Acadêmicos Cubanos: democracia ao estilo dos EUA não é a única opção

Por Avi Chomsky, originalmente publicado  na Roar Magazine  em 17 de Janeiro de 2015.

 

Em 17 de dezembro de 2014, o presidente Obama anunciou que estava iniciando “ as mais significativas mudanças na nossa política em mais e cinquenta anos” e que os Estados Unidos estavam “mudando sua relação com o povo de Cuba”. Ainda que o embargo só possa ser levantado pelo congresso, as mudanças que Obama anunciou são com certeza significativas: o restabelecimento das relações diplomáticas, a abrindo uma revisão da designação de Cuba como patrocinador de terrorismo e estado,  e  flexibilizando viagens , comércio, e  restrições ao auxílio.

 

O discurso veio em seguida de uma série de constrangimentos para os Estados Unidos, como um programa secreto desajeitado com o objetivo de promover  a “sociedade civil” em Cuba que foi revelado e os vazamentos do WikiLeaks reconhecem que dissidentes apoiados pelos EUA tinham pouca importância para a sociedade cubana. Obama  reiterou a meta dos EUA e mudar a política doméstica e de relações exteriores de Cuba, mas explicou que 50 anos de hostilidade não atingiram o objetivo, e que era hora de uma nova abordagem. Entretanto , “nós vamos continuar a apoiar a sociedade civil” ele garantiu aos incrédulos.”eu respeito sua paixão e compartilho seu compromisso com a liberdade e a democracia”.

 

A mídia os EUA procurou reações nas ruas de Miami e Havana, e entre alguns poucos “dissidentes” e Cuba. ela , em geral, ignorou, os acadêmicos e estudiosos cubanos que têm fundamentado o caminho para melhores relações por várias décadas, visitando os EUA(quando o Departamento de Estado permitiu), colaborando com seus  equivalentes nos EUA em pesquisas, apresentações e publicações, e que também se opunham às políticas dos EUA e insistiam no direito de Cuba mudar do seu jeito e no seu próprio ritmo, não como  exigido por seu vizinho do norte.

 

O jornal progressista cubano Temas reuniu intelectuais críticos desde o inicio dos anos 1990. Eles não são “dissidentes” apoiados e promovidos pelo departamento de estado dos EUA para falar de mudança de regime. Eles são cubanos progressistas que estão engajados nacionalmente e internacionalmente em d as mudanças, forçadas ou desejadas, que tem se desenrolado em cuba  desde a queda do bloco soviético.

 

O Temas respondeu ao anúncio  de Obama procurando pesquisadores de ambos países para comentar sobre uma série de questões, e publicou as respostas no blog do jornal, o Catalejo. Do lado dos EUA incluiu acadêmicos conhecidos como os cientistas políticos Jorge Dominguez(da Universidade de Harvard) e William LeoGrande( da American University) e a historiadora Margaret Crahan (Columbia). Mas enquanto os leitores cubanos tiveram acesso a essas vozes, os leitores americanos tiveram pouco acesso a suas contrapartes cubanas.

 

Os acadêmicos cubanos, como os americanos, em sua maioria saudaram a diminuição das hostilidades. O economista Pedro Monreal advertiu, que embora, “as novas políticas entre os dois países tenham uma influência positiva no desenvolvimento de Cuba,  mas nós precisamos ser claros  que em si mesmos, essas políticas não serão suficientes para fazer cuba mais próspera economicamente ou para trazer democracia popular ou justiça social”. Cada palavra é importante aqui. Enquanto os Estados Unidos em geral, e Obama foi explícito no seu discurso,  pretendem promover a “democracia” em Cuba, Monreal enfatiza que uma democracia no Estilo dos EUA não é a única opção.”democracia popular” com “justiça social”, ao estilo cubano, sugere uma meta revolucionária com implicações bem diferentes.

 

Uma das questões que o  Temas levantou  foi bem pouco abordada  pela  mídia dos EUA: a que extensão os desenvolvimentos hemisféricos afetaram a reaproximação Cuba-EUA? “Qualquer  avanço nas relações Cuba-EUA é compatível com o quadro das relações hemisféricas que é talvez mais distintamente caracterizado pela heterogeneidade política” de acordo com Monreal.”por muitos anos ficou claro que os Estados Unidos não foram hábeis para ‘alinhar” os quadros inter-hemisféricos para negociação e cooperação de acordo com sua vontade. Isso em adição aos frequentes de desavenças no centro das organizações tradicionais, novas organizações que excluíram os estados unidos foram formadas.”

