Da Exile à Esquerda “Canalha”: A geopolítica dos “edgelords”* e o aumento do “nacional bolchevismo” nos Estados Unidos


por Alexander Reid Ross, Originalmente publicado no Medium

*Expressão em inglês utilizada para denotar uma pessoa que se diz muito mais radical e insensível do que a maioria das pessoas, sempre com o intuito de chocar

 O que aconteceu? – perguntei ao meu amigo Mikhail* quando ele entrava cambaleante no quarto que dividíamos. “Você parece perturbado”.

“Não foi nada”, disse ele, sentando-se ao meu lado na cama. “Uma gangue tentou me espancar no caminho para o metrô”.

Isso aconteceu no distrito central de Moscou. E então aconteceu novamente, duas semanas depois. Era primavera de 2005, nos primeiros estágios da queda vertiginosa da Rússia nas mãos da extrema-direita.

 “Como assim? Quem?”

“Um grupo de cinco ou seis pessoas”, ele respondeu ofegante, com seu sotaque russo. “Eles vestiam preto e tinham braçadeiras com um martelo e… como se diz? Uma espada”.

Quando ele foi embora, entrei no meu computador para pesquisar sobre o símbolo, e acabei me deparando com o território do chamado “fascismo de esquerda”, com termos como “strasserismo”, a “frente negra” e os “nacional-bolcheviques”. O líder dos nacional-bolcheviques na Rússia é um famoso esteta e provocador chamado Edward “Limonov” Savenko.

Reconheci o nome dele da eXile, uma publicação quinzenal em inglês que era famosa entre os expatriados que invadiam Moscou em busca de rebelião através de sexo, drogas e misantropia niilista.

Como estudante, a composição sociocultural impenetravelmente complexa de Moscou me dava tontura. Esperava encontrar na eXile algo como um guia de notícias semanal alternativo. Mas o que encontrei me parecia mais e mais desequilibrado e delirante.

Limonov encarnava uma performance do sentimento profundamente niilista que os expatriados desejavam encontrar na cultura da Rússia, como um ator desempenhando um papel estereotipado de uma avant-garde russa. Eu tinha fé, e tristemente estava enganado, de que os editores de uma publicação quinzenal popular não regularmente publicariam coisas de um fascista. No entanto, o ex-editor da eXile, Matt Taibbi, eventualmente o chamou de “revolucionário neofascista”, e seu coeditor anterior, Mark Ames, deu a ele a constrangedora descrição de “Iggy Pop do mundo literário de direita”.

Quando mais pesquisava sobre os supostos “fascistas de esquerda”, e em especial os nacional-bolcheviques que transformaram a Rússia em seu reduto geopolítico após a guerra fria, mais eu percebia que estávamos vulneráveis a uma extrema-direita invasiva que usa a cultura pop, a decadência e o niilismo para acessar subculturas, cooptar seus espaços e significados, e transformá-los em prejudiciais reações políticas.

Grande parte da mídia ocidental e muitos especialistas enfatizaram, com razão, a brutalidade da chamada “alt-right”, que tem uma linhagem oriunda da extrema-direita dos Estados Unidos. No entanto, há muito menos compreensão sobre o papel influente do nacional-bolchevismo e a capacidade de destruição que ele levou à direita, sob o disfarce de sátiras lascivas e um chauvinismo histérico.

Com horror, observei este processo ocorrendo pela década seguinte, enquanto os ditos nacional-bolcheviques adentraram as subculturas americanas, juntando tendências de direita e esquerda, que acabaram por influenciar o âmbito que contribuiu para a alt-right. A substância da eXile teve papel crítico na criação destas conexões, juntando-se e influenciando a alt-right na defesa da agressão de Putin contra o liberalismo ocidental.

Como um sósia de Trotsky com cavanhaque, Limonov havia passado um bom tempo na subcultura boêmia de Nova Iorque na década de 70, antes de se juntar aos fascistas banais da nova direita da França. Defendendo “um ódio em brasa do sistema anti-humano da tríade liberalismo/democracia/capitalismo”, Limonov veio a juntar direita e esquerda, comemorando o líder genocida da União Soviética, Joseph Stalin, como o “César bolchevique do nosso país em seu melhor período”. Sobre o autoproclamado “super-fascista” Julis Evola, Limonov escreveu que “racismo e ódio às mulheres… é o único equilíbrio ideológico ao socialismo e ao marxismo”.

A síntese ideológica de Limonov, conhecida como nacional-bolchevismo, tem origens dúbias em meados da década de 20 dentre alguns esquerdistas, emigrantes russos e “conservadores revolucionários” que desejavam unir a Alemanha e a União Soviética em uma fraternidade nacional-socialista. Após a morte de Hitler e a destruição do reich em 1945, os nazistas se aliaram ao dissidente Otto Strasser para criar um “revolucionário nacional”, buscando uma “terceira via” entre os comunistas soviéticos e o norte atlântico liberal. Influenciado por estas tendências, e promovido por fascistas banais associados à nova direita europeia, os nacional-bolcheviques continuaram a lutar contra a OTAN para criar um “império espiritual” que abrangeria “de Dublin até Vladivostok”.

Com a queda da união soviética, Limonov se juntou a outro nacional-bolchevique chamado Aleksandr Dugin para promover o sonho de um “grande espaço” eurasiano com uma premissa na geopolítica fascista e sediado no Kremlin. Comprometidos com a destruição total do que enxergam como um ocidente fraco e liberal, os nacional-bolcheviques impõem a grandeza do tradicionalismo encontrado no “centro” do continente asiático.

Enquanto Dugin se tornou o filósofo desta ideologia fascista, influenciando desde o partido comunista até o chamado partido democrata liberal russo, incluindo o pessoal das forças armadas russas, Limonov desenvolveu seu papel como propagandista principal da extrema-direita russa. De acordo com o professor Markus Meili, Limonov “certamente influenciou o surgimento e crescimento do movimento skinhead russo nos anos 90”. Apesar disso, e lutar em Sarajevo com o criminoso de guerra Radovan Karadzic, e clamar por uma “solução sérvia” para os desafios contra a Rússia, era tratado como artista performático incompreendido.

Moscou e a Misoginia

Com Limonov, os editores da eXile, Mark Ames e Matt Taibbi, tomaram papel de liderança na definição de algumas das tendências mais chauvinistas dos expatriados não-russos que usavam a Rússia como local para glorificar o turismo sexual e a corrupção. Embora artigos tenham sido escritos sobre a misoginia da eXile, ela raramente é mostrada no contexto ampliado da mistura entre políticas de esquerda e extrema-direita que o tabloide publicava com Limonov.

Quando confrontado por um entrevistador sobre ter escrito que “na verdade, preferimos as mulheres russas que aceitam seu papel como objetos sexuais”, além de outras afirmações, Taibbi respondeu que “tinha a ideia de que era um infrator que ofendia a todos igualmente”. Em sua própria parte de coautoria no livro sobre os primeiros anos da publicação, The Exile: Sex, Drugs, and Libel in the New Russia (Exile: sexo, drogas e difamação na nova Rússia), Ames fala sobre contratar prostitutas menores de idade e ameaçar assassinar sua ex-companheira caso ela se negasse a abortar seu bebê.

Hoje, os autores afirmam que tanto o livro como o tabloide apenas traziam, nas palavras de Ames, uma “estética chocantemente ofensiva”, apesar das afirmações originais de que se tratava de não ficção. Além disso, o Daily Caller publicou que nenhuma mulher fez acusações de cunho sexual contra Taibbi com relação à esta época.

Ao mesmo tempo, o editor contribuinte da Newseek, Owen Matthews afirmou no Moscow Times que ele estava presente durante ocasiões reais sobre as quais Ames escreveu no tabloide sob o pseudônimo “Johnny Chen”, mas depois disse tratar-se de ficção. Especificamente, Matthews falou sobre um artigo no qual “Chen” estupra uma mulher que conhece numa boate. Num artigo que se encaixa com a descrição, “Chen” descreve a vítima como alguém “sangrando e chorando” e pensa em jogá-la da sacada.

