A nova vida de Murray Bookchin

Por Damian White  , originalmente publicado na Jacobin Magazine

Murray Bookchin passou cinquenta anos articulando um novo projeto emancipatório, um que colocaria a ecologia e a criatividade humana no centro de uma nova visão de socialismo.

Eis um pensador que, no início dos anos 60, declarou as mudanças climáticas como sendo um dos problemas definidores da época. Bookchin via a crise ambiental como sendo o coveiro do capitalismo.

Mas ele também insistiu que devemos continuar alertas a possiblidades de pós-capitalismo, que podem surgir de dentro do capitalismo. De “tecnologias liberatórias” de renováveis a desenvolvimentos em “miniaturização” e automação, combinadas com formas mais amplas de reorganização social e política, podem abrir possibilidades sem precedentes para a autogestão e abundância sustentável.

Nos anos 70 e 80, Bookchin sugeriu que, um ambientalismo obcecado com a escassez, austeridade, e a defesa da “natureza pura”, não chegaria a lugar algum. O futuro se encontrava em uma ecologia urbana social, que leva em conta a preocupação das pessoas em ter uma vida melhor, e podemos articular isso na forma de uma nova visão republicana de política e uma nova visão ecológica das cidades.

Nos anos 90, no ápice do pós modernismo, Bookchin argumentou que uma Esquerda que reduz a modernidade e o humanismo a uma caricatura, se tornaria ativamente reacionária.

Ele morreu em 2006, politicamente isolado e resignado com a falha de seu projeto.

Uma década depois, Bookchin parece estar em todo lugar, desde a revista The New York Times, até a Financial Times. De repente, citar o nome desse revolucionário esquerdista é todo o discurso de ódio na maioria das publicações convencionais. Porque será que isso acontece?

Caos no Oriente Médio, particularmente a defesa da zona autônoma em Bakur, Rojava, e as regiões no sudeste da Turquia, por parte dos lutadores Curdos, é particularmente responsável pela atual enchente de atenção da mídia convencional.

Abdulah Öcalan, o líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), rompeu com o Marxismo-Leninismo em 2004 e se declarou um seguidor de Bookchin. Öcalan, subsequentemente argumentou que, o sistema de confederação de democracias participativas, proposto por Bookchin, fornecia a base de um novo modelo de modernidade democrática para além das Nações-Estado: não somente para os Curdos, mas para a região em geral.

O aumento na popularidade de Bookchin, no entanto, precede Öcalan e os Curdos.

É o “Bookchin ecologista social” que retornou às discussões ambientais, particularmente a luz de debates sobre “o antropoceno”.

Bookchin antecipou muito dessa discussão a trinta anos atrás. Em um debate ingrato que ele teve com vários “ecologistas profundos”, argumentou que nós devemos reconhecer o quanto a história social e a história natural se tornaram profundamente emaranhadas.

Ele também sustentava que, a tendência generalizada de se culpar um “anthros” genérico, por causa de uma crise ambiental gerada pelo capitalismo era completamente enganadora. Uma ecologia social deve rejeitar a visão misantrópica de que, os humanos são “degradadores ambientais” inerentes, e afirmar o nosso papel como administradores criativos da Terra.

Talvez o mais surpreendente, tenha sido a maneira com a qual Bookchin surgiu como um ponto de referência chave, na tentativa contínua de se tentar entender o cenário político do pós Occupy.

A visão de Bookchin, que a democracia urbana deve ser revitalizada através do modelo de assembléia popular, levou seus apoiadores anarquistas a declarar que ele quase antecipou as formas políticas que o Occupy procurava defender.

Em contrapartida, um crescente números de devotos Marxistas argumentam que foi “Bookchin, o ex anarquista” que dá uma boa ideia do porque o Occupy murchou e sumiu. Eles observaram que seus últimos escritos são crescentemente críticos às tomadas de decisões orientadas por consenso. Bookchin acreditava na construção de assembléias populares, mas, contra muitos dos anarquistas do Occupy, ele também acreditava em liderança política e em mobilizar o público através de um número claro de demandas.

