Afinidades Eletivas: Proximidades entre o Sionismo e o Duginismo

Artigo recente da revista de esquerda liberal “The Intercept” tocou na questão do antissemitismo de duas figuras famosas da extrema-direita perenialista mundial, Alexander Dugin e Olavo de Carvalho. Como era de se esperar, a revista usou de lugares comuns rasos para apontar as existentes ligações entre as teorias da conspiração perenialistas (que envolvem uma miscelânea de conceitos imprecisos como “globalismo”, “elites contra-iniciáticas” e “Estado profundo/deep state”, para nos determos em alguns poucos exemplos) e o antissemitismo. Menos surpreendente ainda foram suas posições gritantemente acríticas ao sionismo, um movimento pró-imperialista, colonialista e racista no Oriente Médio – no máximo, ao fim do texto se coloca a questão de que Israel comete violações aos direitos humanos (como qualquer Estado burguês o faz contra o grosso de sua população).

O que nos supreende é que o texto mal tocou no problema de racionalizar o fato de que Olavo hoje é um violento apoiador do Estado de Israel, deixando no ar uma eventual contradição entre a sua conversão em apoiador do sionismo e o aquilo que eles enxergam como traços de antissemitismo do perenialista brasileiro. Conforme a História nos demonstra, não existe nenhuma contradição obrigatória e essencial entre antissemitismo e apoio ao sionismo (ou, inversamente, entre ser sionista e apoiar antissemitas), ao contrário do que a revista liberal sugere. A contradição motriz do mundo não é, afinal de contas, aquela existente entre identidades étnicas, como o identitarismo progressista do “The Intercept” e o identitarismo reacionário da Quarta Teoria Política querem nos fazer crer, mas a luta entre o capital e o trabalho.
Contudo, o elemento menos explorado no texto foi a relação entre Alexander Dugin e o sionismo. Embora a base militante do duginismo tente se apresentar como radicalmente antissionista, veremos no presente artigo que Dugin e suas redes internacionais de influência se articulam de forma orgânica com frações do sionismo e se alinham a blocos políticos apoiados por grupos sionistas conservadores e reacionários ao redor do mundo. Isso inclui, evidentemente, a Nova Resistência, movimento estadunidense com representantes brasileiros.

Como já demonstramos em outros artigos publicados em nosso espaço, é indiscutível que o duginismo possui um caráter fascista – inclinando-se, em alguns momentos, ao nazismo esotérico. Na superfície, conciliar essas posições com o apoio ao e o diálogo com o sionismo pode parecer contraditório e até impossível. A História, contudo, nos ensina que a relação entre movimentos que afirmam a inferioridade dos judeus e o sionismo foi e é muito mais complexa do que o “The Intercept”, Olavo de Carvalho e Dugin gostariam de afirmar.

1. Um importante precedente: sionismo e fascismo.

O movimento sionista tal como entendido hoje surgiu na Alemanha fundado por Theodor Herzl, entrelaçado com a onda romântica e nacionalista que varreu a Europa do século XIX, apesar de propostas desarticuladas da criação de um Estado judeu terem circulado antes. Sua proposta central era a criação de um Estado ao povo judeu, sobretudo na atual Palestina. Apesar do momento histórico, o sionismo era um movimento isolado dentro das comunidades judaicas tanto dentro da Alemanha quanto no resto da Europa [1]. A maior parte dos judeus do Império Austro-Húngaro, por exemplo, fazia questão de se distanciar da população eslava afirmando sua identidade como assimilados ao mundo germânico. Paradigmático disso era Franz Kafka: em que pese a esquerda liberal adorar a imagem que se construiu do escritor judeu e tcheco como um deslocado na sociedade imperial austríaca, a verdade é que Kafka era orgulhoso de sua filiação cultural ao mundo germânico, tendo mesmo se referido uma vez ao “camaradas de povo, da Boêmia alemã” durante a Primeira Guerra Mundial [2]. Frente ao sionismo, prevalecia a posição que defendia a assimilação das populações judaicas às nações em que elas se encontravam. A Conferência de Organizações Judaicas de Pittsburgh, em 1885, declarou mesmo que “os judeus não se consideravam mais uma nação, mas uma comunidade religiosa, não esperando portanto um retorno à Palestina”.


