Da OTAN à ANTIFA: A jornada de um afegão à Grécia

Por Patrick Strickland, originalmente publicada na Al-Jazeera

A jornada de um refugiado afegão de seu país devastado pela guerra resultou nele lutando contra a Aurora Dourada (Chryssi Avgue), partido de extrema-direita grego.

Atenas, Grécia – Aproximadamente mil pessoas marcham pelas ruas da capital grega, levando bandeiras e faixas, finalmente parando diante de colunas de policiais, estes portando cassetetes, escudos e equipamentos de controle de multidões.

Nesta tarde ventosa de Abril, a polícia está lá para impedir os manifestantes Anti-fascistas – ou Antifa – de continuar sua marcha rumo à sede do Aurora Dourada, partido neo-fascista que ocupa 17 cadeiras no parlamento grego.

Os ativistas Antifa – compreendendo anarquistas, comunistas e outros anti-racistas – entoam cantos contra o Aurora Dourada. “Nem no parlamento, nem em nenhum lugar”, grita um grupo de manifestantes portando bandeiras vermelhas. “Derrubar o fascismo em todo lugar”.

Na linha de frente dos protestos está Masoud Qahar, um refugiado afegão de 40 anos de idade. Vestido de camisa preta e com um boné verde-musgo, ele segura uma das pontas de uma faixa em que se lê, em letras vermelhas: “Fechem a sede do Aurora Dourada. Mandem assassinos neo-nazi à prisão”

 

Qahar não fala grego fluentemente, mas se une aos manifestantes em seus gritos: “Pavlos Fyssas vive! Derrubar os Nazistas”, cantam em uníssono, uma referência a um rapper anti-fascista morto a facadas por um empregado do escritório do Aurora Dourada em 2013.

Apesar de nunca ter ouvido falar no Aurora Dourada antes de chegar na Grécia, em fins de 2015, Qahar se tornou figura constante na linha de frente das manifestações Anti-fascistas em Atenas. “Participo seis ou sete vezes por mês”, estima. “Estou na primeira linha, lutando junto com os anti-fascistas. Eu adoro.”

 

 

Na sua barraca apertada, no campo de refugiados Elliniko, nos arredores de Atenas, Qahar explica como deixou sua vida como um oficial de logística da OTAN, após receber ameaças de morte do Talibã em 2015, e viajou mais de 5000 kilômetros até a Grécia.

“Trabalhei na OTAN cinco anos”, ele lembra, ao explicar que diversos pedidos de ajuda para deixar o Afeganistão foram ignorados pelos seus antigos empregadores.

Sem resposta da OTAN, Qahar partiu para a Europa.

Ele descreve tanto a OTAN quanto o Talibã como “antros do fascismo”, prosseguindo com orgulho: ”hoje sou um Anti-fascista”.

 

Ataque Talibã

 

Em 2012, quando Qahar trabalhava em outra província, soldados Talibã atacaram a sua casa em Kabul, matando sua irmã Khatira, de 26 anos, e ferindo seu pai e irmão. Ele voltou pra casa e encontrou apenas seu primo, que, chorando, se recusou a falar o que tinha acontecido, mas suplicou para que Qahar fosse ao hospital encontrar sua família.

“Encontrei minha mãe chorando”, ele conta, com os olhos marejados ao lembrar o momento em que ela lhe deu a notícia.

“Foi esse o nosso destino”, diz.

Com a ajuda de coyotes, Qahar atravessou fronteiras e montanhas, campos e mares, evadindo bandidos e polícias de fronteiras.

Ao chegar na Grécia continental, tomou um trem à cidade de Idomeni, no norte do país, onde um campo improvisado abrigava milhares de pessoas, estagnadas depois que a Macedonia fechou sua fronteira aos imigrantes e refugiados.

Após dormir três noites lá, e entrar em confronto com a polícia ao tentar passar pela cerca de arame-farpado da fronteira, ele voltou a Atenas e encontrou um lugar para dormir, do lado de fora do campo de Eliniko.

“Durante seis meses eu dormi na calçada, sem barraca”, diz, mencionando que um residente do campo de refugiados lhe deu um cobertor. Depois, uma pessoa lhe emprestou 12 euros para que pudesse comprar uma barraca para si.

Tornando-se um Anti-fascista

 

Qahar teve seu primeiro contato com anti-racistas e grupos de solidariedade aos refugiados na véspera de 6 Fevereiro, quando ajudaram refugiados e imigrantes em Elliniko a preparar um grande protesto contra a visita do Ministro da Migração Yiannis Mouzalas ao campo.