 

As novas relações EUA-Cuba “terão um impacto nas relações inter-hemisféricas em pelo menos três áreas: a possível reconfiguração das dinâmicas que os governos relativamente mais “radicais”(por exemplo, Equador, Venezuela ou Bolívia) poderão  impulsionar nas entidades hemisféricas tradicionais como a OEA(Organização dos Estados Americanos) e o BID(Banco Interamericano de Desenvolvimento) e outras que os Estados Unidos não Pertencem (como a CELAC[Comunidade  de Estados Latino americanos e Caribenhos]): e a maior capacidade e Cuba contribuir para essa cooperação inter-hemisférica, incluindo trabalhar  com os Estados Unidos, como na recente cooperação bem sucedida no combate ao Ebola.

 

Monreal credita à “resistência do povo cubano” o movimento de Obama em direção à nova abertura política. Ele insistiu que a “chamada ‘normalização”” das relações entre Cuba e os Estados Unidos certamente inclui aspectos que são potencialmente positivos para Cuba, como o crescimento nas exportações e dos empregos, e um ‘dividendo da paz’. Mas também contém alguns elementos latentes que não podem ser considerados ‘normais’ para a maioria dos cubanos, como a possível “Tijuanização” do mercado e trabalho. pode ser desastroso para a sociedade cubana se permitirmos que o processo de normalização seja regido pelos valores de mercado(como ‘eficiência’ e ‘racionalidade econômica’)…  o caminho para o bem estar nacional em um novo contexto de relações com os Estados Unidos deve ser decidido pelo povo cubano de acordo com seus próprios valores e interesses e não como resultado a “mão invisível” o mercado. A “normalização’, entretanto entendemos, deve ser administrada por políticas deliberadas.”

 

Monreal conclui que “um contexto favorável que garante um empoderamento político real para a maioria dos cidadãos- especialmente prevenindo  desigualdade de distorcer o processo político- deve ser a melhor garantia que a sociedade cubana reencontre com a sociedade capitalista mais impositiva que já existiu não  leve a uma ‘normalização’ das relações como a que existiu durante o período ‘republicano’ em Cuba, nem reproduzir aqui o ‘modelo’ que caracteriza o capital dos EUA na maioria da América Latina e países caribenhos.”

 

O analista político e membro do conselho editorial de Temas, Carlos Alzugaray observou que os estereótipos dominam as impressões de cada país sobre o outro.”para a maioria dos cubanos, os Estados unidos são uma potência imperialista que tradicionalmente se opôs à nossa independência nacional, e  desta forma tudo o que vem do nosso vizinho do norte será visto com desconfiança. Para a maioria dos norte-americanos, o governo cubano é uma ditadura comunista horrível    que constitui uma ameaça aos Estados Unidos. Esses estereótipos criam desconfiança e impediram o movimento em direção a relações civilizadas.”

 

Alzugaray insistiu que a mudança deve ser vista no contexto das relações interamericanas. Ele reconheceu que que alguns na esquerda latino americana e mesmo em Cuba reagiram sugerindo que “nada mudou, a mesma luta continua, só que com formas novas” entretanto, “uma análise alternativa, com a qual sou simpático, argumenta que o que aconteceu foi um sinal de que os Estados Unidos estão mudando. Nós devemos tirar vantagem dessa mudança de acordo com os nosso interesses… os Estados Unidos estão em um claro processo de alongamento imperial…. Encarado com a perda de poder, um setor da elite está pressionando para mudar seu comportamento no exterior”. O professor de relações exteriores da Universidade e Havana, Jesús Arboleya argumenta em termos até mais fortes que “ o restabelecimento das relações com cuba respondeu a uma necessidade urgente dos Estados Unidos de preservar o sistema panamericano” em resposta a seu declínio de poder.