O movimento sionista disputou ferozmente com os assimilacionistas a liderança das comunidades judaicas durante as décadas de 1910, 1920 e 1930, sobretudo na Europa Central. Um desses esforços de disputa foi a criação de movimento sionistas que emulavam os grupos volkisch alemães do movimento Wandervogel (nos quais se manifestava romantismo misturado a celebrações da natureza e atividades esportivas como alpinismo), como o Blau Weiss. O Blau Weiss buscava disputar a juventude judia alemã com o assimilacionismo, tendo o filósofo neoconservador e sionista Leo Strauss sido membro dele [3]. Além do sionismo, Strauss também foi impactado em sua juventude pelo filósofo nazista Martin Heidegger, o qual Strauss chegou a declarar que o impressionou como nenhum outro pensador contemporâneo – evidenciando um sintoma de aproximações posteriores [4]. Heidegger, nunca é demais lembrar, é também o fundamento teórico da Quarta Teoria Política de Alexander Dugin e do movimento duginista estadunidense Nova Resistência.

A despeito desses esforços, contudo, a posição assimilacionista continuou prevalecendo inconteste nas comunidades judaicas da Europa (mesmo nas suas frações oriental e central) até a ascensão do nazismo. Movimentos judeus nacionalistas e assimilacionistas anticomunistas existiram no pré-guerra, alguns chegando a apoiar a ascensão de Adolf Hitler: foi o caso da Liga dos Nacionalistas Judeus Alemães, fundada em 1921 por Max Naumann, que defendia a eliminação da identidade judaica e sua assimilação plena na identidade alemã. Com a vitória do nazismo, os assimilacionistas passaram a ser perseguidos com o consentimento das alas sionistas, que viam a posição assimilacionista como seu principal inimigo. Naumann acabou preso pelos nazistas e morreu em 1939, em um campo de concentração. Como afirma João Bernardo, “Se os anti-semitas queriam desembaraçar-se dos compatriotas judaicos e se os sionistas pretendiam aumentar o número de judeus na Palestina, por que não unirem os esforços?” – afinal de contas, havia um acordo básico comum entre o nazismo e o sionismo, o de que os judeus não tinham lugar na sociedade alemã [5].

E unir esforços foi o que eles fizeram. Após um período de negociação, em 25 de Agosto de 1933, foi assinado o Acordo de Haavara (“Transferência”) entre a Federação Sionista da Alemanha, o Banco Anglo-Palestino e as autoridades econômicas da Alemanha nazista, visando estimular a emigração de judeus alemães para a Palestina, então colônia inglesa. Os impactos dessa política nazista e sionista sobre a região palestina foram enormes: a título de exemplo, enquanto vigorou o Tratado, cerca de 60% dos investimentos diretos feitos na região eram originários do fluxo de capitais que esse Tratado gerou – em áreas tão diversas quanto a indústria têxtil e a metalúrgica. Sem o estímulo nazista, muitas das principais empresas israelenses atuais não existiriam [6].

