A Visão Esquecida de Martin Luther King sobre Economia

Escrito por Ed Pavlic e publicado originalmente em Institute For New Economic Thinking em 04 de Abril de 2018. Tradução de Matheus Saldanha Duarte.

Como Mitos Transformam Homens em Pedra

Quase no fim de Parting the Waters (em português, Dividindo as Águas), o primeiro de três livros sobre a vida de Martin Luther King Jr., Taylor Branch captura a substância viva do auge da história de King, seu discurso diante de centenas de milhares de pessoas na Marcha por Trabalho e Liberdade de Washington, dia 28 de agosto de 1963. Durante o meio século que se seguiu após a Marcha, evidentemente, incontáveis milhões puderam ver e rever esses momentos, transformados primeiramente em demagogia, e depois na perigosa impenetrabilidade da fama. Mas Branch não se deixa levar pelas paixões do momento e revela a importância daquele discurso. Argumentando contra os que diziam que a insistência de King em “seu Sonho” havia transformado contingente, matéria histórica – corpos – em presenças mitológicas transcendentais, criando algo que soava como uma zona de conforto em relação a assuntos complexos e perigosos que a nação teria de enfrentar, a descrição de Branch contrapõe:

O controle emocional de sua oratória deu a King autoridade para reinterpretar a questão central da justiça democrática. Mais do que suas palavras, o timbre da sua voz projetou-o através da segregação racial e fez dele um novo peregrino.

Mesmo com essa astuta observação, não há como evitar o fato de que esses momentos de coroação de King o transformaram exatamente em uma espécie de intocável, um poder histórico-mitológico que ele e seus companheiros militantes tentavam desafiar e interromper.

Nesse sentido, fazer de Martin Luther King Jr. um dos “peregrinos” é exatamente o problema. Assim como o processo de coroação histórica há muito tem feito por elementos revolucionários no legado dos peregrinos assim chamados, tais gestos também transformam a paixão da carne viva em mármore de veias cinzentas ou granito, meio frias ao toque, e – exceto nas mãos dos melhores artistas – é incapaz de nos tocar de volta. Como Brandon Terry recentemente argumentou tão bem, esse processo de criação de mitos honorários nos rouba a relação viva com líderes como King, apresentando-o como “um ícone a ser citado, e não como um pensador ou filósofo para se engajar”.

A posição de King na história sinaliza parte do perigo que aflige a todos nós: alguma coisa, possivelmente enraizada em nossa insistência pela simplicidade, policia a história dos EUA e transforma as coisas que passamos a entender – até mesmo uns aos outros e a nós mesmos – em objetos intocáveis. Raras são as exceções que não podem ser mantidas em silêncio ou neutralizadas pela coroação, e são atacadas, prejudicadas e destruídas. Então, depois que são destruídas, tem início o processo de neutralização, que nem sempre parte de seus oponentes. Uma chave para revivificar a verdadeira paixão e o poder da visão esquecida de King pode ser encontrada em sua insistência cada vez mais explícita sobre o econômico e no potencial emaranhado intergeracional e transcultural complexo que acompanha essa insistência. Não menos que Marx, no último ano de sua vida, King compreendeu que a economia oferecia conceitos-chave das relações sociais, e vice-versa. A noção que King tinha de ambos mudava rapidamente no ano que antecedia seu assassinato, cinquenta anos atrás.

O Legado Vivo e a Visão Econômica Multirracial Esquecida de King

Em 1980, vinte e dois anos depois do assassinato de King em Memphis, James Baldwin encontrou a si mesmo fitando a superfície de granito do Monumento a Martin Luther King Jr. em Atlanta. Foi durante as gravações do documentário I Heard It Through the Grapevine (sem versão em português). Os espectadores do filme assistiram o ritmo de Baldwin na frente do túmulo de granito de King, em que estavam gravadas as palavras: “Finalmente livre. Finalmente livre. Obrigado Todo-Poderoso Deus, estou finalmente livre.” Acompanhando as filmagens, ouvimos Baldwin contar ao seu irmão David sobre sua visita à casa em que King havia morado. Ele estava angustiado com o que havia encontrado lá. “Fiquei imaginando o que Martin pensaria de sua Atlanta agora”, disse a David. Recontando os símbolos visíveis da invisibilidade histórica, Baldwin continuou:

Meu caro, por todo o Sul, agora há vicinais, rodovias e vias expressas Martin Luther King Jr., e há ainda o monumento em Atlanta, que é – é difícil para eu assumir – absolutamente irrelevante como o Memorial Lincoln. Esse é um dos meios que o mundo Ocidental aprendeu, ou pensa ter aprendido, de despistar a história, de enganar o tempo, de fazer da vida e da morte coisas irrelevantes, de fazer essa paixão irrelevante, de torná-la inútil para vocês e para seus filhos.

