Como Reconhecer um Fascista

O fascismo está entre nós? Leia 14 características de regimes fascistas e chegue a sua própria conclusão.

Era uma vez um pastor de ovelhas que achava a vida extremamente sem graça. Cansado  de tanta monotonia o único jeito que achou de se divertir foi fingir que estava em apuros.

– Um lobo! Socorro! Socorro! – Berrava o pastorzinho, em falso desespero.

Quando outras pessoas  vinham lhe ajudar, encontravam-no perfeitamente seguro e rindo espalhafatosamente.

Ele fez isso durante vários meses. Até que um dia apareceu um lobo de verdade no povoado.

Desesperado, o pastor começou a gritar feito louco (como de costume):

– Um lobo! Socorro! Socorro!

Desta vez ninguém veio socorrê-lo, pois todos do povoado pensaram mais uma vez tratar-se de brincadeira.

O pastor teve de se esconder em cima de uma moita de espinhos e o lobo devorou todas as suas ovelhas deixando a aldeia sem alimento por semanas.

Esta é uma fábula do escritor grego Esopo. A moral é, obviamente, que ninguém acredita em um mentiroso quando este diz a verdade.  Uso desta pequena fábula para exemplificar o que considero um  problema na chamada “nova esquerda brasileira”. Entretanto deixo claro que não tenho a intenção aqui de acusar um mentiroso em especifico ou chamar todos os que usam a palavra “Fascista” de mentirosos. Sei que existem muitas pessoas que apenas entram em “ondas” e “tribos” (especialmente os mais jovens) e passam a se comportar como os membros mais antigos destas “tribos”, sem questionar sobre o que é verdade, mentira ou equivoco.

Mas a mentira não é o caso, a banalização é.

Cartaz antifascista da guerra civil espanhola.

O  leitor há de convir que existe na atual conjuntura um certo uso excessivo do termo “Fascista” para designar qualquer pessoa que age contra a esquerda ou determinados partidos políticos de esquerda. Isto faz com que o termo “Fascista” perca muito do peso que deveria ter pelo que representou na historia da humanidade na medida que é utilizado para designar um Tiririca, por exemplo.

Entretanto reconheço que atualmente existem políticos e grupos que realmente tem tomado atitudes fascistas e outras pessoas bem intencionadas tentando alertar deste perigo ao cidadão comum. O que é de fundamental importância já que nenhum destes políticos tem a ousadia de se auto-denominar “Fascista” (sinal positivo de que este é ainda um termo maldito).

Alias, vejo um crescimento do fascismo no Brasil, algo altamente preocupante. Eis aí o principal problema de “tudo ser fascismo“.

Pode parecer difícil aos estudiosos da esquerda entenderem, mas para o leigo e para o sujeito não tão engajado em questões politicas (povo que , alias, deve ser o foco dos discursos da esquerda), “esquerda” é uma coisa só. Portanto, se  “fascismo” é  repetido por esta esquerda para definir qualquer cretino, o significado de “fascismo” para estas pessoas deixa de ser fascismo,  para virar um “sinônimo da esquerda para cretino”. E atenção: embora todo fascista seja cretino, nem todo cretino é fascista! Ou seja, o tal pastor de Esopo aqui não é apenas o que espalha o “Fascismo” como mero xingamento, mas  também o mesmo pastor quando aponta o fascismo real (o lobo que ainda pode nos devorar).

Mas o que seria este fascismo real? O humorista e jornalista Millôr Fernandes disse certa vez que para identificarmos um bom fascista bastava “uma multidão e um microfone”. Mas o que diz um fascista ao microfone e para uma multidão?

Vamos recorrer aqui as 14 características da politica fascista listadas pelo cientista politico Lawrence Britt. Após examinar os regimes fascistas de Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Suharto na Indonésia e Pinochet no Chile,  o pesquisador chegou a esta lista, que foi  publicada originalmente em 2003 na revista  Free Inquiry em um artigo intitulado  “Fascism Anyone?” e que atualmente você pode encontrar em diversos sites pela internet:

1 . Nacionalismo poderoso e continuado

Regimes fascistas tendem a fazer uso constante de lemas patrióticos, slogans, símbolos, músicas e outros apetrechos. Bandeiras são vistas em todos os lugares, assim como símbolos nacionais em roupas e demonstrações públicas.

2 . Desdém pelo reconhecimento dos direitos humanos

Em razão do medo de supostos inimigos e da necessidade de segurança, pessoas em regimes fascistas são convencidas de que os direitos humanos podem ser ignorados em detrimento de um conceito de justiça e bem comum. Em alguns casos são defendidas ações como tortura, execuções sumárias, assassinatos, além de longos encarceramentos de prisioneiros.

3 . Identificação de inimigos / bodes expiatórios como uma causa unificadora

Prisioneiros judeus durante o Holocausto

As pessoas, devido ao medo constante,  se reúnem em um frenesi patriótico unificador para lidar com a necessidade de eliminar uma ameaça comum percebida ou um inimigo (ex: minorias raciais, étnicas ou religiosas ; liberais ; comunistas; socialistas, terroristas, etc..).

4 . Supremacia dos militares

 Mesmo quando problemas civis são regra geral, é dado ao militar uma quantidade desproporcional de financiamento do governo, sendo a agenda domestica e civil nacional negligenciada. Soldados e serviço militar se tornam prioridade em um governo fascista.

5 . Sexismo desenfreado

Os governos de nações fascistas tendem a ser quase exclusivamente dominados pelos homens. Sob regimes fascistas, os papéis tradicionais de gênero tornam-se mais rígidos.

Durante o nazismo gays eram identificados nos campos de concentração com o triangulo rosa.

