da assembleia constituinte (embrião do Estado burguês), mas é fruto de discussões que a extrapolam e envolvem amplos setores da sociedade francesa. Achar que direita e esquerda são apenas conceitos que servem às disputas palacianas é ter uma visão restrita da sociedade e deste processo histórico na França. Apesar de Guerín ter sublinhado a presença de setores populares com projetos políticos mais libertários na Revolução Francesa cabe reforçar que não é possível estabelecer um marco de surgimento do anarquismo no século XVIII (CORRÊA, 2012, p. 63).

            O período posterior a Revolução Francesa e que se estende do Congresso de Viena (1815) a Primavera dos Povos (1848) é, portanto, de luta entre liberais e conservadores e o crescente afastamento dos trabalhadores da influência liberal. É o momento chave para a consolidação das bases materiais e ideológicas da formação do anarquismo. A Primavera dos Povos de 1848 espalhou-se por quase todo o continente europeu e modificou a cara do jogo político da classe dominante. Apesar do ímpeto dos trabalhadores naquele movimento de contestação, que reunia, também, pautas liberais e nacionalistas, 18 meses após sua explosão, todos os regimes que foram derrubados pelo processo insurrecional estavam restaurados, com a exceção do regime francês. Tais processos foram paulatinamente manobrados na direção dos interesses burgueses, que obtiveram o controle do movimento utilizando o apelo nacionalista. Assim constituiu-se um incipiente movimento operário e com ele, uma expressão política anti-burguesa e internacionalista que se afastava da mensagem jacobina de patriotismo. As posições políticas não são estanques e não estão engessadas no tempo. Assim, a burguesia, já com o controle de diversos Estados nacionais é jogada para a direita, pois interessava a esta, a manutenção da nova ordem social dos estados burgueses, enquanto os trabalhadores, à esquerda dos novos dominadores desejavam uma igualdade social real e se colocaram a favor da mudança da atual situação.

            Os trabalhadores e seu movimento organizado passam assim, a se posicionar contra os governos vigentes e pela ampliação dos direitos sociais, colocando-se, portanto, à esquerda dos conservadores e capitalistas. Segundo Guerín (1975), em 1840 ocorre uma greve geral em Paris e “durante os anos seguintes assistiu-se a um afloramento de jornais operários”. Será nos marcos da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 1864 que se expressa, um campo político de identidade própria e que superando os limites dos horizontes políticos da Revolução Francesa, já propõe no seu segundo congresso (1867), tranformar a AIT em “um centro de ação para a classe operária contra o capital” (SAMIS, 2015, p. 170). Definitivamente, se constituía um campo proletário e socialista, que reunia tradições mutualistas, coletivistas e comunistas, mas que guardadas às devidas divergências, possuíam acordos mínimos em comum a favor da obtenção da igualdade social e do fim do capitalismo. Ou seja, a discussão no interior do campo socialista era o da reorganização global da sociedade por uma via revolucionária. E quem fala em reorganização da sociedade, quer queira, quer não, está falando de uma discussão política.

            Quer gostemos disso quer não, “o anarquismo e o marxismo em seu início beberam na mesma fonte proletária: uma fonte de esquerda. E, sob a pressão da classe trabalhadora recém nascida, eles assumiram a mesma tarefa final”, para o autor, “suplantar o Estado Capitalista, confiar, os meios de produção aos próprios trabalhadores.” (GUERÍN, 1975). Inclusive, no terreno da linguagem, conceitos em comum também são adotados (alguns conceitos em disputa, outros não).

            Esse campo em comum, contrariando o otimismo de Guerín e sua posterior tentativa fracassada de síntese entre marxismo e anarquismo, não foi constituído sem divergências internas. É óbvio que havia divergências, mas todos se sentiam parte de um mesmo campo comum, um mesmo terreno socialista porque lutavam com base no terreno da classe trabalhadora. Foi dentro deste campo político – socialista e operário – que se constituiu o que hoje denominamos anarquismo. O anarquismo, portanto, nasce à esquerda, socialista e libertário ou nas palavras de Kropotkin em seu clássico verbete para a Enciclopédia Britânica

Quanto às suas concepções econômicas, os anarquistas, em comum com todos os socialistas, dos quais constituem a ala esquerda, sustentam que o sistema atual de propriedade privada na terra e nossa produção capitalista em prol dos lucros representam um monopólio que funciona contra os princípios da justiça e os ditames da utilidade. KROPOTKIN, 1910, tradução nossa.