Em relação às filmagens de Baldwin fitando a mensagem gravada na pedra e, assim, tendo sua verdadeira relevância roubada, ele conclui, “não há nada que possamos fazer com esse monumento… e estamos nos confrontando com isso.”

Mas nós realmente estamos? Como? Como podemos? Bem, a raiz econômica e complexa da natureza social da visão esquecida de King apresenta uma realidade desafiadora que ninguém ousou ainda gravar em granito. A rápida radicalização da visão econômica de King e a mensagem insurgente, transracial que a acompanhava ainda carrega a arisca – se não, dissidente – e reprovável efemeridade do grafite. Como Baldwin entendeu muito bem, o King vivo – e oposto ao granito – ainda é um anátema. No lugar dos clichés de coroação impenetráveis, que ofuscam essa visão de King, focaremos por um momento em algumas das coisas que ele planejava tornar realidade no ano que antecedeu seu assassinato em Memphis.

Primeiro, a visão esquecida de King conectou sua famosa retórica de sonhos cintilantes e o conteúdo transparente do caráter humano à necessidade imediata de uma reestruturação radical dos interesses materiais e as condições de vida em todo o território dos Estados Unidos. Em maio de 1967, no Penn Center em Frogmore, Carolina do Sul, King discursou no retiro da equipe da Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC, Southern Christian Leadership Conference), que havia sido formada em janeiro de 1957, em consequência da vitória do Boicote aos ônibus de Montgomery. A dimensão econômica de sua mensagem era fundamental e clara: “Não podemos resolver nossos problemas a menos que haja uma radical redistribuição dos poderes econômico e político.” Em um mantra que ele repetiria ao longo do último ano de sua vida, ele continuou: “Nossa luta é pela igualdade genuína, que significa igualdade econômica.” Mas King também sabia que essa visão econômica carregava consigo complexas e voláteis histórias culturais e energias contemporâneas que estavam, até dentro do movimento, frequentemente em conflito tanto entre si quanto com o status quo nacional e racial.

O brilhantismo vital da visão esquecida de King baseia-se em como ele peneirou a economia juntamente com um vocabulário cultural, espiritual, filosófico e psicológico, muito frequentemente separados uns dos outros e ausentes nas conversas sobre condições materiais de economistas e sociólogos.

King entendeu que essas conversas deveriam ocorrer entre gerações e em coalizões que conectem comunidades e espalhem ideologias. Com base em sua divergência à Guerra do Vietnã, que ele publicamente anunciou na Igreja de Riverside, em Manhattan, em abril de 1967, a visão esquecida de King fez gestos de inconfundível camaradagem e solidariedade com os mais jovens, a geração Black Power, liderada por Stokely Carmichael e outros. A maioria das lideranças da geração e da classe de King se horrorizaram com a ascensão de Carmichael e sua demanda por poder, poder Negro. Mas King tentou reconciliar os membros reunidos do SCLC na Carolina do Sul com a lógica básica de demanda por poder.

Não devemos nos preocupar em usar a palavra Poder, porque isso é o que está errado na maioria das instâncias, nós estamos destituídos de poder. Agora, poder não é nada senão a habilidade de alcançar objetivos. Poder é a habilidade de influenciar a mudança. O problema é que muitas pessoas viram poder e amor como pólos opostos. Consequentemente, por um lado, eles pensaram em poder sem amor. Por outro, pensaram em amor sem poder. Eles não haviam entendido que os dois se completavam. E dentro do movimento pacifista devemos entender que o poder sem o amor é negligência. E amor sem poder é sentimentalismo. Em outras palavras, o melhor possível do poder é o amor, implementando as demandas da justiça.

King comporia mantras e frases que conectavam os poderes econômicos e culturais ao longo de seus discursos de 1967 e 1968.

Em 1968, King também estava absolutamente convencido de que um movimento por transformações econômicas radicais deveria envolver uma coalizão de comunidades interregionais e multirraciais. Muitos sabiam que o principal objetivo de King perto de sua morte era a Campanha dos Pobres. Em 16 de março, em Los Angeles, a menos de três semanas de seu assassinato, ao lado de Marlon Brando e Baldwin, King descreveu o movimento que planejava. Contextualizando, considere que no mesmo dia, um sábado, Robert Kennedy havia estado no gabinete do Senado, em Washington, declarando sua candidatura à Presidência. No dia anterior havia sido anunciado que Stokely Carmichael e Miriam Makeba, famosa cantora Sul africana, estavam noivos. Enquanto isso, em 14 de março, em todo o oceano Pacífico, a infantaria americana invadia as aldeias da província de Quang Tri, Vietnam do Sul, concretizando o que lentamente emergira como os horrores do massacre de Mỹ Lai. Naquele sábado em Los Angeles, depois das apresentações de Baldwin e Brando, King explicou:

É hora de algo positivo acontecer. É por isso que teremos uma Campanha em Washington, e é por isso que estaremos com as pessoas pobres. Eu sinceramente não tenho a mínima ideia do que seremos capazes de fazer em Washington. Mas eu sei que temos que fazer alguma coisa. Sei que nós precisamos transformar a raiva incipiente do gueto e transformá-la em algo construtivo e criativo… é o que nós estamos tentando fazer… de modo que pelo menos por sessenta dias, ninguém nesse país poderá omitir o fato que há pessoas pobres ao nosso redor. E nós queremos o apoio de vocês para irmos até Washington, não para pedir, mas para exigir trabalho ou assistência social já.

