A verdadeira história da tolerância religiosa nos Estados Unidos

Por Kenneth C. Davis, originalmente publicado na Smithsonian Magazine em Outubro de 2010.

 

Entrando na controvérsia sobre o Centro Islâmico para o espaço próximo do Ground Zero de Nova York  em agosto passado, o presidente Obama declarou: “Essa é a América. E nosso compromisso com a  liberdade  religiosa precisa ser  inabalável. O princípio que pessoas de todas as fés são bem vindas a esse país e que  elas não serão tratadas de formas diferente pelo governo é algo essencial sobre quem somos nós” fazendo isso, ele prestou homenagem à visão que políticos e pregadores exaltaram por dois séculos-  que a América historicamente tem sido um lugar de tolerância religiosa. Era um sentimento  que George Washington expressou logo depois de prestar seu juramento de posse a apenas alguns quarteirões do Ground Zero.

 

Na versão dos livros de história mais usados nas escolas, os peregrinos chegaram à América a bordo do Mayflower  em busca de liberdade religiosa em 1620. Os puritanos vieram logo depois, pela mesma razão. Desde  que esses dissidentes religiosos chegaram em sua brilhante “cidade sobre a Colina” como o governador John Winthrop  a chamou, milhões de pessoas de todo o mundo fizeram o mesmo, indo para a América onde encontraram um  caldeirão cultural em que todos eram livres para praticar sua fé.

 

O problema é que essa narrativa certinha é um mito americano. A história real a religião no passado da América é  algo desagradável, frequentemente embaraçoso e  ocasionalmente uma história sangrenta que a maioria dos livros cívicos e textos do ensino médio tanto dissimulam quanto desviam dele. E muito da conversa recente sobre o ideal de liberdade religiosa é falácia para disfarçar esse quadro confrontador.

 

Desde o início da chegada dos Europeus à costa americana, a religião frequentemente  foi um cassetete, usado para discriminar, suprimir e até matar os estrangeiros, os “hereges” e os “descrentes”- incluindo os nativos “pagãos” que já estavam aqui. Além disso,mesmo sendo verdade que  a vasta maioria dos americanos de primeira geração fossem cristãos,  as batalhas terríveis entre várias seitas protestantes e, mais explosivamente,  entre protestantes e católicos, apresentam uma contradição inevitável à noção amplamente defendida que a América é uma “nação cristã”.

 

Primeiro, uma história um pouco ignorada: o encontro inicial entre os Europeus nos Futuros Estados Unidos aconteceu com o estabelecimento de uma colônia Huguenote(protestantes franceses) em 1564 em Fort Caroline(próximo à moderna Jacksonville, na Flórida). Mais de meio século antes  do Mayflower zarpar, peregrinos franceses vieram à América em busca de liberdade religiosa.

 

Os espanhóis tinham outras ideias. Em 1565, eles estabeleceram uma base avançada de operações em St, Augustine e  prosseguiram com a erradicação da colônia de Fort Caroline. O comandante espanhol, Pedro Menéndez  de Avilés, escreveu ao Rei Felipe II da Espanha que ele havia “enforcado todos aqueles que encontrou em [Fort Caroline] porque… eles estavam difundindo a odiosa doutrina luterana nessas províncias.” quando centenas de sobreviventes de uma frota francesa naufragada chegaram às praias da Flórida, eles foram passados à espada, nas margens de um rio que os espanhóis chamaram de Matanzas. Em outras palavras, o primeiro encontro entre cristãos europeus na América terminou em um banho de sangue.

 

A  tão alardeada chegada dos Peregrinos e dos Puritanos na Nova Inglaterra no início dos 1600  já foi uma resposta à perseguição que dissidentes religiosos  experimentaram na Inglaterra. Mas os pais puritanos da colônia da baía de Massachusetts não aprovavam a tolerância com visões religiosas opostas Às suas. Sua “cidade sobre a colina” era uma teocracia que não admitia dissidência, religiosa ou política.

 

Durante toda a era colonial, a antipatia anglo americana frente aos católicos- especialmente os católicos franceses e espanhóis- era pronunciado e  muitas vezes refletido nos sermões de clérigos famosos como Cotton Mather e em estatutos de discriminação contra os católicos quanto a propriedade e voto. Sentimentos anticatólicos até contribuíram para o clima revolucionário na América depois que o rei George III estendeu o ramo de oliva aos católicos franceses no Canadá com o Quebec Act em 1774, que reconheceu sua religião.