Então, qual é o Bookchin que poderia ser mais útil para o nosso momento político atual? Existem quaisquer fundamentos para se acreditar que seus textos podem realmente oferecer maneiras de pensar, para além dos “Vermelhos”, “Pretos” e do “Verde”?

Ecology Or Catastrophe: The Life of Murray Bookchin (Ecologia ou Catástrofe: A Vida de Murray Bookchin), uma nova biografia por Janet Biehl (colaboradora, co escritora, editora e parceira de 20 anos de Bookchin), fornece um ponto de partida produtivo para se considerar o legado de Bookchin.

 

Vermelho, Preto e Verde.

 

Em seu livro meticuloso e frequentemente tocante, Biehl demonstra que uma das razões pelas quais Bookchin atraiu e perdeu tantas audiências diferentes ao longo de sua longa vida acadêmica, é porque a sua história política teve seu apogeu e queda juntamente com a esquerda política do século XX: ele participou da “velha esquerda”, da nova esquerda, da esquerda verde e no impasse final do socialismo no século XX.

Murray Bookchin nasceu em 1921, de imigrantes Russos Judeus, forçados a emigrar para o Bronx como resultado da falha revolução de 1905. Sua avó radical, que fora membro dos Social Revolucionários na Rússia, teve um importante papel em sua criação.

Criado em uma casa onde retratos dos assassinos de Rosa Luxemburgo e do Czar Alexandre adornavam as paredes, Bookchin se lembrava de que, quando criança, sabia mais sobre os revolucionários Russos do que sobre Robin Hood. Ele perdeu sua amada avó quando tinha 10 anos, seu pai o abandonara, ficara somente ele e sua mãe, que, conta Biehl, era desorientada na maior parte do tempo. A vida havia ficado dura.

Biehl pinta uma vívida imagem da era da Depressão em Nova York. Bookchin e sua mãe eram quase indigentes por um período, dependiam das cozinhas de sopa, enquanto alternavam entre apartamentos alugados e as ruas. As vizinhanças de imigrantes do Bronx, ricamente articuladas e profundamente politizadas, juntamente com o Partido Comunista, salvaram o jovem Bookchin.

A organização de jovens, CPUSA, lhe deu estrutura, foco, uma educação política e uma sustentação em um mundo caótico. Enquanto adolescente, ele vendia o jornal Daily Worker nas esquinas do Bronx, falava em reuniões abertas em Crotona Park, e participou das greves de aluguel.

Depois do ensino médio, Bookchin encontrou trabalho como nas indústrias de fundição e automobilísticas. Ele também era um ativista do sindicato dos trabalhadores, participando como chefe de informações e organizando passeatas.

Mas a Frente Popular, os julgamentos de Moscou e o pacto Nazi-Soviético, combinados com o que ele percebia como sendo uma falta de consciência revolucionária entre os trabalhadores americanos, o desiludiu. Como muitos na esquerda intelectual, Bookchin deixou o CPUSA pelo Trotskismo e pelo Partido Socialista dos Trabalhadores.

Foi lá que Bookchin conheceu o imigrante alemão e intelectual socialista, Josef Weber. Weber tinha se alistado no Partido Comunista Alemão enquanto Rosa Luxemburgo ainda estava viva e trabalhava para um jornal parisiense que Trotsky elogiava. Ele apareceu na cidade de Nova York no início dos anos 40 com uma maleta de livros sobre Marx, Hegel, teoria crítica e idealismo alemão, além da crença de que o capitalismo estava em declínio terminal.

Bookchin rapidamente se tornou seu estudante, pesquisador, seu substituto e por fim, seu protegido. Juntos, eles romperam com o Partido Socialista dos Trabalhadores no final dos anos 40, e formaram o jornal, Contemporary Issues (problemas contemporâneos) com outros esquerdistas.

