As bandeiras e símbolos de ódio no Brasil

Já falamos aqui das bandeiras e outros símbolos usados pelos grupos de extrema direita na marcha racista em Charlottesvile, Virgínia. Esse artigo tem como objetivo fazer com que você reconheça a ampla gama de grupos brasileiros que, como os dos Estados Unidos, também possuem suas bandeiras, indumentária e vida própria. Estarmos familiarizados com suas marcas é o primeiro passo para combater estas organizações que têm se sentido cada vez mais à vontade para expor em público suas convicções atrasadas e autoritárias.  Apertem os cintos, amigos, que estamos só começando.

Ação Integralista (AIB)

Grande parte dos nossos leitores já deve ter ouvido falar desse grupo. São os famosos “camisas verdes”, os caras do “Anauê”, aqueles que foram enxotados pela Frente única antifascista em 7 de outubro de 1934 no que ficou conhecido como a “Revoada das galinhas verdes”. Enquanto fugiam dos antifascistas, desordenados como galinhas, arrancavam as camisas verdes para não serem identificados. A debandada integralista foi tão veloz e covarde que o humorista Barão de Itararé ironizou: “Um integralista não corre, voa!”. Narrado um acontecimento importante do “glorioso” passado deste grupo, vamos ao que interessa de verdade:
O pensamento integralista surgiu na década de 1920, tendo como principal líder Plínio Salgado. Plínio foi fortemente influenciado pelo fascismo italiano, como fica claro no manifesto de lançamento da AIB, o Manifesto de Outubro de 1932. Miguel Reale (pai de Miguel Reale Jr., ex ministro da justiça do governo FHC), jurista renomado e bibliografia básica de qualquer curso de direito neste país, foi um dos nomes mais importantes da Ação Integralista Brasileira. Sob o lema “Deus, Pátria e Família”, os integralistas defendem o liberalismo econômico, uma estrutura de governo baseada numa ligação íntima entre Estado e família (a fim de preservar princípios éticos) e a aversão a qualquer valor externo ao que eles consideram “culturalmente brasileiro”.

Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP)

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade é uma associação civil fundada em 1960. Tem como fundamento a filosofia de São Tomás de Aquino e seu fundador e líder espiritual, Plínio Côrrea de Oliveira, é venerado como um messias por seus membros.

A TFP se dedica a combater pelo que eles chamam de “ação ideológica” toda e qualquer idéia considerada como sendo da esquerda como, por exemplo, a idéia de livre expressão religiosa.
A chamada “ação ideológica” se resume à oferta gratuita de aulas de línguas, esportes e dança para crianças e jovens, fazendo com que estes se envolvam na comunidade. A partir deste envolvimento, ministram cursos destinados ao combate da “filosofia materialista” e “evolucionistas” de uma sociedade que eles acreditam estar apodrecida pelo comunismo. Todas estas aulas e cursos estão disponíveis, CLARO, apenas para homens e meninos, uma vez que mulheres não são bem vindas na TFP.

 

Segundo o próprio site da entidade, “a tradição cristã é um valor incomparável que deve regular o que é hodierno. Ela atua, por exemplo, para que a igualdade não seja entendida como o arrasamento das elites e a apoteose da vulgaridade. Para que a liberdade não sirva de pretexto ao caos e à depravação.” A TFP considera a tradição cristã como a única fonte de progresso civilizatório e se posiciona frontalmente contrária ao divórcio, à homossexualidade e à reforma agrária.

http://www.tfp.org.br/

 

a Ultra Defesa

A Ultra Defesa é um grupo de inspiração skinhead nascido em São Paulo, de cunho nacionalista e patriótico. Eles usam a saudação romana (braço erguido, mãos para baixo) por acreditarem que Roma antiga é a verdadeira depositária da tradição ocidental. Eles defendem uma sociedade de “valores aristocráticos, viris, e comandada pela verdadeira elite”. São contrários o neoliberalismo, à homossexualidade, legalização do aborto e defendem o fortalecimento das forças armadas. São adeptos de uma “terceira via política”, onde o Estado seria uma instituição “espiritualista e transcendente”, seja lá o que isso signifique.