O divórcio, o aborto e a homossexualidade são suprimidos e o estado é representado como o guardião supremo da instituição familiar.

6 . Controle das mídias de massa

Em alguns casos, a mídia é controlada diretamente pelo governo, mas em outros, a mídia é controlada indiretamente pela regulamentação do governo e porta-vozes da mídia simpáticos ao regime. Observa-se também que a censura, especialmente em tempos de guerra , é muito comum. Além disso a mídia também pode ser controlada por meios subentendidos; acordos comerciais ou concessões de benefícios a um canal específico.

7 . Obsessão com a Segurança Nacional

Propaganda da Itália fascista de autoria do ilustrador Gino Boccasile (1901-1952).

O medo é usado como uma ferramenta de motivação por parte do governo sobre as massas .

 

8 . Religião e governo estão entrelaçados

Mussolini assinando o tratado de Latrão, que assegurou a existência do estado do Vaticano em 1929.

Os governos de nações fascistas tendem a usar a religião predominante no país como uma ferramenta para manipular a opinião pública. O uso da retórica e da terminologia religiosa são comuns entre os líderes de um  governo fascista, mesmo quando os princípios da religião são diametralmente opostos às políticas e ações do governo.

9 . O poder corporativo está protegido

 A aristocracia industrial e empresarial de uma nação fascista, muitas vezes é o que faz com que líderes de governo alcancem grande poder. Para tanto cria-se uma relação negócios/governo mutuamente benéfica, o que mantem o poder da elite dominante.

10 . O poder do trabalhador é suprimido

Mais duas propagandas fascistas de autoria do ilustrador Gino Boccasile (1901-1952), desta vez mostrando o destino dos tido como subversivos ao regime imposto por Mussolini.

O poder de organização do trabalhador é a única ameaça real a um governo fascista, sindicatos ou são eliminados por completo ou são severamente reprimidos.

11 . Desdém por intelectuais e as Artes

Nações fascistas tendem a promover e tolerar hostilidade aberta ao ensino superior. Não é incomum professores e outros acadêmicos serem censurados ou até mesmo presos. A liberdade de expressão nas artes e nas letras também é abertamente atacada.

12 . Obsessão com crime e castigo

 Sob regimes fascistas, é dado um poder quase ilimitado à polícia para fazer cumprir as leis. As pessoas muitas vezes se mostram dispostas a ignorar os abusos policiais e até mesmo abrir mão de liberdades civis e direitos individuais em nome do patriotismo e do que é caracterizado nestes regimes como o “bem maior”. Muitas vezes existe uma força policial nacional com poder virtualmente ilimitado em nações fascistas.

13 . Favoritismo desenfreado e corrupção

 Apesar de muitas vezes a escalada ao poder de um líder fascista dar -se através de um pretenso “combate a corrupção”, regimes deste tipo quase sempre são governados por grupos de amigos e associados que nomeiam uns aos outros para cargos do governo e usam do poder governamental e da autoridade para proteger seus amigos de prestação de contas. Não é incomum em regimes fascistas recursos nacionais e até mesmo tesouros serem apropriados ou até definitivamente roubados por líderes de governo.

Ditador indonésio Suharto (de uniforme camuflado) é considerado o governante mais corrupto da historia pela ONG Transparência Internacional.

              14 . Eleições fraudulentas/Urnas Fraudulentas e fraudáveis 

Por vezes as eleições em nações fascistas são uma farsa completa. Outras vezes as eleições são manipuladas por campanhas de difamação ou até mesmo assassinatos de candidatos da oposição.

O uso da legislação para controlar os números de votos ou os limites dos distritos políticos e a manipulação dos meios de comunicação são usuais. O uso do sistema judiciário para manipular ou controlar eleições também pode ser uma prática normal em nações fascistas.

Chamo atenção para o fato de que esta lista tem características de regimes já em curso, mas algumas delas são observáveis no fascismo em caráter ainda embrionário. Neste ponto acrescentaria apenas mais um item, o culto a figura do líder, observável tanto em Mussolini quanto em Adolf Hitler .

Só me resta então concluir que um fascista não se identifica pelo cabelo, pelas roupas ou pela conta bancária e sim pelas atitudes. São milhões as pessoas que hoje podem ter ideias apreciadas pelo fascismo, isto sem sequer ter ouvido falar em fascismo! Podemos chamar este fenômeno de “fascismo cultural”. Isto ocorre porque nada alimenta mais atitudes e ideias fascistas do que o medo, e todos estamos vulneráveis ao medo de alguma forma, esta é a gênese de tudo, o medo.

A ascensão de líderes fascistas na primeira metade do século XX  foi (e talvez ainda seja)  o maior exemplo da historia da humanidade de  controle pelo medo. O fascista, como já citado, cria nas pessoas a sensação de que está tudo fora de controle, e de que, portanto,  elas precisam entregar sua liberdade para tudo voltar ao “normal”. Ocorrerá que, uma vez no poder, um fascista  não abrirá mão deste poder  e se possível criará mais conflito para continuar justificando sua posição de líder. Um exemplo mais próximo de nós brasileiros,  e com comprovação histórica, é o atentado do Riocentro durante a ditadura militar.

Reforço ao leitor que os regimes fascistas sempre precisaram de um inimigo, é característica inerente ao fascismo o foco no ódio gerado pelo medo a este inimigo. Seja ele o comunismo, o anarquismo  e até mesmo estrangeiros sem ideologia politica definida. Este é o fascismo, que não pode se repetir. Esteja atento!

ARTE DA VITRINE (“Mussolini e Hitler disfarçados”): Matheus Mattos

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