As ideias revolucionárias anticoloniais de Amílcar Cabral.

Escrito por Firoze Manji, originalmente publicado na Roar Magazine

 

Amílcar Cabral e Frantz Fanon estão entre os pensadores mais importantes da África nas políticas de libertação e emancipação. Enquanto a relevância do pensamento de Fanon Reemergiu, com movimentos populares como o Abahlali baseMjondolo na África do Sul  anunciando suas ideias como  a inspiração para suas mobilizações, assim como os trabalhos de Sekyi-Otu, Alice Cherki, Nigel Gibson e outros, as ideias de Cabral não receberam tanta atenção.

 

Cabral foi o fundador e líder do movimento de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Ele era um revolucionário, um humanista, um poeta, um estrategista militar, e um fecundo escritor de teoria revolucionária, cultura e libertação. As lutas que ele liderou contra o colonialismo português contribuíram não apenas para o colapso do império africano de Portugal, mas também para a queda da ditadura fascista em Portugal  e para a revolução portuguesa de 1974-75, eventos que ele não pode testemunhar: ele foi assassinado por alguns de seus companheiros,  com o  apoio da polícia secreta portuguesa , a PIDE, em 20 de janeiro de 1973.

 

Na época de sua morte, dois terços da Guiné estavam nas áreas liberadas, onde estruturas democráticas populares foram estabelecidas para formar as bases de uma sociedade futura: mulheres tiveram papéis de liderança política e militar, a moeda portuguesa foi banida e substituída pelo escambo, a produção agrícola foi devotada às necessidades da população, e  muitos dos elementos de uma sociedade baseada em humanidade, igualdade e justiça começaram a emergir organizadamente pelo debate popular e pelas discussões. A resistência cultural teve um papel fundamental tanto na derrota dos portugueses quanto no estabelecimento das zonas liberadas.

 

Cabral compreendeu que a extensão e dominação do capitalismo depende fundamentalmente da desumanização do súdito colonial. E a necessidade de destruir, modificar e  remodelar a cultura do colonizado é central no processo de desumanização por ser principalmente através da cultura , “porque ela é história” , que o colonizado almeja resistir à dominação e  afirmar sua humanidade. Para Cabral, e também para Fanon, a cultura nśo é só um artefato estético, mas uma expressão da história, a base da libertação, e o meio de resistir a dominação. No fundo, a cultura é subversiva.

Cultura como subversão

 

A história do liberalismo  tem sido a da contestação entre as culturas do que Losurdo se refere como espaços sagrados e profanos. A democracia do lugar sagrado ao qual o iluminismo de a luz no novo Mundo foi, escreve Losurdo, uma “Democracia do Herrenvolk” , uma democracia dos senhores da raça branca que se recusaram a permitir que negros, povos indígenas ou mesmo mulheres brancas, fossem considerados cidadãos. Eles foram considerados como parte do espaço profano ocupado pelo menos-que-humano. A ideologia da democracia de uma raça branca de senhores foi reproduzida como capital colonizado em vastas regiões do globo.

 

A vitória de Trump nos EUA e o estabelecimento de seu séquito  de direita, se não fascista, é , de várias maneiras, uma das várias formas de  uma expressão do crescente ressentimento e do antagonismo entre partes significativas da América branca quando a uma  aparente invasão e profanação do espaço sagrado pelos povos indígenas,negros, “latinos”,mexicanos, gays, lésbicas, operários organizados, imigrantes e todos esses seres profanos que não pertencem a esses espaço. Nós podemos prever com segurança que a presidência de Trump verá esforços para  preparar um assalto às culturas, organizações , e capacidades organizativas daqueles que eles vêm como detritos da sociedade, para remover deles os privilégios do espaço sagrado e o “retorno” ao domínio dos desumanizados. Ao mesmo tempo, nós podemos prever que haverá uma  resistência generalizada a essas tentativas, na qual a cultura será um elemento essencial.