 

A Ultra Defesa, segundo seu próprio blogspot, ministra semanalmente palestras aos jovens com os temas:

– O crime do aborto

– O mal das drogas

– O respeito à família.

– Ordem e disciplina na rua e no lar.

– Educação moral e cívica

– O direito a propriedade

– Direito a legitima defesa

– Filosofia

– História

– Valorização do que é nacional e outros assuntos pertinentes.

Além de outros conteúdos como “doutrina e fundamentos da defesa pessoal”, com profissionais ditos graduados.
Também no blog está o significado de seu brasão, que significa a “ordem em defesa dos valores fundamentais que edificaram nossa Pátria.” E o “espírito de camaradagem promovendo a unificação de forças, elevando a honra, a bravura e a lealdade em beneficio da nossa Ordem!”

http://ultradefesa.blogspot.com.br/

 

A Resistência Nacionalista

 

 

A Resistência Nacionalista que se autodefine como sendo de extrema-direita, mas recusa a pecha neonazi ou fascista uma vez que, supostamente, possuem nordestinos e negros em suas fileiras. Um dos objetivos principais do grupo é legalizar um partido conservador de direita no Brasil, uma vez que acreditam estarmos vivendo em uma ditadura de esquerda. Segundo um de seus líderes, o Vulto, entre os autores que norteiam os ideais do grupo estão Olavo de Carvalho (dispensa quaisquer apresentações) e Plínio Salgado (fundador da AIB). Aparentemente não possuem um site ou página onde possamos encontrar o estatuto ou mais informações sobre como este grupo opera, mas há uma entrevista de 2011 com um de seus representantes que você pode assistir aqui. Aos que tiverem estômago, preparem-se para 6:36 de pura groselha fascista.

 

Comando de caça aos comunistas (CCC)

O CCC foi um grupo paramilitar que tinha como objetivo exterminar o comunismo e os comunistas do Brasil. Um dos grandes ataques associados ao CCC, talvez o primeiro deles, foi o incêndio na sede da União Nacional dos Estudantes em 1964. Depois disso, suas ações foram ficando cada vez mais radicalizadas. Em 18 de julho, o grupo invadiu o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, durante a peça Roda Viva, escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Correia, espancando os atores. No Rio de Janeiro, a poucos dias após AI-5, o grupo realizou um atentado à bomba no Teatro Opinião. O Comando de caça aos comunistas também é relacionado com uma série de sequestros e assassinatos, inclusive do Padre Antônio Henrique Pereira neto, que já estava sendo ameaçado por sua proximidade com o Arcebispo Dom Helder Câmara.
Uma das figuras célebres desse grupo é o jornalista Bóris Casoy, que participou ativamente de suas atividades quando era universitário no Mackenzie.
Hoje em dia, o CCC anda meio morto no que diz respeito aos ataques terroristas e assassinatos brutais que cometeram no passado (todos com o aval da ditadura militar, diga-se de passagem). Mas o legado deste grupo ainda influencia jovens (ou nem tão jovens) reacionários que tentam “reavivar” as ações do CCC despejando a sua fúria em páginas de mesmo nome na internet.

 

Esquadrão Le Coq

 

 

A Scuderie Le Cocq foi criada para vingar a morte em serviço de Milton Le Cocq, famoso detetive de polícia do estado do Rio de Janeiro. A morte dele mobilizou vários policiais que iniciaram uma verdadeira caça ao suposto assassino, encontrado morto dias depois com mais de 50 tiros. Entre os executores se encontravam Luís Mariano e Guilherme Godinho Ferreira, o Sivuca, que mais tarde se elegeria deputado estadual pelo Rio de Janeiro com o bordão “bandido bom é bandido morto”.

Em 1965 foi fundada oficialmente a Scuderie Detetive Le Cocq que tinha como objetivo “reprimir o crime” no estado do Rio.