Contatado por e-mail, Matthews avisa que nem todos os textos do eXile devem ser interpretados de forma completamente literal. “O ponto fraco do eXile, nesta época puritana, era a celebração/sátira do excesso de Moscou, a celebração da cultura do estupro e depreciação das mulheres”, ele explicou.

 “Se você acha que estavam curtindo e exaltando os profundos excessos da Rússia, você não entendeu”, escreveu Matthews. “Eles estavam os vivenciando, e escrevendo sobre eles, expondo seus horrores vividos em suas próprias peles, como diz o ditado russo”.

Em um tweet extremamente hostil respondendo a uma pergunta que enviei por e-mail, Ames disse que seu pseudônimo era “um personagem criado para ser ousado e moralmente abominável, para entreter expatriados americanos da década de 90”. Sendo que a publicação estava no centro desta mesma cena que satirizava, fica difícil separar a sátira da realidade, e tais linhas distorcidas obscurecem o efeito do “humor” sobre estupro da comunidade em questão.

Assinando com seu próprio nome, em uma entrevista de junho de 2000, Ames falou ao Observer: “levei um tempo para aprender que você realmente tem que forçar as garotas russas, e é isso que elas querem… Todos os relacionamentos entre homens e mulheres são basicamente violentos, eu acho. É tudo uma guerra”. Nada foi mencionado sobre isso ser sátira.

Limonov levou esta lógica a uma conclusão política em seu artigo delirante chamado de “Quem precisa de fascismo na Rússia”, onde disse “Os cidadãos russos realmente querem que venham os FASCISTAS, terríveis, tensos e jovens, e que eles resolvam todos os problemas”, além de “a vida de repente ficará mais fácil para aquelas que são mantidas… um chefe virá, a puxará pelo cabelo em direção a ele, e a usará de acordo com seu propósito”.

Politicamente, o eXile passou a seguir regras que hoje são familiares: criticar Putin, mas reservar as críticas mais obscenas contra a hipocrisia da imprensa ocidental. Eles faziam críticas contra Putin em questões complicadas, como sua resposta fria ao assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, mas os artigos passavam a ser contra os Estados Unidos. Ames parecia se opor a Putin e aos oligarcas, mas minimizar a ameaça de fascistas como Dugin, enquanto publicava coisas de Limomov, seu companheiro ideológico. Por este motivo, Stephen Shenfield, autor de “O fascismo russo”, defendeu a ideia de que “deve-se encontrar maneiras de fechar o eXile” (de acordo com Ames).

Contribuições à “alt-right”

Um dos editores mais reconhecíveis do eXile era o “nerd das guerras”, apelido de um misantropo obcecado por guerras chamado John Dolan, que escrevia sob o pseudônimo de Gary Brecher. Em 1997, Dolan demonstrou onde estavam suas afinidades ao traduzir um livro de Limonov a seu próprio custo, mas com as alcunhas lhe proporcionando ainda mais licença. Ele admitiu que o nerd da guerra era baseado “em quem eu era e pessoas que eu conhecia”, e que Brecher era “uma versão mais honesta de quem eu sou”.

“Indianos e paquistaneses são bichas demais para guerrear”, era uma chamada de Dolan no eXile, utilizando o termo racista para paquistaneses que é comum entre a extrema-direita britânica. Em outro artigo, ele falava que se devia “podar” a população mundial jogando uma bomba atômica no oriente médio, porque “dentro de um século, a população será de 14 bilhões de imbecis devotos “(uma mistura volátil de hindus e muçulmanos, como serão divertidas as noites de sábado!)”.

Em 2002, Dolan se juntou ao ideólogo de extrema-direita Steve Sailer para uma sessão de perguntas e respostas, nas quais propôs ideias raciais sobre conflitos. Juntamente com um artigo de Sailer, Dolan fez uma resenha na revista The American Conservative, cofundada por Pat Buchanan, a quem Dolan declarou ser alguém com o qual ele geralmente concordava. O editor-assistente na época era o “co-criador” da alt-right Richard Spencer, que já havia criado uma reputação como misógino de extrema-direita, através como havia lidado com o escândalo de lacrosse de Duke.

Em um e-mail, Spencer me disse que trouxe o nerd da guerra com ele para a revista Taki após ter sido demitido da The American Conservative por extremismo. Derivada da American Conservative, a revista Taki foi fundada por Panagiotis Theodoracopulos, que havia defendido o partido neonazi grego aurora dourada como “bons gregos patriotas à moda antiga”.

Além de conseguir um emprego na Taki para o agitador de extrema-direita Gavin McInnes, Spencer me disse que pessoalmente solicitou e editou três artigos de Dolan em 2008 e 2009. O trabalho de Spencer na Taki foi crucial para o desenvolvimento de um novo movimento de extrema-direita que ele estava começando a chamar de “direita alternativa”, ou “alt-right”, que juntava vozes anti-intervencionistas com libertários estilo Ron Paul, moda hipster e nacionalistas brancos.

Em um dos artigos de Dolan para a revista, intitulado “Guerra dos bebês”, ele apresentava a ideia de imigrantes não documentados como combatentes na “conquista através da imigração que testemunhamos agora na Europa e na América do Norte” — um ideário típico do nacionalismo branco. “Eu era fã da sua análise extravagante, mas muito inteligente”, Spencer me disse.

Assim como na eXile, a alt-right apresenta o que era horrível com um toque de sátira, testando e desafiando os limites do que era considerado um discurso aceitável. Em 2008, Dolan publicou um artigo chamado “Bush fez as guerras e as guerras venceram”, republicado cinco dias depois na The American Conservative, mostrando seu status como membro das duas frentes. E, de fato, ele era tão popular entre esta versão rudimentar da alt-right que o supremacista branco John Derbyshire usou um epigrama em seu livro “Pessimismo Conservador”, de 2009, antes de ser demitido do National Review três anos depois, devido a um artigo racista publicado na revista Taki.

Sob a liderança de Spencer, a alt-right crescia, incorporando Dolan e a eXile com entusiasmo.

O retorno da eXile

A eXile passou a, cada vez mais, representar uma ligação comum entre a esquerda e a extrema-direita em sua simpatia pela Rússia de Putin e animosidade implacável contra aqueles considerados neoconservadores, esquerdistas sem senso de humor e liberais “frescos”.

Taibbi e Ames seguiram caminhos distintos em 2003, aparentemente de forma não amigável, mas a eXile continuou em Moscou por mais cinco anos. Quando Ames finalmente fechou a publicação, com base em alegações de repressão estatal disputadas até pelos seus próprios investidores, Spencer escreveu que a publicação era “um jornal em inglês fantasticamente irreverente”, e elogiou Limonov com um “verdadeiro fusionista”.

Com a esperança de encontrar um novo emprego para Dolan, o editor da American Conservative Daniel McCarthy (também conhecido como Tory Anarchist), declarou que se deveria “salvar o nerd da guerra”, chamando o eXile de “samizdat” — termo para publicações soviéticas dissidentes que acompanhavam a perseguição de ativistas.

Conforme a alt-right foi crescendo, seus membros idolatravam o eXile. Daryush Valizadeh (“Roosh V”), famoso masculinista (MRA) geralmente chamado de apologista ao estupro, descreveu o livro de Taibbi e Ames como algo que mudou sua vida e sua escrita, citando que “minha parte preferida do livro é quando descrevem a noite das garotas no Duck Bar. Os expatriados a chamavam de ‘campo do estupro’”.

Assim como Roosh V, outro MRA chamado Matt Forney disse que o livro era “honestamente, um dos melhores livros que já li e mudou minha vida, e um que faço questão de reler anualmente”. De modo similar, na rádio Counter-Currents da alt-right, Forney elogiou o livro de 2005 de Ames, chamado de Going Postal, como uma explicação adequada, para não dizer justificativa, para os atiradores de escolas do estilo Incel.

