Aquele Onze de Setembro

 

O mês? Setembro. O dia? Onze.

 

O ano? Ah! O ano. 1973.

 

Sim, você pensou que seria 2001, certo? Pois é, dessa vez iremos falar de outro 11 de setembro, um que aconteceu em 1973.

 

Eu não tenho medo de backlash. Eu sou escritora. Eu sou anarquista. Eu já estou acostumada a ser atacada por todos os lados quando eu escrevo. Mas, a escrita é o meu eu no mundo. No entanto, antecipando o backlash vou, primeiro, te falar algumas coisas.

 

Eu lamento muito o onze de setembro de 2001. Por princípios, eu acho que, salvo exceções, vidas importam. Eu valorizo a vida e lamento toda interrupção precoce. Eu lamento a faxineira imigrante que morreu. Eu lamento o porteiro negro que deixou três filhos no Bronx para criar. Eu lamento o paralegal recém-formado que se jogou da janela enquanto o prédio desabava. Eu lamento as milhares de mortes. Os milhares de sonhos e projetos interrompidos. Eu lamento a dor das outras dezenas de milhares que ficaram e nunca mais abraçarão seus entes queridos.

 

Entenda, meu caro amigo, que eu me importo com todos que estavam nas duas torres naquela fatídica manhã de setembro. Eu era uma criança, com não mais que doze anos. Eu voltei da escola mais cedo, porque interromperam nossas aulas. Eu fiquei junto da minha família com os olhos na TV, o coração na boca e o telefone na mão esperando notícias dos nossos parentes queridos que moravam em NY. Eu voltei à NY várias vezes depois disso e nunca, até hoje, consegui visitar o marco zero. Eu não esqueci. Eu não vou me esquecer. Nem você. Aliás, ninguém, no mundo inteiro ninguém vai se esquecer.

 

“Nós não vamos nos esquecer porque foi uma tragédia enorme. Mas, também, eu preciso te dizer, nós não vamos nos esquecer porque lá era onde o dinheiro circulava. Porque lá estavam vidas brancas, vidas do norte global.”

 

 

 

Nós não vamos nos esquecer porque foi uma tragédia enorme. Mas, também, eu preciso te dizer, nós não vamos nos esquecer porque lá era onde o dinheiro circulava. Porque lá estavam vidas brancas, vidas do norte global.

 

Nós também não deveríamos nos esquecer das vidas dos afegãos que morreram nos anos subsequentes, mas nós já esquecemos. Não tem monumento com cascata e o nome deles gravados em pedra. Nós não choramos o luto deles.

 

Nós não nos esqueceremos das vidas que foram embora quando os aviões colidiram com as torres, mas nos esquecemos das vidas ceifadas nas montanhas do Oriente Médio porque nós nos acostumamos a contar a história dos vencedores. Walter Benjamin já nos alertou que o Ocidente não forma sua memória social e política a partir da memória dos vencidos. Aos vencidos, morre-se duas, senão muito mais vezes. Morre-se  fisiologicamente sob a mira de uma arma de um bem-intencionado soldado que deixou em solo americano sua amada, enquanto se alimenta a poderosa indústria bélica. E se morre no anonimato, no silêncio, no esquecimento.

 

Quando eu só conto a história do Norte Global, eu mato mais uma vez os meus hermanos do Sul Global. Quando, ao falar de 11 de setembro, eu só me lembro de 2001, eu assassino mais uma vez os países latinos soterrados por décadas por suas ditaduras militares financiadas por dólares gringos manchados de sangue.

 

Eu respeito todas as vidas. Eu choro todos os mortos injustamente. Mas eu sei que a guerra de narrativas é real. Por isso, eu estou aqui não para contar o que você já viu na CBN, eu estou aqui para te contar a história do meu povo. Eu estou aqui para te contar do sangue que jorra na América Latina, eu estou aqui para te contar como choram as Madres e as Abuelas sem os corpos de seus filhos e netos para enterrar. Eu estou aqui para te contar dos jovens que nasceram em ventres guerrilheiros, mas foram sequestrados de seus pais para serem criados por torturadores. Eu estou aqui para te contar os crimes contra a humanidade que aconteceram no meu país e nos países vizinhos aos meus para garantir que o ideal soviético não se espalhasse pelas Américas Central e do Sul.

