Como a vigilância será no futuro

Quando Mark Zuckerberg postou uma foto dele mesmo no Facebook em junho, um bom observador viu um pedaço de fita adesiva cobrindo sua câmera de laptop. A ironia não passou despercebida: Um homem cuja compania de 350 bilhões conta com usuários envia-la detalhes íntimos sobre sua vida está preocupado com sua própria privacidade. Mas Zuckerberg é esperto em tomar precauções.

Mesmo aqueles de nós que não controlamos grandes corporações devemos ter razões para nos preocupar com vigilância, lícita e ilícita. Aqui falaremos como governos, terroristas, corporações, ladrões de identidade, spammers, e inimigos pessois poderão observar-nos no futuro, e como poderíamos responder.

1 | Câmeras serão invisíveis

Muitas das câmeras que podem ser apontadas a nós hoje podem ser facilmente detectadas. Mas pesquisadores estão desenvolvendo dispositivos de gravação que podem se esconder em plena vista, alguns por imitar animais. Uma empresa chamada AeroVironment produziou um drone que se parece e voa como um Beija-Flor. Engenheiros na Carnegie Mellon, NASA e outros lugares criaram “snakebots” (robôs cobra) que podem manobrar em lugares apertados e poderiam ser adaptados para vigilância. Insetos robóticos estão em desenvolvimento, também, e engenheiros na UC Berkeley e Singapura estão desenvolvendo besouros ciborgues – insetos reais que podem ser controlados remotamente por eletrodos implantados e que possam algum dia levar câmeras.

Se mesmo um inseto é muito óbvio, Kristofer Pister, um engenheiro na Berkeley, e David Blaauw, um engenheiro na Universidade de Michigan, estão desenvolvendo “smart dust” (poeira inteligente), e “micro motes” (cisco microscópico),  respectivamente: pequenos computadores de milímetros de diâmetro que podem ser equipados com câmeras e outros sensores. Pode-se (ou não, do jeito que são feitos) ver aonde isso está caminhando para.

2 | Seu passado sera onipresente

Imagine isso: você entra num showroom de carros e antes de dizer qualquer coisa, o vendedor sabe seu nome, emprego, histórico de compra de carros, e classificação de crédito. Tal futuro não está longe, dis Christopher Soghoian, o principal tecnologista da ACLU.

Hoje, vendedores de dados como a Acxiom e LExisNexis compilam resmas de informação sobre todos nós. Clientes podem comprar um dossiê sobre seu passado criminal, consumidor e matrimonial. Soghoian pensa que é simplesmente uma questão de tempo antes dos vendedores de dados começarem a retirar de perfis de sites e aplicativos de relacionamentos e posts de social media também.

Agora, clientes tem que fazer login e procurar por pessoas pelo nome ou comprar listas de pessoas com certos traços. Mas com o desenvolvimento e disseminamento da tecnologia de reconhecimento facial, diz Soghoian, qualquer dispositivo com uma câmera e o software certo poderia automaticamente puxar sua informação. Eventualmente, alguem poderia apontar um telefone a você (ou te olhar através de lentes de contato smart) e ver uma bolha sobre sua cabeça te marcando como desempregado ou recentemente divorciado. Nós não teremos como separar nossa persona – nossos eus de trabalho e nossos eus de final de semana. Ao invés disso nossas histórias virão agrupadas em um pop-up nas telas de estranhos.

3 | Nós deixaremos os espiões entrar

Neste janeiro, uma série de artigos de notícias reportaram que um mecanismo de busca chamado Shodan permite voyeurs online navegar por monitores de bebês desprovidos de senha e assistir crianças de desconhecidos dormindo em seus berços. Isso não pode ter visto como uma surpresa: Webcams sem segurança de todos os tipos são achaveis por vários mecanismos de busca, incluindo o Google. Mesmo assim, as notícias foram uma lembrança de quão fácil é de espionar as pessoas pelos seus gadgets em casa –  um problema que irá crescer na medida que mais dispositivos são conectados à internet.

Com o advento da Internet das Coisas, eletrodomesticos e gadgets irão monitorar muitos aspectos de nossas vidas, do que comemos ao que damos descarga. Dispositivos que nós falamos com irão gravar e subir nossas conversas para a núvem, como o Echo da Amazon já o faz. Mesmo brinquedos nos farão vulneráveis. Crianças dizem as coisas mais absurdas, e a boneca falante Hello Barbie manda essas coisas por wireless para um servidor de terceiros, onde eles são analizados por software de reconhecimento de voz e compratilhados com vendedores.

Mesmo nossos pensamentos podem se tornar hackeaveis. A compania de tecnologia Retinad pode utilizar os sensorse em headsets de realidade virtual para monitorar o engagamento dos usuários. Dispositivos futuros poderão integrar eletrodos EEG para medir ondas cerebrais. Em agosto, engenheiros da Berkeley anunciaram que eles tinham produzido “neural dust” (poeira neural), eletrodos implantáveis de um milímetro de diâmetro que podiam gravar atividade cerebral para propósitos científicos e médicos.