O Contemporary Issues estava comprometido em repensar o projeto socialista ao longo de “linhas democráticas”. Como resultado, ele foi afiadamente crítico com tanto os Estados Unidos quanto com a União Soviética. O jornal procurava mapear um socialismo independente e humanista. Bookchin escreveu para o jornal ao longo dos anos 50, sobre todos os tipos de temas políticos.

Foi no “The problems of Chemicals in Food” (o problema dos químicos na comida), um artigo escrito por Bookchin e publicado em 1952, onde ele primeiro argumentou que os problemas ambientais, podem agora constituir o lugar onde as contradições fundamentais do capitalismo estão se apresentando.

 

Contracultura Ecológica.

 

Os anos 60 viram Bookchin surgir como o advogado de uma ecologia social. Our Synthetic Environment (Nosso Ambiente Sintético, livro lançado por Bookchin seis meses antes do revolucionário Silent Spring, de Rachel Carson, de 1962), fez a declaração que a abundância do pós guerra estava sendo sustentada pela degradação ambiental generalizada.

Crisis in Our Cities (Crises em Nossas Cidades, 1965) sugeriu que as crises do ambiente urbano estavam intimamente relacionadas com as crises do ambiente natural. Ambos livros argumentam que sem uma reorganização fundamental da sociedade, nenhum desses problemas seria resolvido.

Esses projetos não  armazenaram a atenção do público ou a aclamação acadêmica que livros como o One Dimensional Man, de Marcuse. Mas os ensaios chave – como o “Ecology and Revolutionary Thought” (1964) e  “Towards a Liberatory Technology” (1965) – circularam amplamente através da imprensa alternativa dos Estados Unidos.

Em outros lugares, essas intervenções eram recebidas ocasionalmente com completa incompreensão; os Situacionistas jocosamente se referiram a Bookchin como “Smokey the Bear” (personagem Estadunidense que conscientiza as crianças sobre o perigo de incêndios nas florestas) quando se encontravam na Europa. No entanto, ele gradualmente encontrou uma audiência no lado mais radical da contracultura.

As políticas da nova esquerda fervilhavam no final dos anos 60. Mas Bookchin continuava escrevendo livros e artigos, e o corpo de seu trabalho atraíra atenção suficiente para lhe garantir uma posição acadêmica. De fato, como observa Biehl, ele ascendeu a cadeira de professor sem ter tido um diploma do ensino médio. Esse “trabalho mundano” deu a ele estabilidade para perseguir projetos de fora da academia.

Bookchin fundou o Instituto pela Ecologia Social no início dos anos 70, em Vermont, com o antropologista Dan Chordokoff. Como Biehl sublinha, no que é provavelmente a parte mais viva e otimista do livro, que o IES era mantido com quase nada, mas se tornou um eixo central para toda sorte de professores carismáticos e sonhadores utópicos.

No seu auge, aproximadamente 300 radicais intelectuais, ativistas, artistas e tecnólogos vinham estudar com Bookchin e participar do programa de verão de 3 meses da escola.

O IES ofereceu alguns dos primeiros cursos do país sobre urbanismo e ecologia, tecnologia radical, ecologia e feminismo, arte ativista e comunidade. Realmente não havia nada como aquilo.Os estudantes liam teorias críticas, estudavam a história das assembléias populares e experimentavam com a aquacultura urbana ou coletores solares.

O IES também se tornou o centro de uma onda de ativismo político que varreu o país nos anos 70 e 80: John e Nancy Todd faziam experiências com máquinas vivas e sistemas de produção de ciclo fechado, no New Alchemy Institute em Massachusetts (antecipando programas de pesquisas subsequentes na Ecologia Industrial); Karl Hess e David Morris testaram a democracia de bairros e autogestão em DC; Ynestra King e Chiah Heller fizeram muito para instigar o debate em torno dos contornos de um ecofeminismo social.

Tudo ensinado na IES em pontos diferentes. Relações longevas também foram construídas entre o IES e radicais de Porto Rico em Nova York. Chino Garcia e seu grupo de CHARAS eram visitantes regulares em Vermont, enquanto eles exploravam várias estratégias de desenvolvimento comunitário de baixo para cima, e ajustes socioecológicos em suas vizinhanças no Lower East Side.