O sionismo, contudo, não contou exclusivamente com apoio do nazismo para surgir. Também o fascismo italiano apoiou o sionismo. Embora em 1922 tivesse caracterizado o sionismo como instrumento da política britânica, Benito Mussolini rapidamente mudou de lado ao perceber o papel desestabilizador do sionismo dentro do Oriente Médio. Em 1926, Mussolini passou a cortejar o sionismo tendo em vista tais fins geopolíticos e o sionismo retribuiu o flerte, apoiando o regime fascista em vários periódicos. Em 1934, ao receber o líder sionista Chaim Weizmann, Mussolini declarou que Jerusalém não podia se tornar uma capital árabe – ignorando que historicamente Jerusalém foi uma cidade de maioria árabe…

O apoio mais concreto do fascismo italiano, porém, foi à corrente sionista liderada por Vladimir Jabotinsky, denominada de revisionismo sionista – a qual pretendia romper com todos os traços de socialismo que o sionismo pretendeu algum dia ter em favor de uma ordem corporativista que eliminasse a luta de classes. O grupo de Jabotinsky contava com uma milícia própria, o Betar, responsável por reprimir os elementos socialistas dentro do sionismo. Em 1934, Mussolini permitiu que a Academia Naval, dirigida pelo Partido Nacional Fascista, habilitasse mais de 134 cadetes do Betar, os quais desfilaram orgulhosos diante do Duce – dando base para a constituição da Marinha israelense. O Betar, posteriormente, foi a base para a constituição da milícia sionista Irgun já na própria Palestina, a qual conduziu campanhas terroristas contra a população árabe e britânica.

Ainda que posteriormente Jabotinsky tenha passado à oposição ao campo fascista durante a Segunda Guerra, as bases do seu movimento não o seguiram de forma linear. Avraham Stern, sionista e fascista membro do Irgun, fundou uma dissidência, chamada de Lehi, e continuou conduzindo atentados terroristas contra árabes e britânicos, em uma linha mussoliniana e antibritânica. Em um destes, o Massacre de Deir Yassin, mais de 600 palestinos foram mortos pelos fascistas sionistas do Irgun e Lehi (os quais, a despeito da ruptura, continuavam a atuar juntos). O ápice desse movimento de aproximação foi a proposta que Stern fez ao Terceiro Reich de uma aliança. Próximo ao fim da Guerra, com a morte de Stern, a liderança remanescente do Lehi passou a se declarar “nacional-bolchevique” (tal qual o partido fundado por Alexander Dugin) e cortejar a apoio de Josef Stalin [7].

Como se pode ver, a colaboração entre antissemitas, fascistas e sionistas não possui nada inédito para a História. Não é de se estranhar, assim, que Alexander Dugin tenha uma política dúbia, para dizer o mínimo, quanto ao sionismo.

[1] João Bernardo, De perseguidos a perseguidores: a lição do sionismo. Disponível em: https://passapalavra.info/2010/06/24723/.

[2] James Hawes, “Excavating Kafka”. Londres: Cuercus, 2008.

[3] Jerry Muller, “Leo Strauss: The Political Philosopher as a Young Zionist”, 2010. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.2979/jewisocistud.17.1.88?seq=1

[4] Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/strauss-leo/

[5] João Bernardo, De perseguidos a perseguidores: a lição do sionismo. Disponível em: https://passapalavra.info/2010/06/24723/.

[6] João Bernardo, De perseguidos a perseguidores: a lição do sionismo. Disponível em: https://passapalavra.info/2010/06/24723/.

3. Dugin e o Sionismo

Como já afirmamos, uma das táticas de infiltração do duginismo dentro da esquerda consiste na instrumentalização de seu pretenso anti-imperialismo como um cavalo de tróia. A tática funciona da seguinte forma: o uso da retórica “anti-imperialista” busca fornecer alguma credibilidade às pessoas vinculadas às redes duginistas, que se apresentam então como mais um membro do bloco de resistência, para a partir daí angariar inserção nas organizações de esquerda e degenerá-las do ponto de vista moral, teórico e político. Central nessa tática é a sua oposição contraditória e meramente retórica ao sionismo. Como veremos, essa oposição não é coerente e consequente do ponto de vista político.