 

Então, vamos falar de 11 de setembro. Mas, de 1973.

 

“Nada dava mais pavor ao Tio Sam que o crescimento socialista latino. O resultado? Financiar grupos nacionalistas, ligados às Forças Armadas nos países latinos para darem golpes autoritários e garantir a manutenção da ordem. Sim, o nacionalismo latino-americano tem as cores da bandeira estadunidense.”

 

 

 

Salvador Allende foi o primeiro presidente socialista eleito democraticamente na América Latina. O que isso significa, mesmo que eu ache que toda eleição é farsa, o reconhecimento de que nós ainda vivemos sob uma pseudo-democracia representativa. O sistema que nossos países resolveram viver é aquele em que se escolhe um presidente pelo voto. E, na década de 1970 o povo chileno votou, sob as regras do jogo, em Salvador Allende, um socialista.

 

O contexto? Guerra Fria. A Europa estava dividida, a Alemanha partida ao meio com um muro. A Ásia e a África também era um tabuleiro de xadrez onde soviéticos e norte-americanos moviam ao bel-prazer suas peças. Na América Latina estava Cuba, um rato com o poder de um leão ameaçando os planos do vizinho poderoso. Nada dava mais pavor ao Tio Sam que o crescimento socialista latino. O resultado? Financiar grupos nacionalistas, ligados às Forças Armadas nos países latinos para darem golpes autoritários e garantir a manutenção da ordem. Sim, o nacionalismo latino-americano tem as cores da bandeira estadunidense.

 

Em cada país, a ditadura começou em momentos diferentes, no Brasil, por exemplo, foi em março de 1964, nove anos antes da ditadura chilena. Mas, porque nós nos lembramos de 11 de setembro de 1973 sempre que falamos sobre as ditaduras militares latino-americanas?

 

Primeiro, como já dito, porque Allende era o primeiro presidente oficialmente socialista a ser eleito pelo voto. Ficou escancarado quem era o inimigo: as ideologias de esquerda. Segundo, porque a ditadura chilena, sob a batuta de Pinochet, foi uma das mais sanguinolentas. É um marco relevante para compreendermos a história da Grande Mátria. Ainda hoje o Chile vive sob os escombros do ditador. Em todo o protesto que se vai no país, ouvimos o movimento estudantil bradar: “Se va a caer, se va a caer. La educación de Pinochet”

 

a história oficial, diz que por volta de duas da tarde Salvador Allende atirou contra si mesmo, se poupando de ver seu povo e os povos dos países vizinhos sendo mortos, desaparecidos e torturados. Allende não precisou ver os horrores dos anos que se seguiram, enquanto os Estados Unidos saqueavam tranquilamente nosso continente.”

 

 

 

Até a década de 70 o Chile era um dos países mais desenvolvidos e com economia estável na América do Sul e viu, nos anos 60 uma intensa mobilização dos setores populares da sociedade. O movimento obreiro do Chile era um exemplo ao continente. Essa efervescência levou à eleição de Allende, que defendia reforma agrária, educação universal gratuita, sistema público de saúde, direitos trabalhistas, dentre outros, sempre em conformidade com as instituições vigentes. Se eram socialistas, sem dúvida, mas um socialismo moderado, que ao fim não tinha de fato grandes poderes de alterar a estrutura social. Não deixou, no entanto, de incomodar a burguesia. O locaute patronal de 1972 talvez tenha sido um dos maiores paros da burguesia na história da humanidade. Tentou-se impedir a eleição de Allende no Congresso, por meio de seu impedimento, mas a burguesia não atingiu os ⅔ de votos necessários. Allende concorreu, foi eleito e empossado presidente, mesmo com a mídia, o Judiciário, o Legislativo e as instituições patronais e de classe média fazendo de tudo para impedí-lo.