 

Nesse contexto, os escritos e discursos de Cabral sobre cultura, libertação e resistência ao poder tem implicações importantes para as lutas que virão não apenas nos EUA, mas também na Grã Bretanha pós-Brexit, e na Europa continental, onde o Fascismo levanta mais uma vez sua cabeça feia em vários países. Rascunhando sobre os trabalhos de Cabral, eu vejo como o colonialismo estabeleceu e manteve seu poder na tentativa de erradicar a cultura do súdito colonial, e como a cultura como uma força libertadora foi essencial para os povos africanos reafirmaram sua humanidade, inventar  o que significava ser humano, e desenvolver uma humanidade universal.  Eu discuto como os regimes neocoloniais tentaram desarticular a cultura da política, um processo que o neoliberalismo exacerbou. Mas como o descontentamento depois de cerca de 40 anos de austeridade(também conhecidos como “programas de ajustamento estrutural”) na África aumenta, enquanto governos  progressivamente perdem legitimidade popular, há o retorno dos protestos e levantes, e mais uma vez a cultura re-emerge como uma força para a organização e a  mobilização.

Colonialismo, cultura e a invenção do africano “desumanizado”

 

Os filósofos do iluminismo, como Hegel, consideravam que os africanos não tinham história. Mas o que era o “africano” ao qual se referiam? Foi só no século XV que os europeus começaram a usar o termo “africano” para se referir aos povos que viviam no continente. O termo estava diretamente associado ao tráfico escravista atlântico, e  a condenação de largas parcelas da humanidade a escravidão nas américas e no Caribe. Para ter sucesso sujeitando milhões  de seres humanos a tal barbarismo depende de defini-los como não-humanos.

 

O processo de  desumanização exigiu uma tentativa sistemática e institucionalizada de destruir as culturas, linguagens  , histórias e capacidades existentes de produzir, contar histórias, inventar, amar, fazer música, cantar canções, fazer poesia, criar arte- todas as coisas que tornam uma pessoa humana. Isso foi levado adiante por escravizadores locais e europeus e proprietários de escravos e todos os que lucraram da venda de seres humanos,não menos que a classe capitalista emergente européia.

 

Na essência, a palavra que contém esse desumanização do povo desse continente é Africano. De fato, antropólogos , cientistas, filósofos e toda a indústria desenvolvida para “provar” que essas pessoas constituíam uma”raça” sub humana, biologicamente diferente. Os africanos deveriam ser considerados portadores de nenhuma história, nenhuma cultura, ou de nenhuma contribuição para a história da humanidade. Como Escravos, eles eram mero gado- propriedade ou “coisa” que deviam ter dono, ser liquidadas ou tratadas da forma como o “proprietário” considerasse apropriada.

 

Essa tentativa de apagar  a cultura dos africanos foi um indicador da falha. Enquanto as forças do liberalismo destruíram as instituições, as cidades, a literatura, a ciência e a arte do continente, as memórias culturais das pessoas, as formas de arte, de música e de tudo que é associado a ser humano continuou vivo, e também  foi levado nos navios negreiros onde os escravos africanos se encontravam, e onde essa cultura desenvolveu nas suas novas condições materiais para se tornar base para resistência.

 

O tráfico transatlântico de escravos e  a escravidão em larga escala foram pilares da acumulação de capital que  fez nascer o capitalismo, como foram os genocídios e as matanças massivas das populações indigenas das americas . a desumanização sistemáticas de partes da humanidade- o racismo- estava intimamente interligado com o nascimento, crescimento e a expansão contínua do capital e continua como uma característica de seu desenvolvimento.

 

Cabral entendia que separar a África e os africanos do fluxo geral da experiência comum humana só levaria ao atraso dos processos sociais do continente.”quando o imperialismo desembarcou na Guiné ele nos fez largar a nossa história… e entrar em outra história.” esse processo teve suas origens na escravatura europeia e na remoção forçada do povo da África para a expansão dos empreendimentos de hoje. A representação  dos africanos como inferiores e sub humanos justificou  terror,  massacres,  genocídios, aprisionamentos, tortura, confisco de terras e bens, trabalho forçado, destruição de sociedades e culturas, a supressão violenta das expressõs de  insatisfação e  divergência, restrições de movimento , e o estabelecimento de reservas “tribais”. Justificou a divisão da massa de terra de de seus povos em território na Conferência de Berlim em 1884-85  por causa  da disputa das potências imperiais europeias.

