“Alemanha acima de tudo!”, assim cantavam os Nazistas!

No ano passado compartilhamos com os leitores do El Coyote um artigo com o sugestivo nome “Como reconhecer um fascista“. O texto cotinha uma lista com 14 características tipicas da ideologia fascista, com base em analise realizada sobre os regimes que vigoraram na Italia, na Alemanha, na Indonésia, além das ditaduras latino-americanas.

Logo no primeiro item desta lista lemos as seguintes palavras:

“Regimes fascistas tendem a fazer uso constante de lemas patrióticos, slogans, símbolos, músicas e outros apetrechos. Bandeiras são vistas em todos os lugares, assim como símbolos nacionais em roupas e demonstrações públicas.

“Deutschland über alles” (Alemanha acima de tudo) não foi apenas o hino alemão, mas a trilha sonora do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial e todos os acontecimentos terríveis que permearam o período. É, no minimo triste, que 66 anos após a Alemanha retirar a estrofe de seu hino nacional, tenhamos um pré-candidato a presidência no Brasil utilizando exatamente o mesmo mote como slogan de campanha.

Mas qual a razão que fez com que determinadas frases fossem consideradas tão reprováveis a ponto de serem excluídas?

O autor do hino alemão foi o compositor Joseph Haydn em 1797, a canção foi originalmente composta em comemoração do aniversário do líder do Sacro Império Romano-Germânico, o imperador Francisco II.

Em meados de 1840, o império entrava em decadência, mas o movimento de unificação das nações germânicas ganhava força. Foi então que August Hoffmann compôs uma nova letra para o hino, enfatizando a ideia de que união era mais importante do que qualquer coisa. A música começava com o “Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt”, ou “Alemanha, Alemanha acima de tudo, Acima de tudo no mundo”.

De acordo com informações retiradas da Deutsche Welle, foi no  dia 11 de agosto de 1922 que o primeiro presidente da República de Weimar, o social-democrata Friedrich Ebert, elevou a Canção dos Alemães à condição de hino nacional. Mas foram os nazistas, que tomaram o poder 11 anos mais tarde que reduziram o hino à primeira estrofe, adicionando o seu grito de guerra “Bandeiras ao alto, cerrar fileiras…”.

O movimento nazista tinha como um de seus principais objetivos criar uma sociedade homogênea e inteiramente alemã, excluindo da sua formação os “estrangeiros”, ao mesmo tempo em que buscava unidade nacional e tradicionalismo. Durante o Reich de Adolf Hitler grandes eventos oficiais eram rotina, e sempre marcados pelo trecho “Deutschland über alles”– e pelo hino do Partido Nazista (“Horts-Wessel-Lied”,  música até hoje proibida na Alemanha).

Com o fim Segunda Grande Guerra e a queda de Hitler, o pais foi partido ao meio. O lado oriental, sob comando da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criou um novo hino. Entretanto a Alemanha  ocidental, sob administração da aliança anglo-franco-americana, ficou um período sem hino nacional.

Em 1952, foi aceita a proposta de usar a Deutschlandlied (a canção dos alemães), mas mantendo apenas a melodia e a terceira parte, quase desconhecida na época. O hino começa com “Einigkeit und Recht und Freiheit” (“Unidade e Justiça e liberdade”). Em 1991, quando a Alemanha foi reunificada e estabeleceu-se que apenas a terceira parte fazia parte do hino do país. As duas primeiras foram retiradas.

Mesmo hoje a versão “Deutschland über alles” do  hino alemão  é motivo de polemica, sendo que o  alemão, em regra, evita entoar a musica, pelo que ela remete, ou seja, a construção simbólica tipica de regimes fascistas, capaz de moldar consciências individuais ao desejo do partido ou de um líder (o que inclui não apenas hinos, mas bandeiras, uniformes, apetrechos, etc). Mesmo no caso da versão pós-1991, nota-se ainda que, em execuções publicas, muitos alemães  não costumam cantar o hino, mas apenas ficam eretos, em posição de sentido, em virtude da chaga aberta a que o nacionalismo remete.

Em 2017, por exemplo, o hino nazista foi tocado em  um  torneio de tênis feminino no Havaí (FED Cup), causando revolta  na equipe alemã.  Na ocasião a Associação de Tênis dos Estados Unidos (Usta) se desculpou no Twitter, dizendo que “pede sinceras desculpas à equipe alemã da Fed Cup e aos fãs pelo hino nacional antiquado. Este erro não acontecerá novamente”.

“Eu acho que foi a epítome da ignorância e eu nunca me senti mais desrespeitada em toda a minha vida, senão na Fed Cup”, teria dito a alemã Andrea Petkovic, acrescentando que considerou abandonar a quadra antes da partida (que disputou) contra Alison Riske.

A ideia de que um conceito subjetivo e simbólico de “pátria” está acima das pessoas e de outros países já deu errado uma vez na historia e é motivo de vergonha nos países que o experimentaram,  resta saber que  lição o resto do mundo tirou de tudo isso.

Facebook Comments