As Irmãs Mirabal

Eu sei que a gente falou que ia fugir do óbvio na série Mulherão da Porra, mas há dois dias foi 25 de novembro, morte das irmãs Mirabal e reconhecido internacionalmente como dia de combate às violências contra a mulher. Então o mulherão da porra dessas semana são três: as Irmãs Mirabal.

 

As três irmãs foram importantíssimas ativistas contra a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo na República Dominicana. Na década de 60 ocorria a chamada Guerra Fria, que era a disputa entre a URSS e os EUA em dominar o planeta. Uma das formas que os EUA viu de evitar que o comunismo “espalhasse” pelas Américas Central e do Sul foi financiando as ditaduras neste país, inclusive a ditadura dominicana. Ou seja, as Irmãs Mirabal não apenas lutavam pela democracia em seu país, como eram inimigas do Império, porque afinal de contas, todo aquele contra as ditaduras da América Latina eram também contrários à política expansionista capitalista, imperalista, colonialista e hegemonista dos EUA.

 

Eu falo com tranquilidade que as três são mulherão da porra, porque quando uma delas, Minerva, foi responder a quem lhes avisava que seriam mortas pela suas atividades políticas ela respondeu com a célebre frase:

“Se me matam, levantarei os braços do túmulo e serei mais forte”.

 

Meses depois, no final de 1960, a morte anunciada se concretizou, e em 25 de novembro as três foram mortas numa emboscada, junto ao motorista do jipe em que foram encontradas (num barranco), o Sr. Rufino de la Cruz (não nos esquecemos também de todo trabalhador morto, como Anderson, motorista de Marielle Franco).

 

Além de Minerva, as outras duas irmãs se chamavam Patricia e Maria Teresa. A violência estatal, a brutalidade da ditadura direitista não calou as três corajosas irmãs. Antes pelo contrário, a profecia de Minerva se concretizou, e a morte das três se tornou gás na luta contra a ditadura trujista, há quem diga que foi o divisor de águas que levou ao fim do regime. Não se executam mulherões da porra e se fica ileso. Mulheres fortes, lutadoras e inspiradoras, se reverberam mesmo sob a sete palmos e movem nossas energias de rebeldia contidas.

 

Ao contrário do que se pensa, as Irmãs Mirabal, também conhecidas como Irmãs Mariposa, nasceram em família rica, formação universitária, maridos e filho. Tudo para seguir o “roteiro cultural da rotina e da família”. Elas tinham tudo para serem mais três burguesas acomodadas com a ditadura que não se incomoda com quem tem está nas camadas dominantes.

 

Mas, não, as três nunca realmente se contentaram com as injustiças do mundo. Na verdade, para se tornar uma revolucionária basta que você saiba ler o mundo ao seu redor e seja capaz de se indignar com a dor do seu irmão. No momento da suas mortes, elas já tinham cerca de dez anos de ativismo político, inclusive, duas delas, Maria Teresa e Minerva já haviam sido presas no passado. Elas eram obviamente claras inimigas do Estado e da ordem vigente.

 

Além delas, uma quarta irmã, Belgica Adela, conhecida como Dedé também tinha participação política, ainda que menos intensa, o que acabou poupando sua vida. Que família, hein?! E você tendo que explicar pra sua prima que não existe mamadeira de piroca e que ela não poder fazer compras em Miami no fim do ano não significa que o PT destruiu o Brasil. Eu sei, bate um desespero aqui também.

 

Quando as irmãs foram mortas elas tinham entre 26 e 26 anos, e deixaram cinco filhos. A morte delas, por uma emboscada da polícia secreta, foi marcada por requintes de crueldade, elas foram espancadas e enforcadas, em outras palavras, torturadas, e depois de mortas, jogadas de dentro do veículo num barranco para parecer acidente. As ditaduras fingem que a gente é idiota e acredita que pessoas foram suicidadas ou foram acidentadas.

 

Felizmente, a vingança nesse caso, foi um prato que se come relativamente quente. Trujillo foi morto a tiros no ano seguinte, e é um consenso entre os resistentes que a morte das Mariposas foi o primeiro gatilho a ser puxado contra o ditador. Nós a queríamos vivas, mas o fim da ditadura dominicana já foi um grande passo para que suas mortes não tenham sido em vão.

 

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C. Melo

Eu queria ser M.S.