Mas enquanto os panoramas políticos são vários e efervescentes nos primeiros três quartos do Ecology or Catastrophe, é chocante como eles se contraem na seção final do livro.

 

Desencanto

 

No final dos anos 80, e durante os anos 90, Bookchin e Biehl se dedicaram a apoiar uma política confederada municipalista, focada na assembléia popular. Panfletos e livros jorraram de sua pequena casa em Burlington, Vermont, que procuravam convencer os não iniciados e a fazer batalha com os céticos.

Ecologia ou Catástrofe, detalha numerosos momentos críticos, quando esse projeto político pareceu ganhar alguma força. O advento de movimentos urbanos, como o Movimento dos Cidadãos de Montreal, no Canadá; movimentos pela democracia de bairro na Espanha, Grécia e Noruega; e o socialismo municipal na Grã Bretanha, todos pareceram ter algum potencial em diferentes pontos da linha do tempo.

Biehl documentou como Bookchin passou um bom tempo nos anos 80 dialogando com as seções de esquerda dos Alemães Verdes. Ele tentou convencê-los, sem sucesso, que o caminho parlamentar era uma rua sem saída, e que seria melhor se eles perseguissem uma alternativa municipal confederada.

De volta a casa, em Burlington, ele bateu boca com Bernie Sanders. Ambos tentaram construir um tipo de força política que teria algum poder latente: the Left Green Network, the Burlington Greens, the Social Ecology project, The Communalist Project ( A rede da Esquerda Verde, Os Verdes de Burlington, o projeto Ecologia Social, o projeto Comunalista)…

Cada momento tremeluziu e se apagou. Os tempos estavam fora de sincronia. Biehl também reconhece que nunca foi muito fácil de se trabalhar com Bookchin. Ele tinha uma visão singular e não podia comprometê-la.

Em seus últimos anos, doença, derrotas políticas, polêmicas sem fim, e batalhas com uma crescente lista de inimigos políticos, deixaram Bookchin exausto. O dinheiro estava apertado, mas mais do que qualquer coisa, Bookchin estava profundamente desapontado com a regressão política que via ao seu redor.

A popularidade de um pós modernismo irracional na academia era uma coisa, mas a explosão de formas completamente irracionais de ecologia e anarquismo, partiu seu coração. Ele rompeu com o anarquismo em 2002 e começou a referir a si mesmo com um comunalista ou um socialista.

Bookchin e Biehl, em seu projeto final juntos, embarcaram em uma releitura de quatro volumes, das tradições revolucionárias, que pretendia retornar as lutas por democracia popular, para seu lugar central na história revolucionária. Isso o manteve vivo, deu a eles um projeto comum para se trabalhar; mas política e pessoalmente eles estavam se afastando.

Bookchin manteve um comprometimento militante com as tradições revolucionárias e com o municipalismo confederado até o final. Biehl revela que ela, ao menos, abandonou a esperança. Ela voltou a ser uma “social democrata”, a visão política que ela defendia antes de conhecer Bookchin.

 

Uma nova audiência.

 

O que a esquerda do século 21 pode aprender com Bookchin?

Bookchin acertou em muitas coisas. Seus escritos sobre crise capitalista e ecologia, a promessa de eco tecnologias liberatórias, as novas formas de prazer e lazer que uma reorganização racional, social e ecológica poderiam fornecer, foram importantes e trouxeram epifanias.

Socialistas com viés ecológico ainda podem aprender deste chamado por uma ecologia urbana, que expande os reinados da liberdade, autogestão e mudança técnico-social.

Nós precisamos de formas de urbanismo ecológico e reestruturação eco tecnológica que visem mais do que resultados tecnocráticos de baixo carbono. Como Bookchin dizia, nós devemos aspirar a formas sócio técnicas que, na medida do possível, retornem um senso de “senso de si mesmo e competência” para uma “cidadania ativa”.

