As Escravas da Igreja Católica

Eu não preciso falar sobre os escândalos envolvendo estupros de crianças dentro da Igreja Católica. Eu não preciso contar sobre como essa mesma Igreja encobriu, protegeu milhares de pedófilos no sacerdócio e deliberadamente moveu estupradores de crianças de cidade em cidade para evitar que fossem expostos – permitindo assim que continuassem a abusar de crianças aonde quer que fossem. E acima de tudo: eu não preciso dizer que estes não foram incidentes isolados. A pedofilia dentro da Igreja Católica é uma prática institucional, autorizada por aqueles nos mais altos postos da hierarquia, incluindo Ratzinger – papa EMÉRITO – que por 20 anos foi o encarregado pelo documento que instrui bispos sobre como acobertar casos de abuso dentro de suas paróquias[1]. E tudo pelo “bem da Igreja de Cristo”, claro.

Se você usa a sua boa consciência, eu também não preciso te dizer que a pedofilia não foi o único crime que a Igreja Católica cometeu e ainda comete em seus 20 séculos de caminhada. Para não dizerem que eu uso como exemplo massacres que aconteceram antes desses valores civilizatórios que nos fazem enxergar a cruzada das crianças[2]  como um evento abominável, falo do assassinato em massa de bebês[3] e do acobertamento de nazistas em monastérios[4]. “Erros” da modernidade.

Essa que vos fala acredita que, por mais que esse assunto seja discutido à exaustão, ele nunca está esgotado. A cada nova pesquisa descubro mais uma violação dos direitos humanos cometidos por essa instituição e quando essas violações dizem respeito à guerra que a Igreja vem travando há séculos contra a vida das mulheres, aí é que eu tenho vontade de gritá-las para o mundo. Hoje vim jogar mais um absurdo nessa pilha de erros grotescos da santa igreja.

As escravas da igreja católica

Talvez você não saiba o que foi um Asilo de Madalena. Eu conheci os “sinais sensíveis”, eu acreditei na Igreja Católica como o único meio para a minha salvação espiritual e amava a Deus sobre quase todas as coisas… Eu tive uma educação cristã e durante todos os anos em que estive incorporada à comunidade católica, eu nunca ouvi uma palavra sobre esse tipo de lugar que o padre e o vigário da minha paróquia adorariam me enviar sem previsão de retorno.

O primeiro Asilo de Madalena foi aberto em Dublin, no ano de 1767, tendo como função “reabilitar” prostitutas através de uma vida de orações e de trabalho pesado na lavanderia. O trabalho acontecia em condições análogas à escravidão, logo, era extremamente rentável para Igreja que cobrava pela prestação deste serviço ao passo que não remunerava as mulheres que o desempenhavam. Como todo bom negócio, ele se expandiu por toda a Europa e América do Norte funcionando como num grande complexo onde as outras instituições locais também controladas pela Igreja Católica (orfanatos, escolas, reformatórios, hospitais) mantinham ligação direta com os asilos, construindo assim uma relação que se retroalimentava. Conforme mais asilos foram sendo criados, mais amplos e subjetivos se tornaram os critérios para a internação compulsória de mulheres. Além das chamadas “prostitutas” (há controvérsias), agora maior parte das internas eram mulheres pobres que foram estupradas ou que cresceram em orfanatos e não tinham para onde ir depois da maioridade. Mas haviam outros parâmetros para se avaliar se uma moça estaria ou não apta a ser uma Madalena: Mulheres que tiveram relações sexuais fora do casamento, mães solteiras ou desquitadas, mulheres suspeitas de violar a castidade, lésbicas, mulheres em sofrimento mental, mulheres “bonitas demais” ou qualquer uma que estivesse em falta com a dignidade divina cumpria os requisitos para reabilitação. É óbvio que qualquer mulher, sobretudo as das camadas mais empobrecidas, era uma vítima em potencial do cárcere da Igreja Católica. Quando suas faltas se tornavam públicas, elas eram renegadas por suas famílias e aprisionadas nestes lugares para “purgar” os seus pecados. As mulheres grávidas ou mães eram separadas de seus filhos, que eram enviados para orfanatos e em muitos casos nunca mais eram encontrados. De acordo com vítimas que conseguiram escapar, as mulheres tinham que trabalhar o dia inteiro em silêncio e nunca saiam. Algumas mulheres viveram o resto de suas vidas atrás daqueles muros. Era raro que alguma conseguisse fugir ou que suas famílias superassem a vergonha que elas causaram e viessem buscá-las.