Muito menos conhecida que a oposição crescente à Guerra do Vietnam e seu foco emergente na pobreza dos Estados Unidos era sua determinação em criar uma coalizão de comunidades multirraciais e multiculturais. Na verdade, na quinta-feira, 14 de março, apenas dois dias antes de seus comentários em Washington, e contra os conselhos de amigos de longa data como Hosea Williams e Jesse Jackson, enquanto James Lawson o convidava para ir até Memphis apoiar os movimentos de trabalhadores da rede de saneamento, King organizou uma reunião com 78 lideranças da minoria. Nenhuma delas era negra.

Esses representantes se encontraram com King em Atlanta, no Motel e Restaurante do Paschal, empresa negra e instituição cultural localizada na West Hunter Street – mais tarde renomeado de Motel Martin Luther King Jr. – no norte do campus da Universidade Clark Atlanta. Em At Cannan’s Edge (em português, Na Fronteira de Canaã), Taylor Branch nota que eles representavam uma ampla e diversa gama de comunidades estadounidenses; entre eles estava Wallace Mad Bear Anderson da Confederação Iroquesa, um membro dos sindicatos de trabalhadores rurais organizados por César Estrada Chávez na Califórnia, Tillie Walker e Rose Crow Flies High dos povos originários de Dakota, lideranças do Movimento Chicano como Reies López Tijerina – aclamado como o “Malcom X Chicano” – e Corky Gonzales; aliados de longa data como Myles Horton do Centro Highlander no Tennesee assim como aliados recentes entre os brancos pobres como Peggy Terry, representante de um grupo chamado JOIN – Jobs or Income Now – (em português, Trabalho ou Renda Já), organizado no distrito da zona norte de Chicago chamado Uptown.

Os conselheiros de King o alertaram sobre difícil complexidade de tal coalizão, que incluía conflitos intocáveis em meio a interesses conflitantes, dos quais King entendeu poucos completamente. Foi tudo o que ele pode fazer para descobrir as diferenças básicas entre mexicanos, chicanos e portoriquenhos. E o fato de King estar se colocando numa gama tão complexa de interesses em seu esforço de fazer a pobreza algo visto pelas pessoas, testemunha a rápida expansão de sua visão. Branch conta que mesmo quando os conselheiros “haviam perguntado repetidamente se King queria mesmo se aliar aos grupos de brancos mais difíceis de lidar… a resposta era sempre simples: “Eles são pobres?”.”

Se King se tornaria – ou deveria – se tornar um novo peregrino ou não, Taylor Branch astutamente comenta como o controle emocional que King tinha de sua visão o manteve unido numa era de fragmentação violenta. Foi isso que o manteve – ao menos em partes – em paz numa época de crescente raiva e desespero. A visão esquecida de King demandou um sutil domínio de dialética radical, um modo de integrar contradições, de guiar e orientar conflitos internos e a tensão. Ele se recusou a inclinar-se a visões estreitas e racialistas, mesmo quando conselheiros como Hosea Williams reclamou de que sua coalizão multirracial era o mesmo que “pegar nosso dinheiro e dar aos índios”. E King também foi capaz de projetar e implementar a ordem onde os outros viam caos. Em seu discurso na igreja de Riverside, em 30 de abril de 1967, ele percebeu a necessidade da complexidade e da nuance mesmo que isso fizesse as pessoas suscetíveis a “serem hipnotizadas pela incerteza”. Afastar-se da aparência de simplicidade e clareza estável era arriscado. Tais riscos eram necessários, eles eram gestados por verdadeiras lideranças, que devem oferecer alternativas à simplicidade, ao solipsismo racial e ao silêncio. De uma forma, e de tal forma, que foi a economia em seu melhor momento prático, lutando contra forças que tornam nossa visão histórica cega em relação àquilo que é mais importante, o que pode reanimar o que sabemos e transformá-lo de pedra impenetrável em carne viva que podemos tocar, energia que podemos usar. Não podemos nos dar ao luxo das obstruções da pedra e do roubo das coroações. Assim como os verdadeiros líderes da época como King, Baldwin, Ella Baker, Fannie Lou Hamer, Diane Nash, Doris Castle, Jerome Smith e muitos, muitos outros bastante conhecidos sabiam, que a carne viva e a energia transformadora sempre nos levam uns aos outros.

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