Como a obra de Philip K. Dick acertou em cheio o cenário político atual

Por Damien Walter

Tradução por Giulia Lyra

Em 1947 as forças da Alemanha Nazista e o Japão Imperial venceram com folga a Europa e a América. Quinze anos depois, a América ainda se encontra sob o domínio do Eixo. Esta é a premissa inicial da obra de ficção científica de 1962 de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto, que é a mais recente a ser adaptada para as telas.

O Homem do Castelo Alto é frequentemente descrito enquanto um romance histórico alternativo. É bem verdade que a história possui uma fascinante linha do tempo contrafactual do mundo a partir de uma derrota dos Aliados, no entanto, há na obra uma carga significativa mais profunda. Este não é apenas um romance de realidade alternativa, e sim de narrativas alternativas, e é neste contexto de narrativas que a obra descreve a conjuntura política atual.

O Gafanhoto Torna-se Pesado é uma história dentro de uma história, um romance dentro do romance d’O Homem do Castelo Alto. Este livro secundário imagina um mundo onde o Eixo perdeu a Segunda Guerra Mundial, um mundo desconfortavelmente próximo à nossa realidade. Mesmo enquanto o leitor segue a história da Alemanha e do Japão vencendo a guerra, Dick constrói uma contranarrativa em que, como em nossa realidade, estas nações perderam a guerra. E com o desenvolvimento da história, ambas as narrativas começam a entrar em conflito.

O autor de O Gafanhoto Torna-se Pesado, Hawthorne Abendsen, é o epônimo “homem do castelo alto”. Ele vive numa área montanhosa isolada, para onde um número de personagens centrais da trama são atraídos ao lerem o romance dentro do romance. Enquanto lêem, a realidade começa a se alterar, e eles começam a adentrar o mundo do livro de Abendsen. A semelhança entre Abendsen e Philip K. Dick é deliberada. Dick está sugerindo que nós, assim como as personagens lendo O Gafanhoto Torna-se Pesado, devemos questionar a narrativa de nossa própria realidade.

Confuso? Talvez não mais que todos nós estamos com as narrativas conflitantes do cotidiano. Hoje nosso mundo está saturado com narrativas. Jornais, televisão, comerciais e a internet estão constantemente bombardeando-nos com histórias referentes à sociedade, política, guerras, tecnologia e centenas de outros assuntos. A fascinação de Dick com esta complexa teia de narrativas o levou a questionar repetidamente na ficção a pergunta que confronta a todos nós no mundo real – em quais narrativas devemos, por fim, acreditar?

“As falsas narrativas alheias são facilmente percebidas, mas somos quase que completamente cegos para as informações falaciosas que sustentam nossa própria narrativa.”

Estaria a Europa recebendo refugiados desesperados ou sendo invadida por imigrantes econômicos? Donald Trump é um candidato sério a presidente ou um palhaço sedento por atenção? Os cortes nos gastos públicos são um sacrifício econômico necessário ou a recessão econômica é apenas uma desculpa para forçar uma ideologia? Estes temas polêmicos não apenas dividem culturalmente, eles revelam as narrativas rivais competindo pela dominância cultural.

Conservadores e social democratas que se posicionam de formas opostas nesses temas não apenas sustentam opiniões divergentes, e sim acreditam em narrativas radicalmente diferentes. A narrativa conservadora, que acredita no Deus criador e na lei religiosa, leva as pessoas a conclusões bem diferentes em assuntos centrais, ao contrário da narrativa progressista da evolução e da descoberta científica.O que Philip K. Dick entendeu em 1062, que a maioria está apenas começando a compreender, foi como nossas narrativas definem nosso senso de realidade. Enquanto podemos viver em um mundo fisicamente, habitamos mundos muito diferentes psiquicamente.

As mídias sociais significam que hoje, mais do que nunca, as pessoas podem criar narrativas e compartilhá-las com o mundo. O site Snopes.com cataloga e derruba as meias verdades, teorias da conspiração e as mentiras absolutas que são proliferadas na internet. Tirando o fato de que rumores equivocados como a Starbucks ter removido Jesus dos copos natalinos, ou que Steve Jobs renunciou à sua postura capitalista em seu leito de morte, parecem simplesmente absurdos. As falsas narrativas alheias são facilmente percebidas, mas somos quase que completamente cegos para as informações falaciosas que sustentam nossa própria narrativa.

Com O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick estava apontando para um dos grandes enigmas da vida moderna e da cultura. Quando tentamos julgar narrativas rivais enquanto falsas ou verdadeiras, inevitavelmente fazemos o mesmo em relação ao que já consideramos enquanto verdade. Dick nos faz imaginar um mundo em que os nazistas venceram a guerra, e um mundo onde a narrativa da história foi escrita pelo vencedor. Caso vivêssemos naquele mundo, como saberíamos que as mentiras espalhadas pelo governo nazista não seriam a verdade? Se até um poder tão maligno e destrutivo como o nazismo pôde nos persuadir a acreditar em suas narrativas, então qualquer coisa em que acreditamos poderia ser potencialmente baseada em mentiras.

A resposta para a qual somos guiados por Dick é a consciência sobre as próprias narrativas. Enquanto não enxergarmos como as histórias são utilizadas para moldar nossas percepções e realidade, estamos vulneráveis a permanecer manipulados. Mas uma vez que podemos pensar criticamente sobre as formas as quais as narrativas são construídas, e as várias ideologias as quais eles servem, podemos começar a avaliar objetivamente nossas crenças. Esta simples percepção coloca O Homem do Castelo Alto entre os melhores guias para o século XXI, e é por esta razão que as obras de Philip K. Dick ainda são lidos por tantos mesmo 50 anos depois de escritos.

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Giulia Lyra

Feminista, professora, fã de sci-fi e municipalista libertária. Poder ao povo!