Análise sobre os votos nulos na eleição de 2018 (Primeiro turno)

Quando comecei na minha área profissional, a epidemiologia, tive contato com o trabalho do sociólogo francês Émile Durkheim sobre suicídio na Europa do século 19. Ele descobriu que as taxas de suicídio eram maiores nos locais mais fortemente protestantes quando comparados às regiões católicas. Ná época ele chegou a fazer a inferência de que o suicídio foi promovido pelas condições sociais do protestantismo (Durkheim, 1897). Esta é uma “inferência ecológica” — uma conclusão sobre o comportamento individual a partir de dados sobre comportamento agregado.

Além do fato de que os países protestantes tinham diferenças dos países católicos na Europa para além da religião, os dados de Durkheim não podiam dizer muito sobre qual era a atividade religiosa particular do indivíduo estudado: Durkheim tinha taxas para países, não para denominações religiosas individuais. Quando foi feito a posterior análise, viu-se que, nas regiões protestantes eram os indivíduos católicos que suicidavam mais por motivos até hoje em disputa, sem querer desenvolver aqui, mas que indicavam uma inadaptação ao establishment protestante.

Esse tipo de confusão é chamado de “falácia ecológica” ou “viés ecológico” onde uma associação ao nível agregado (populações protestantes da Europa do Séc 19 tinham taxas de suicídio maiores que populações católicas) é diferente ou inversa da associação individual (indivíduos católicos tinham risco de suicídio mais alto quando comparado aos protestantes).

A taxa de votos nulos no primeiro turno da eleição de 2018 como uma situação de viés ecológico.

Meme de outubro de 2018, durante o intervalo entre 1o e 2o turno da eleição de 2018 satirizando o fenômeno visível de diminuição de voto nulo “consciente”.

Mudando o evento de estudo de suicídio para “votos nulos”, analisei os dados do primeiro turno para entender se há alguma dica do que estaria acontecendo.

Os dados foram retirados das Bases do TSE [2] de 2018 e, para comparação no tempo, do primeiro turno de 2014. Historicamente, os votos nulos no segundo turno tendem a diminuir, mas essa eleição 2018 não é típica e não é possível afirmar muito sobre o que pode acontecer no 2o turno.

A análise parte de dois pressupostos. Os votos nulos:

1- são votos de protesto, consientes ou inconscientes, contra o establishment da democracia liberal e
2- a parte consicente é minoritária (voto nulo “ideológico”) quando comparado ao voto nulo de discurso mais inconsciente (“contra o que esta aí”, “é tudo ruim”, “não tive opção”).
Não há como separar esses dois casos apenas com os dados do TSE, mas pelo que se vê nas redes sociais (ao lado), tem-se uma diminuição ainda maior dos votos nulos “conscientes” historicamente parte de campos de esquerda críticos à democracia liberal. Sendo um voto de protesto e não necessariamente ideológico em sua maioria, o voto nulo pode ser cooptado por campanhas de todo o espectro político e suas taxas de sucesso da cooptação variam dependendo da qualidade ou agressividade da eleição.
Resultados:
Correlações entre a % de votos nulos no primeiro turno de 2018 com a proporção de votos válido em Jair Bolsonaro, Fernando Haddad e Ciro Gomes.

Os três gráficos acima são das principais cidades brasileiras (mais de 200000 eleitores) e mostram a proporção de votos nulos no total de aptos (que vai de 2 a 10%) no eixo X e a proporção de eleitores votantes em Bolsonaro, Haddad e Ciro Gomes no eixo Y.

Há uma relação imporatante e negativa entre anular e votar em Bolsonaro e positiva entre anular e votar em Haddad. A proporção de votos nulos é menor nas cidades mais “Bolsonaristas”, maior nas cidades mais “Haddadistas”. Não houve relação para eleitores de Ciro Gomes. Em um primeiro momento, isso pode sugerir uma cooptação do voto nulo de protesto, chamado aqui de “voto antissistêmco” pela campanha do Bolsonaro. Essa hipótese é discutida e tem entre seus divulgadores o Prof. Vladmir Safatle [3]. Há duas maneiras de se interpretar isso:

A primeira, imediata, segue a “inferência ecológica” original de Durkheim, onde o voto nulo individual seguiria proporcional à maioria da cidade de onde ele se origina. Sendo assim, os mais “bolsonaristas” estariam mais “animados” e os mais “haddadistas” estariam mais “desmotivados”. Nesse caso, dada a confirmação dos resultados das pesquisas anteriores ao 2o turno, uma “culpa” de uma iminente derrota de Haddad, colocada sobre a não captação de votos brancos e nulos (analisada aqui apenas pelos nulos) cairia mais até em uma “desânimo” de eleitores em áreas como o Nordeste, comparado a um ânimo maior dos eleitores do Centro-Sul, onde a taxa é de nulos é menor e a margem de manobra para essa “culpa dos nulos” seria pequena.

Entretanto essa interpretação é falha. Primeiramente porque as taxas de nulos já eram historicamente mais altas no Nordeste quando comparado ao Centro-Sul, por questões sócio-econômicas que fogem ao escopo específico dessa análise imediata aqui, mas principalmente porque o voto nulo não é representativo da população geral, e é assumido como um voto de protesto, podendo seguir o inverso do “espírito” da cidade de onde se origina. A interpretação alternativa através de “viés ecológico” tal como no caso de Durkheim e o suicídio parece mais indicada.