Ecologia ou Catástrofe, de Biehl, também é importante no sentido de que, sublinha como o Instituto de Ecologia Social, no seu ápice, colocou em prática uma política ecológica e criativa, que se mostrou um desafio direto às pressuposições ideológicas do ambientalismo Malthusiano.

Artes públicas, experimentos coletivos em ecodesign e tecnologia; tentativas de se cultivar sistemas participativos de inovação social, urbana, cultural e comunitária; uma política ecológica de prazer, podem ser ridicularizados pelos puristas.

Mas é impressionante o quanto a política apocalíptica da esquerda ecológica contemporânea está distante desse projeto. A ideia de que nós podemos não aspirar a simplesmente diminuir nosso rastro ecológico, mas a criar um rastro ecológico melhor, parece ter desaparecido completamente.

Mas a biografia de Biehl também serve como lembrete de que o projeto de Bookchin vem com muitos problemas não resolvidos.

 

Social e Trabalhista

 

O desejo de Bookchin de evitar o reducionismo de classe era importante, assim como sua ênfase em uma política que alcance as pessoas fora de seus ambientes de trabalho. Mas seu desejo de evitar o trabalhismo vulgar era muito radical – o trabalho desaparece da sua ecologia social.

Nós podemos, ou não, estar indo em direção a uma nova onda de automação pós-industrial, nas economias avançadas. Ninguém realmente sabe. O que nós sabemos é que, no aqui e agora, o local de trabalho continua sendo um local crítico de exploração, vigilância e enorme falta de liberdade.

Como o Fight for $15 nos lembrou, o ambiente de trabalho continua sendo um local chave para se mobilizar pessoas, por melhores termos e condições, que podem então, levar a futuras lutas por mais autonomia e autogestão tanto dentro, como fora do ambiente de trabalho. (O Fight for $15, ou lute por $15, é um movimento estadunidense que se iniciou em 2012, quando 200 trabalhadores do ramo de fast food saíram de seus postos de trabalho para exigir um salário de 15 dólares por hora, além de direitos trabalhistas, na cidade de Nova York. N. do T.)

O modelo de assembleia popular tem uma longa e nobre história dentro da esquerda. Ele continua a inspirar mobilizações políticas da Argentina à Rojava. Mas questões críticas permanecem, no que diz respeito a, o quanto uma estratégia focada em uma assembleia de bairros, sozinha, pode alcançar, e como essas formas vão se relacionar com outros locais e camadas de atividade política.

O dilema é bem simples. Se as assembleias de bairros fizerem muito pouco, elas se tornam sem poder e sem propósito, mas se elas prometem muito, é uma receita para uma política disfuncional e engarrafada.

Bookchin favorecia uma visão maximalista e ele achava que uma estrutura de governo confederada poderia “passar quaisquer amarrotados”. Existem razões para se acreditar que, a não ser que projetos para se reconstruir robustas democracias urbanas se tornem mais diferenciados, multi escalonados – e claramente conectados a projetos para construir a democracia industrial no local de trabalho, a democracia cultural na vida mundana, e a batalhas políticas em andamento para defender, expandir e transformar o Estado administrativo – políticas municipais podem facilmente falhar.

Sem uma política complexa que avance em muitas frentes, assembleias de bairros podem facilmente se tornar políticas que são ocupadas pelos descompromissados e ricos de tempo. Pessoas que estão trabalhando 50 horas por semana e têm que equilibrar o cuidado de crianças e idosos, não terão voz.

A mudança do foco na ecologia social, de produção “comunidade” também levanta sérias preocupações. Se atentar a preocupações locais sobre o social e o ambiental, tem seu valor. Experiências comunitárias, para desenvolver diferentes formas de ecologias sociais participativas locais, podem construir solidariedade cívica e competências.

Mas nós também sabemos que todos esses projetos vêm com políticas complicadas de classe/gênero e raciais. Também é justo apontar que soluções comunitárias para problemas complexos, tanto locais, quanto globais – desde a produção de comida até a manufatura de bens – podem rapidamente atingir limites superiores.