 

Quando George Washington despachou Benedict Arnold em  uma missão para cortejar  apoio dos franco-canadenses para a Revolução Americana em 1775, ele preveniu Arnold para não deixar a religião ficar no caminho. “Prudência, política e um verdadeiro espírito cristão” aconselhou Washington, “nos guiarão para olhar com compaixão seus erros, sem insultá-los.”(depois que Arnold traiu a causa americana, ele citou publicamente a aliança com a França católica como uma das razões para fazê-lo)

 

Na América recém-independente, havia uma  louca colcha de retalhos de leis estaduais relativas à religião. Em Massachusetts, só cristãos podiam assumir cargos públicos. E os católicos só podiam fazê-lo depois de renunciarem a autoridade papal. Em 1777, a constituição do estado de Nova York baniu católicos dos cargos públicos( o que ainda faria até 1806). Em Maryland, católicos tinham direitos plenos, mas judeus não. Delaware exigia um juramento afirmando crer na Trindade, vários estados , incluindo Massachusetts e Carolina do Sul, tinham igrejas oficiais, apoiadas pelo Estado.

 

Em 1779, quando era governador da Virgínia, Thomas Jefferson elaborou uma lei que garantia igualdade para os cidadãos de todas as religiões- incluindo aqueles que não tinham religião- no estado. Foi nesta época que Jefferson escreveu: “não me faz mal nenhum se meu vizinho disser que há vinte deuses ou nenhum. Não pesa meu bolso, nem quebra minha perna.” mas o plano de Jefferson não avançou- até que Patrick Henry introduziu uma lei em 1784 pedindo financiamento  estatal para “professores de religião cristã”.

 

O futuro presidente James Madison aproveitou a brecha. Em um artigo bem argumentado intitulado “Memorial and Remonstrance Against Religious Assessments,”, aquele que logo seria chamado de Pai da Constituição eloquentemente explicou as razões porque o estado não tinha nada que financiar instrução cristã. Assinada por cerca de 200 virginianos, a argumentação Madison se tornou uma peça  fundamental da filosofia política americana, um apoio vigoroso  ao estado secular que “deveria ser tão familiar aos estudantes de história americana quanto a Declaração de independência e a Constituição” como escreveu Susan Jacoby em Freethinkers, sua excelente história do secularismo americano.

 

Entre os 15 pontos estava a declaração  de  Madison que “ a religião de todo homem deve ser deixada a cargo da convicção e da consciência de todo homem para exercê-la como essa ditar. Esse é um direito inalienável em sua natureza.”

 

Madison também levantou uma questão que qualquer crente de qualquer religião deveria  compreender: que a sanção governamental a uma religião era , em  essência, uma ameaça à  religião: “quem não vê,” ele escreveu,” que a mesma autoridade que pode estabelecer o cristianismo, excluindo todas as outras religiões, pode estabelecer com a mesma facilidade alguma seita cristã em particular , em exclusão a todas as outras seitas?”  Madison estava escrevendo  sobre sua memória  de ver pastores Batistas sendo presos em sua Virginia nativa.

 

Como cristão, Madison também notou que o cristianismo se espalhou frente à perseguição dos poderes mundanos, não com sua ajuda. O cristianismo, alegou, “ repudia a dependência dos poderes deste mundo… já que é  sabido que essa religião tanto existiu como floresceu, não apenas sem o apoio das leis humanas, como apesar de toda a oposição delas.”
Reconhecendo a ideia da América como um refúgio para os protestantes ou rebeldes, Madison também argumentou que a proposta de Henry era “uma  fuga dessa política  generosa, que oferecendo um asilo aos perseguidos e oprimidos de todas as nações  e religiões, prometeu  brilho para o nosso país.”

 

Depois de um longo debate, a lei de Patrick Henry foi derrotada, com a oposição superando os apoiadores em 12 a  1. Em vez dela , os legisladores da Virgínia pegaram o plano de Jefferson para a separação da igreja e do estado. Em 1786, o Estatuto da Virgínia para Liberdade religiosa, um pouco modificado do rascunho  original de Jefferson, se tornou lei. O Estatuto é uma das três realizações de jefferson registradas em sua lápide, junto com a Declaração de independência e a fundação da Universidade da Virgínia(ele omitiu sua presidência dos Estados Unidos). Depois que a lei passou Jefferson orgulhosamente escreveu que a lei “foi feita para compreender sob o manto de sua proteção, o judeu, o gentio, o cristão e o maometano,  o hindu e o infiel de qualquer denominação.”