 

A fé na superioridade da cultura do espaço sagrado combinada com o zelo missionário cristão lançou as bases para o império e a difusão do cristianismo.”depois do tráfico de escravos, da conquista armada e das guerras coloniais”, escreveu Cabral,”houve uma destruição completa da estrutura econômica e social da sociedade africana. A próxima fase foi a ocupação europeia e a sempre crescente imigração européia para esses territórios. As terras e posses dos africanos foram saqueadas” as potências coloniais estabeleceram o controle pela imposição de impostos, de cultivos compulsórios, introdução do trabalho forçado, excluindo os africanos de trabalhos específicos, removendo-os das terras mais férteis, e estabelecendo autoridades nativas que eram colaboracionistas.

 

Cabral apontou que quaisquer os aspectos materiais da dominação, “eles poderiam ser mantidos apenas pela repressão permanente e organizada da vida cultural das pessoas envolvidas.”claro , a dominação só pode ser completamente garantida pela eliminação de uma parte significativa da população como, por exemplo, no genocídio do povo Herrero no sul da África ou de muitas nações indígenas na América do Norte , mas na prática isso nem sempre foi viável ou de fato vista como desejável do ponto de vista do império, nas palavras de Cabral:

 

“O ideal para a dominação estrangeira, seja ela imperialista ou não,  é poder escolher: ou liquidar praticamente toda a população do país dominado,, eliminando assim as possibilidades de resistência cultural; ou conseguir se impor sem dano à cultura do povo dominado- isso é, harmonizar a dominação política e econômica desse povo com sua personalidade cultural.”

 

Ao negar o desenvolvimento histórico do povo dominado, o imperialismo necessariamente nega seu desenvolvimento cultural, que é o porque  a opressão cultural é necessária e uma tentativa de “liquidação direta ou indireta dos elementos essenciais da cultura do povo dominado.”

 

“ Da população de Angola, Guiné e Moçambique, 99.7% são classificadas como não-civilizadas pelas leis coloniais portuguesas” escreveu Cabral em uma análise das colônias portuguesas.” os ditos africanos  “não-civilizados” são tratados como gado e estão à mercê da vontade e dos caprichos da administração e dos colonos. Essa situação é absolutamente necessária para a existência do sistema colonial português. Eles provêm um suprimento inesgotável de trabalho forçado para exportação. Ao classificá-los como “não-civilizados”, a lei dá permissão legal para a discriminação racial e providencia uma das justificativas para a dominação portuguesa na África.”

 

Cultura e a  recuperação da humanidade

 

O uso da violência para dominar um povo é, como Cabral discutiu, “acima de tudo, pegar em armas para destruir, ou pelo menos neutralizar e paralisar sua vida cultural. Enquanto parte desse povo tiver uma vida cultural, a dominação estrangeira não poderá garantir sua perpetuação”

 

A razão para isso é clara. A cultura não é um mero artefato ou expressão da estética, costume ou tradição. É um meio pelo qual um povo garante sua oposição à dominação, uma meio de proclamar e inventar sua humanidade, um meio para garantir ação e a capacidade  de fazer história. Em outras  palavras, cultura é uma das ferramentas fundamentais da luta por emancipação.

 

A revolução dos escravos no Haiti em 1804, que estabeleceu a república negra independente. Constitui uma das brechas mais significativas contra o despotismo racial e a escravidão. Toussaint Louverture, o primeiro líder da rebelião valeu-se de um compromisso explícito com um humanismo universalista para denunciar a escravidão. Na síntese sucinta de Richard Pithouse:”o colonialismo definiu a raça como um um destino biológico permanente. Os revolucionários no Haiti o definiram politicamente. Os mercenários poloneses e alemães que foram lutar ao lado do exército dos escravos tiveram cidadania garantidas,como cidadãos negros, no Haiti livre e independente.”

