Como Ayn Rand Faliu a Sears

Por Lynn Stuart Paramore, publicada originalmente na Alternet

Eddie Lampert, o lendário administrador de hedge funds um dia foi saudado como o “Steve Jobs do mundo dos investimentos” e como a reencarnação de Warren Buffet. Hoje em dia, ele reivindica a posição numero 2 na lista de piores CEOS da América da revista Forbes. Ele destruiu a Sears, a gigante icônica do varejo fundada em 1886, que era conhecida como “o lugar onde a América compra”.

A América agora evita a Sears a qualquer custo, muito por conta do Sr. Lampert e do seu amor pela lógica econômica torta.

Algumas pequenas apresentações: Lampert fez sua primeira aparição em Wall Street na mesa de arbitragem de risco do Goldman-Sachs sob Robert Rubin, que mais tarde se tornou secretário do tesouro dos EUA e agora atua como vice presidente do Citigroup. Em 1988, Lampert fundou a ESL Investments e juntou-se ao clube dos bilionários aos 41 anos de idade. Ele se tornou famoso no inicio dos anos 2000 por ter tomado o controle da Kmart durante sua falência e depois usá-lo para assumir o controle da Sears. Ao longo do caminho ele foi sequestrado e colocado algemado em uma banheira de motel por quase 40 horas e ainda saiu vivo para contar história. Lampert é conhecido por sua irritabilidade e hábitos incomuns como conduzir reuniões de uma sala sem móveis para executivos da Sears obrigados a assisti-lo por video conferencia. Ele odeia viajar de avião.

Pode-se dizer que Lampert é a destilação do culto fervoroso ao mercado e das abordagens econômicas equivocadas que dominaram os EUA nos anos 1980 e ainda estão executando seu curso fatal. Ele adora Ayn Rand, e houve relatos de que ele distribuiu cópias da “revolta de atlas” durante o um jantar anual da ESL . Lampert também é um fã de Friedrich Van Hayek, o economista austríaco amado por conservadores e libertarianos. Como protegido de Robert Rubin, ele absorveu as lições de um homem cujo foco econômico desacreditado nos déficits orçamentários acabou privando o país de infraestrutura, educação e fontes alternativas de energia.

Olhando para o Lampert fez à Sears, podemos ver o que acontece quando as lições de seus mentores são realmente aplicadas no mundo real. E não é bonito.

 

Primeiro Mito: maior é melhor

Wlliam Lazonick, um especialista nos negócios das corporações americanas, escreveu sobre a ascensão dos conglomerados nos anos 1960. na época, os acionistas clamavam por um crescimento rápido, então pressionaram por grandes fusões e grandes aquisições. Empresas que de inicio tinham obtido sucesso em um ramo foram pressionadas a se afastar de seus negócios principais, muitas vezes com efeitos terríveis. Em um e-mail para mim, Lazonick observou que “ a ideologia era que um bom gerente poderia gerenciar qualquer coisa, e que tudo o que escritório central precisava eram estatísticas de desempenho para que ele pudesse “gerenciar pelos num eros”’ essa bobagem “implodiu”, como disse Lazonick, na década de 1970.

Evidentemente, Lampert não recebeu o recado. Na década de 1980, quando a desregulação fez as roletas do cassino de Wall Street rodarem, as fusões e a febre das aquisições mais uma vez tiveram seu lugar. Desta vez, as fusões frequentemente envolveram aquisições de industrias do mesmo ramo de negócio como , por exemplo, a aquisição da Squibb pela Bristol Meyers. Dois novos termos entraram no vocabulário americano, a “aquisição hostil” e o “tubarão corporativo”. Oliver Stone fez um filme sobre esse episodio chamado “Wall Street”.

Alguns se referem a Lampert como um Tubarão corporativo. Ele prefere ot ermo investidor ativo, deve-se admitir que Lampert não estava apenas interessado em retirar os ativos de seu gigante de varejo para fazer fortuna fora dele imediatamente. Ele pensou que poderia aumentar os lucros, também. Depois de fazer um belo bolo de dinheiro com a Kmart, vendendo o valioso patrimonio imobiliário de duzias de lojas, fechando 600 lojas e demitindo dezenas de milhares de trabalhadores em nome da redução de custos e assim levando o preço das ações, ele tinha ideias maiores. Ele usaria a Kmart para assumir outro varejista enorme: a Sears.