 

Madison quis que a visão de Jefferson se tornasse a lei do país quando ele foi à convenção constitucional na Filadélfia em 1787. Como definido na Filadélfia naquele ano, a constituição dos EUA declarava claramente no artigo VI que os cargos eletivos e indicados” estarão obrigados por juramento ou declaração , a apoiar essa constituição, mas nenhum teste religioso será exigido como qualificação para qualquer cargo ou posição pública  nos Estados Unidos”

 

Esse trecho- junto com o fato de que a constituição não mencionar Deus ou uma divindade(exceto pelo “ano de nosso Senhor” de praxe) e que a primeira emenda proíbe que o congresso faça leis que infrinjam o livre exercício da liberdade religiosa- atesta que os Pais Fundadores decidiram que a América seria uma república secular. Os homens que combateram na revolução agradeceram à Providência e frequentaram a igreja regularmente-ou não. Mas eles também combateram em uma guerra contra um país cujo chefe de estado também era chefe da igreja. Sabendo bem a história das guerras religiosas que levaram à colonização da América, eles compreenderam claramente tanto os perigos desse sistema quando os dos conflitos sectários.

 

Foi pelo reconhecimento pelos Pais fundadores desse passado divisivo-principalmente Washington, Jefferson, Adams e Madison-asseguraram que a América fosse uma república secular. Como presidente, Washington escreveu: “todos possuem igual liberdade  de consciência e a imunidade a cidadania….que felizmente  o governo dos estados unidos , que não sanciona intolerância, perseguição, e apenas requer que aqueles que vivem sob sua proteção se sujeitem a ser bons cidadãos.”

 

Eles se dirigia aos membros da sinagoga mais antiga da América, a Sinagoga Touro, em Newport, Rhode Island(onde sua carta é lida em voz alta em Agosto).  Na conclusão, eles escreveu especificamente aos judeus  a frase que também se aplica aos muçulmanos: “que as crianças da descendência de Abraão, que habitam essa terra, continuem a  merecer e desfrutar a boa vontade dos outros habitantes,  enquanto todos possam se sentar em segurança sobre sua vinha e figueira, não haverá quem os faça temer.”

 

Sobre Adams e Jefferson , eles discordaram veementemente sobre política, mas na questão da liberdade religiosa eles estavam unidos. “ aos setenta” Jacoby escreve, “ com uma amizade que sobreviveu a conflitos políticos sérios, Adams e Jefferson podiam olhar para trás com satisfação no que ambos consideravam sua maior conquista – seu papel no estabelecimento de um governo secular cujos legisladores nunca seria exigido , ou permitido, a decidir sobre a legalidade de visões teológicas.”

 

No fim de sua vida James Madison escreveu uma carta resumindo sua visão: “e não tenho dúvida que cada novo exemplo, vai funcionar, assim como todos os exemplos passados funcionaram, em  mostrar que religião e governo vão existir em maior pureza, quando menos estiverem misturados.”

 

Enquanto alguns dos primeiros líderes da  América eram modelos de tolerância virtuosa, as atitudes americanas mudaram muito lentamente. O anti catolicismo do passado calvinista da América encontro uma nova voz no século XIX. a crença amplamente difunda pelos pastores mais proeminentes na América era que os católicos iriam, se permitidos, tornar a América a favor do Papa. o veneno anti católico era parte do típico dia escolar  americano, junto com leituras da Bíblia. Em Massachusetts, um convento- coincidentemente próximo do lugar no monumento de Bunker Hill– foi queimado até a fundação em 1834 por uma turba anti católica incitada por relatos de que uma jovem estava sendo abusada na escola do convento. Na Filadélfia, a Cidade do amor Fraterno, o sentimento anti católico, combinado com o humor anti-imigrante, alimentou as Revoltas da Bíblia em 1844, na qual casas foram queimadas, duas igrejas católicas foram destruídas e pelo menos 20 pessoas foram assassinadas.

 

Ao mesmo tempo, Joseph Smith fundou uma nova religião americana- que logo foi recebida com a ira da maioria protestante histórica. Em 1832, uma turba o cobriu de alcatrão e penas, marcando o início de uma longa batalha entre a América cristã e o mormonismo de Smith.em outubro de 1838, depois de uma série de conflitos por terra e pela tensão religiosa, o governador do Missouri, Lilburn Boggs ordenou a  expulsão de todos os mórmons de seu estado. Três dias depois, milicianos não autorizados massacraram 17 membros da igreja, incluindo crianças, na colônia mórmon de Haun Mill. em 1844, um turba assassinou Joseph Smith e seu irmão Hyrum enquanto eles estavam presos em Carthage Illinois. Ninguém foi condenado pelo crime.

 

Até nos anos 1960, o candidato católico a presidente John F. Kennedy se sentiu compelido a fazer um pronunciamento declarando que sua lealdade era para com a América, não ao papa.(e recentemente na campanha das primarias republicanas, o candidato mórmon Mitt Romney se sentiu compelido a  esclarecer algumas das suspeitas ainda direcionadas à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Ùltimos Dias) claro que o Antissemitismo da América foi praticado institucionalmente assim como socialmente por décadas. Com a ameaça do comunismo “ateu” emergindo nos anos 1950, o medo nacional do ateísmo também alcançou nova escala.

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....