 

            Uma análise etimológica do termo “anarquia” e de seus derivados só pode apontar para uma negação – do governo, do Estado, da autoridade –, ou seja, para elementos “destrutivos”, de crítica social; o anarquismo, entretanto, sempre possuiu elementos construtivos, objetivos e estratégias para atingi-los. Esses elementos foram determinados historicamente e não a obra da cabeça de “sete sábios”. Por isso, tentar entender o anarquismo à partir da simples etimologia (significado da palavra) é algo que pode gerar distorções brutais. Por isso precisamos sempre recorrer aos significados em seus contextos históricos e concretos. É possível entender o cristianismo, ou o marxismo apenas analisando o que a palavra quer dizer?

Nenhuma etimologia explica o nascimento e a trajetória de uma ideologia. É no movimento concreto, onde os conceitos são forjados e sua posterior trajetória que entendemos seu significado.

            Foi somente a partir dessa cisão e da fundação, em 1872, da Internacional Antiautoritária, uma associação popular e operária que reuniu a maior parte dos anarquistas europeus, que o termo “anarquia” e seus derivados passaram a ser utilizados mais constantemente pelos próprios anarquistas. Mikhail Bakunin e James Guillaume, conforme apontam Marianne Enckel (1991, p. 199 apud Corrêa; Silva, 2013.) e René Berthier (2010, p. 127 apud Corrêa; Silva, 2013), tiveram reticências em relação à utilização do termo “anarquista”, justamente por razão do senso comum que existia em torno dele.

            Insistimos. O surgimento do anarquismo está ligado indissociavelmente à própria trajetória do socialismo e das lutas operárias. Não se pode falar de anarquismo – por rigor histórico – antes das lutas que culminariam na formação do sindicalismo de intenção revolucionária e da Associação Internacional dos Trabalhadores. O anarquismo nasce socialista, libertário e à esquerda de capitalistas, conservadores e aristocratas. Lucien van der Walt sublinha que mesmo autores que trabalham com definições extremamente vagas de anarquismo reconhecem que o anarquismo não existia antes de 1860 (WALT, 2013, p. 3).

            O anarquismo, portanto constitui um tipo de socialismo caracterizado por um conjunto preciso de princípios político-ideológicos, que inclui a oposição ao Estado, mas que não se resume a ela (CORRÊA, SILVA, 2013). O anarquismo nasce rejeitando variadas teses marxistas (como a tomada do Estado e ação parlamentar), mas concorda com a crítica ao capitalismo, o anti-capitalismo e a necessidade de uma revolução social violenta para mudar radicalmente a sociedade.

            A emergência, difusão e conformação plena do anarquismo ocorreram, segundo pesquisas, no intervalo de menos de 20 anos, compreendido entre 1868 e 1886. Portanto, o anarquismo não é um espírito anti-autoritário presente em diferentes contextos históricos ou uma orientação anti-estatal vaga que se estenderia até a antiguidade. Essa definição (frouxa) não é apenas pouco rigorosa historicamente, é certamente cômoda para quem acha que o anarquismo se expressa simplesmente negando os autoritarismos presentes na sociedade, algo semelhante a uma filosofia de vida pessoal.

            A emergência do anarquismo pode ser localizada historicamente não porque os historiadores assim desejam, mas porque é justamente neste momento, que esse fenômeno se consolida e pode ser identificado mais claramente.