Qual o histórico de Lampert no varejo? Nenhum , mesmo! Mas isso não tem importância. Ele era um gênio de Wall Street, e faria com que a coisa funcionasse aproveitando o poder dos dados e dos números e deixando a mão invisível guiasse sua Frankempresa para a gloria. Ele até contratou Paul dePodestá, o famoso estatístico de “Moneyball” para aconselhá-lo. Quando a Kmart adquiriu a Sears, a nova empresa, Sears Holding, tornou-se um dos maiores varejistas dos estados unidos, e Lampert tornou-se seu CEO. Ele assumiu a tarefa herculea de integrar duas empresas vastamente complexas. E ele trouxe umc ara q sabia tudo sobre restaurantes e nada sobre varejo para ajudá-lo, Aylwin Lewis, presidente da YUM!Brands.

As reações variaram de surpresa a predições do apocalipse. Mark Tatge da Forbes chamou-o de “Eddie Louco” e chegou á conclusão que ele deveria estar planejando liquidar a porra toda, talvez lentamente, esvaziando lojas(a Sears possui uma tonelada de imóveis valiosos)e usando o dinheiro para fazer recompras de ações(mais detalhes sobre isso mais adiante) que o enriqueceriam ainda mais.

Acontece que, contrariamente á noção de Lampert, você realmente precisa saber algo sobre um negócio para gerenciá-lo bem, não há realmente nenhum substituto para a experiencia especifica em um ramo . E maior nem sempre é melhor, uma corporação gigantesca pode ser muito difícil de manejar e complexa para prosperar, especialmente quando sua filosofia de gestão é derivada de uma escritora de romances ruins.

Sears e Kmart agora estão no rumo de serem vaporizadas como marcas.

 

Segundo mito: o interesse individual é a maior virtude

o paradigma econômico neoclássico é construído sobre a ideia de que um ser humano é pouco mais que um glóbulo de interesse individual. Ele ensina que a economia de mercado é povoada por indivíduos racionais cujo egoísmo é limitado apenas pela convivência. Ayn Rand foi um defensora entusiasta desta ideia em sua forma extrema, e sua celebração pode ser encontrada em seu livro “A virtude do Egoísmo: um novo conceito de egoísmo” , publicado em 1964, que explica, entre outras coisas, a destrutividade do altruísmo e a virtude de agir unicamente em seu próprio interesse.

Na Sears, Lampert começou a criar o modelo Ayn Randiano de uma empresa gigante. A empresa passou por uma reestruturação radical. Era algo que tinha sido tentado em conglomerados industriais gigantescos, como a General Electric, mas nunca com um varejista.

Primeiro , Lampert fragmentou a empresa em mais de 30 unidades individuais, cada uma com sua própria gestão, e cada uma medindo separadamente seus lucros e perdas. Agindo em seu interesse individual, seriam forçadas a competir umas com as outras e assim gerar lucros maiores.

O que realmente aconteceu foi que as unidades começaram a se comportar parecido com as cidades-estado com sangue nos olhos da Itália na época em que Maquiavel escrevia guia de governo por meio do egoismo. Como Mina Kimes noticiou na Bloomberg BusinessWeek, elas entraram em guerra umas contra as outras.

As coisas ficaram loucas. Os executivos começaram a minar outras unidades porque sabiam que seus bônus estavam ligados ao desempenho individual da sua unidade. Eles começaram a se concentrar unicamente no desempenho econômico de sua unidade ás custas da marca Sears. Uma unidade, a Kenmore, começou a vender produtos de outras empresas e colocou-os em lugares mais visíveis que os produtos da Sears. As unidades concorriam por espaço publicitário nas circulares da Sears, uma vez que a unidade com mais dinheiro obteve mais espaço publicitário uma circular do dia das mães acabou sendo lançada com uma minibicicleta para meninos na capa. As unidades não eram mais incentivadas a fazer sacrifícios, como , por exemplo, oferecer descontos, para atrair os compradores para as lojas.

A Sears tornou-se um lugar terrível para trabalhar, repleto de brigas internas e disputas de gritos. Empregados focados unicamente em ganhar dinheiro em sua própria unidade deixaram de ter qualquer lealdade à empresa ou participação em sua sobrevivência. Eddie Lampert provocou os empregados postando escondido sob um fake em uma rede social interna da companhia.

