Dançando em Rojava

Tradução livre e edição do artigo Dancing in Rojava, do cineasta curdo e ativista dos direitos humanos, Zanyar Omrani – escrito em 2015.

Em consequência ao deslocamento forçado e à – então necessária, dispersão geográfica do povo curdo – suas danças passaram por uma série de mudanças na história e, até mesmo no caso dos nomes dados à cada estilo não há possibilidade de observar qualquer similaridade com a maneira como isso ocorre em áreas curdas.

“Halparaki”, “Samaa” e “Dilan” são nomes que podem ser ouvidos em todo o Curdistão e o único ponto em que todos os pesquisadores podem concordar é o de que esses estilos de dança tem a coletividade como base.

A dança curda é como um palco onde são expressas as alegrias, tristezas, vitórias e derrotas das pessoas de uma população cuja vida ainda é influenciada por eventos catastróficos.

Em Rojava por exemplo, a dança curda leva o nome de “Dilan” e até mesmo o pesado combate contra o ISIS parece não ter abalado as aulas de dança. Há alguns meses, dez grupos do cantão de Jazira participaram de um festival de dança realizado em Romeilan. Em Serikani foi realizado um curso intensivo para treinar professores, ao qual participei por um dia.

Nesta ocasião, um grupo de dezoito adolescentes com menos de 18 anos haviam acabado de deixar o salão bastante animados, não à toa pois eles eram os melhores dançarinos de sua cidade e pretendiam aprender os estilos de dança de outras duas diferentes áreas do Curdistão, assim eles poderiam replicar o conhecimento ensinando esse importante aprendizado quando retornassem para suas cidades.

Mostafa Shaheen é mestre em dança curda, retornou à Rojava vindo da Alemanha, o som do seu dahol¹ encorajava os dançarinos a se moverem da direita para a esquerda enquanto cantavam em voz alta desavergonhadamente. Eles estavam de mãos dadas uns aos outros enquanto quem ia à frente do grupo coordenava ritmamente todos os outros e, ao mesmo tempo, agitava um lenço no ar. Quem segue à frente na dança é chamado de “Serchopí”.

O equilíbrio entre os movimentos dos pés, mãos e cabeças, assim como as roupas utilizadas são alguns dos elementos que tornam este tipo de dança tão entusiasmante. “Há idéias controversas e não necessariamente acadêmicas sobre a história da dança curda. De qualquer forma, o que é certo é que há variações e diversidade nessa dança que levam em consideração as mudanças temporais, políticas e sociais de um povo e sua história. ” segundo Mostafa.

Alguns pesquisadores no campo da antropologia classificaram a dança curda em três grupos: marciais, líricas e místicas.
Em contraste com o Curdistão iraniano, em Rojava não há vestígios de “Geryan”, “Labalabaan”, “Chapi”, “Khan Amiri”, etc. São poucas as variedades de danças curdas existentes em Rojava enquanto que, como Mostafa coloca, os efeitos das danças árabes e assírias são mais evidentes. Um exemplo dado é o da dança Baagi, que é originalmente assíria e não curda.

Durante o curso de dez dias e que tem como mote a homenagem ao falecido guerrilheiro iraniano curdo “Vian Peyman”o instrutor disse “Aqui eu ensinarei a dança de duas regiões: Roha e Diyarbakır, ambas nas quais não houve qualquer redução com respeito às origens artísticas e às essências da dança curda.”.

Mostafa segue descrevendo os dois estilos de dança e aponta para a história das duas regiões, dizendo que, a longo prazo, as guerras e as lutas têm sido mais sentidas em Diyarbakir e Serhad, então a dança ali tem um ritmo mais rápido e os dançarinos devem se mover com maior entusiasmo. A coreografia é cheia de sons e sinais épicos que se destinam a arruinar o espírito do inimigo. Mas na dança de Rohaj e Jazira, o que se expressa mais são os emocionantes momentos da vida no campo e na agricultura. Uma parte deste curso foi atribuida ao ensino de formação teórica e filosófica da dança curda “ porque sem uma profunda compreensão das raízes da dança curda fica impossível realizá-la corretamente e com afinco” afirma o mestre.

Ele falou ainda sobre a escassez de recursos acadêmicos e educativos para manutenção do conhecimento acerca dessa dança e de como ele têm se preparado por acreditar na urgente necessidade de produção de publicações e registros das atividades em um conturbado contexto onde a observação e o conhecimento se fazem necessários dia após dia.

Mostafa leva em consideração a harmonia no movimento e no estilo de roupa como as características de uma boa dança e menciona que esse equilíbrio é tão tangível na dança curda que é possível prever o tipo de dança e seu movimento só pela observação das roupas mais usadas em cada região.

Shirvan Ferhad é um dançarino de Qamishli que começou a aprender “Dilan” profissionalmente há apenas cinco anos e conta que esse aprendizado havia sido banido na era de Baath² “mas nós não desistimos e aprendemos a dança em todos os encontros possíveis e nas festas de âmbito mais particular. ”

Ele conta sobre os dias de trabalho nas fazendas e de como cantava junto aos companheiros durante a labuta: “Nós movíamos nossos corpos com o ritmo da foice e do vento e esses movimentos harmoniosos ajudavam nossos corpos cansados a repousar.”

Nourjan, de 16 anos, é de uma cidade onde ocorreram intensos confrontos, Tel Tamer, mas como ele sempre gostou de se exercitar fisicamente aproveitou para aprender as danças curdas dedicadas à primeira infância como Garzi, Kharfani e Sheikhani. Antes da guerra ele atendia grupos de até 35 alunos na sua cidade, mas devido à emigração isso ficou impossível. Em sua participação no curso também adicionou ao seu conhecimento os estilos “Delilu”, “Shour ve Martaal” e “Tashi ve Biri”. Sobre o papel do corpo na dança curda, o dançarino afirma que sua totalidade deve ser flexível e que mesmo levando em conta que todas as partes do corpo têm papéis vitais, ainda assim, o papel do pescoço é o mais importante.

Atuando há mais de oito anos oficialmente na Coordenação no Ministério de Arte e Cultura em Serikani ele passou a atuar em diversas áreas artísticas em diferentes cidades e insiste na importância da arte para preservação da cultura curda contra a assimilação do estado e acrescenta dizendo que “nossa política é a continuação e o desenvolvimento das atividades culturais e artísticas em conjunto com as ações corajosas da nossa juventude em fronts de guerra. Não vamos esperar que a guerra termine para nos aproximarmos da arte. ”

Eu olho para Nourjan Chupikish e penso que se o ISIS não for excluído dos cantões de Rojava ele não poderá retornar ao Tel Tamer para treinar seus alunos. No entanto, ele ainda está esperançoso e diz:

“A dança curda expressa nosso estilo de vida e nossa luta contínua e ininterrupta contra o ISIS. Nós a representamos no “Dilan”, é uma dança sem fim para nós

¹. Um tipo de percussão curda.

². Partido Baath

Facebook Comments

Anelise Csapo

é jornalista formada pela PUC-SP e pesquisadora com pós graduação em Psicologia Política pela Each-USP.