            Neste período, o anarquismo se estabeleceu não somente na Europa ocidental, mas também na América no Norte, na América Latina e no norte da África. Suas principais fortalezas estavam nos seguintes países: Cuba, Egito, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México, Portugal, Suíça e Uruguai. Os trabalhadores organizados em suas associações operárias se contrapunham a uma burguesia também, cada vez mais organizada. Foi nesse universo que o termo anarquismo passa a fazer sentido e posteriormente passa a ser alvo do primeiro estudo acadêmico.[1] Segundo o pesquisador Benedict Anderson o anarquismo e o sindicalismo “foram o elemento dominante da esquerda radical internacionalista e autoconsciente” assim como o “principal veículo de oposição global ao capitalismo industrial, a autocracia, ao latifundiarismo e ao imperialismo”. Falar em anarquismo durante todos os primeiros anos da década de XX era falar de movimentos da classe trabalhadora urbana e minoritariamente, de movimentos camponeses, não de um estilo de vida pessoal de profissionais liberais.   Falar em esquerda revolucionária, ao menos no período de tempo que vai do final do século XIX até a Primeira Guerra mundial era, segundo este historiador, falar de anarquismo, sindicalismo revolucionário e anarco-sindicalismo. Muito, portanto, do que consideramos uma linguagem de esquerda, nasce indissociavelmente ligada à uma prática concreta, cuja participação anarquista foi determinantemente decisiva e não marginal.

            Uma mudança importante se dá com a organização da chamada II Internacional em 1890. Apesar do seu pluralismo doutrinal, esta internacional, já com os anarquistas excluídos de sua participação, institui a ação em partidos socialistas e operários que visam a ação parlamentar. O socialismo assim passa também a significar não apenas a luta pela igualdade e luta anti-capitalista, mas também um conceito que envolvia para alguns, uma instância de disputa eleitoral e de pretensa representação de classe. A ação da II Internacional, portanto, traz uma disputa de significados dentro do socialismo.

            Errico Malatesta, num artigo escrito em 1896 (e em subsequentes artigos) irá debater a confusão existente quando se emprega a palavra socialismo e anarquia como termos antagônicos. Segundo o anarquista italiano “socialismo e anarquia são termos que não são nem opostos nem equivalentes, mas estreitamente ligados um ao outro”. Entendendo-se como socialista, mas dentro deste campo, anarquista, Malatesta também reafirmará (distinguindo-se de outras variantes do socialismo), que “o socialismo de Estado parece-nos impossível” (MALATESTA, 2014, p. 50). O revolucionário italiano, portanto, não rejeita o anarquismo como parte constitutiva do socialismo (e portanto, da esquerda), mas decide disputar o conceito (o que horrorizaria alguns puristas), retomando os significados anteriores, constituídos pela ação sindicalista e anarquista dos anos precedentes.

            Havia uma preocupação constante dos anarquistas em se distinguirem dos marxistas. Esta preocupação se aprofundará especialmente depois da Revolução Russa – em específico com os desdobramentos das perseguições bolcheviques aos anarquistas – quando os anarquistas passam a adotar um vocabulário mais prudente. Não é ocasional que os anarquistas passem a utilizar menos a palavra socialismo e comunismo, sempre com a preocupação de se diferenciarem do comunismo russo, o que implicou, em acrescentarem sempre o adjetivo libertário depois dos dois termos.

            Durante o período de hegemonia do estalinismo no movimento operário e de caça às bruxas das democracias capitalistas, insufladas pelo anti-comunismo e perseguições nos governos estalinistas, os anarquistas procuram revigorar sua ideologia do ponto de vista prático e teórico. Certamente rejeitaram a ditadura do proletariado e os autoritários governos estalinistas, mas não deixaram de afirmar seu próprio programa político e lutarem de acordo com o que a realidade lhe impunha.

            Defendemos a hipótese de que aqueles que consideram o anarquismo como algo que não é nem de esquerda nem de direita precisam recorrer a uma visão profundamente superficial da história do anarquismo ou ignorar períodos cruciais para sua militância com o intuito de borrar a larga tradição classista do anarquismo. Segundo o pesquisador Lucien van der Walt, o “movimento certamente recuou a partir dos anos 40, mas continuou a ser relevante em muitos outros contextos, que incluíram a Bulgária e a Itália posteriores à Guerra” (WALT, 2017, p. 108). Os anarquistas participarão de sindicatos e oposições sindicais nos anos 40 e 50, em Cuba, Argentina, Brasil, Bolívia, Uruguai, França, Inglaterra etc. Em 1951 é refundada a Internacional Sindicalista (de 1922), com delegações operárias da Alemanha, Argentina, Áustria, Bulgária, Cuba, Dinamarca, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Holanda, Noruega, Portugal, Suécia etc. (CORRÊA, 2012, pp. 234-235). A situação dos sindicatos certamente era diferente das anteriores. Mesmo com a burocratização, os anarquistas não se deixaram levar pelo sectarismo e atuaram onde e como puderam. Longe de purismos – cômodos para aqueles sem prática concreta ou candidatos ao título de shaolins libertários – fundaram uma tendência sindical com socialistas independentes em 1959 (no RJ e SP) e albergaram solidariamente emigrados de distintas concepções políticas durante a década de 40 e 50.