Visto que o movimento masculinista ajudou a alimentar algumas das correntes mais violentas da alt-right, o papel crucial que o eXile teve na vida de dois dos maiores influenciadores do movimento demonstra ainda mais a influência que os editores tiveram no fascismo moderno.

Dentro de dois anos após o fechamento da eXile, Dolan conseguiu uma posição na Universidade Americana Iraque-Suleimaniyah, mas foi demitido após descobrirem sobre uma bravata histérica envolvendo o rosto de Ann Coulter no corpo de uma mulher que sofreu estupro coletivo por quatro homens árabes, com o texto “Annie, sua fascista, você sabe que quer isso”. O reitor da universidade o chamou de “fraude acadêmica”, e “incapaz de fazer qualquer distinção racional entre a realidade e sua imaginação”.

Propaganda do Partido Nacional Bolchevique/ Stormfront

Nacional Bolchevismo potencializado

Embora a publicação tivesse deixado Moscou, ela manteve uma presença online, conforme a política estrangeira da Rússia ficava mais e mais intervencionista. Desde a invasão da Geórgia em 2008, até a guerra na Ucrânia em 2014, os editores da eXiled ajudaram a formatar este conflito entre oriente-ocidente de modo a desviar críticas à Putin para os Estados Unidos, refletindo a linha propagandística da Rússia, que juntou a esquerda com a direita numa batalha geopolítica, com tons nacionais bolcheviques.

Ames culpava os Estados Unidos pelas fraudes eleitorais de Putin, a eXile culpava o crescimento da extrema-direita no governo de Putin no apoio dos Estados Unidos a Yeltsin nos anos 90, e tanto Dolan e Ames retiravam satisfação da invasão russa na Geórgia, com o ‘nerd da guerra’ chamando-a de “a guerra dos meus sonhos”. Richard Spencer, embora elogiasse esta posição, sentiu que era necessário adicionar que Dolan tinha uma “sede de sangue e violência que supera a minha”. Enquanto isso, Putin travava uma guerra pessoal contra seus oponentes, e contratou o funcionário da Lyndon LaRouche, Sergei Glazyev, como conselheiro sobre a integração eurasiana.

Transferindo a nostalgia pela União Soviética para condições capitalistas modernas, Putin cuidou de reabilitar a imagem de figuras de extrema-direita como Ivan Ilyn, além de Stalin, enquanto acumulava uma enorme fortuna pessoal, soltando oligarcas de extrema-direita para o ataque na Ucrânia oriental. Quando uma revolução ucraniana tirou Yanukovych do poder em 2013, Putin enviou tropas que escrevia coisas como “Por Stalin!” em seus tanques, em esforços semiclandestinos de estabelecer uma “Grande Rússia” imperialista. Até hoje as forças pró-Rússia na Ucrânia oriental manifestam uma mistura de mercenários e ideólogos fascistas, comunistas autoritários e nacional bolcheviques.

Com relação à Ucrânia, Ames fez duas análises contraditórias que foram destrinchadas por Marcy Wheeler. O primeiro relatório abordava uma discussão com nuances sobre os interesses da oposição, enquanto a segunda oferecia um relato dúbio e estranho sobre neoliberais ocidentais responsáveis por se juntar com fascistas para promover uma mudança de regime. O posicionamento dele foi resumido num terceiro artigo: “Saia do caminho da Rússia por um tempo… Sinto muito, Ucrânia, você está fodida”.

Limonov voltou para o lado de Putin após anos na oposição, cativado pela convergência do ultranacionalismo e nostalgia pela União Soviética. O antigo companheiro próximo de Limonov, Dugin, incentivava as forças pró-Rússia na Ucrânia, com mensagens como “Matem! Matem! Matem os ucranianos!”.  Seus associados próximos ganharam papéis de destaque na “guerra civil” apoiada pelo Kremlin. Limonov e Dugin apareceram juntos na televisão russa, um símbolo do poder da invasão da Ucrânia em juntar velhos companheiros.

A “alt-right” recebeu um impulso significativo de ambos os cofundadores do partido Nacional Bolchevique. Dugin deu a Spencer uma plataforma em seu website, e a esposa de Spencer traduziu para inglês o trabalho de Dugin. Grande parte da extrema-direita americana leu os livros de Dugin e estabeleceu alianças internacionais com sua rede de contatos, por exemplo, Matt Heimbach do Partido Tradicional dos Trabalhadores, que já teve bastante influência.

Enquanto isso, pessoas de esquerda no ocidente passavam a frequentar mais e mais o novo Sputnik News, juntando-se à chefia do Centro de Estudos Conservadores de Dugin e, podcasts, promovendo teorias da conspiração e denunciando “atlanticistas”. Juntando-se aos argumentos de muitos anti-imperialistas, Spencer apareceu no canal Russia Today (RT) para denunciar a “guerra fria” dos Estados Unidos na Ucrânia.

As operações clandestinas de influência nas redes sociais conduzidas por Moscou, além do apoio público à movimentos “anti-imperialistas” que uniam a direita e a esquerda contra o liberalismo, seguia os padrões do Nacional Bolchevismo. Durante esse ressurgimento, Limonov teve até um pequeno retorno. Israel Shamir, colaborador da Wikileaks que nega o holocausto, falou sobre seu “amigo” Limonov no seu site de esquerda CounterPunch. Num artigo de 2017, na Unz Review (associada à alt-right), o blogueiro antissemita Anatoly Karlin, que já havia se referido à eXile como “bobos da corte irreverentes”, falou sobre o “chique discurso mensal do milenarista Limonov”.

Enquanto isso, a extrema direita mantinha seu romance com a eXile. Quando, no Washington Post, Kathy Lally descreveu a publicação como “juvenil, obcecada e pornográfica para meninos adolescentes”, Sailer foi defender Taibbi e Ames na Unz Review. Um comentador opinou: “O apoio deles ao Limonov os transforma numa espécie de precursores da alt-right”. De fato, o ‘nerd da guerra’ publicava pontos de nacionalismo branco na revista Tag durante a formação da alt-right, e Ames e Taibbi’s tinham um livro que é citado como influência de vida para MRAs (“Ativistas pelos direitos dos homens”).

E, da parte de Ames, após passar anos criando documentários de viagem para o Russia Today, ele passou para a Pando News, website parcialmente fundado pelo apoiador de Trump no Vale no Silício, e membro do Conselho de Administração do Facebook, e cofundador da Palantir, Peter Thiel. De acordo com o New York Times, um funcionário da Palantir trabalhou junto da Cambridge Analytica para conseguir acesso não autorizado a informações de milhões de usuários do Facebook, utilizando isso para ajudar na campanha de Trump.

Richard Spencer falando sobre Chapo Trap House

O “próximo passo” dos canalhas

Apesar de continuar a defender e promover Limonov no crescimento da alt-right, os ex-colunistas da eXile tornaram-se ídolos de uma comunidade online em crescimento contínuo, que descreve a si mesma como “esquerdistas canalhas”, um termo criado num podcast de Amber A’Lee Frost para descrever um grupo de caras de esquerda associado com um podcast controverso, o Chapo Trap House.

O podcast que mais recebe doações do Patreon, Chapo Trap House (CTH) surgiu em 2016, e hoje inclui mais de 26.000 financiadores, arrecadando mais de US$ 108.000 mensais. Conhecido por seu senso de humor “irônico” que apaga as linhas entre verdade e ideologia, o podcast milionário costuma ter de 100 a 200 mil ouvintes por episódio.

Assim como a alt-right, os apresentadores costumam fazer piadas com sobreviventes de estupro e pessoas com autismo. Surgiram controvérsias quando os apresentadores pareceram tirar sarro do movimento #MeToo e responderam à um artigo crítico de Jeet Heer no New Republic com um comentário homofóbico.

Dadas as tendências misóginas e mistura oportunista de sátira e realidade, não é de se surpreender que de início, o CTH tenha falado sobre Taibbi como “nosso velho amigo e primeiro grande convidado”. Quando o podcast de Dolan e Ames (Nerd da Guerra no Rádio), foi listado como parte da “esquerda canalha” num artigo crítico, Ames tweetou a hashtag #JeSuisDirtbag.