Mais uma vez, tratando do trabalho como local crítico para se entender o metabolismo entre “sociedade” e “natureza”, se torna criticamente importante aqui. O processo de produção, é um local onde contradições sócio-ecológicas, de local a global, se põem em evidência, e onde as tendências universalizantes de conectar as pessoas, materiais, não-humanos e múltiplas ecologias diversas, em vastas cadeias de mantimentos, se tornam mais aparentes.

O trabalho também é um local crítico onde, alianças trabalhista-ambientais alternativas possam ser reconstruídas, que impulsionem trabalhos verdes, de propriedade dos trabalhadores, cooperativas sustentáveis, reestruturação eco-industrial, e “simples transições”, ao redor do globo.

De fato, é através da construção dessas cadeias trabalhista-ambientais, coalizões e solidariedades que, a geografia espacial de uma visão mais multicamadas e diferenciada, de um futuro sustentável, possa vir mais claramente à tona.

 

Tecnologia e Ecologia Urbana

 

Questões sobre a política de escalas também cercam a visão de Bookchin sobre o futuro do urbanismo e tecnologia

As possibilidades de se construir uma política de “tecnologias liberatórias” que têm potencial para contribuir para o autogerenciamento, claramente se expandiram para muito além da paleta de distribuição de renováveis, miniaturização mecânica, e automação, que excitaram o Bookchin dos anos 60.

Produção de pessoa para pessoa, softwares abertos, fabricação digital, propostas para plataformas cooperativas, economias circulares, ecologias industriais, e por aí vai, podem todos contribuir para a visão de uma tecnocultura sustentável alternativa, do futuro.

No entanto, muitas dessas mesmas tecnologias que proclamam aumentar as possibilidade de autonomia e auto organização, em dada escala espacial, podem muito bem ser dependentes de infraestruturas centralizadas, instituições de pesquisas, formas de especialidades, e uma complexa divisão de trabalho, em outra escala espacial.

Mais ainda, as coisas para se fazer painéis fotovoltaicos e celulares, turbinas e sistemas de armazenamento de energia, não crescem em árvores. São cavados do solo em alguns lugares, e despejados fora das vistas em outros lugares.

Nesse quesito Bookchin está certo. Nós vamos precisar ecologizar e democratizar nossos mundos urbanos. Estratégias para construir um futuro urbanista equitativo e participativo, marcado por moradias públicas luxuosas e sustentáveis, requintados parques e jardins públicos, novas maneiras de mobilidade sustentável, e espaços e bens públicos compartilhados de alta qualidade, quase certamente terão de combinar estratégias de baixo para cima e de cima para baixo. Assembleias de bairros de baixo para cima podem ser vitais, mas ganhar o poder público sobre investimentos, decisões e demandas  por bancos de investimentos populares, regionais ou nacionais, também é crítico.

Assegurando o que Mumford chamou de “a arte de se fazer cidades”, seja uma arte pública, ao invés de um segredo privado, também pode requerer algo a mais do que chamadas de democracia urbana face-a-face, ou um retorno da tecnocracia da esquerda, fundamentada no “mamãe sabe o que é melhor”.

Nós precisamos construir diversos fóruns, onde “experts em se fazer cidades” (planejadores, paisagistas, arquitetos, designers, etc.), são colocados em diálogos constantes com “experts em se viver em cidades” (ou seja, públicos com sabedoria e preparados para lidar com a difícil tarefa de envisionar futuros urbanos alternativos). Disso, poderiam surtir meios muito mais frutíferos de se pensar sobre o design democrático.

As escalas liberatórias mais amplas, de nossa futura paisagem urbana e rural, vão ser mais bagunçadas, complicadas, e pobremente capturada pela binária, “descentralização = bom”, “centralização = ruim”. Em muitos casos, a densificação de nossas cidades existentes, subúrbios e exúrbios (áreas ainda mais afastadas dos centros urbanos que os subúrbios), serão muito mais importantes para um futuro com baixas emissões de carbono, do que encorajarmos os tipos de cenários descentralizados idealizados por bookchin.

 

Redução de escala, aumento de escala.