 

Na Guiné-Bissau, Cabral foi encarregado pelas autoridades coloniais de  realizar um extenso censo da produção agrícola,  permitindo que ele ganhasse uma compreensão do povo, sua cultura e suas formas de resistência ao governo colonial. Ele reconheceu que construir um movimento de libertação necessita de uma “reconversão das mentes- uma disposição mental” que ele acreditava ser indispensável para a “verdadeira integração das pessoas nos movimentos de libertação”. Para alcançar o desejado “contato diário com as massas populares na comunhão do sacrifício requerida pela luta” os quadros do PAIGC estavam mobilizados por todo o país para trabalhar com os camponeses, para aprender com eles sobre como eles  experimentaram e se opuseram à opressão colonial, para se envolver nas práticas culturais deles que  formam parte  da resistência .”não ter medo do povo e persuadi-lo a tomar parte em todas as decisões que lhe interessam”, ele disse aos membros do seu partido.”o líder deve ser um intérprete fiel da vontade e das aspirações da maioria revolucionária e não o senhor do poder” e “ para liderar coletivamente, em um grupo, é estudar as questões conjuntamente, para encontrar a melhor solução, e tomar as decisões coletivamente.”

 

Para Cabral, a cultura tem uma base material, “ o produto dessa história assim como uma flor é o produto de uma planta. Como a história, ou por causa da história, a cultura tem como  sua base material  o nível das forças produtivas e o modo de produção. A cultura mergulha suas raízes na realidade física do adubo ambiental no qual se desenvolve, e reflete a natureza orgânica da sociedade.”

 

A cultura, Cabral insiste, está intimamente ligada à luta por liberdade.já que  a cultura inclui muitos aspectos, ela “cresce através da luta do povo, e não por meio de canções, poemas ou folclore… não  podemos esperar que a cultura africana avance a menos que ela contribua de forma realista   para a criação das condições necessárias para essa cultura, por exemplo, com a libertação do continente” em outras palavras, a cultura não é estática e imutável, mas ela só avança por meio da adesão à luta pela liberdade.

 

A libertação nacional, Cabral diz, “é o fenômeno em que um todo sócio econômico rejeita  a negação de seu processo histórico. Em  outras palavras, a libertação nacional de um povo é a retomada da  personalidade histórica desse povo, é seu retorno à história pela destruição da dominação imperialista à qual estiveram sujeitos.”

 

Ou, como Fanon colocou:” lutar pela cultura nacional primeiro de tudo significa lutas pela libertação da nação, a matriz  tangível de onde a cultura pode crescer. Ninguém pode separar o combate pela cultura da luta popular pela libertação.” além disso:” a cultura nacional argelina ganha forma  e contorno durante a luta, na prisão, enfrentando a guilhotina e na captura e destruição das posições militares francesas.” e, “ a cultura nacional não é nenhum folclore… é o processo de reflexão coletiva de um povo para descrever, justificar, e exaltar as ações em que uniram forças e se mantiveram fortes.”

 

Se ser considerado africano originalmente foi definido como ser menos que humano, o argumento ressonante de todos os movimentos em oposição da escravidão, todas as revoltas de escravos, toda a oposição à colonização, todo desafio às instituições da supremacia branca, toda resistência ao racismo, toda a resistência à opressão ou ao patriarcado, constitui uma afirmação de identidade humana.  Quando os europeus consideraram os africanos sub humanos, a resposta foi assumir a identidade de “africano” como algo positivo, libertando a definição de um povo que é parte da humanidade. “Que pertence ao mundo todo”,como Cabral colocou. Como nas lutas dos oprimidos pela história, uma  transição  aconteceu em que os termos usados pelos opressores para as “outras” pessoas foram eventualmente apropriados pelos oprimidos e tornados termos de dignidade e afirmação de humanidade.

 

Foi, portanto esse o conceito de ser “africano” que se tornou intimamente associado com o conceito de liberdade e emancipação. O povo “manteve sua cultura viva e vigorosa apesar da repressão implacável e organizada da sua vida cultural” Cabral escreveu. A resistência cultural foi a base para  a  afirmação da humanidade do povo e da luta pela liberdade.