Demonstrando a costumeira irreverência ofensiva do The eXile, agora na forma de “esquerda canalha”, Richard Spencer disse, em público: “Acho meio incrível. Se ouvirmos quinze minutos do [CTH], soa como um podcast da alt-right em termos das piadas, os memes, o cinismo e a irreverência. É bastante engraçado. Portanto, acho que este será o próximo passo”.

Os comentários de Spencer não destoavam da realidade. Alguns anos antes do início do CTH, Virgin Texas (que viria a ser apresentador) levou o grupo de “comédia alt-right” Million Dollar Extreme para que se apresentassem em um de seus eventos, o que indica a proximidade dos estilos, ou mesmo da política.

Esta “esquerda” também adentrou um padrão interessante de análise geopolítica, tão similar à ideologia nacional bolchevique que o blog Duginista “Quarta guerra revolucionária” publicou diversos artigos e podcasts de Ames, Dolan e do CTG, incluindo um episódio com Taibbi. Os apresentadores do CTH parecem convidar estas misturas, tendo aparecido no Sputnik ou RT, propagando a linha da política externa do Kremlin, em especial com relação à guerra na Síria, tanto que um de seus apresentadores chegou a exaltar um criminoso de guerra, Issam Zahreddine.

Enquanto Spencer alterou seu perfil no Twitter e inclui uma imagem da bandeira do regime sírio, após as forças de Assad terem utilizado armas químicas no ataque de Khan Shaykhun, outro apresentador do CTH, Will Menaker, se juntou aos teoristas da conspiração e passou a especular que o ataque era um “falso alarme” no Twitter, antes de excluir este post.

Tais teorias da conspiração são promovidas através de uma extensa rede pró-Kremlin, envolvendo uma mistura de comentadores de esquerda e direita, com o intuito de desacreditar a oposição síria — especialmente os primeiros a responder, a defesa civil, que os agentes de desinformação acusam de terem encenado os ataques químicos. Estas acusações, frequentemente usadas para desviar esforços para tratar do genocídio na Síria, derivam de uma tendência de apoiar ditadores autoritários, uma tendência que a esquerda ainda não confrontou completamente.

Embora muitos fãs tenham tentado se distanciar dos antigos editores da eXile, a CTH realizou um podcast sobre a Síria com o Nerd da Guerra, que desviou a atenção das atrocidades em Alepo cometidas pelo regime. Para o podcast, Dolan e Ames traziam o comentador Max Blumenthal, que frequentemente aparecia no Sputnik e na RT, que zombou de vítimas sírias, se referiu à defesa civil dos “capacetes brancos” como “uma ala da Al Qaeda”, e atualmente enfrenta um processo de difamação por supostamente ter participado num “esforço coordenado para atacar, desacreditar e colocar em perigo jornalistas cujo trabalho vai contra uma certa linha política”.

Além de me atacar pessoalmente num artigo de coautoria com Blumenthal, Ames tem defendido uma linha similar em uma série de questões.  Após o ataque em Salisbury, que hospitalizou Sergei Skripal e sua filha Yulia, além de matar um transeunte, Ames e outros comentadores pró-Kremlim e teólogos da conspiração da extrema-direita começaram a questionar a “narrativa oficial”. Após analistas da Bellingcat terem descoberto que os dois suspeitos eram membros da GRU (inteligência russa), Ames se juntou a Yasha Lavigne em uma grande ação pró-Kremlin contra o grupo investigativo.

De fato, Ames tem um histórico de atacar a Bellingcat, chegando a ter comparado o grupo com teorias da conspiração sobre o 11 se setembro, quando descobriram evidências de que a Rússia estava envolvida no abatimento do voo 17 (MH17) da Malaysian Airlines. Ames e Bellingcat se cruzaram novamente em 2017, quando ele atacou seu fundador, Eliot Higgins, por criticar a cobertura (já desacreditada) de Seymour Hersh sobre o uso de armas químicas por Assad.

A “esquerda canalha” e outros esquerdistas associados revelaram tendências semelhantes com relação à Donald Trump. Por exemplo, menosprezando alegações de colaboração com a Rússia, defendendo a política externa de Trump e apoiando alianças entre direita e esquerda. Quando liberais mencionaram a possibilidade de que a Rússia tivesse atuado nas eleições, Taibbi os comparou com teóricos da conspiração, uma comparação feita pelo próprio Trump menos de uma semana depois. Quando Trump chocou a OTAN questionando a defesa de pequenos estados-membro como Montenegro, que havia evitado por pouco um golpe coordenado entre a Rússia e etno-nacionalistas sérvios, Blumenthal usou a oportunidade para tirar a atenção do Trump e atacar os liberais novamente. Quando Angela Neagle, favorita do CTH, apareceu no programa de Tucker Carlson defendendo fronteiras mais duras, em meio a “crise de fronteira” inventada por Trump, Richard Spencer tweetou animadamente “quando teremos uma gangue nazbol?” (Nacional-bolchevique).

Vale notar, embora existam as tendências de alinhamento, que este setor da esquerda é um ecossistema complexo e descentralizado, com diferentes agentes que se relacionam com específicas linhas de afinidade, e com suas próprias discordâncias. Até mesmo um apresentador do CTH criticou Nagle por seus comentários sobre fronteiras, enquanto outro (da Dead Pundits Society) a defendeu. E também vale notar, que embora a “esquerda podcast” tenham alguma influência, estão longe de constituir os ideais da esquerda de modo geral. Embora tenham se aproveitado do crescimento da esquerda desde 2008, os egos dos “canalhas” são vistos por muitos na esquerda como um problema e um impedimento à organização real de esquerda.

Abandonando a geopolítica dos edgelords

Na década de 90, Limonov e Dugin se concentraram em harmonizar o fascismo e o stalinismo, numa geopolítica imperial que esperavam levar a Rússia a uma mítica glória anterior. A eXile deu a Limonov uma plataforma regular, levando seu trabalho para um maior público falante de inglês, se aproximando da extrema-direita dos Estados Unidos. Através deste apoio tático ao nacional bolchevismo, além da misoginia de modo geral e o envolvimento direto de Dolan com a incipiente alt-right, a eXile ganhou status cult e seguidores, que ainda se misturam com a extrema-direita e a esquerda radical.

Embora a eXile, em si, exista mais na forma de um blog do que qualquer outra coisa, seu status nostálgico como publicação transgressora ainda permanece, inspirando uma nova geração de esquerdistas que se envolve com misoginia e fascismo, do mesmo modo que eles faziam. E, num mundo onde o populismo “contra tudo que está aí” ficou mais hegemônico, o aspecto desta transgressão total da publicação está se esvaindo para seus antigos editores.

Embora tenha se gabado de que publicava a eXile na Rússia, em parte porque estava “distante do alcance das leis contra difamação dos Estados Unidos”, Taibbi hoje trava batalhas legais contra seus críticos, com a ajuda de um advogado que trabalha para ativistas promovidos pelo Kremlin, tanto de esquerda como de direita.

Com a queda da alt-right, devido a uma grande influência das alegações sobre o tratamento que seus líderes dão às mulheres, um senso de triunfo surgiu em alguns círculos anti-fascistas. “Fomos mais organizados que eles”, alguns declaram, com orgulho. No entanto, enquanto a presença a misoginia, desinformação e fusão da esquerda autoritária com a extrema-direita continuarem incontestadas, a semente da onde surgiu a alt-right permanecerá fértil.

Para impedir o retorno do nacional-socialismo “contra tudo que está aí”, esquerdistas deverão combater a ignorância, abandonar a geopolítica do edgelords, e criar uma reputação pública como defensores abertos e honestos do bem-estar comum.

* O nome do meu amigo “Mikhail” foi alterado para este artigo

Alexander Reid Ross é professor na Universidade Estadual de Portland. Ele é autor de Against the Fascist Creep, listado como um dos melhores livros de 2017 pela Portland Mercury, e seus artigos já foram publicados em sites como Haaretz, Vice Noisey e Think Progress.

