Cinco filmes de terror feministas

Ficou no hype feminista de ‘Mulher Maravilha’ e não sabe o que assistir? Filmes que celebram o girl power é que não faltam. Aqui vai uma lista de cinco obras para serem assistidas sem peso na consciência:

AS SENHORAS DE SALEM (LORDS OF SALEM, 2012);

Rob Zombie é um verdadeiro mestre em recriar a atmosfera característica do terror dos anos 70 em seus filmes – e em ‘Lords of Salem’ não é diferente. O filme conta a história de Heidi (interpretada por Sherri Moon Zombie), uma viciada reabilitada que trabalha como DJ em uma estação de rádio em Salem, cidade conhecida pela perseguição massificada às bruxas no século XVII. Ao ouvir uma gravação anonimamente enviada à rádio, Heidi é envolvida em um plano de vingança orquestrado ao longo de séculos pelas bruxas perseguidas em Salem contra os seus perseguidores. A ‘força primordial do feminino’ é representada graficamente de forma magistral no filme, seja em sua fotografia, ambientação ou sonoplastia, elementos responsáveis pela criação de uma atmosfera de sonho que remete às obras clássicas de Argento. Rob Zombie utiliza, ainda, a iconografia católica (em especial, a dualidade da representação feminina entre santa e pecadora) para apresentar, ao final, a sua própria versão da ‘Matriarca do Mal’. Inesquecível.

AUDIÇÃO (ÔDISHON, 1999);

Um clássico do horror japonês, Ôdishon narra a história de Shigeharu Aoyama, um viúvo de meia idade que, em busca de uma nova namorada, acata a ideia de realizar uma audição para avaliar as prováveis candidatas. Sua atenção recai na virginal Asami, que o atrai justamente por apresentar todos os traços historicamente atribuídos ao gênero feminino, como a docilidade, a passividade, a delicadeza e o recato. A ‘fantasia da mulher ideal’ cai por terra quando Asami se mostra, na realidade, como uma homicida insana, que tortura Aoyama em algumas das cenas mais impactantes e doentias do gênero. Considerado como uma “vingança feminina contra as contrições dos papéis sociais”, Ôdishon é um filme obrigatório para todos os amantes de terror.

O BEBÊ DE ROSEMARY (ROSEMARY’S BABY, 1968);

Uma obra prima definitiva. O filme de Polanski é um marco no gênero de terror – e motivos pra isso não faltam. Embalado por uma canção de ninar fúnebre, o filme segue a trajetória de Rosemary (em uma interpretação icônica de Mia Farrow) em seu processo de aprisionamento no papel de matriarca em uma seita satânica. A retratação da maternidade como algo potencialmente maligno é, em si, profana, se considerada a vinculação religiosa entre as noções de gestação e de dádiva. No caso de Rosemary, a gravidez se torna sinônimo de objetificação; a partir do momento em que sua gestação é confirmada, Rosemary é impedida de sair do apartamento, de visitar os amigos, de controlar a própria alimentação e até mesmo de escolher o seu ginecologista. Desse ponto de vista, o “declínio à insanidade” da protagonista pode ser interpretado como uma decorrência da repressão experienciada. Com ou sem Satã, um filme indispensável.

CORRENTE DO MAL (IT FOLLOWS, 2014);

Imagine que DST seja a sigla para ‘demônio sexualmente transmissível’ e você tem o conceito de um dos melhores filmes de terror indie dos últimos anos. Retomando o padrão dos slashers dos anos 70 (que inauguraram a tradição do gênero de punir os adolescentes sexualmente ativos), ‘It Follows’ inova ao voltar a sua crítica aos aspectos socioculturais que incitam práticas sexuais descuidadas, inocentando, como consequência, os jovens desavisados que as praticam (algo inédito em terreno cinematográfico). Se o filme é cauteloso, não o é com a sexualidade em si e sim com as consequências negativas decorrentes de sua marginalização. A estigmatização da prática sexual é representada no filme pelo demônio que persegue incessantemente a protagonista Jay, a qual, pelo seu gênero, experimenta a maldição contraída de uma forma intensificada – afinal, como repassá-la adiante pelo sexo em uma sociedade que condena a sexualidade feminina?

VAGINA DENTADA (TEETH, 2007);

Não podia faltar uma indicação de terror trash na lista. O título não deixa dúvidas sobre a premissa do filme: a protagonista tem mesmo uma vagina dentada. Partindo desse conceito, era esperado que a história desandasse para algum tipo de simplificação ou excesso – o que, supreendentemente, não acontece. O filme é contido e fundamenta a sua premissa em várias possíveis-explicações plausíveis (pode se tratar de uma mutação – decorrente da proximidade da casa da protagonista com uma usina nuclear-, ou de um salto evolutivo – representando uma espécie de ‘mecanismo de defesa’ até então inédito ao gênero – ou, ainda, de uma concretização do medo masculino da castração – retratado simbolicamente em incontáveis mitos na história humana). Independente de sua origem, a peculiaridade fisiológica frustra as expectativas iniciais de Dwan (uma adolescente puritana defensora da abstinência sexual e da pureza feminina), mas acaba se tornando um verdadeiro mecanismo de defesa em um mundo predominantemente misógino e paternalista. Com o potencial para se tornar um clássico cult.

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Olívia Vieira

Olivia Vieira é apreciadora de um susto decente e tenta cultivar a habilidade de não se levar a sério o tempo todo