Mas essas ligações com a liberdade, tragicamente, não duraram  muito depois da independência.

 

A despolitização da cultura

 

O que acontece quando a cultura se desarticula das lutas por liberdade e emancipação? Em um discurso aos quadros do PAIGC, Cabral disse:

 

“Nós falamos muito sobre a África, mas em nosso partido nós precisamos lembrar que antes de sermos africanos somos homens, seres humanos, que pertencem ao mundo todo. Nós não podemos permitir que qualquer interesse do nosso povo seja restringido ou frustrado por nossa condição de africanos. Nós precisamos pôr os interesses do nosso povo no ponto mais alto, no contexto dos interesses da humanidade em geral, e então nós poderemos colocá-los no contexto da África em geral.”

O que é importante aqui é a afirmação que os africanos não são apenas seres humanos , mas que sua história, lutas e experiências são parte da luta por uma humanidade universal que “pertence a todo o mundo.”

 

“Nós precisamos ter coragem de afirmar isso claramente” escreveu cabral.”ninguém deve pensar que a cultura da África, o que é realmente africano e que precisa ser preservado todo tempo, para que nós sejamos africanos,  é nossa fraqueza frente a natureza.”

 

Isso é um contraste à ideologia da “negritude” que emergiu nos anos 1930 e 1940 em Paris e estava associada aos escritos de Léopold Sédar Senghor e de Aimé Césaire. Sua filosofia era baseada em essencializar a África e os africanos, dizendo que os africanos têm uma qualidade central que é inerente, eterna e inalterável, e que é distinta do resto da humanidade. No entanto, como Michael Neocosmos apontou, se a África “historicamente foi uma criação do espaço sagrado do liberalismo que  alegou um monopólio sobre a história, a cultura e a civilização, então, como forma de resistir, os africanos compreensivelmente  trataram de enfatizar idealizar sua própria identidade distintiva, história, cultura e civilização.” ou, como Fanon apontou:” é o homem branco que criou o negro. Mas é o negro que cria a negritude.”. E que “é verdade que a maior responsabilidade dessa racialização do pensamento, ou pelo menos a forma como ela foi aplicada, cai nos europeus que nunca pararam de colocar a cultura  branca  em oposição a outras não-culturas.”

 

Enquanto as ideias da Negritude tiveram impactos positivos na forma como os colonizados se viam, e ajudou a inspirar o florescimento da poesia,arte e literatura, e a pesquisa sobre as civilizações pré-coloniais  na África- como no trabalho excepcional de  Cheikh Anta Diop– elas também contribuíram para despolitizar o sentido do que é ser africano e da cultura que anteriormente foram fortemente associadas à liberdade. Isso  resultou na abstenção da ideia de universalidade humana, evitando que o povo africano “retornasse ao pensamento histórico através da destruição da dominação imperialista a qual foi sujeito” como Cabral colocou.

 

Mas a negritude foi apenas um dos fatores que levaram à despolitização da cultura e da identidade.

A segunda metade do século XX viu o estabelecimento de governos independentes na maior parte da África( sendo exceções o Saara Ocidental, atualmente ocupado pelo Marrocos, e Diego Garcia ocupado pelos EUA) movimentos que almejavam uma agenda radical para fazer avançar  os interesses do povo foram sistematicamente eliminados por meio de  golpes de estado e assassinatos(por exemplo Lumumba no congo, Nkrumah em Gana, Sankara em Burkina Faso). Como dito antes, Cabral também foi assassinado por um grupo de seus próprios camaradas, aparentemente com apoio da polícia secreta portuguesa(PIDE)em 20 de Janeiro de 1973.