O que Lampert não conseguiu ver é que osa seres humanos realmente tem uma inclinação natural para trabalhar para o beneficio mutuo de uma organização. Eles gostam de cooperar e colaborar, e muitas vezes trabalham mais produtivamente quando tem objetivos compartilhados. Tire tudo isso e crie uma empresa que vai se autodestruir.

Em 2012, lampert comprou uma casa de U$40 milhões em Indian Creek Island, perto de Miami, exatamente na época em que decidiu vender 1.200 lojas da Sears e fechar outras 173. Naquele mesmo ano, a Sears Holding foi indicada como o sexto pior lugar para se trabalhar na América, pela AOL Jobs.

Terceiro mito: a ganancia sempre vence

nos anos 1980 desenvolveu-se uma filosofia empresarial nociva que dizia q os acionistas eram os únicos verdadeiros interessados em uma empresa, porque fizeram os investimentos e assumiram o risco. Esqueça sobre os investimentos e riscos nascidos pelo bolso do contribuinte e das pessoas que trabalham para uma empresa. Eles não importam. Uma empresa não tinha responsabilidade com ninguém, exceto com os acionistas.

Como resultado, os executivos começaram a usar essa justificativa para vários tombos projetados para encher seus bolsos. ficaram muito hábeis no jogo de comprar de volta suas próprias ações de uma forma projetada para inflar a taxa de lucro por ação e ocultar as fraquezas.

Em 1977, 95% da renda dos acionistas ocorreram em forma de pagamento de dividendos. Hoje, mais da metade do dinheiro devolvido aos acionistas das empresas do índice S&P 500

vem de recomprar e não de dividendos.

A revista Fortune, em uma matéria sobre o que acontece em Wall Street, salta sobre o negócio de varejo e relata que sob Lampert, a Sears caiu em uma série de recompras de ações. Entre 2005 e 2011, ele assumiu o que antes era um fluxo intenso de caixa da empresa e gastou 6,1 bilhões em ações de recompra. Durante o mesmo período, apenas 3,6 bilhões foram gastos pela Sears em melhorias de capital. Lampert disse aos investidores que melhorias e novas lojas não eram um uso “eficiente” de capital. Nem estava pagando os empregados decentemente. Na verdade, os empregados da Sears eram tão mal pagos que tomaram as ruas para protestar.

Então, quando você entra em uma loja da Sears hoje, você encontra um cenário triste e sombrio com pisos gastos e pintura descascada. Empregados de aparência tensa pairam sobre a mercadoria espalhada nas feias mesas de exposição. Dificilmente você vai querer comprar um micro-ondas lá.

Um gráfico simples no Yahoo finanças mostra que as recompras atingiram um alto valor justo no período que as vendas da Sears foram para o ralo. As recompras de ações são apenas um esforço para manipular os preços das mesmas e não ajudam a saúde financeira da empresa no longo prazo. Elas desviam o dinheiro da empresa das coisas mais necessárias para que uma empresa tenha sucesso , como salários decentes para os empregados e investimento em novos produtos e serviços. Pergunto por que a Apple já não faz mais nada de interessante? Por que seus trabalhadores de varejo sofrem arrocho salarial? Confira o que eles estão fazendo com recompra de ações.

O esquema de recompra de ações de Lampert arrecadou uma pilha de dinheiro para ele e seus investidores, mas também está arrastando a empresa para o ralo. Despejar dinheiro para fora de qualquer empresa, especialmente uma empresa varejista que precisa de lojas atraentes e publicidade forte, acabará por achatar as vendas.

E assim foi. A Sears perdeu metade de seu valor em cinco anos.

Conclusão: as lições de Crazy Eddie parecem tão óbvias que um grupo de crianças mantendo um carrinho de limonada poderia entendê-las. Você tem que saber alguma coisa sobre o negócio que você está executando, especialmente se ele for grande. O sucesso requer cooperação em vez de competição constante. A ganancia é , em ultima instancia, destrutiva.

A Mão invisível do mercado parece ter tentado dar um tapa na cabeça de Lampert para ensinar-lhe algumas coisas. Mas ele continua comprometido com seu absurdo, e os verdadeiros perdedores são todos os trabalhadores que perderam seus empregos e a economia americana que perdeu duas marcas reverenciadas.

A única coisa boa disso tudo é que Ayn Rand provavelmente nunca tentou gerir um negócio…

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....

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