Da Exile à Esquerda “Canalha”:

A geopolítica dos “edgelords”* e o aumento do “nacional bolchevismo” nos Estados Unidos

por Alexander Reid Ross

*Expressão em inglês utilizada para denotar uma pessoa que se diz muito mais radical e insensível do que a maioria das pessoas, sempre com o intuito de chocar

 O que aconteceu? – perguntei ao meu amigo Mikhail* quando ele entrava cambaleante no quarto que dividíamos. “Você parece perturbado”.

“Não foi nada”, disse ele, sentando-se ao meu lado na cama. “Uma gangue tentou me espancar no caminho para o metrô”.

Isso aconteceu no distrito central de Moscou. E então aconteceu novamente, duas semanas depois. Era primavera de 2005, nos primeiros estágios da queda vertiginosa da Rússia nas mãos da extrema-direita.

 “Como assim? Quem?”

“Um grupo de cinco ou seis pessoas”, ele respondeu ofegante, com seu sotaque russo. “Eles vestiam preto e tinham braçadeiras com um martelo e… como se diz? Uma espada”.

Quando ele foi embora, entrei no meu computador para pesquisar sobre o símbolo, e acabei me deparando com o território do chamado “fascismo de esquerda”, com termos como “strasserismo”, a “frente negra” e os “nacional-bolcheviques”. O líder dos nacional-bolcheviques na Rússia é um famoso esteta e provocador chamado Edward “Limonov” Savenko.

Reconheci o nome dele da eXile, uma publicação quinzenal em inglês que era famosa entre os expatriados que invadiam Moscou em busca de rebelião através de sexo, drogas e misantropia niilista.

Como estudante, a composição sociocultural impenetravelmente complexa de Moscou me dava tontura. Esperava encontrar na eXile algo como um guia de notícias semanal alternativo. Mas o que encontrei me parecia mais e mais desequilibrado e delirante.

Limonov encarnava uma performance do sentimento profundamente niilista que os expatriados desejavam encontrar na cultura da Rússia, como um ator desempenhando um papel estereotipado de uma avant-garde russa. Eu tinha fé, e tristemente estava enganado, de que os editores de uma publicação quinzenal popular não regularmente publicariam coisas de um fascista. No entanto, o ex-editor da eXile, Matt Taibbi, eventualmente o chamou de “revolucionário neofascista”, e seu coeditor anterior, Mark Ames, deu a ele a constrangedora descrição de “Iggy Pop do mundo literário de direita”.

Quando mais pesquisava sobre os supostos “fascistas de esquerda”, e em especial os nacional-bolcheviques que transformaram a Rússia em seu reduto geopolítico após a guerra fria, mais eu percebia que estávamos vulneráveis a uma extrema-direita invasiva que usa a cultura pop, a decadência e o niilismo para acessar subculturas, cooptar seus espaços e significados, e transformá-los em prejudiciais reações políticas.

Grande parte da mídia ocidental e muitos especialistas enfatizaram, com razão, a brutalidade da chamada “alt-right”, que tem uma linhagem oriunda da extrema-direita dos Estados Unidos. No entanto, há muito menos compreensão sobre o papel influente do nacional-bolchevismo e a capacidade de destruição que ele levou à direita, sob o disfarce de sátiras lascivas e um chauvinismo histérico.

Com horror, observei este processo ocorrendo pela década seguinte, enquanto os ditos nacional-bolcheviques adentraram as subculturas americanas, juntando tendências de direita e esquerda, que acabaram por influenciar o âmbito que contribuiu para a alt-right. A substância da eXile teve papel crítico na criação destas conexões, juntando-se e influenciando a alt-right na defesa da agressão de Putin contra o liberalismo ocidental.

Como um sósia de Trotsky com cavanhaque, Limonov havia passado um bom tempo na subcultura boêmia de Nova Iorque na década de 70, antes de se juntar aos fascistas banais da nova direita da França. Defendendo “um ódio em brasa do sistema anti-humano da tríade liberalismo/democracia/capitalismo”, Limonov veio a juntar direita e esquerda, comemorando o líder genocida da União Soviética, Joseph Stalin, como o “César bolchevique do nosso país em seu melhor período”. Sobre o autoproclamado “super-fascista” Julis Evola, Limonov escreveu que “racismo e ódio às mulheres… é o único equilíbrio ideológico ao socialismo e ao marxismo”.

A síntese ideológica de Limonov, conhecida como nacional-bolchevismo, tem origens dúbias em meados da década de 20 dentre alguns esquerdistas, emigrantes russos e “conservadores revolucionários” que desejavam unir a Alemanha e a União Soviética em uma fraternidade nacional-socialista. Após a morte de Hitler e a destruição do reich em 1945, os nazistas se aliaram ao dissidente Otto Strasser para criar um “revolucionário nacional”, buscando uma “terceira via” entre os comunistas soviéticos e o norte atlântico liberal. Influenciado por estas tendências, e promovido por fascistas banais associados à nova direita europeia, os nacional-bolcheviques continuaram a lutar contra a OTAN para criar um “império espiritual” que abrangeria “de Dublin até Vladivostok”.

Com a queda da união soviética, Limonov se juntou a outro nacional-bolchevique chamado Aleksandr Dugin para promover o sonho de um “grande espaço” eurasiano com uma premissa na geopolítica fascista e sediado no Kremlin. Comprometidos com a destruição total do que enxergam como um ocidente fraco e liberal, os nacional-bolcheviques impõem a grandeza do tradicionalismo encontrado no “centro” do continente asiático.

Enquanto Dugin se tornou o filósofo desta ideologia fascista, influenciando desde o partido comunista até o chamado partido democrata liberal russo, incluindo o pessoal das forças armadas russas, Limonov desenvolveu seu papel como propagandista principal da extrema-direita russa. De acordo com o professor Markus Meili, Limonov “certamente influenciou o surgimento e crescimento do movimento skinhead russo nos anos 90”. Apesar disso, e lutar em Sarajevo com o criminoso de guerra Radovan Karadzic, e clamar por uma “solução sérvia” para os desafios contra a Rússia, era tratado como artista performático incompreendido.

Moscou e a Misoginia

Com Limonov, os editores da eXile, Mark Ames e Matt Taibbi, tomaram papel de liderança na definição de algumas das tendências mais chauvinistas dos expatriados não-russos que usavam a Rússia como local para glorificar o turismo sexual e a corrupção. Embora artigos tenham sido escritos sobre a misoginia da eXile, ela raramente é mostrada no contexto ampliado da mistura entre políticas de esquerda e extrema-direita que o tabloide publicava com Limonov.

Quando confrontado por um entrevistador sobre ter escrito que “na verdade, preferimos as mulheres russas que aceitam seu papel como objetos sexuais”, além de outras afirmações, Taibbi respondeu que “tinha a ideia de que era um infrator que ofendia a todos igualmente”. Em sua própria parte de coautoria no livro sobre os primeiros anos da publicação, The Exile: Sex, Drugs, and Libel in the New Russia (Exile: sexo, drogas e difamação na nova Rússia), Ames fala sobre contratar prostitutas menores de idade e ameaçar assassinar sua ex-companheira caso ela se negasse a abortar seu bebê.

Hoje, os autores afirmam que tanto o livro como o tabloide apenas traziam, nas palavras de Ames, uma “estética chocantemente ofensiva”, apesar das afirmações originais de que se tratava de não ficção. Além disso, o Daily Caller publicou que nenhuma mulher fez acusações de cunho sexual contra Taibbi com relação à esta época.

Ao mesmo tempo, o editor contribuinte da Newseek, Owen Matthews afirmou no Moscow Times que ele estava presente durante ocasiões reais sobre as quais Ames escreveu no tabloide sob o pseudônimo “Johnny Chen”, mas depois disse tratar-se de ficção. Especificamente, Matthews falou sobre um artigo no qual “Chen” estupra uma mulher que conhece numa boate. Num artigo que se encaixa com a descrição, “Chen” descreve a vítima como alguém “sangrando e chorando” e pensa em jogá-la da sacada.