 

A ascensão dos regimes neocoloniais, muitos dos quais ascenderam pela derrota ou desgaste dos movimentos de massa, gradualmente resultaram no desaparecimento das lutas por liberdade e emancipação na África. O que aconteceu depois da independência não pode ser considerado apenas culpa do imperialismo. Como Cabral apontou:”é verdade, o imperialismo é cruel e inescrupuloso, mas nós não podemos colocar toda a culpa nas suas costas largas. Para isso, como o povo africano diz:” só se cozinha arroz dentro da panela”. E “aqui é a realidade que torna  nossa luta mais evidente: apesar de duas forças armadas, os imperialistas não conseguem vencer sem traidores: chefes tradicionais e bandidos nos tempos da escravidão e das guerras de conquista colonial, policiais, vários agente s e soldados mercenários durante a era de ouro do colonialismo, autodenominados chefes de estado e ministros na atualidade do neocolonialismo. Os inimigos dos povos africanos são poderosos e astutos e sempre podem contar com alguns lacaios,  já que colaboracionistas não são um privilégio europeu.”

 

Os governos nacionalistas cumpriram um papel crítico no declínio das lutas emancipatórias. O nova classe média emergente viu como sua tarefa prevenir “forças centrífugas” de competir pelo poder político ou de buscar mais autonomia da recém-formada “nação”. Tendo conseguido a autodeterminação da autoridade colonial, ficou relutante em ceder os mesmos diretos para outros. Os novos controladores da máquina estatal se consideraram no  papel de “únicos responsáveis” e “únicos unificadores” da sociedade. O estado adotou um papel intervencionista na “modernização” e um papel centralizador e controlador no âmbito político. A ideia de “desenvolvimento”teve, como planejado por Harry Truman, uma alusão implícita a progresso de algum tipo, agiu como um contrapeso a atração ao socialismo que os EUA viam como uma ameaça a sua crescente hegemonia.

 

As associações populares que levaram as lideranças nacionalistas ao poder  começaram a ser vistas como um obstáculo ao “desenvolvimento”. Não havia mais uma necessidade, alegavam,da participação popular na definição do futuro. O novo governo traria desenvolvimento para o povo, representando a nação e todos nela. Agora que a independência política foi alcançada, a prioridade era o “desenvolvimento” porque, implicitamente, os novos governantes  concordaram que seu povo era “subdesenvolvido”. Melhorias econômicas e sociais viriam, disseram os líderes nacionalistas, com paciência e como resultado de um esforço nacional envolvendo todos. Nesse período pós-independência, direitos civis e políticos logo foram vistos como “luxo”, para serem desfrutados em alguma época não -especificada no no futuro quando o “desenvolvimento” seria atingido. Por enquanto, disseram vários presidentes africanos, “nosso povo ainda não está pronto”- ecoando, ironicamente os argumentos usados pelos antigos governantes coloniais contra os gritos nacionalistas pela independência alguns anos antes.

 

Camuflada pela retórica da independência, a narrativa predominante tratou os problemas enfrentados pela maioria-miséria e empobrecimento e a desumanização associada a eles- não como consequências da dominação colonial e do sistema imperialista que continuo a extrair super lucros, mas das supostas condiçẽos “naturais” da África. A solução necessária para a pobreza foi vista como técnica, apoiado pela “ajuda” das mesmas potências coloniais que se enriqueceram às custas de todo o povo africano.

 

Quase sem exceção, os movimentos nacionalistas insistiram em ocupar o estado colonial em vez de construir estruturas democráticas que permitiriam participação popular, como Cabral  criou nas zonas libertadas da Guiné, como resultado, o braço repressivo do estado permaneceu intacto. A polícia, as forças armadas, o judiciário, e o serviço público, foram desenhados para proteger os interesses do capital e dos poderes coloniais. Fundamentalmente, o estado colonial estava baseado na noção de que sua função era perpetuar a desumanização dos colonizados. Em quase todos os casos, os combatentes da liberdade dos movimentos de libertação foram, se não inteiramente marginalizados  no período pós-independência, incorporados, integrados, e colocados sob o comando das estruturas militares coloniais existentes. As únicas mudanças reais foram a desracialização do estado enquanto se vestiam as forças armadas comas  cores da bandeira nacional.