Os residentes impediram Mouzalas e a sua escolta de entrar no degradado campo até que ele fosse forçado a ouvir suas demandas de melhora das condições do local.

A partir de então Qahar ficou próximo dos organizadores do Keerfa, um grupo anti-racista e anti-fascista de Atenas, e passou a ajudá-los com projetos de tradução, bem como a se juntar a eles em manifestações contra grupos da extrema-direita.

Dois anos antes, 69 membros do Aurora Dourada foram indiciados por crime organizado. Ainda que o julgamento tenha prosseguido lentamente, ele limitou significativamente a capacidade do partido de capitalizar sobre a crise de refugiados – que naquele momento fazia com que centenas de milhares de pessoas fugindo de guerras e devastação econômica passassem pelo país.

Ainda assim, críticos apontam que membros do partido ou próximos dele continuam a empreender atos de violência. Depois de ativistas Antifa terem destruído as janela da sede do Aurora Dourada, numa manhã de Março, um grupo de homens atacaram e hospitalizaram um estudante universitário que eles acreditaram ter participado no vandalismo.

Nikolaos Michaloliakos, fundador do partido, repudiou o ataque, mas a polícia, pouco depois, prendeu um membro do partido de 42 anos de idade – ex-empregado de Michaloliakos – pelo crime.

Electra Alexandropoulos, das fundações Rosa Luxemburgo e Vigília da Aurora Dourada, explica que os ataques recentes demonstram que asalegações do partido, de rejeitar a violência, não são críveis.

“Eles não mudam… Sua violência é algo quase natural”, diz. “Eles claramente ainda são neo-nazis. Enganam só quem quer ser enganado.”

Petros Constantinou, diretor nacional da Keerfa e vereador em Atenas, explica que antes da atual crise de refugiados o Aurora Dourada construía sua base atacando imigrantes, esquerdistas, sindicalistas e críticos, e formando bolsões de apoio em bairros onde a polícia tolerava sua presença. “Mas sempre fomos maioria absoluta contra eles”, diz.

O Aurora Dourada tentou expandir em alguns bairros e nas ilhas… Em todos esses esforços, foram derrotados por centenas de manifestações, um por um”, completa.

“Refugiados e imigrantes não são só visitantes, são parte importante do movimento. Nós nos organizamos em conjunto para lutar.”

 

Não tenho medo

 

Apesar do histórico de violência do Aurora Dourada, Qahar diz que não tem medo de atrair atenção pra si. Em março, ele foi até a sede do partido em Atenas e pediu um emprego como uma espécie de pegadinha.

“Eu queria ver a cara deles quando perguntei”, diz rindo. “Eu entrei, tinha um cara grandão lá dentro. Eu falei ‘Oi, sou um refugiado e estou procurando um emprego.’ Eles gritaram comigo pra eu sair.”

Deslocados, empobrecidos e marginalizados, muitos refugiados e imigrantes na Grécia se sentem incapazes de participar ativamente em protestos.

Qahar, no entanto, diz que considera sua participação na luta anti-fascista um dever. Bem conectado nos campos, ele se vê como uma ponte entre os refugiados de um lado, e os gregos de outro.

“Eu quero lutar por todos os humanos,” diz. “Eu não consigo ver alguém dormindo na sarjeta, por exemplo… Por quê você ficaria sem fazer nada? Tente ajudar.”

Qahar insiste que os refugiados e imigrantes “não podem lutar sozinhos”, porque “esse não é o nosso país”.

“Somos como uma mão. Se ela está aberta, qualquer um pode quebrar o seu dedo, mas se fechá-la, ninguém pode parar seu punho,” completa.

 

 

 

Ele argumenta que refugiados, trabalhadores, minorias religiosas e outros grupos marginalizados partilham de um interesse comum em impedir o crescimento da extrema-direita, bem como em desafiar as políticas de austeridade do estado.

 

“Eu não tenho medo,” conclui. “Em primeiro lugar, sei me defender. Em segundo lugar, não estou sozinho. Atrás de mim estão mil pessoas, gregos e refugiados… Tenho muitos amigos e muitos companheiros como um muro por trás de mim.”

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Paulo Zuckerberg

Paulo Zuckerberg se interessa pelo planeta, e dá uns pulo aí.