 

É a mudança climática que apresenta a questão política mais premente, no que diz respeito às formas de ecologia social, que poderiam construir um futuro socialmente justo e ecologicamente são.

Bookchin, merece um crédito enorme por ter sido uma das primeiras vozes radicais a insistir que, a esquerda deve se mobilizar em torno da mudança climática. Hoje devemos cortar a emissão de gases estufa em até 90%, em talvez 50 anos, enquanto garantindo que mais do que 9 bilhões de pessoas tenham acesso à vida boa.

A tarefa é monumental. A resposta liberal tecnocrática padrão a esse desafio, focou toda a atenção na importância de se descarbonizar nossas fontes de energia. Mas isso não é o suficiente.

Nós devemos construir uma nova infraestrutura de energias pós-carbono, eletrificar e diversificar os transportes, encontrar novas maneiras de se viajar e enviar bens, e desenvolver materiais de construção vastamente mais eficientes, em escalas continentais.

Áreas costeiras, em muitos lugares, terão de ser mais resilientes e robustas, reposicionadas, e talvez deslocada para outro lugar ou mesmo abandonadas. Padrões de consumo, com premissas em um modelo de consumo do “berço ao túmulo”, terão de ser superadas por ecologias sociais justas e sustentáveis, que vão nos levar da quantidade para a qualidade, de propriedade à acessibilidade, da obsolescência programada para bens duráveis de alta qualidade, que poderão facilmente ser desmontados e reutilizados.

Isso tudo é verdade, mas, essa reflexão raramente divaga em considerar, como esse projeto pode requerer também desmilitarização, a democratização da criação de valores e poder econômico, ou a necessidade de democratizar nossas decrépitas instituições políticas.

 

Então, como fica o legado de Bookchin?

 

Forças curdas, atualmente tentando sustentar sua democracia comunalista contra os ataques militares em progresso, do presidente Turco, Recep Tayyip Erdogan, e do Estado Islâmico, têm de ser apoiadas. O que elas alcançaram até hoje, estando nas condições brutais em que se encontram, não é nada senão excepcional.

Em termos de políticas de gênero, eles parecem já ter ultrapassado Bookchin. Nós deveríamos aprender com a tentativa extraordinária de enfraquecer o patriarcado e institucionalizar a democracia popular, e esperamos que isso os mantenha em um caminho geralmente progressivo.

Mas deveríamos tomar cuidado com super generalizar a relevância desse experimento para outros lugares e problemas.

Em termos de problemas climáticos, nós hoje sabemos que os gases estufa que já foram liberados na atmosfera, já “colocaram no forno” do nosso sistema um certo nível de aquecimento e aumento no nível do mar, que vai durar por séculos. Isso quer dizer que, nós agora estamos lidando com um sistema muito mais dinâmico e não linear do que qualquer coisa imaginada pelos radicais dos anos 60, que – amplamente desenvolvendo ideias a partir da comunidade ecológica de sua época – estavam focados em construir um futuro marcado por um “equilíbrio natural” e holístico.

A visão da contracultura de uma sociedade ecológica descentralizada “confortavelmente aninhada” em seu lugar, terá de dar lugar a uma visão mais dinâmica das paisagens democráticas urbanas e rurais, pós-capitalistas, que estão se fazendo e desfazendo, e constantemente se ajustando, às ecologias sociais aos seus arredores.

Ao invés de fetichizarmos uma rota municipal para mudança social, essa terá de envolver o recrutamento de muitos parceiros em diferentes escalas espaciais de política para facilitar as transformações sociais, tecnológicas e ecológicas. Mais criticamente, o Estado – onde ele já existe, e onde ele ainda está relativamente aberto a influências de forças progressivas – terá um papel central nessa transição.

A sensibilidade terá de ser experimental e interativa, ao invés de institucionalmente dogmática e inflexível. As escalas humanas, de um futuro urbano ecológico e democrático, serão múltiplas e variadas.

Qualquer coisa a menos que isso, falha em entender o tamanho do problema em que estamos.

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