 

Cabral era inflexivelmente oposto a essa tendência. Ele não acreditava que os movimentos de independência devia tomar o aparato colonial de estado e usá-lo para seus próprios fins. A questão não era a cor da pele do administrador, ele defendeu, mas o fato de que havia um administrador.”nós não aceitamos nenhuma instituição dos colonialistas portugueses. Nós não estamos interessados na preservação de nenhuma estrutura do estado colonial…”

 

A destruição do estado colonial não era um fim em si mesma. Mas os meios de estabelecer estruturas que o povo pudesse controlar e ao interesse do qual deveria servir. “Nosso objetivo é romper com o estado colonial na nossa terra e criar um novo estado-diferente, baseado na justiça, trabalho, e na igualdade de oportunidades para todas as crianças da nossa terra… nós temos q destruir  tudo que seria contra isso na nossa terra camaradas.passo a passo, um por um se necessário- mas nós temos que destruir para construir uma nova vida.”

 

A cultura não era mais considerada um meio para a libertação. Ao contrário, desarticulada dessas noções, ela foi esvaziada de significado além de representar uma caricatura de um passado imaginário composto de costumes e tradições, consistentes com a noção de selvageria que ainda prevalece no liberalismo e que  proporcionou pastagem para a imaginação dos turistas, como Fanon descreveu:

 

“A cultura nunca teve a translucência do costume. A cultura  eminentemente foge de qualquer forma de simplificação. Na sua essência é o exato oposto do costume, que sempre é uma deterioração da cultura. Buscando aderir À tradição ou reviver tradições negligenciadas não apenas é ir contra a história, mas contra seu povo.”

 

Ao mesmo tempo, a burguesia nacional emergente tinha crescentes aspirações de assimilar e se tornar membros plenos da cultura do espaço sagrado, recebendo encorajamento de instituições culturais como o Centro Cultural Francês e o Consulado Britânico.

 

Assim que o conceito de ser africano foi desligado das noções de libertação e emancipação, tudo o que  sobrou foi uma identidade taxonômica despolitizada que trás para as pessoas meros objetos em vez de determinantes históricos.certamente, a  própria noção de ser africano começou a  desintegrar, exceto se ela representava a soma dos estados, como na Organização da Unidade  Africana(OUA)(e logo após a União Africana), foi fácil para o império colocar uma cunha de divisão entre as histórias emancipatórias dos povos chamados de “árabes” e daqueles chamados de “africanos negros” na geografia mítica da “África subsaariana”.

 

Até a ideia de nação, desconectada das ideias de libertação, gradualmente deu lugar à política de identidade, tribo e etnia. As consequências foram a degeneração que ficou visível no Genocídio em Ruanda,e nos conflitos étnicos na Nigéria, na Costa do Marfim, Mali, Quênia e Burundi(para listar poucos), a privação da cidadania por causa da suposta etnia dos cidadãos, como no Congo ou na Costa do Marfim, a crescente antipatia frente  à recepção de refugiados, especialmente no Quênia, e a xenofobia que criou raízes na África do Sul.

 

A re-emergência do liberalismo nos anos 1980 na forma de “neoliberalismo” exacerbou a despolitização da  cultura. O culto do indivíduo, fundamental ao neoliberalismo, cresceu, especialmente entre a classe média onde  acumulação e privilégio era tido como um valor acima de tudo. Isso foi acompanhado de uma ruptura do coletivo-especialmente em formas de organização como sindicatos, organizações de fazendeiros e movimentos de juventude. O declínio do valor dos salários e a necessidade de ter mais de um emprego para poder sobreviver frequentemente restringiu o tempo para a comunidade e para a organização.

 

A crescente dominação da cultura ocidental e suplementada pela hegemonia da midia corporativa,  a onipresença da CNN, da Fox News e da Coca-colonização generalizada da vida diária, com a comodificação de tudo que pode fazer um trocado rápido. Como nos primeiros anos do liberalismo que foi caracterizado pela infinidade de organizações de caridade, hoje a África está repleta de ONGs de desenvolvimento contribuindo para a despolitização da pobreza pela retirada da atenção dos processos que criam o empobrecimento em massa e a miséria. Cidadãos foram transformados em consumidores, e aqueles sem os meios para consumir foram atirados na pilha de lixo da história como raramente ou nunca empregados. E o neoliberalismo tentou reescrever as histórias dos condenados( os Condenados da Terra de Fanon) buscando apagar suas memórias do passado pela invasão dos currículos de suas escolas e universidades.