Contatado por e-mail, Matthews avisa que nem todos os textos do eXile devem ser interpretados de forma completamente literal. “O ponto fraco do eXile, nesta época puritana, era a celebração/sátira do excesso de Moscou, a celebração da cultura do estupro e depreciação das mulheres”, ele explicou.

 “Se você acha que estavam curtindo e exaltando os profundos excessos da Rússia, você não entendeu”, escreveu Matthews. “Eles estavam os vivenciando, e escrevendo sobre eles, expondo seus horrores vividos em suas próprias peles, como diz o ditado russo”.

Em um tweet extremamente hostil respondendo a uma pergunta que enviei por e-mail, Ames disse que seu pseudônimo era “um personagem criado para ser ousado e moralmente abominável, para entreter expatriados americanos da década de 90”. Sendo que a publicação estava no centro desta mesma cena que satirizava, fica difícil separar a sátira da realidade, e tais linhas distorcidas obscurecem o efeito do “humor” sobre estupro da comunidade em questão.

Assinando com seu próprio nome, em uma entrevista de junho de 2000, Ames falou ao Observer: “levei um tempo para aprender que você realmente tem que forçar as garotas russas, e é isso que elas querem… Todos os relacionamentos entre homens e mulheres são basicamente violentos, eu acho. É tudo uma guerra”. Nada foi mencionado sobre isso ser sátira.

Limonov levou esta lógica a uma conclusão política em seu artigo delirante chamado de “Quem precisa de fascismo na Rússia”, onde disse “Os cidadãos russos realmente querem que venham os FASCISTAS, terríveis, tensos e jovens, e que eles resolvam todos os problemas”, além de “a vida de repente ficará mais fácil para aquelas que são mantidas… um chefe virá, a puxará pelo cabelo em direção a ele, e a usará de acordo com seu propósito”.

Politicamente, o eXile passou a seguir regras que hoje são familiares: criticar Putin, mas reservar as críticas mais obscenas contra a hipocrisia da imprensa ocidental. Eles faziam críticas contra Putin em questões complicadas, como sua resposta fria ao assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, mas os artigos passavam a ser contra os Estados Unidos. Ames parecia se opor a Putin e aos oligarcas, mas minimizar a ameaça de fascistas como Dugin, enquanto publicava coisas de Limomov, seu companheiro ideológico. Por este motivo, Stephen Shenfield, autor de “O fascismo russo”, defendeu a ideia de que “deve-se encontrar maneiras de fechar o eXile” (de acordo com Ames).

Contribuições à “alt-right”

Um dos editores mais reconhecíveis do eXile era o “nerd das guerras”, apelido de um misantropo obcecado por guerras chamado John Dolan, que escrevia sob o pseudônimo de Gary Brecher. Em 1997, Dolan demonstrou onde estavam suas afinidades ao traduzir um livro de Limonov a seu próprio custo, mas com as alcunhas lhe proporcionando ainda mais licença. Ele admitiu que o nerd da guerra era baseado “em quem eu era e pessoas que eu conhecia”, e que Brecher era “uma versão mais honesta de quem eu sou”.

“Indianos e paquistaneses são bichas demais para guerrear”, era uma chamada de Dolan no eXile, utilizando o termo racista para paquistaneses que é comum entre a extrema-direita britânica. Em outro artigo, ele falava que se devia “podar” a população mundial jogando uma bomba atômica no oriente médio, porque “dentro de um século, a população será de 14 bilhões de imbecis devotos “(uma mistura volátil de hindus e muçulmanos, como serão divertidas as noites de sábado!)”.

Em 2002, Dolan se juntou ao ideólogo de extrema-direita Steve Sailer para uma sessão de perguntas e respostas, nas quais propôs ideias raciais sobre conflitos. Juntamente com um artigo de Sailer, Dolan fez uma resenha na revista The American Conservative, cofundada por Pat Buchanan, a quem Dolan declarou ser alguém com o qual ele geralmente concordava. O editor-assistente na época era o “co-criador” da alt-right Richard Spencer, que já havia criado uma reputação como misógino de extrema-direita, através como havia lidado com o escândalo de lacrosse de Duke.

Em um e-mail, Spencer me disse que trouxe o nerd da guerra com ele para a revista Taki após ter sido demitido da The American Conservative por extremismo. Derivada da American Conservative, a revista Taki foi fundada por Panagiotis Theodoracopulos, que havia defendido o partido neonazi grego aurora dourada como “bons gregos patriotas à moda antiga”.

Além de conseguir um emprego na Taki para o agitador de extrema-direita Gavin McInnes, Spencer me disse que pessoalmente solicitou e editou três artigos de Dolan em 2008 e 2009. O trabalho de Spencer na Taki foi crucial para o desenvolvimento de um novo movimento de extrema-direita que ele estava começando a chamar de “direita alternativa”, ou “alt-right”, que juntava vozes anti-intervencionistas com libertários estilo Ron Paul, moda hipster e nacionalistas brancos.

Em um dos artigos de Dolan para a revista, intitulado “Guerra dos bebês”, ele apresentava a ideia de imigrantes não documentados como combatentes na “conquista através da imigração que testemunhamos agora na Europa e na América do Norte” — um ideário típico do nacionalismo branco. “Eu era fã da sua análise extravagante, mas muito inteligente”, Spencer me disse.

Assim como na eXile, a alt-right apresenta o que era horrível com um toque de sátira, testando e desafiando os limites do que era considerado um discurso aceitável. Em 2008, Dolan publicou um artigo chamado “Bush fez as guerras e as guerras venceram”, republicado cinco dias depois na The American Conservative, mostrando seu status como membro das duas frentes. E, de fato, ele era tão popular entre esta versão rudimentar da alt-right que o supremacista branco John Derbyshire usou um epigrama em seu livro “Pessimismo Conservador”, de 2009, antes de ser demitido do National Review três anos depois, devido a um artigo racista publicado na revista Taki.

Sob a liderança de Spencer, a alt-right crescia, incorporando Dolan e a eXile com entusiasmo.

O retorno da eXile

A eXile passou a, cada vez mais, representar uma ligação comum entre a esquerda e a extrema-direita em sua simpatia pela Rússia de Putin e animosidade implacável contra aqueles considerados neoconservadores, esquerdistas sem senso de humor e liberais “frescos”.

Taibbi e Ames seguiram caminhos distintos em 2003, aparentemente de forma não amigável, mas a eXile continuou em Moscou por mais cinco anos. Quando Ames finalmente fechou a publicação, com base em alegações de repressão estatal disputadas até pelos seus próprios investidores, Spencer escreveu que a publicação era “um jornal em inglês fantasticamente irreverente”, e elogiou Limonov com um “verdadeiro fusionista”.

Com a esperança de encontrar um novo emprego para Dolan, o editor da American Conservative Daniel McCarthy (também conhecido como Tory Anarchist), declarou que se deveria “salvar o nerd da guerra”, chamando o eXile de “samizdat” — termo para publicações soviéticas dissidentes que acompanhavam a perseguição de ativistas.

Conforme a alt-right foi crescendo, seus membros idolatravam o eXile. Daryush Valizadeh (“Roosh V”), famoso masculinista (MRA) geralmente chamado de apologista ao estupro, descreveu o livro de Taibbi e Ames como algo que mudou sua vida e sua escrita, citando que “minha parte preferida do livro é quando descrevem a noite das garotas no Duck Bar. Os expatriados a chamavam de ‘campo do estupro’”.

Assim como Roosh V, outro MRA chamado Matt Forney disse que o livro era “honestamente, um dos melhores livros que já li e mudou minha vida, e um que faço questão de reler anualmente”. De modo similar, na rádio Counter-Currents da alt-right, Forney elogiou o livro de 2005 de Ames, chamado de Going Postal, como uma explicação adequada, para não dizer justificativa, para os atiradores de escolas do estilo Incel.