 

Como Monreal, Alzugaray enfatiza que manter a independência cubana durante o processo de aquecimento das relações é essencial.”Cidadãos  e instituições devem pensar profundamente e agir com agilidade para promover qualquer que seja o nosso interesse nacional. Isso pode significar tomar vantagem das circunstâncias econômicas, comerciais e financeiras sem fazer qualquer concessão quanto a nossa independência, autodeterminação e segurança.”

O cientista político Rafael Hernández criticou a “erupção da neo-cubanologia” nos Estados Unidos que “ confunde o cachimbo da paz com um ato de prostração política e com o fim do socialismo. Eles atribuem a mudança não a Washington, mas a Havana (‘a era dos ‘Castros’:”o começo do  fim  da aliança com a Venezuela) e clamor de que o resultado principal será  começar uma transição(‘depois dos Castros’)em que ‘os Estados Unidos serão o ator mais confiante.’”
Como os demais citados, Hernández enfatiza o contexto hemisférico como um fator chave pressionando os Estados unidos a relaxar as hostilidades. “Ainda que não haja outros partidos comunistas no governo, e o sistema político cubano não seja necessariamente admirado por muitos governos, o hemisfério é um lugar muito mais confortável para a ilha que é para os Estados Unidos. Claramente, a presença de Cuba na reunião a OEA no Panamá daqui a três meses será um resultado dessa mudança hemisférica, não uma decisão ou uma concessão dos Estados Unidos. Para os Estados Unidos, a opção de boicotar a reunião por causa da presença cubana seria tornar a cura em algo pior q a doença. Essa questão certamente cumpriu um papel na decisão de Obama de colocar todas as cartas cubanas na mesa em 17 de dezembro.

Hernández ofereceu uma crítica diferenciada da política imperial dos EUA.”provavelmente não apenas o presidente Obama, mas o indivíduo Barack,, realmente acredita no benefício de ‘promover os  valores[dos EUA] em Cuba e  em todos os demais lugares, porque para ele, eles são universais. E onde eles não são aceitos(África, Oriente Médio, China, Afeganistão, Rússia) existe um déficit que deve ser corrigido. Nós, cubanos, devemos compreender que essa posição reflete o etnocentrismo cultural mais que a ideologia. Se nós queremos nos conectar e coexistir com essa sociedade do Norte, nós devemos confiar em certas virtudes(paciência, perseverança,prudência) e distinguir entre seu impulso imperialista(que existe) e seu etnocentrismo, ainda que os dois estejam conectados.

A longa história das relações EUA-Cuba, para Hernández, trazem desafios particulares assim como esperanças para o futuro. De um lado, os Estados unidos exigem exercer um controle maior sobre cuba que sobre outros países.”ainda que Obama se refira à política dos EUA quanto à China e o Vietnã para justificar a mudança de política quanto a Cuba, os Estados Unidos vêm os asiáticos como estranhos Habitantes das Antípodas, não como ilhas “sob os EUA” que até recentemente eram suas “possessões”.  Pela Cultura do Grande Irmão, o governo chinês se permite  impedir um grupo organizado de se aproximar da praça Tiananmen por qualquer razão; e os vietnamitas pode aprisionar blogueiros antigoverno, sem  minar suas relações com os EUA. de fato, as relações bilaterais nos últimos 20 anos incluíram encontros anuais para discutir as diferenças deles em relação a direitos humanos e democracia”

“Ainda assim, há vantagens comparativas na relação cultural entre os Estados Unidos e Cuba. Cubanos são mais norte americanos culturalmente que a maioria do hemisfério. Norte americanos geralmente se sentem menos estrangeiros em Havana que em outras capitais, para não mencionar mais seguros. Se eles vierem, eles poderão ver por si mesmos que os cubanos não precisam tanto dos Estados Unidos para ‘ajudar o povo cubano a se ajudar a chegar ao século XXI’(como Obama disse em seu discurso) em vez disso, eles precisam que os Estados Unidos  parem de impedir seu acesso a tecnologia. Isso seria melhor para que as duas sociedades se encontrassem, sem tentar interferir nos negócios uns dos outros, como vizinhos que compartilham a paixão por baseball, Studebakers, Latin Jazz,eletrodomésticos, hip hop , modernidade, filmes, e lugares comuns na sua história como Nova York e Havana entre tantas outras coisas”

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....