 

A re-emergência da Resistência

 

As palavras de Cabral ressoam hoje:” o valor da cultura como um elemento de resistência à dominação estrangeira reside no fato que a cultura é sua vigorosa manifestação no plano ideológico ou idealista da realidade física e histórica da sociedade que é dominada ou que será dominada.” apesar do poder do neoliberalismo e dos trilhões de dólares À disposição das corporações, bancos , instituições financeiras, governos e elites locais, o povo não perdeu seu desejo por ação, fazer a história , se engajar nas lutas onde eles tanto demonstram quanto inventam sua humanidade, para construir a base de um universalismo de verdade.

As mobilizações de massa no Egito, na Tunísia e em Burkina Faso que levaram à derrubada dos déspotas locais são alguns dos exemplos dessas lutas. Eu escrevi em outro lugar sobre outros levantes e protestos que varreram o continente como resultado do crescente descontentamento sobre a austeridade, esses levantes e protestos refletem a re-emergência da resistência na qual a cultura é mais uma vez manifestada com uma dimensão emancipatória. Considere como milhões ocuparam a praça Tahrir no Cairo: canções, música e Dança foram alguns dos elementos que emergiram. A segurança das pessoas, a defesa, o provimento de comida, saúde, cuidados comas  crianças, e abrigo, todas essas coisas foram criadas novamente por esse momento presente. As decisões foram tomadas coletivamente. Onde um mês antes, as pessoas eram consideradas apáticas, e aparentemente apolíticas, foram transformadas em seres políticos querendo colocar suas vidas em risco, participar de reuniões em massa, a libertar sua criatividade. Isso foi uma demonstração de como o engajamento nas lutas libera não apenas a habilidade das pessoas de clamar sua humanidade, mas também reinventar-se, algo que Fanon insistiu.
Muitos dos movimentos foram disparados pela energia e criatividade dos jovens. Um efeito do neoliberalismo foi se esforçar para remover as experiências e o conhecimento da história. Fanon escreve:

 

“O colonialismo não está satisfeito com enredar as pessoas em sua teia ou em sugar do cérebro colonizado qualquer substância. Com um tipo de  lógica pervertida, ele  move sua atenção para o passado do povo colonizado e o distorce, o desfigura, e o destrói. O esforço para rebaixar a história frente à colonização hoje tem um significado dialético”

 

Nessas circunstâncias Fanon aponta: “cada geração precisa descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la, em relativa escuridão. Nas países não desenvolvidos as gerações anteriores simultaneamente resistiram a agenda insidiosa do colonialismo e pavimentaram o caminho para a emergência das lutas atuais”.

 

A concepção liberal ocidental de humanidade é deficiente desde seu nascimento, aponta Neocosmos, e essa deficiência é ainda mais óbvia hoje.

 

Sua verdadeira dependência da exploração, da opressão colonial e do racismo para existir é mais evidente agora que durante períodos históricos anteriores porque exerce sua dominância sobre o globo inteiro de forma claramente inumana. Desta forma a contradição entre a concepção liberal que restringe a liberdade, a igualdade e a justiça a uma minoria enquanto nega sistematicamente para maioria da população mundial está se tornando mais e mais óbvia. Nesse contexto, a busca por uma verdade universal, sem excluir os bárbaros, se torna mais urgente.

 

Eu termino com as palavras de Cabral:

 

“Exceto nos casos de genocídio ou de redução violenta da das populações nativas  à insignificância cultural e social, o período da colonização não foi suficiente, pelo menos na África, para trazer nenhuma destruição significativa ou degradação dos elementos essenciais da cultura e das tradições dos povos colonizados…. O problema de uma … renascença cultural não está posto nem pode ser posto pelas massas populares: certamente eles são portadores de sua própria cultura, eles são sua fonte, e , ao mesmo tempo, eles são a única entidade verdadeiramente capaz de preservar e criar cultura-  em outras palavras, de fazer história”

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....