A relação inquietante entre Conservadores e Alt-Right

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O novo rosto trumpista da direita está deixando os conservadores da velha escola do CPAC nervosos.
A Conferência Anual de Ação Política Conservadora (CPAC) está aberta a praticamente qualquer pessoa disposta a se chamar de conservadora. Essa categoria inclui todos, de fundamentalistas cristãos até engravatados “think tanks” e estudantes de colegial ostentando bonés com o slogan “Make America Great Again”. A categoria inclui Jordan Evans, uma mulher trans conservadora de Massachusetts, que ficou desapontada com a administração Trump por reverter uma política de uso de banheiro transgênero em escolas públicas. Também inclui Steve Bannon, que uma vez organizou “The Uninvited”, uma conferência alternativa para falantes considerados muito controversos pelo CPAC, e agora ocupa uma das posições mais poderosas na Casa Branca. Essa inversão não passou batida por Bannon, vestido de preto e sentado ao lado do chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, no palco quinta-feira.

“Gostaria de agradecer por finalmente me convidar para o CPAC”, disse Bannon a Matt Schlapp, presidente da União Conservadora Americana (ACU), a organização que organiza a conferência.
Schlapp havia removido há poucos dias Milo Yiannopoulos – um jovem conservador homossexual que se tornou famoso por ser mais curto e grosso do que outros no movimento – depois que um video dele ele elogiando a pedofilia ressurgiu. Schlapp insistiu no palco de que o CPAC estava mais aberta do que nunca: “Aqui está o que decidimos fazer no CPAC com ‘The Uninvited’: decidimos dizer que todos fazem parte de nossa família conservadora”.
Mas esses sentimentos calorosos, evidentemente, não se estendem àqueles que simpatizam com a Alt-right, essa mistura espumosa de crenças nacionalistas e às vezes simplesmente racistas. Embora as pessoas se alinhem amplamente com a Alt-right agora ocupem posições de poder perto de Donald Trump -Bannon, em específico -,na semana passada CPAC mostrou que os conservadores tradicionais ainda estavam se sentindo perdidos em como se relacionar com os pontos de vista mais populistas do presidente e seus partidários. O indicador mais claro disso foi que Richard Spencer, o nacionalista branco que é um dos rostos mais públicos da Alt-right, foi expulso do CPAC depois de comprar uma passagem de admissão geral e falar com repórteres.

Richard Spencer


“Esta é realmente uma espécie de batalha que está destruindo o coração e a alma do movimento conservador agora, especialmente, na era do presidente Trump”, disse Casey Given, diretor executivo da Young Voices, um grupo de millenial libertarians, que estava em CPAC.

Um dos momentos mais reveladores surgiu na quinta-feira, quando Dan Schneider, diretor executivo da ACU, atacou Spencer e a Alt-right em sua palestra: “A Alt-Right não é a Direita”, a única sessão do CPAC direcionada diretamente a facção. O recado de seis minutos foi muito mais assistido do que o discurso anterior do governador de Wisconsin, Scott Walker. O público demonstrou apoio, mas não exatamente extasiado, enquanto Schneider criticava um grupo que ele não considerava parte do conservadorismo.

“CPAC, fomos golpeados na cara”, disse Schneider, argumentando que a Alt-right, chamada de um “grupo fascista de ódio”, tomou posse do nome que costumava refletir uma parte respeitada do movimento conservador. “Este grupo específico que seqüestrou um termo uma vez decente, eles não são nós”.

Schneider me disse que a conversa era necessária para ajudar a eliminar qualquer confusão dos participantes e dos meios de comunicação na compreensão da evolução do termo Alt-right. Ele também enfatizou que uma conferência muito divulgada organizada pelo Instituto Nacional de Políticas de extrema-direita em novembro mostrou a influência inexistente do grupo marginal entre os conservadores.

“Quantos se encontraram nesse porão em Washington, DC, há alguns meses? Talvez 200 pessoas? Isso é insignificante”, disse Schneider. Agora, não estou desconsiderando o fato de que 200 pessoas que tem ódio em seus corações não podem ter impacto. Por isso, tive que fazer o discurso – para ajudar as pessoas a entender quem são, o que eles acreditam e que não têm nada a ver conosco e que nossos participantes não tenham nada a ver com eles “. Ele acrescentou: “Não há confusão sobre essa única entidade e as pessoas que a lideram – que são fascistas e nunca devem estar associados ao movimento conservador”.

Mesmo que alguns presentes continuassem céticos sobre Trump – que na verdade não fazia campanha como conservador tradicional – havia um otimismo genuíno entre os participantes sobre o que um governo controlado pelos republicanos poderia realizar. Mas havia alguns que estavam preocupados com o fato de que algumas das figuras com atenção midiática poderiam prejudicar a causa conservadora.

“[Yiannopoulos] foi visto como porta-voz de uma área com a qual a maioria dos conservadores se sentia desconfortável”, disse Chris Wilson, estrategista da campanha presidencial do senador do Texas, Ted Cruz. “Essa será uma situação em que é muito semelhante quando àqueles que se classificam como comunistas de esquerda geralmente não conseguem um cargo principal em uma reunião democrata. Eu acho que está certo e os republicanos precisam ter cuidado com isso.”

Mas mesmo que alguns conservadores recusem a Alt-right, Breitbart, a empresa de mídia anteriormente administrada por Bannon, que ele próprio descreveu uma vez como a “plataforma da Alt-right”, aumentou para uma proeminência óbvia. Uma vez amplamente evitada pelos conservadores na conferência, o canal é agora altamente confiável e uma presença constante. Sem incluir ex-executivos e editores como Bannon e Sebastian Gorka, um editor do Breitbart e conselheiro sobre contraterrorismo na Casa Branca, sete personalidades da Breitbart e membros da equipe puderam falar, incluindo o editor-chefe Alex Marlow. No local, Breitbart tinha um dos espaços ao lado do salão principal. Havia até mesmo uma loja do Breitbart, em destaque, onde você poderia comprar camisas, canecas e tudo mais que pudesse ser carimbado com o logotipo laranja B do site.

Os conservadores mais tradicionais ainda estão tentando processar tudo isso. Amanda Owens, fundadora da Future Female Leaders, um grupo para mulheres conservadoras, diz que o conservadorismo em sua essência é muito acolhedor, o que fez o futuro do Partido Republicano com Trump no leme um pouco confuso.

“Nós estamos em um momento difícil, um partido descobrindo de que maneira nós vamos seguir adiante”, disse Owens. “Nós estamos polarizados no mundo agora em termos de esquerda e direita, mas também estamos polarizados no movimento conservador entre conservadores mais tradicionais e o tipo mais populista e de Alt-direita”.

A ironia, para qualquer conservador cauteloso em abraçar a ideologia de Trump e Bannon, é que é graças à retórica populista de Trump que o Partido Republicano passou a dominar o governo federal. Se o Trumpismo continua a ser atraente para os eleitores, pode tornar-se cada vez mais difícil para os conservadores olharem para a Alt-right e dizer, como Schneider, que “eles não são nós”.

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