Da escravidão a “Internatos indígenas” a campos de concentração, a separação de famílias não é nada novo na América.

Por D. Watkins, originalmente publicado em Salon em 22 de junho de 2018

 

Donald Trump fez um discurso essa semana na National Federation of Independent Business (Federação Nacional de Negócios Independentes), e logo depois ele abraçou a bandeira. “Nós estamos indo bem como país, e são vocês que estão verdadeiramente fazendo a América grande de novo”

Essa imagem nos acerta como um soco de Mike Tyson: em meados do que é provavelmente a pior semana da sua presidência, enquanto imagens de crianças em uniformes de prisão, separadas de seus pais por causa de uma bajulação política sem propósito entre ele e Jeff Sessions, inundaram a web – ele abraça a bandeira Americana e age como se estivesse fazendo alguma coisa certa. Nós estamos chegando no segundo ano disso, e nada está certo.

Por fim, essa semana Trump assinou uma ordem executiva que, ao menos temporariamente, acaba com a política de separação de famílias. Nós sabemos que ele nunca se importou com as crianças presas, pois ele inventou múltiplas razões para defender suas ações. Mas ele se importa com publicidade negativa. Repórteres e canais de mídia em todo o planeta estão acabando com ele. Michael Hayden, o ex diretor da CIA e da NSA, e a Senadora Dianne Feinstein da Califórnia, compararam os campos de detenção de Trump a Alemanha Nazista. Trump tem uma necessidade de ser querido, e essa política de tolerância zero na fronteira sendo comparada com Hitler e a Alemanha Nazista, definitivamente não preenche essa necessidade.

Jeff Sessions partiu com Laura Ingraham, apresentadora do Fox News, para combater as comparações. “Bem, é um exagero, claro,” diz Sessions, “Na Alemanha Nazista, eles estavam prendendo os Judeus para que não saíssem do país”.

Pela primeira vez na minha vida eu concordo com Sessions, porque nós não deveríamos estar comparando a América com a Alemanha Nazista. Na verdade, as políticas de eugenia implementada pelos Nazistas têm suas origens nos Estados Unidos. Se nós formos falar sobre eventos históricos que acabaram por ter crianças sendo presas, ou uma cultura de desumanização de pessoas de cor, nós precisamos começar por aqui mesmo, na América – Terra das taxas, lar dos escravos.

A América tem uma longa história de separação de famílias – uma história que se estende desde antes da fundação da república.

Não podemos nos esquecer dos Internatos para Nativos Americanos. A mais famosa dessas provavelmente foi a Carlisle Indian Industrial School (Escola industrial para índios Carlisle), na Pensilvânia, embora tenha havido em torno de 150 outras, notoriamente “suscetíveis a infecções mortais, como a tuberculose e a gripe,” de acordo com o The Washington Post. Ao menos 200 crianças morreram lá em menos de 40 anos. Eles deixaram suas terras tribais e suas famílias para nunca mais voltarem.

Carlisle e outros internatos fazem parte de uma longa história de tentativas dos EUA de, matar, remover, ou assimilar Nativos Americanos. Em 1830, os EUA forçaram Nativos Americanos a moverem-se para o oeste do Mississipi para dar espaço para a expansão dos EUA com o Indian Removal Act (Ato de Remoção de Índios). Mas algumas décadas depois, os EUA se preocuparam em estar ficando sem lugares para realocarem os habitantes originais do país.

Não podemos nos esquecer da “escravidão de bens móveis”: pessoas da África tiradas de seus países e famílias, roubadas de suas culturas e forçadas a trabalhar de graça em uma terra estranha. Mesmo depois que os escravos africanos se assimilaram, adotaram o cristianismo e a língua inglesa, e aderiram a cultura americana, eles ainda corriam o risco de terem suas famílias separadas.

Em “Soul by Soul: Life Inside the Antebellum Slave Market,” (Alma a alma: A Vida Dentro do Mercado de Escravos Antebellum) Walter Johnson escreve:

De ⅔ de um milhão de vendas interestaduais, feitas pelos traficantes nas décadas que antecederam a Guerra Civil, 25% envolveram a destruição de um primeiro casamento e 50% destruíram uma família nuclear – muitas dessas, separando crianças menores de 13 anos de seus pais. Quase todas as vendas envolveram a dissolução de uma comunidade previamente existente. E essas são somente as vendas interestaduais.

Ibram X. Kendi

✔@DrIbram

On June 19, 1865, Texas slaveholders could no longer economically profit off of separating children from parents. On June 19, 2018, Trump Republicans are politically profiting off of separating children from their parents. Past-Present of #Juneteenth. Celebrate-Resist.

Em 19/06/1865, os donos de escravos do Texas não podiam mais lucrar economicamente da separação de crianças dos pais. em 19/06/2018, os Republicanos de Trump estão lucrando politicamente da separação de crianças dos pais. Passado-Presente do #Juneteenth. Celebrar-Resistir.

Não podemos nos esquecer dos campos de concentração de japoneses. Estes foram estabelecidos durante a Segunda guerra Mundial, pelo Presidente Franklin D. Roosevelt, através da sua ordem executiva 9066. De 1942 a 1945, quase todas as pessoas de ascendência Japonesa, muitos deles cidadãos americanos, seriam internadas em campos isolados, longe das cidades da costa oeste, onde a maioria dos Nipo Americanos viviam. A ordem executiva sobre a internação de Japoneses, publicada após o ataque de Pearl Harbor é “agora considerada uma das mais atrozes violações dos Direitos Humanos na América do século XX”.

Nós também podemos adicionar a pobreza, e o complexo prisão-indústria dos tempos modernos à mistura: O legado das “Jim Crow Laws”* originais, e o que Michelle Alexander chamou de “O Novo Jim Crow”. Se separar famílias é o que Trump quer dizer quando ele fala sobre fazer a América grande de novo, então eu não posso dizer que isso não é uma tradição Americana e eu não posso ficar brava com ele quando ele abraça a bandeira. Destruir famílias tem sido um tema recorrente na história Americana e Donald se sobressai nesse assunto.

*Jim Crow – termo pejorativo usado para se referir aos negros nos EUA.

Jim Crow Laws – Conjuntos de leis locais e estaduais que garantiram a segregação racial no sul dos EUA.

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