As iniciais “E.M.” no brasão da Scuderie Le Cocq significam “Esquadrão Motorizado”

Este grupo exterminou centenas de “bandidos” dentro de suas próprias comunidades. Quanto mais proeminentes fossem os bandidos executados, mais prestígio receberiam os militares, podendo até subir na hierarquia do Esquadrão. No ano passado, 3 homens foram presos no Espírito Santo pelo assassinato de um vendedor. No decorrer das investigações, descobriu-se que o assassinato estava ligado a um grupo de mais de 300 pessoas, alguns ex integrantes do Esquadrão Le coqc (supostamente dissolvido em 2004) que tentavam reorganizar o grupo.

 

Arautos do Evangelho

 

 

 

São uma dissidência da TFP e, como eles, são contra o divórcio, a legalização do aborto, a homossexualidade e o resto do pacote ultraconservador. A cisão entre os dois grupos aconteceu após a morte do imortal Plínio Corrêa de Oliveira. Nenhum dos dois grupos fala claramente sobre o motivo da divisão, mas acredita-se que João Clá (fundados do Arautos) defendia, ainda na TFP, a inclusão de mulheres em suas fileiras e que esse foi um dos maiores propulsores de toda a treta. Os Arautos admitem mulheres – apelidadas de “fidúcias” – naturalmente, em posições muito inferiores aos membros homens. Neste ano, os Arautos do Evangelho se envolveram numa polêmica durante uma sessão de exorcismo (sim, os Arautos são padres exorcistas) onde um homem, supostamente possuído pelo próprio capeta, anuncia que a América do Norte irá desaparecer após ser atingido por um meteorito e que o Papa Francisco é um servo do demônio. Ah! E que o Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, está sentado ao lado esquerdo da virgem Maria, intercedendo pela morte do Papa. João Clá renunciou ao cargo após o escândalo.

http://istoe.com.br/os-inimigos-do-papa/

 

Monarquistas do Brasil

Em tempos de polarização política, sempre surge um grupo de lunáticos para defender esse tipo de atraso. 128 anos de república mais 24 anos de um plebiscito que venceu a monarquia pela esmagadora contagem de 44,2 milhões de votos contra 10 milhões, e eles ainda não se convenceram do anacronismo desta idéia. Não só não se convenceram como tem CERTEZA de que o plesbicito foi fraudado e que o povo brasileiro quer, honestamente, a volta dos Orleans e Bragança.

Com a palavra Dom Bertrand de Orleans e Bragança sobre o futuro do país
https://www.youtube.com/watch?v=t0jdT3tGrPU

 

Kombat rac

O Kombat rac é um subgrupo skinhead brasileiro de orientação neonazista. É uma das facções mais agressivas. Recentemente, 4 integrantes do grupo foram detidos em São Paulo, quando estavam a caminho de uma briga com um grupo punk, historicamente rivais. Junto deles, foram encontrados cartazes racistas e antisemitas, além de facas e machados. Em 9 de janeiro deste ano, a Federação Israelita SP e a Confederação Israelita do Brasil acionaram a Polícia Federal e a Delegacia de repressão aos crimes raciais após a divulgação de um vídeo feito pelo Kombat Rac que você pode ver aqui

Rac significa Rock against communism

 

Nazbol

“A esquerda do trabalho, a direita da moral”, como os próprios se denominam, são um grupo que nasceu no seio da Frente Nacional-bolchevique e da quarta teoria política, criada por Dugin. Os ideais dos nazbol são uma comunhão de todas as porcarias fascistas saídas das alas mais reacionárias do finado Partido Comunista Soviético. Eles defendem uma Rússia forte, a tradição, a família e a preservação de um suposto modus vivendi da classe trabalhadora. Um de seus objetivos é a criação de um Império Euroasiático, por isso a fixação com figuras como Putin. O nacional-bolchevismo é esse movimento que de bolchevique, infelizmente, só tem o nome.

 

 

 

Apesar das diferentes apresentações, todos estes são exemplos do ódio racial, sexual e de gênero organizado, num país tido como santuário da tolerância. Saibam reconhecer o inimigo.

 

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.