 

A Forças Armadas se unem à oposição a Allende. Em junho de 1973 tanques cercam o Palácio e matam mais de duas dezenas de pessoa. O golpe estava escancaradamente em curso. De um lado a burguesia nacional chilena, as Forças Armadas, as instituições e o dinheiro sujo que vinha da América do Norte, além de grupos terroristas e paramilitares de extrema-direita como a Patria y Libertad, de outro lado, um povo idealista e sonhador e um presidente sem base de apoio no Congresso ou na Suprema Corte. O golpe se concretiza em 11 de setembro do mesmo ano, apesar da heróica resistência.

 

A armada chilena chegou a Valparaíso na manhã de 11 de setembro, escoltada pelos vasos de guerra dos Estados Unidos, de prontidão nas águas fronteiriças do país. Um avião WB-575 – um centro de telecomunicações – da força área norteamericana, pilotado por militares norteamericanos, sobrevoava o Chile. Simultaneamente 33 caças e aviões de observação da força aérea norteamericana aterrisssavam na base aérea de Mendonza, na fronteira da Argentina com o Chile.

 

As horas que se seguiram foram de terror, o presidente Allende se dirigiu ao Palacio de La Moneda, onde acreditava que encontraria Pinochet, até então alguém considerado de sua confiança. Há rumores de que as coisas aconteceram de outra forma dentro das paredes do Palácio, mas, a história oficial, diz que por volta de duas da tarde Salvador Allende atirou contra si mesmo, se poupando de ver seu povo e os povos dos países vizinhos sendo mortos, desaparecidos e torturados. Allende não precisou ver os horrores dos anos que se seguiram, enquanto os Estados Unidos saqueava tranquilamente nosso continente.

 

Onze de setembro de 1973 é um marco na história sulamericana e latinoamericana de um modo geral. É a concretização dos planos de dominação imperialista. Onze de setembro de 1973 aconteceu um terrível atentado terrorista contra as vidas do sul global e a soberania dos países latinos. Mas, nós não costumamos chamar de terroristas aqueles que vestem fardas e coturnos e têm amparo das instituições.

 

Nos anos que se seguiram, na América Latina, reinou o silêncio nas ruas e nossa arte e voz censurada, enquanto nos porões de batalhões ouviam-se berros de dor. Nas casas, o choro abafado das mães que não tiveram mais notícias dos filhos vistos pela última vez num protesto. Os que deram sorte, foram pro exílio. Os que tiveram coragem, para a clandestinidade. O nosso povo é aguerrido, e seguiu lutando, enfrentando a morte e a tortura. Toda sorte de horror foram cometidas para que a esquerda não florescesse. Mas, nossos corações são vermelhos e não se pode silenciar o desejo de um novo mundo. Não se pode silenciar um povo que insiste em resistir, um punho cerrado que se ousa erguer.

 

Quando analisamos os números de todas ditaduras latinas foram centenas de milhares de mortos. Foram milhares de corpo que nós nunca enterramos. Foram milhares de sobreviventes que nunca esquecerão a tortura, o estupro, o pavor. Foram centenas de crianças sequestradas dos braços dos pais. Foram incontáveis desaparecidos. Ainda hoje esperamos por ele, nós ainda os queremos, VIVOS! Foram livros queimados, jornais e músicas censurados. Foram poesias engolidas, quadros não pintados.

 

Não foi um dia de terror. Foram quase três décadas, abaixo e acima do Equador.

 

No final da década de 80 as ditaduras acabaram, mas, o capitalismo dependente sempre se reinventa. Agora, com o nome de globalização. E ainda tentam nos matar e nos calar quando não consegue.

 

Nós fomos mortos, desaparecidos e torturados. Nossas famílias ainda choram por nós. Mas, nossa história, a cada dia que passa, vem sendo menos contada. Vem sendo menos contada em nossos próprios países, e ainda menos, nos países do Norte Global. Eu estudei exaustivamente no colégio sobre o ataque às Torres Gêmeas, qual dos seus professores te contaram sobre o cerco ao Palacio de La Moneda?

Bom, eu vou continuar chorando seus mortos daquele fatídico onze de setembro. O mundo inteiro vai continuar chorando seus mortos. Você nem precisa pedir. Mas, eu estou te pedindo. Será que você pode chorar os nossos mortos também?

 

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C. Melo

Eu queria ser M.S.