Visto que o movimento masculinista ajudou a alimentar algumas das correntes mais violentas da alt-right, o papel crucial que o eXile teve na vida de dois dos maiores influenciadores do movimento demonstra ainda mais a influência que os editores tiveram no fascismo moderno.

Dentro de dois anos após o fechamento da eXile, Dolan conseguiu uma posição na Universidade Americana Iraque-Suleimaniyah, mas foi demitido após descobrirem sobre uma bravata histérica envolvendo o rosto de Ann Coulter no corpo de uma mulher que sofreu estupro coletivo por quatro homens árabes, com o texto “Annie, sua fascista, você sabe que quer isso”. O reitor da universidade o chamou de “fraude acadêmica”, e “incapaz de fazer qualquer distinção racional entre a realidade e sua imaginação”.

Propaganda do Partido Nacional Bolchevique/ Stormfront

Nacional Bolchevismo potencializado

Embora a publicação tivesse deixado Moscou, ela manteve uma presença online, conforme a política estrangeira da Rússia ficava mais e mais intervencionista. Desde a invasão da Geórgia em 2008, até a guerra na Ucrânia em 2014, os editores da eXiled ajudaram a formatar este conflito entre oriente-ocidente de modo a desviar críticas à Putin para os Estados Unidos, refletindo a linha propagandística da Rússia, que juntou a esquerda com a direita numa batalha geopolítica, com tons nacionais bolcheviques.

Ames culpava os Estados Unidos pelas fraudes eleitorais de Putin, a eXile culpava o crescimento da extrema-direita no governo de Putin no apoio dos Estados Unidos a Yeltsin nos anos 90, e tanto Dolan e Ames retiravam satisfação da invasão russa na Geórgia, com o ‘nerd da guerra’ chamando-a de “a guerra dos meus sonhos”. Richard Spencer, embora elogiasse esta posição, sentiu que era necessário adicionar que Dolan tinha uma “sede de sangue e violência que supera a minha”. Enquanto isso, Putin travava uma guerra pessoal contra seus oponentes, e contratou o funcionário da Lyndon LaRouche, Sergei Glazyev, como conselheiro sobre a integração eurasiana.

Transferindo a nostalgia pela União Soviética para condições capitalistas modernas, Putin cuidou de reabilitar a imagem de figuras de extrema-direita como Ivan Ilyn, além de Stalin, enquanto acumulava uma enorme fortuna pessoal, soltando oligarcas de extrema-direita para o ataque na Ucrânia oriental. Quando uma revolução ucraniana tirou Yanukovych do poder em 2013, Putin enviou tropas que escrevia coisas como “Por Stalin!” em seus tanques, em esforços semiclandestinos de estabelecer uma “Grande Rússia” imperialista. Até hoje as forças pró-Rússia na Ucrânia oriental manifestam uma mistura de mercenários e ideólogos fascistas, comunistas autoritários e nacional bolcheviques.

Com relação à Ucrânia, Ames fez duas análises contraditórias que foram destrinchadas por Marcy Wheeler. O primeiro relatório abordava uma discussão com nuances sobre os interesses da oposição, enquanto a segunda oferecia um relato dúbio e estranho sobre neoliberais ocidentais responsáveis por se juntar com fascistas para promover uma mudança de regime. O posicionamento dele foi resumido num terceiro artigo: “Saia do caminho da Rússia por um tempo… Sinto muito, Ucrânia, você está fodida”.

Limonov voltou para o lado de Putin após anos na oposição, cativado pela convergência do ultranacionalismo e nostalgia pela União Soviética. O antigo companheiro próximo de Limonov, Dugin, incentivava as forças pró-Rússia na Ucrânia, com mensagens como “Matem! Matem! Matem os ucranianos!”.  Seus associados próximos ganharam papéis de destaque na “guerra civil” apoiada pelo Kremlin. Limonov e Dugin apareceram juntos na televisão russa, um símbolo do poder da invasão da Ucrânia em juntar velhos companheiros.

A “alt-right” recebeu um impulso significativo de ambos os cofundadores do partido Nacional Bolchevique. Dugin deu a Spencer uma plataforma em seu website, e a esposa de Spencer traduziu para inglês o trabalho de Dugin. Grande parte da extrema-direita americana leu os livros de Dugin e estabeleceu alianças internacionais com sua rede de contatos, por exemplo, Matt Heimbach do Partido Tradicional dos Trabalhadores, que já teve bastante influência.

Enquanto isso, pessoas de esquerda no ocidente passavam a frequentar mais e mais o novo Sputnik News, juntando-se à chefia do Centro de Estudos Conservadores de Dugin e, podcasts, promovendo teorias da conspiração e denunciando “atlanticistas”. Juntando-se aos argumentos de muitos anti-imperialistas, Spencer apareceu no canal Russia Today (RT) para denunciar a “guerra fria” dos Estados Unidos na Ucrânia.

As operações clandestinas de influência nas redes sociais conduzidas por Moscou, além do apoio público à movimentos “anti-imperialistas” que uniam a direita e a esquerda contra o liberalismo, seguia os padrões do Nacional Bolchevismo. Durante esse ressurgimento, Limonov teve até um pequeno retorno. Israel Shamir, colaborador da Wikileaks que nega o holocausto, falou sobre seu “amigo” Limonov no seu site de esquerda CounterPunch. Num artigo de 2017, na Unz Review (associada à alt-right), o blogueiro antissemita Anatoly Karlin, que já havia se referido à eXile como “bobos da corte irreverentes”, falou sobre o “chique discurso mensal do milenarista Limonov”.

Enquanto isso, a extrema direita mantinha seu romance com a eXile. Quando, no Washington Post, Kathy Lally descreveu a publicação como “juvenil, obcecada e pornográfica para meninos adolescentes”, Sailer foi defender Taibbi e Ames na Unz Review. Um comentador opinou: “O apoio deles ao Limonov os transforma numa espécie de precursores da alt-right”. De fato, o ‘nerd da guerra’ publicava pontos de nacionalismo branco na revista Tag durante a formação da alt-right, e Ames e Taibbi’s tinham um livro que é citado como influência de vida para MRAs (“Ativistas pelos direitos dos homens”).

E, da parte de Ames, após passar anos criando documentários de viagem para o Russia Today, ele passou para a Pando News, website parcialmente fundado pelo apoiador de Trump no Vale no Silício, e membro do Conselho de Administração do Facebook, e cofundador da Palantir, Peter Thiel. De acordo com o New York Times, um funcionário da Palantir trabalhou junto da Cambridge Analytica para conseguir acesso não autorizado a informações de milhões de usuários do Facebook, utilizando isso para ajudar na campanha de Trump.

Richard Spencer falando sobre Chapo Trap House

O “próximo passo” dos canalhas

Apesar de continuar a defender e promover Limonov no crescimento da alt-right, os ex-colunistas da eXile tornaram-se ídolos de uma comunidade online em crescimento contínuo, que descreve a si mesma como “esquerdistas canalhas”, um termo criado num podcast de Amber A’Lee Frost para descrever um grupo de caras de esquerda associado com um podcast controverso, o Chapo Trap House.

O podcast que mais recebe doações do Patreon, Chapo Trap House (CTH) surgiu em 2016, e hoje inclui mais de 26.000 financiadores, arrecadando mais de US$ 108.000 mensais. Conhecido por seu senso de humor “irônico” que apaga as linhas entre verdade e ideologia, o podcast milionário costuma ter de 100 a 200 mil ouvintes por episódio.

Assim como a alt-right, os apresentadores costumam fazer piadas com sobreviventes de estupro e pessoas com autismo. Surgiram controvérsias quando os apresentadores pareceram tirar sarro do movimento #MeToo e responderam à um artigo crítico de Jeet Heer no New Republic com um comentário homofóbico.

Dadas as tendências misóginas e mistura oportunista de sátira e realidade, não é de se surpreender que de início, o CTH tenha falado sobre Taibbi como “nosso velho amigo e primeiro grande convidado”. Quando o podcast de Dolan e Ames (Nerd da Guerra no Rádio), foi listado como parte da “esquerda canalha” num artigo crítico, Ames tweetou a hashtag #JeSuisDirtbag.