            Menos significativa que a “onda” anterior, a quarta onda do anarquismo, longe de ter se deslocado para longe de um eixo classista é marcada pela participação anarquista em processos de luta armada, experiências guerrilheiras e/ou insurrecionais na Espanha, Uruguai, Argentina, Alemanha, Inglaterra, Itália, Grécia e França (CORRÊA, 2012, p. 235). Nesse período – em que pese dificuldades de acesso a todas as experiências históricas – ao que tudo indica, promoveram a violência revolucionária a partir de movimentos de massa e sindicatos estabelecidos.

            O Maio de 1968 francês – erroneamente destacado como uma simples revolta estudantil, quando na verdade reuniu 10 milhões de assalariados em greve – e seus congêneres ao redor do mundo, foi de fato um acontecimento importante não só para o anarquismo, mas para a esquerda em geral. Trouxe um revigoramento das energias revolucionárias aprisionadas pelo estalinismo, assim como no plano teórico trouxe uma renovação importante (ainda que com alguns problemas).

            Experiências sindicais de massa com intensa participação anarquista também são relevantes, como a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) espanhola, que entre 1977 e 1978 teve 300 mil membros e sofreu diversas cisões à partir de então.

            Apesar de todas essas experiências de massa e com raízes na classe trabalhadora, a mitologia entre um “velho” e “novo” anarquismo foi reforçada por diferentes intelectuais (e apropriada comodamente pelos que ansiavam por um anarquismo “light”), muitos destes oriundos das fileiras do Maio de 1968 francês e que ignoraram a presença classista e ativa dos anarquistas nos movimentos sociais e sindicais da década de 50 e 60. Parecia então, que o classismo anarquista e seu enraizamento nas lutas sindicais e de massa eram coisa do passado. A imagem dos anarquistas como guardiões da memória, meros editores de jornais ou faxineiros de biblioteca (ainda que todas essas coisas tenham sua importância) caía bem para aqueles que renegavam o aspecto essencial da história do anarquismo. A grande questão é que ela não era totalmente verdadeira, ao menos no período que se estende nas décadas de 40, 50 e 60. Para não cansar o leitor, citarei apenas duas experiências que contrariam essa imagem: a mais longa greve da história da Argentina, realizada em 1956, pela Federação dos Operários em Construção Naval (FOCN) – que durou 1 ano – e o anarquismo búlgaro em armas.

            Parte dos intelectuais que surgiram no contexto do Maio de 68 ignoraram os movimentos de massa onde estiveram ativos os anarquistas e se concentram em determinados autores e intelectuais (alguns obscuros) para justificar uma ruptura entre um “velho” e um “novo” (ou pós) anarquismo. A escassez ou a dificuldade de difusão de trabalhos históricos sobre o anarquismo dos anos 40 a 70 contribuiu para aprofundar essa ideia de que era necessário abandonar qualquer perspectiva classista, já que supostamente, o anarquismo tinha se divorciado da luta de classes e isso não teria mais volta. A ignorância sobre a sua própria história, fez com que parte dos anarquistas cortasse voluntariamente, o fio condutor que os ligava a geração precedente. Tal procedimento causaria ainda mais problemas, pelo fato de que uma ação política efetiva necessita da reflexão histórica para poder apontar os limites e possibilidade dos processos políticos coletivos.

Leia a parte II aqui.

[As referências estão publicadas na segunda parte do artigo]

[1] Segundo Corrêa (2012) o primeiro estudo acadêmico sobre o anarquismo foi realizado por Paul Eltzbacher, em 1900.

Artigo revisado (pequenos erros gramaticais e de digitação) em 16/04/2018.

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Rafael V. da Silva

Professor de História.

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