Aumenta a popularidade das “greves de aluguel” na medida em que a gentrificação aumenta o preço dos alugueis em Washington, D.C.

Originalmente publicado no Washington Post

No momento em que nove moradores deste apartamento em Brightwood Park decidiram parar de pagar aluguel, muitos de seus vizinhos tinham fugido – da água que encharcou os dois primeiros pisos, fogo que queimou as paredes de dentro para fora e uma caldeira que destruiu dois apartamentos numa explosão noturna.

Para aqueles que continuaram, o desastre foi um chamado para acordar: se as condições não mudassem, suas casas seriam as próximas.

Moradores do prédio de tijolos, 5320 Eight St. NW no bairro de Brightwood Park, em Washington, disseram que têm vivido em condições insalubres por anos.

Além do dano causado pela água e pelo fogo, haviam ratos, baratas e percevejos; estruturas desabando; mofo; eletricidade instável e aquecimento e água quente não confiáveis. Kathy Zeisel, uma advogada no Centro de Direito da Criança, que está representando vários antigos inquilinos, disse que os problemas estavam entre os piores que já viu.

Em abril, diversos residentes se juntaram fora do prédio para anunciar sua intenção de se recusarem a pagar o aluguel até mudanças serem feitas.

Uma greve de aluguel nascia.

Geralmente vista como um último recurso por grupos de direitos dos inquilinos, greves de aluguel têm se tornado crescentemente comuns no Distrito e outras cidades gentrificadas pelo país nos últimos anos, incluindo Cleveland, Houston, Los Angeles e San Francisco. Especialistas dizem que a tendência é um sinal do desespero dos inquilinos quanto ao aumento do custo de habitação em áreas urbanas – e uma tentativa de contra-atacar.

“Inquilinos estão se tornando mais inclinados a se organizar sob a noção de que estão pagando demais por pouco e ainda correm o risco de perder suas casas,” disse Michelle Wilde Anderson, uma professora da faculdade de direito de Stanford, que se especializou em problemas habitacionais. “Isso cria uma forma de destemor, porque você tem menos a perder.”

A greve em Brightwood Park está sendo coordenada pelo Centro de Desenvolvimento Econômico Latino, uma organização de D.C. que advoga por direitos dos locatários e muitas vezes ajuda a organizar associações de inquilinos.

Apesar do grupo historicamente ter ficado longe de ajudar greves de aluguel, a frustração com o passo lento da batalha legal e aumento rápido dos aluguéis no Distrito incitou os organizadores a guiar os residentes ao processo de greve.

Ao invés de escrever cheques mensais aos donos das propriedades, os inquilinos agora entregam seu aluguel aos organizadores, que os ajudam a arrumar o dinheiro como garantia.

Como nesta semana, nove inquilinos estavam participando na greve.

A gerente de propriedade Delores Johnson disse que o prédio tem 26 unidades ocupadas, embora defensores de Países Menos Desenvolvidos Economicamente (LEDC) digam que números são menores.

Se a greve for um sucesso, o grupo deve estimular greves de aluguel com maior liberdade em prédios sofrendo dos mesmos problemas, diz Rob Wohl, organizador de moradores em LEDCs.

Poderia levar anos para chegar uma conclusão.

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Greves de aluguel se iniciaram na Segunda Revolução Industrial, no final dos anos 1800 e início dos 1900, e tem tido picos de popularidade nos último século e meio que tendem a coincidir com “períodos de extrema desigualdade”, diz Anderson.

“No final do século XX, nós não só organizamos greves nas fábricas, mas elas começaram a aparecer em prédios residenciais onde pessoas sentiram que estavam pagando demais por pouca qualidade”, ela diz. “Nos anos 60 e 70, cidades como D.C. foram objeto de desinvestimento por um bom número de anos. Então os prédios estavam deteriorando e havia essa crescente consciência de pobreza e raça… Este período presenciou também este tipo de inquilino se organizando, como meio de chamar atenção à insegurança econômica e habitacional.”

Os dias atuais parecem estar se arranjando nos mesmos padrões, ela diz.

“Eventualmente, [moradores] são empurrados ao ponto em que estão inclinados a correr riscos e fazer algo diferente”, diz Anderson. “É quando começamos a ver essas greves”.

Áreas enfrentando gentrificação são mais propensas a vivenciar essas greves, adiciona Anderson, porque seus moradores são profundamente conscientes do risco de despejo.

Este é o caso de Los Angeles, onde mais de 90 inquilinos de um complexo na vizinhança de Westlake estão liderando o que a União dos Inquilinos de L.A. disse que é a maior greve de aluguel da história da cidade.

Residentes estão demandando melhoras no prédio, que, Trinidad Ruiz, organizadora de Inquilinos, disse estar infestado de baratas, ratos, percevejos, mofo e problemas de segurança e encanamento, incluindo vazamento de esgoto, etc. Mas os moradores também estão protestando por conta do aumento dos alugueis, o que, de acordo com a União de Inquilinos de L.A., inflacionaram por volta de 30% desde o início de 2017, forçando residentes a pagar tanto quando 70% de sua renda por habitação.