Demonstrando a costumeira irreverência ofensiva do The eXile, agora na forma de “esquerda canalha”, Richard Spencer disse, em público: “Acho meio incrível. Se ouvirmos quinze minutos do [CTH], soa como um podcast da alt-right em termos das piadas, os memes, o cinismo e a irreverência. É bastante engraçado. Portanto, acho que este será o próximo passo”.

Os comentários de Spencer não destoavam da realidade. Alguns anos antes do início do CTH, Virgin Texas (que viria a ser apresentador) levou o grupo de “comédia alt-right” Million Dollar Extreme para que se apresentassem em um de seus eventos, o que indica a proximidade dos estilos, ou mesmo da política.

Esta “esquerda” também adentrou um padrão interessante de análise geopolítica, tão similar à ideologia nacional bolchevique que o blog Duginista “Quarta guerra revolucionária” publicou diversos artigos e podcasts de Ames, Dolan e do CTG, incluindo um episódio com Taibbi. Os apresentadores do CTH parecem convidar estas misturas, tendo aparecido no Sputnik ou RT, propagando a linha da política externa do Kremlin, em especial com relação à guerra na Síria, tanto que um de seus apresentadores chegou a exaltar um criminoso de guerra, Issam Zahreddine.

Enquanto Spencer alterou seu perfil no Twitter e inclui uma imagem da bandeira do regime sírio, após as forças de Assad terem utilizado armas químicas no ataque de Khan Shaykhun, outro apresentador do CTH, Will Menaker, se juntou aos teoristas da conspiração e passou a especular que o ataque era um “falso alarme” no Twitter, antes de excluir este post.

Tais teorias da conspiração são promovidas através de uma extensa rede pró-Kremlin, envolvendo uma mistura de comentadores de esquerda e direita, com o intuito de desacreditar a oposição síria — especialmente os primeiros a responder, a defesa civil, que os agentes de desinformação acusam de terem encenado os ataques químicos. Estas acusações, frequentemente usadas para desviar esforços para tratar do genocídio na Síria, derivam de uma tendência de apoiar ditadores autoritários, uma tendência que a esquerda ainda não confrontou completamente.

Embora muitos fãs tenham tentado se distanciar dos antigos editores da eXile, a CTH realizou um podcast sobre a Síria com o Nerd da Guerra, que desviou a atenção das atrocidades em Alepo cometidas pelo regime. Para o podcast, Dolan e Ames traziam o comentador Max Blumenthal, que frequentemente aparecia no Sputnik e na RT, que zombou de vítimas sírias, se referiu à defesa civil dos “capacetes brancos” como “uma ala da Al Qaeda”, e atualmente enfrenta um processo de difamação por supostamente ter participado num “esforço coordenado para atacar, desacreditar e colocar em perigo jornalistas cujo trabalho vai contra uma certa linha política”.

Além de me atacar pessoalmente num artigo de coautoria com Blumenthal, Ames tem defendido uma linha similar em uma série de questões.  Após o ataque em Salisbury, que hospitalizou Sergei Skripal e sua filha Yulia, além de matar um transeunte, Ames e outros comentadores pró-Kremlim e teólogos da conspiração da extrema-direita começaram a questionar a “narrativa oficial”. Após analistas da Bellingcat terem descoberto que os dois suspeitos eram membros da GRU (inteligência russa), Ames se juntou a Yasha Lavigne em uma grande ação pró-Kremlin contra o grupo investigativo.

De fato, Ames tem um histórico de atacar a Bellingcat, chegando a ter comparado o grupo com teorias da conspiração sobre o 11 se setembro, quando descobriram evidências de que a Rússia estava envolvida no abatimento do voo 17 (MH17) da Malaysian Airlines. Ames e Bellingcat se cruzaram novamente em 2017, quando ele atacou seu fundador, Eliot Higgins, por criticar a cobertura (já desacreditada) de Seymour Hersh sobre o uso de armas químicas por Assad.

A “esquerda canalha” e outros esquerdistas associados revelaram tendências semelhantes com relação à Donald Trump. Por exemplo, menosprezando alegações de colaboração com a Rússia, defendendo a política externa de Trump e apoiando alianças entre direita e esquerda. Quando liberais mencionaram a possibilidade de que a Rússia tivesse atuado nas eleições, Taibbi os comparou com teóricos da conspiração, uma comparação feita pelo próprio Trump menos de uma semana depois. Quando Trump chocou a OTAN questionando a defesa de pequenos estados-membro como Montenegro, que havia evitado por pouco um golpe coordenado entre a Rússia e etno-nacionalistas sérvios, Blumenthal usou a oportunidade para tirar a atenção do Trump e atacar os liberais novamente. Quando Angela Neagle, favorita do CTH, apareceu no programa de Tucker Carlson defendendo fronteiras mais duras, em meio a “crise de fronteira” inventada por Trump, Richard Spencer tweetou animadamente “quando teremos uma gangue nazbol?” (Nacional-bolchevique).

Vale notar, embora existam as tendências de alinhamento, que este setor da esquerda é um ecossistema complexo e descentralizado, com diferentes agentes que se relacionam com específicas linhas de afinidade, e com suas próprias discordâncias. Até mesmo um apresentador do CTH criticou Nagle por seus comentários sobre fronteiras, enquanto outro (da Dead Pundits Society) a defendeu. E também vale notar, que embora a “esquerda podcast” tenham alguma influência, estão longe de constituir os ideais da esquerda de modo geral. Embora tenham se aproveitado do crescimento da esquerda desde 2008, os egos dos “canalhas” são vistos por muitos na esquerda como um problema e um impedimento à organização real de esquerda.

Abandonando a geopolítica dos edgelords

Na década de 90, Limonov e Dugin se concentraram em harmonizar o fascismo e o stalinismo, numa geopolítica imperial que esperavam levar a Rússia a uma mítica glória anterior. A eXile deu a Limonov uma plataforma regular, levando seu trabalho para um maior público falante de inglês, se aproximando da extrema-direita dos Estados Unidos. Através deste apoio tático ao nacional bolchevismo, além da misoginia de modo geral e o envolvimento direto de Dolan com a incipiente alt-right, a eXile ganhou status cult e seguidores, que ainda se misturam com a extrema-direita e a esquerda radical.

Embora a eXile, em si, exista mais na forma de um blog do que qualquer outra coisa, seu status nostálgico como publicação transgressora ainda permanece, inspirando uma nova geração de esquerdistas que se envolve com misoginia e fascismo, do mesmo modo que eles faziam. E, num mundo onde o populismo “contra tudo que está aí” ficou mais hegemônico, o aspecto desta transgressão total da publicação está se esvaindo para seus antigos editores.

Embora tenha se gabado de que publicava a eXile na Rússia, em parte porque estava “distante do alcance das leis contra difamação dos Estados Unidos”, Taibbi hoje trava batalhas legais contra seus críticos, com a ajuda de um advogado que trabalha para ativistas promovidos pelo Kremlin, tanto de esquerda como de direita.

Com a queda da alt-right, devido a uma grande influência das alegações sobre o tratamento que seus líderes dão às mulheres, um senso de triunfo surgiu em alguns círculos anti-fascistas. “Fomos mais organizados que eles”, alguns declaram, com orgulho. No entanto, enquanto a presença a misoginia, desinformação e fusão da esquerda autoritária com a extrema-direita continuarem incontestadas, a semente da onde surgiu a alt-right permanecerá fértil.

Para impedir o retorno do nacional-socialismo “contra tudo que está aí”, esquerdistas deverão combater a ignorância, abandonar a geopolítica do edgelords, e criar uma reputação pública como defensores abertos e honestos do bem-estar comum.

* O nome do meu amigo “Mikhail” foi alterado para este artigo

Alexander Reid Ross é professor na Universidade Estadual de Portland. Ele é autor de Against the Fascist Creep, listado como um dos melhores livros de 2017 pela Portland Mercury, e seus artigos já foram publicados em sites como Haaretz, Vice Noisey e Think Progress.

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