O guru da organização estadunidense Nova Resistência, Alexander Dugin, não possui uma posição claramente antissionista. A bem da verdade, Dugin se encontra organicamente relacionado a membros de movimentos sionistas mais ostensivamente reacionários e colonialistas, com continuidades históricas e ideológicas ao sionismo fascista de Avraham Stern e Vladimir Jabotinsky. Além disso, Dugin é responsável por diversas vezes reproduzir um discurso que retira a responsabilidade do Estado de Israel pela sua política de extermínio contra árabes e desestabilização do Oriente Médio em suas entrevistas. Por fim, Dugin realizou em suas obras teóricas uma apologia do colonialismo sionista e da fundação do Estado genocida e racista de Israel, fundação essa feita sobre o sangue de árabes cristãos, muçulmanos e judeus ortodoxos. É ridículo que qualquer movimento duginista como a organização estadunidense Nova Resistência pretenda ser coerentemente antissionista – em que pese a suspeita de antissemitismo que paira sobre Dugin.

As relações de Alexander Dugin com movimentos ultrassionistas são bem documentadas. Um desses fundamentos é o interesse de Dugin pela Cabala judaica, a qual como veremos é central para o russo fundamentar seu apoio à fundação do Estado de Israel. Em um artigo, Dugin estabelece uma divisão comum aos seguidores de René Guénon e Julius Evola entre elementos exotéricos e esotéricos dentro do Judaísmo: para ele, o judaísmo possui uma vertente abraâmica, exotérica e inferior, e outra esotérica, superior, que permitiria aos seres humanos se tornar Deus [7].

O interesse de Dugin no esoterismo da Cabala o levou a estabelecer contato com Avigdor Eskin. Eskin foi militante no partidos políticos israelenses Kach e Kahane Chai, fundados pelo rabino Meir Kahane (cujo pai tinha sido um amigo próximo do sionista fascista Ze’ev Jabotinsky, líder do revisionismo sionista ao qual já nos referimos).

Tanto o Kach quanto o Kahane Chai eram tão racistas em seu supremacismo racial que o próprio Estado de Israel os baniu. Entre as medidas que a plataforma partidária destes dois partidos defendiam estavam a retirada de todos os direitos de cidadania a não-judeus e a imposição de três anos de trabalhos forçados todos não-judeus que não se dispusessem a sair de Israel após sua ascensão ao poder (além da imposição de períodos variáveis de trabalho braçal ao longo do ano), além do estabelecimento de uma teocracia judaica expansionista.

Avigdor Eskin não restringiu sua militância a estes partidos, banidos em 1994. Eskin também lançou uma maldição cabalística de morte sobre o Primeiro Ministro Yitzak Rabin, assassinado por fundamentalistas judeus em 1995 em razão dos Acordos de Oslo. Também colaborou com a direita estadunidense para fornecer armamentos aos Contras nicaraguenses e apoiou ativamente o regime do apartheid na África do Sul, chamando o bispo católico Desmond Tutu de “fascista” responsável pela opressão da minoria branca afrikaner – ativismo que segue até hoje, pois Eskin visita a África do Sul constantemente. É no mínimo tragicômico que Eskin acuse Tutu de fascista e se associe não só com Dugin, mas também com Michael Kleiner para fundar o que chamou de Nova Direita Israelense – Kleiner foi o refundador do Movimento Nacional Herut sob as bençãos de Shmuel Katz, um membro do Irgun do sionismo fascista de Jabotinsky. Também se envolveu na profanação do túmulo de Izz al-Din al-Qassam, líder árabe da luta anticolonial contra os franceses e britânicos, colocando uma cabeça de porco sobre sua sepultura.

