Como as organizações curdas responderam aos protestos no Irã.

 

Por Meghan Bodette , Originalmente publicado em  Kurdistan América Latina

 

Enquanto os protestos continuam por sexto dia em várias cidades do Irã, os partidos políticos curdos em Rojhelat, ou Curdistão Oriental, têm pedido a seus partidários que se unam as manifestações e apóiem a luta pela mudança política.

O Partido pela Vida Livre do Curdistão (PJAK) emitiu uma declaração argumentando que as supostas razões econômicas para os protestos estão ligadas a necessidade de uma transformação política fundamental e as desafiantes acusações de incitação estrangeira. “O único objetivo de conectar a dissidência do povo com as forças externas é reprimir os protestos[ …] Parar e organizar juntos é muito importante para os povos do Irã e as forças da democracia. Como PJAK, chamados o povo curdo e todos povos do Irã para somar-se nas filas de luta pela liberdade “, expressaram na declaração.

Uma declaração do KCK (União de Comunidades do Curdistão) mencionou os protestos junto com as recentes manifestações contra o governo regional do Curdistão no Iraque como exemplos do “desejo de uma vida livre e democrática” no Oriente Médio. O Movimento de Mulheres do Curdistão Oriental (KJAR), alinhado com o KCK, fez um chamado para as mulheres de Rojhelat e de todo Irã para que se unam aos protestos. Em uma declaração posterior, fizeram referência a força e a liderança das mulheres em Raqqa, Kobanê e Shengal, dizendo que “em Rojhelat e Irã, o regime será derrotado pela luta das mulheres”.

O Congreso Nacional do Curdistão (KNK) reconhece a opressão religiosa, política e econômica no Irã e disse que os curdos do Irã, juntamente com todas as outras pessoas que se uniram aos protestos, deveriam se apoiar mutuamente para continuar a luta, alegando que “O levantamento e os protestos” do povo são legítimos e os apoiam. “As pessoas que defendem a democracia devem apoiar-se mutuamente para que possam encontrar alternativas”, sustentou o KNK.

O Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI), o grupo de oposição mais antigo no país, também pediu que “todo o povo revolucionário do Irã” se encontre com as manifestações, pedindo às pessoas que permanecem em paz ao menos que seja necessária a violência para se defender. Além disso, fizeram um chamado as forças de segurança, especialmente as que se encontravam em Rojhelat, que evite causar dano nas pessoas.

O secretário geral do Partido Komala do Curdistão Iraniano, Abdullah Mohtadi, disse que os manifestantes estavam “atacando o ‘ditador’ Rouhani, funcionários corruptos, políticas estrangeiras e quase tudo o que representa o regime” e que os protestos “merecem um apoio firme “. Komala e o PDKI publicaram uma mensagem conjunta para instar a comunidade internacional a se colocar a favor das demandas dos manifestantes.

Em entrevista recente, o comandante do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK), Hussein Yazdanpaneh, também solicitou o apoio internacional para a população do Irã, e disse que o PAK apóia os protestos contra o “totalitarismo e a opressão”.

PJAK, Komala, PAK e PDKI têm contingentes armados ativos em todo Rojhelat, que se enfrentaram com as forças de segurança iranianas nos últimos anos. Em nenhuma de suas declarações exigem que os manifestantes se armem ou se unam a nenhum grupo curdo armado. Pelo contrario, se centram no protesto civil e pedem a seus partidários que se unam a outras forças democráticas ou revolucionárias no Irã para conquistar uma mudança para o país em seu conjunto.

Estas declarações fazem eco dos problemas dos cantos das ruas de Kermanshah, Sandanaj e outras partes de Rojhelat, onde os manifestantes tomaram uma linha política mais cedo que em outras cidades. Os curdos, igual a outras minorias do Irã, foram reprimidos tanto na República Islâmica como com a monarquia do Sha. As injustiças sociais e econômicas estão diretamente relacionadas com as escolhas políticas do Estado, como se pode ver depois do terremoto de novembro, onde a ajuda foi lenta para chegar às cidades curdas e onde infra-estrutura deficiente aumentou a devastação. O desemprego nas províncias curdas é mais alto que em outras partes do Irã, e a discriminação em matéria de habitação e emprego é desenfreada. Quem critica essa opressão enfrenta a prisão e as execuções públicas.

Estas injustiças de longa data são a razão por que existe a oposição curda armada no Irã e por que as soluções do país exigem uma mudança sistêmica e não uma mera reforma. Muitos dos manifestantes desta semana, de diversas origens em todo o país, agora pedem o mesmo.

O governo iraniano, por sua vez, prendeu centenas de manifestantes e matou ao menos 21 pessoas. Funcionários iranianos ameaçaram os manifestantes com a execução por “livrar uma guerra contra Deus”. De acordo com o PDKI, os usuários de telefones celulares nas regiões curdas receberam mensagens de texto avisando-os para evitar protestos ou enfrentar as consequências. Para o governo, os protestos são o resultado de interferências estrangeiras e os manifestantes são agentes de poderes externos que tentam enfraquecer o Estado.

No entanto, como muitos analistas observam, os protestos não possuem liderança clara e são compostos principalmente por jovens e a classe trabalhadora. Eles têm exigências claras e compreensíveis, e negam que eles protestam apenas porque os poderes externos lhes dizem. Os pedidos de apoio internacional não são o mesmo que pedidos de agressão ou intervenção externa, nenhum dos quais foi solicitado pelas organizações políticas que apóiam as demonstrações.

Ver a resposta dos grupos curdos – como a mais organizada e politizada das minorias do Irã – mostra uma ênfase nos protestos como uma luta interna que deve funcionar em benefício de todos os povos oprimidos do país e que ele deve resolver os problemas desigualdade social, política e econômica, sem impor a vontade dos poderes externos. Embora sua luta não seja tão proeminente nas narrativas da mídia ocidental e da região como a causa curda no Iraque, na Síria ou na Turquia, sua visão e participação nos protestos do Irã devem ser consideradas ao analisar as causas e possíveis soluções.

 

 

 

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