A Resistência Mapuche se levanta contra o Estado, os interesses capitalistas e os Yanaconas

Tradução por Aya C. Ororo,originalmente publicado no Diário Venceremos, 


A resistência Mapuche se levanta em armas contra o Estado e recebe ações de sabotagem.

Por meio de uma declaração divulgada por diferentes meios de comunicação, a organização chamada Resistência Mapuche Lavkenche anuncia um conjunto de ações político-militares na área do Lago Lleu-Lleu, correspondentes às comunas de Contulmo, Caleta e Tirúa.

Retomamos que ontem mais de 100 combatentes tomaram e exerceram o controle armado da rota que liga Tirúa a Cañete, onde começaram a erguer barricadas, erguer telas e exercer autodefesa armada com pistolas, espingardas e wetruwes (armas de arremesso), frente à tentativa da polícia de removê-los do local. Foram mais de 10 horas onde se exerceu o controle total do território.

Durante o desenvolvimento do ocorrido, um tanque de policiais tentou suprimir a revolta, sendo atacado com balas e um carro-bomba, que não conseguiu desativar o veículo blindado. No entanto, causou uma extensa queda de energia nas comunidades vizinhas.

Nas últimas semanas, várias ações de resistência foram realizadas na zona, incluindo a queima de máquinas florestais por mais de 2.000.000 dólares, a queima de casas de veraneio e um carabinero[1] ferido com três balas ao tentar suprimir uma manifestação.

Aqui é expressa a vontade de um povo, de se tornar o dono de seu próprio destino.

Abaixo reproduzimos o comunicado da RESISTÊNCIA MAPUCHE LAVKENCHE:

Pu weichave (guerreiros) da Resistência Mapuche Lavkenche reivindicamos a ação armada realizada nesta segunda-feira, 13 de abril, no setor Lleu Lleu contra policiais a serviço de empresas florestais usurpadoras de nosso território ancestral. Com esse ato, damos um passo firme em direção à unidade da resistência mapuche na área de Lavkenche e reafirmamos nosso compromisso irrestrito de expulsar as empresas florestais e qualquer outra expressão capitalista que ameace a vida mapuche e dos povos.

Esta ação é o resultado de numerosos nütram (diálogos) das diferentes expressões da resistência mapuche, cujo sustento cultural e político brota do Weichan e do controle territorial desenvolvido pelas diferentes comunidades Lov e Mapuche em resistência nas terras florestais massivamente ocupadas, onde a autonomia comunitária foi materializada com base na independência organizacional, longe das diretrizes políticas que as instituições e empresas florestais winka [2] desenharam para algumas áreas mapuche e que hoje ameaçam desencadear uma verdadeira guerra interna protegida pelo governo, promotores e polícia .

É o que acontece na área sul do lago Lleu LLeu, onde algumas lideranças yanaconas [3] (traidoras) levaram suas comunidades a trabalhar em conjunto com a empresa florestal Mininco. Este trabalho é dirigido pelos líderes Santos Reinao, Jorge Lincopan e Arturo Millahual, todos reconhecidos operadores políticos da institucionalidade winka que há anos concordam com as empresas florestais.

Esses líderes têm ocupado a luta mapuche por seus próprios interesses, arrastando suas bases para continuar sob o jugo colonial dessas empresas que durante anos saquearam e destruíram nossas terras, secaram nossas águas, alteraram nosso itrovil Mongen [4] (ecossistema) e enriqueceram às custas da pobreza de nosso povo.

Assim, em dezembro de 2018, 11 comunidades mapuche ocuparam a propriedade Choque, reivindicando, segundo elas, 20 mil hectares. Essa ocupação não era apenas uma encenação do que estava por vir, mas para além disso, ele superou a luta que outras expressões da resistência mapuche desenvolveram durante anos naquele estado, sabotando os interesses de Mininco, ocupando alguns pedaços de terra e reconstruindo assim a vida mapuche.

Em pouco mais de um ano, o cenário é diametralmente oposto. Hoje, a empresa florestal Mininco voltou a ter o controle da fazenda Choque, os líderes, como Santos Reinao, tornaram-se empreiteiros da Mininco e as comunidades hoje reflorestam essa propriedade com pinheiros e eucaliptos, perpetuando o modelo florestal. A empresa optou por incorporar as comunidades ao negócio e para coroar o êxito de seu plano, eles até criaram brigadas de segurança armadas lideradas por alguns mapuches, vários deles ex-militantes da resistência mapuche que trabalham em cumplicidade com a polícia e os promotores. 

Entre eles os membros da comunidade destacam que em 2015 foram torturados por policiais dentro de uma fazenda Mininco, presos e agora, incrivelmente, traíram seu povo e sem nenhuma dignidade, passaram para o lado inimigo se transformando em um grupo paramilitar.

É por esses fatos que, como Resistência Mapuche Lavkenche, pegamos em armas e reivindicamos o direito de legítima defesa, assumimos a obrigação de expulsar permanentemente as empresas florestais e seus lacaios do nosso território. 

Também pedimos às comunidades mencionadas que reflitam sobre suas ações e retornem ao seu próprio caminho como mapuche, com base nas normas que nossos kuivikeche (ancestrais) elaboraram e que nos obriga a não pactuar com o winka usurpador.

Por território e autonomia

Liberdade aos presos políticos mapuches

Resistência Mapuche Lavkenche

[1] Carabineiro: Carabineiros do Chile é a instituição de polícia ostensiva do Chile. 

[2] Winka: brancos; invasores espanhóis; ladrões; não pertencentes à etnia.

[3] Yanaconas: essa palavra é um sinônimo para traidores, usada para se referir àqueles que realizam ações contrárias aos interesses do povo rebelde; provavelmente do quechua: yanakuna. Em: https://es.wikipedia.org/wiki/Yanacona#cite_note-3

 [4] Itrovill Mongen: se refere a biodiversidade, as diversas formas

de vida, cada uma. Küme Mongen é o bem viver ou viver de uma maneira harmoniosa.

Em: Xipamün Pu Ülka, Ed. Libros del perro negro. 2017.

Traduzido de: https://diariovenceremos.cl/2020/04/14/urgente-la-resistencia-mapuche-se-alza-en-armas-contra-el-estado-los-intereses-capitalistas-y-los-yanaconas/













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