As relações de Dugin com Avigdor Eskin não se resumiram a conversas sobre os charlatanismos místicos comuns, contudo. Avigdor Eskin introduziu Dugin ao banqueiro Mikhail Gagloev, rico burguês da Ossétia do Sul, o qual financiou as atividades de Dugin ao longo de vários anos. Envolvido com o banco Tempbank e com times de futebol como o CSKA, Gagloev era um dos líderes de um grupo de magnatas moscovitas com conexões ucranianas conhecido como grupo de Luzhniki, nomeado assim em razão do estádio do CSKA [8]. A principal empresa de fachada do grupo operava no “atlantista” Reino Unido, com o nome de Bluecastle Enterprises. Gagloev foi Vice-Secretário do Comitê Executivo do Movimento Eurasiano Internacional. Eskin também chegou a fazer parte do Partido Eurasiano fundado por Dugin ainda em 2001 como membro do seu Comitê Central , compartilhando com o místico e Gagloev papéis diretivos no movimento duginista.

Além de Eskin, Dugin também possui contatos orgânicos com o rabino Avrom Shmulevic. Shmulevic fez parte do Movimento Internacional Eurasiano, sendo membro do Congresso fundador desse movimento em 2001 [9]. Shmulevic faz parte, junto com Avigdor Eskin, do movimento Be’ad Artzeinu (“Pela nossa Pátria”), um grupo de pressão israelense que defende o afastamento geopolítico entre Israel e os EUA, já que este impediria os interesses expansionistas israelenses de prosperarem no Oriente Médio. O Be’ad Artzeinu já se envolveu em atividades provocadoras e colonialistas, como a fundação de uma colônia ortodoxa hasídica no centro de Hebron, uma cidade de maioria árabe [10]. Shmulevic pertence a um ramo do Hasidismo que vê qualquer concessão territorial de Israel à maioria árabe como um ato blasfemo da vontade de Deus.

Dugin, contudo, não se restringiu a buscar alianças com membros do sionismo mais visceralmente racista, supremacista e com raízes no fascismo sionista de Stern e Jabotinsky. Ele também, por diversas vezes, minimizou o aspecto segregacionista e desestabilizador do Estado de Israel no Oriente Médio.

Em uma entrevista recente, quando questionado sobre qual era relação de Israel com a luta contra grupos “jihadistas pós-modernos” como a Al-Qaeda, o Estado Islâmico e a frente Jabhat-al-Nusra na Síria, Dugin afirma que Israel era um país ausente desse conflito, não estando relacionado de qualquer forma à situação da guerra síria. Essa fala acontece entre os 1min:18s e 1min:34s do seguinte vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=UVasyNiY7C4. Evidentemente, a posição de Dugin é desonesta até com a sua própria base militante duginista no Brasil. Como se sabe, o Estado de Israel apoiou e apóia o fundamentalismo muçulmano contra o governo sírio e contra outros movimentos seculares, socialistas, nacionalistas e comunistas no Oriente Médio como tática divisionista. No caso sírio, oficiais militares israelenses assumiram publicamente fornecer armas aos “rebeldes sírios”.

Nesta outra entrevista, disponibilizada em canais ligados à Nova Resistência, https://www.youtube.com/watch?v=MVtSpqedLC8, Dugin cinicamente defende o ataque feito pelo Estado de Israel contra ativistas que buscavam auxiliar palestinos. Para ele, o Estado de Israel lutou por seu direito de existir e portanto teria o direito de tratar estrangeiros que interfiririam em seus assuntos internos como bem quisesse – como se o Estado de Israel não se tratasse precisamente de uma empresa colonialista e segregacionista que ignorou os direitos das populações palestinas! Por mais que todas as críticas possam e devam ser feitas à instrumentalização dos direitos humanos como ferramenta de intervenção externa, o apoio de Dugin ao Estado de Israel nesse vídeo é revoltante para qualquer um que pretenda ver nos palestinos camaradas de luta – como a organização estadunidense Nova Resistência finge fazer.

Por fim, Dugin defendeu em seus livros a fundação do Estado de Israel. Como se sabe, Dugin enxerga como força motora da História a luta entre duas sociedades secretas, a Ordem Atlantista e a Ordem Eurasiana – vendo negativamente a atuação da primeira e positivamente a atuação da segunda.