Os muitos votos nulos no Nordeste podem ser entendidos como não-votos de descontentes ou mesmo de antipetistas que, até por pressão social de uma maioria, não votaram no Bolsonaro, ou seja, não foram cooptados. Nesse caso são um relativo e parcial sucesso da campanha de desconstrução do Bolsonaro em locais onde a centro-esquerda, entendida aqui como petista principalmente, é hegemônica.

Nas cidades onde o bolsonarismo tornou-se dominante, há uma pressão muito forte “antissistêmica” cooptando o sujeito “puto contra tudo que está aí” e gerando votos para Bolsonaro. Nesses locais a proporção de nulos diminui visivelmente, e quem ainda vota nulo estaria resistindo a essa pressão. O fenômeno acontece inclusive na região Norte, menos desenvolvida que o Centro-Sul.

Para comprovar essa interpretação faz se necessário garantir a temporalidade, ou seja, que houve mesmo uma diminuição dos votos nulos nas cidades mais bolsonaristas:

Diagrama de setas indicando a mudança de votos em Dilma (2014) e Haddad (2018) e a proporção de votos nulos no 1o turno de 2014 a 2018.

O diagrama de setas indicando a mudança de votos em Dilma (2014) e Haddad (2018) e a proporção de votos nulos no 1o turno de 2014 a 2018. Foram usadas todas as cidades com mais de 150 000 eleitores aptos nos dois pleitos (2014 e 2018). As regiões Sul e Centro-Oeste, mais bolsonaristas, tiveram redução de votos no candidato petista e diminuição dos votos nulos na maioria das cidades. No Nordeste houve um aumento dos votos nulos e uma manutenção do plateau de votos na sigla petista no arco que vai da Paraíba à Bahia. No Ceará e Rio Grande do Norte, onde Ciro Gomes superou Haddad nas maiores cidades, houve diminuição do voto petista e uma diminuição proporcional dos nulos. O Sudeste fica no meio termo embora puxado para o mesmo efeito que ocorre no Sul e Centro-Oeste.

A hipótese de cooptação do voto nulo se confirma e está visível nessa análise antes/depois. No Nordeste não-cirista, os votos do PT não se alteram tanto, mas aumentam os nulos, o que reforça o sucesso parcial da esquerda em desconstruir Bolsonaro. Parcial pois, nessa parcela, o fato não foi suficiente para aumentar a votação no candidato petista.

Nas outras regiões, uma hipotética manutenção dos votos nulos ao níveis de 2014 seria até mais benéfica a Haddad no segundo turno, pois haveria margem de manobra pra convencer, pelo menos do voto nulo, o sujeito que antes estava cético com a democracia liberal mas que se inclinou (ou está sendo cooptado) a votar no Bolsonaro.

Resumo das tendências de votos no PT e nulos nas regiões do Brasil e detalhamento no Nordeste

 

Este último gráfico mostra o resumo das tendências. A regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste estão, em média, com menos votos nulos e em Ferando Haddad comparado com Dilma em 2014. O Nordeste apresenta uma manutenção da hegemonia do PT e aumento das taxas de nulos de 2014 para 2018 no arco da Paraíba à Bahia. O Ceará e o Rio Grande do Norte são excessões explicadas facilmente pela presença de Ciro Gomes como opção no 1o turno. Uma previsão a ser extrapolada é que, no 2o turno, Ceará e Rio Grande do Norte voltarão a ter altas taxas de nulos por causa da ausência de Ciro. O caso de Maranhão e Piauí mereceriam uma análise mais detalhada não contemplada aqui.

Os votos brancos seguem um padrão semelhante e mais diluído que os votos nulos, enquanto as abstenções são mais aleatórias, não beneficiando nenhum candidato específico (dados não mostrados).

Conclusões:

  1. A hipótese de cooptação do sentimento antissistêmico pela extrema-direita foi evidenciada e deixou uma marca nas taxas de votos nulos.
  2. Os dados indicam não haver muita margem de manobra para obter votos em Haddad a partir de nulos (e extrapolando, de brancos).
  3. A resistência ao bolsonarismo no Nordeste se dá, inclusive, pelo aumento dos votos nulos.
  4. No Centro-Sul, haveria espaço para aumentar os votos nulos em antipetistas cooptados por Bolsonaro.
  5. Os votos nulos restantes tem efeito em direção da não cooptação (anti-Bolsonaro), apesar de pequeno em magnitude.
  6. Não culpe aqueles seus amigos(as) comunistas ou anarquistas por discutir o voto nulo nesse cenário. Ao contrário do que indica o senso comum de inferência ecológica, eles, consicente ou inconsicentemente, operam sabendo o quê e para quem seu discurso é direcionado.
  7. Essa autor não indica voto nulo, apenas apresentei falhas das estratégias eleitorais do campo progressista amplo. Não briguem comigo, briguem com os dados.

Referências:

  1. Freedman, David A. (2002). “The Ecological Fallacy”. University of California.
  2. TSE Repositório de dados eleitorais http://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/repositorio-de-dados-eleitorais-1/repositorio-de-dados-eleitorais
  3. Safatle, Vladimir. A Esquerda cresceu onde radicalizou sua pauta. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/09/1920342-esquerda-cresceu-onde-radicalizou-sua-pauta-afirma-vladimir-safatle.shtml

 

 

Facebook Comments

Mauro Cardoso

Médico Epidemiologista e Estatístico, atua na área de saúde pública estudando os cavaleiros do apocalipse: a peste, a fome e a guerra.