Muitas mulheres foram abusadas durante a internação. O abuso cometido por freiras e padres era físico, sexual e psicológico. Elas tinham suas cabeças raspadas como punição e eram frequentemente obrigadas a se despir na frente umas das outras para exames físicos que tinham como objetivo humilhá-las sexualmente. Estupros e espancamentos eram a regra. Mortes por doenças sem diagnóstico, inanição ou suicídio eram comuns. É impossível saber quantas Madalenas existiram no mundo, a Igreja se recusa a dar os números oficiais, mas estima-se que foram em torno de trinta mil APENAS na Irlanda. Todas as informações que conhecemos sobre essas instituições vieram a partir dos relatos de sobreviventes que tiveram a sorte de fugir ou de serem resgatadas. A Igreja continua às surdas quando o tópico são os asilos de Madalena. Os poucos clérigos que tocaram nesse assunto extra-oficialmente assumiram a postura de negar por completo qualquer abuso. As congregações religiosas (Vicentinas, Congregação das irmãs do bom pastor e Irmãs de misericórdia) que dirigiam estes asilos recusam os pedidos do Comitê dos direitos da criança e do Comitê contra a tortura da ONU de que contribuíssem com o fundo de compensação para as vítimas.

Mas onde estava o Estado?

A minha segunda maior crença depois de Deus e da Santa Igreja Católica, foi numa coisa chamada Estado democrático de direito. Como países com um índice de desenvolvimento humano alto, indicadores invejáveis de qualidade de vida para as mulheres, permitiram que no final do século XX lugares como os Asilos de Madalena ainda existissem? A única explicação possível era a de que Estado não conhecia a situação das mulheres que viviam atrás dos muros daqueles conventos. Vã ilusão.
Em 19 de fevereiro de 2013, o primeiro ministro da Irlanda pediu desculpas[5] formalmente e admitiu que o Estado irlandês foi responsável por ¼ dos envios de meninas e mulheres aos Asilos de Madalena, provando que estas instituições serviam como um braço da política pública de higienização social do governo irlandês na época.

O último Asilo de Madalena foi fechado em 1996, na Irlanda. Ele não foi fechado pelo apelo popular, que até então pouco sabia sobre o que acontecia atrás daqueles muros. Os asilos de Madalena foram fechados porque quase que a totalidade dos trabalhos forçados era de lavanderia e tinturaria. A prevalência das máquinas de lavar e do fast fashion transformaram os trabalhos que as madalenas faziam há séculos em coisa obsoleta. Além de pouco lucrativo, a moral sexual na Europa se reciclou e era cada vez mais difícil encontrar famílias dispostas a darem suas filhas como escravas por causa de uma gravidez na adolescência. A maioria das internas que restaram eram bastante idosas e pouco produtivas. Os Asilos de Madalena deixaram de existir, não por uma exigência da sociedade irlandesa, mas porque não havia mais sentido de ser dentro da dinâmica social e econômica da época.

A extensão dos abusos sofridos por essas mulheres provavelmente nunca será conhecido. É difícil imaginar pelo quê elas passaram, é triste saber que muitas delas morreram buscando o perdão de uma igreja que nunca perdoou mulher alguma. Considere o quadro pintado por essa e por todas as outras violações de direitos humanos cometidas pela Igreja Católica que você tem notícia. Se você ainda não deixou a Igreja, o que você está esperando?

Mais sobre os Asilos de Madalena:
http://www.bbc.com/news/world-europe-21345995
http://www.magdalenelaundries.com/

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Daniela de Abreu

Doula, feminista e amante de trash horror.