Para Dugin, em “Fundamentos da Geopolítica”, a fundação do Estado de Israel não teria sido um ato de colonialismo e estabelecimento de uma ideologia supremacista no Oriente Médio, mas sim fruto do esforço de uma ala judaica da Ordem Eurasianista, aqueles que ele chama de “judeus eurasianistas”, os quais, inspirados pelo Hasidismo e pelo Zohar cabalísticos, estariam em luta contra os “atlantistas”. Devemos sublinhar que aqui Dugin legitima também o apoio de Stálin à criação do Estado de Israel em 1948. Vale a pena citar o trecho dessa obra diretamente:

“[…] em certo estágio, esses judeus eurasianistas ‘vermelhos marrons’

[aqui, Dugin se refere à estratégia da aliança vermelho-marrom,
uma tentativa de unificar a extrema-esquerda e extrema-direita sob a
liderança hegemônica da última]

prepararam e criaram o Estado de Israel, tendo começado essa empreitada sob a liderança (e com o apoio) de Moscou para tanto. Esse esforço, contudo, se deu em uma luta contra os atlantistas-ingleses, contra as forças do capital e da democracia liberal. Os judeus eurasianistas compunham, assim, um eixo de forças esquerdistas em Israel, os seus frutos mais evidentes sendo os Kibbutzim, seguindo o espírito do livro da Cabala, o Zohar – ‘viver só do seu próprio trabalho.” [11]

Como se pode ver, Dugin defende abertamente o colonialismo sionista aqui, apresentando-o como fruto de um esforço eurasiano na luta contra a ordem atlantisa. Podemos nos perguntar quais seriam os agentes históricos reais e concretos que Dugin vê como sujeitos dessa luta contra os ingleses atlantistas: os membros dos esquadrões de extermínio do Irgun de Jabotinsky (o fundador do sionismo revisionista e aliado de Mussolini) ou os grupos da morte liderados por Lehi e Avraham Stern (que, tendo se declarado nacional-bolcheviques como Dugin, buscaram o apoio de Hitler e depois de Stálin)? A pergunta paira no ar. De qualquer modo, a apologia de Dugin à fundação do Estado de Israel sem mencionar minimamente as perseguições à população árabe é vergonhosa.

Quais podem ser as bases para a relação de Dugin com o sionismo? É difícil determinar. Alguns poderiam afirmar que existe ali um desejo de trazer Israel à esfera de influência russa, afastando-a dos EUA. Outros poderiam raciocinar que prevalece a noção de que os judeus israelenses são majoritariamente brancos e que Israel constitui um enclave étnico avançado contra a população árabe asiática – posição defendida pelo supremacista branco Jared Taylor e bem de acordo com os medos de hordas terceiro-mundistas nutridas por Kai Murros, o supremacista finlandês que a Nova Resistência divulga em seus espaços. É esse o raciocínio que levou o amigo de Alexander Dugin, Avigdor Eskin, a apoiar membros do regime do “apartheid” sul-africano, aliás, como já dissemos. Por fim, não é de se duvidar que elementos de redes esotéricas liguem Dugin a grupos sionistas que abraçam a Cabala como fundamento para sua posição política.

Evidentemente, a posição complacente de Dugin para com o sionismo e o Estado de Israel e seus apoiadores se reproduz entre a sua base militante. É o que veremos a partir de agora, atentando às posições de suas redes internacionais.

[7] Alexander Dugin: “Esoteric vs Exoteric Judaism”. Disponível em: http://www.kheper.net/topics/religion/esoteric_vs_exoteric_Judaism.html

[8] Charles Clover. “Black Wind, White Snow: the rise of russia’s new nationalism”. 2016

[9] Disponível em: http://web.archive.org/web/20020617114126/http://utenti.lycos.it/archiveurasia/eurasia_210401.html .

[10] Mark Sedgwick, “Against the Modern World”, 2004.

[11] Alexander Dugin, “Foundations of Geopolitics”, 1997

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