No entanto, você não precisa de implantes cerebrais para ter sua mente lida. “O google sabe mais sobre mim do que minha mulher sabe”, diz Bruce Schneier, um expert de segurança computacional na IBM. “Ninguém nunca mente para um mecanismo de busca. Não é um implante neural, mas é assustadoramente perto.”

4 | Máquinas irão controlar nossos destinos

Na medida que os dados coletados por todos os dispositivos se tornarem massivos demais, nós progressivamente contaremos com inteligência artificial para peneirá-los fazer decisões, diz Gary T. Marx, o autor de Windows into the soul: Surveillance and society in the age of high techlnology ( Janelas para a alma: Vigilância e sociedade na idade da alta tecnologia). Algoritmos já estão sendo usados para identificar terroristas potenciais, e para gerar classificações de crédito e recomendações de condicional. A polícia de chicago usa um algoritmo que analiza prisões passadas, redes sociais e outros dados para identificar criminosos futuros. Em pouco tempo, robôes irão possivelmente guiar muitos aspectos da nossa administração de pessoal, como contratar e demitir.

Pesquisadores chamaram o cenário em que humanos são removidos do loop de decisão o “mundo-lível-por-máquinas”. “Basicamente,” diz Schneider, “nós estamos criando um robô do tamanho do mundo,” um sistema com sensores, processadores, e atuadores que podem manipular o mundo por, diga-se, aprovar empréstimos ou dirigir carros.

Tal altomação pode aumentar eficiência, mas não irá eliminar a injustiça.  Uma delas é que algoritmos cometem erros. “Se o facebook ver seu perfil erradamente, eles te mostram um ad para um chevette que você não quer comprar,” diz Schneider. “Se o departamento de defesa ve seu perfil erradamente, eles soltam um drone na sua casa.” Algoritmos também encorporam os preconceitos de seus programadores, ou geram seus próprios – um ponto que foi explicado de forma extremamente convincente em maio quando a ProPublica expôs como uma ferramenta correcional utilizada através do país (EUA) para ajudar a decisão de sentenças overestima o recidivismo de reús negreos. Maciej Ceglowski, um blogger e programador, chamou “machine learning” de “lavagem de dinheiro para tendenciosidade”

5 | A sociedade será mais segura mas mais sinistra

Estudos mostram que câmeras de segurança reduzem crimes de rua em áreas urbanas, mas vigilância também tende a suprimir certos tipos de atividade não-criminal, criando um efeito tenebroso em nossas liberdades. Por exemplo, depois que Edward Snowden revelou o grau que a NSA espionava em cidadãos em 2013, pesquisas no google por termos relacionados a terrorismo como al-qaeda dminuiram, sugerindo uma inibição de pesquisa livre.

Moxie Marlinspike, ex-chefe de segurança do Twitter, escreveu que deveríamos também proteger a privacidade de atividade ilegal, para permitir não conformidade. Nos EUA, por exemplo, leis governando uso de maconha e casamento gay poderiam não ter mudado se medo de ação legal tivesse prevenido as pessoas de provarem maconha ou formarem relacionamentos do mesmo sexo. Marlinspike argumenta que com vigilância constante, agentes da lei terão sujeira em todos, e chegará um ponto de que a promoção da lei se tornará seletiva e possivelmente tendenciosa. Incomode a pessoa errada e você está com problemas.

Mas com a vigilância vem a “sousvilância”, a habilidade de observar nossos observadores. David Brin, um cientista e autor de The Transparent Society (“A sociedade transparente”), prevê que eventualmente nós resolveremos mais crimes e necessitaremos de menos policiais, e também teremos muito menos brutalidade policial; (Câmeras de telefone já ajudaram ao movimento Black Lives Matter crescer.)  Uma sociedade de Big Brother resulta não de ser observados, mas de observação de um lado só – ele diz. “Nós não queremos cães de guarda cegos. O que queremos é uma coleira no pescoço do cão de guarda.”

Talvez também veremos uma mudança de normas sociais. Se todos os comportamentos envergonhadores de todos estão acessíveis perpetualmente, nós poderemos nos tornarmos familiarizados a bebedeiras de faculdade de empregados e até a sexts de senadores. Será que a paranoia reduzirá comportamento ruim, ou humanos serão humanos e manteremos nossos erros? “É difícil mudar nossos hábitos diários”, diz Jonathan Zittrain, co-fundador do centro Berkman Klein para a Internet e Sociedade, de Harvard. “Não sei se é uma razão para otimismo, porque quer dizer que não seremos arrefecidos, ou pessimismo, porque nós parecemos estar resignados a perder nossa privacidade sem pensar nisso antes”.

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Hugo Souza

Hugo Souza é estudante de Ciência da Computação e militante anarquista