“Há um desespero em situações como a de L.A., que é uma grande cidade, mas está vivenciando gentrificação em escala municipal. Se essas pessoas forem expulsas de suas comunidades, não há comunidade que as acolha,” diz Ruiz. “Eles estão presos. Eles não podem se mudar para outro lugar porque não podem pagar. Então, porque eles não tem nada a perder, eles começam a contra-atacar. E porque eles não têm muitos recursos, eles usam o que têm, seus cheques de aluguel”.

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O apartamento de Javier Grijalva no parque Brightwood em Washington tinha tubulações quentes embaixo do chão. O dono começou a consertar, mas o trabalho parou porque não havia permissão. Ele vive em outra unidade do prédio.

Dania Rivera anda no hall sombrio do prédio. Algum dos inquilinos desviaram seu pagamento mensal para uma conta de garantia para pressionar o dono a fazer os reparos.

Uma das últimos grandes greves no Distrito envolve quase 10x mais inquilinos quanto o número de grevistas de Brightwood Park: 100 locatários na unidade 672 Marbury Plaza em Southeast Washington lançaram greve de aluguel em 2008 por condições precárias do prédio que apareceram depois da morte de um bebê e sua mãe em uma explosão de lavanderia de 2005.

Depois de quase dois anos de residentes desviando seu aluguel em garantia, o dono cedeu, concordando em 5 milhões de dólares em reparos.

“Esses tipo de greve de aluguel organizada é ainda muito rara,” disse Wohl, que está propagando o esforço de Brightwood Park. “Usualmente, o que vemos são greves mais informais, onde um inquilino ou grupo cansados das condições e apenas param de pagar aluguel. Geralmente não é tão coordenado”.

Em cidades com pouca proteção de inquilinos, os donos dos imóveis podem usar a greve para expulsar os residentes por não-pagamento.

Isso é o motivo pelo qual esses locatários entram em greve “da maneira certa”, o que inclui ser escrupuloso sobre por o exato valor devido mensalmente em uma conta de garantia.

Uma vez que a greve começou em abril, EADS processou muitos de seus inquilinos, que são em sua maioria imigrantes latinos, por não pagarem aluguel.

Johnson disse que os inquilinos em greve são problemáticos que infringiram prejuízo ao prédio anteriormente, incluindo convidar muitos adultos para viver em seus apartamentos, mudar as trancas das portas, falhar em criar seguro de aluguel e barrar dedetização e mantenedores de entrar para trabalho agendado.

“Isso não é uma greve de aluguel,” diz Johnson. “Eles apenas não querem pagar aluguel ou ser desalojados”.

Ela disse que EADS vai renovar os corredores e 13 apartamentos nos próximos meses, como parte de um esforço para reparar os estragos da explosão de uma caldeira em janeiro e um incêndio em dezembro.

Em 14 de dezembro de 2017, uma chama se iniciou dentro de uma a porta entre duas unidades no último piso do prédio. O fogo destruiu a casa de 6 famílias, todas deixaram o prédio.

Para apagar a chama, o corpo de bombeiros arrombou a parede e destruiu o prédio. O dano causado pela água deixou 6 unidades inabitáveis.

Advogados processando EADS pelos antigos inquilinos alega que anos de negligência contribuíram para o fogo que, segundo os moradores, vieram de fiação defeituosa.

EADS negou as alegações.

As famílias que ocu

param essas unidades viveram por semanas em hotéis tipicamente usados como abrigo de emergência. Cinco encontraram residências permanentes com a ajuda do Departamento de Serviço Habitacional do Distrito.

Um família – marido, esposa e uma criança – continua sem teto, diz Zeisel.

Reina Flores, 48, não pensou que o fogo afetaria sua unidade dois andares abaixo de onde a chama começou. Então, um dia em dezembro, ela disse, pedaços do seu teto caíram em cima de sua filha mais nova.

A irmã mais velha da criança a tirou dos destroços, diz Flores.

Semanas depois, nas horas inicias de primeiro de janeiro, o aquecedor do prédio colapsou. Um cano de água explodiu, jorrando pela parede da cozinha de Flores.

“Não é seguro aqui,” diz Flores em espanhol durante uma visita a seu apartamento destruído em maio. “Tudo que saía da parede era tão quente. Temos sorte que ninguém estava na cozinha.”

Johnson disse que EADS deu a Flores e seus filhos a opção de se mudarem para uma unidade vaga no mesmo prédio, uma acomodação que Johnson disse que o dono estendeu a qualquer família afetada. Mas Flores negou.

“Quero ser feliz aqui em casa”, disse Flores, que está ficando na casa de sua filha mais velha, ali perto. “Eles precisam mudar tudo”.

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