Desagregando o Crescimento: Medindo quem prospera quando a economia cresce.(Parte 1)

Originalmente publicado em The Washington Center for Equitable Growth

 

Visão geral.

A National Income and Product Account, ou NIPA, também referido como Sistema Nacional de Contas, ou SNC, fora dos Estados Unidos, foi um avanço radical na medição econômica quando foi instituída no início do século XX. Essas contas rastreiam a produção e rendimentos integrados para a economia nacional. Mais impressionante ainda, eles medem o Produto Interno Bruto  e as flutuações trimestrais do PIB, que nos dizem se a economia está se expandindo ou se contraindo. Antes de seu advento, determinar a saúde da economia era uma procedimento inexato e feito com “emendas de retalhos”.

 

Embora tenha sido uma grande conquista, até mesmo os criadores da NIPA sabiam que ele tinha as suas limitações. Uma delas é a falta de dados sobre como o rendimento é distribuído. Em uma seção intitulada “Usos e Abusos das Medidas Nacionais de Rendimentos,” o relatório para o congresso de 1934, que foi a primeira medida oficial de rendimento nacional, notou que “O bem estar de uma nação pode, portanto, dificilmente ser inferido de uma medida de renda nacional.” O autor, futuro laureado do Nobel, Simon Kuznets, foi cuidadoso ao diferenciar entre a idéia de produção econômica agregada e “bem estar econômico”.

 

A falta de dados sobre como a renda é distribuída, é especialmente gritante agora, face ao rápido crescimento da desigualdade econômica. Ao longo de muito tempo durante o século XX, o crescimento econômico era dividido de maneira relativamente igual por todos os grupos. Por volta dos anos 80, no entanto, largas parcelas de crescimento econômico foram para o topo da distribuição de renda, com o 1% mais rico experienciando ganhos especialmente grandes. De acordo com os economistas, Thomas Piketty, na Escola de Economia de París, e Emmanuel Saez e Gabriel Zuckman, na Universidade da Califórnia, Berkeley, o crescimento de renda bruta, dos 1% mais ricos, entre 1980 e 2014, foi de 204% nos Estados Unidos, muito acima da média nacional de 61%.

 

A NIPA precisa de algumas renovações para se adaptar ao século XXI. Outros pesquisadores sugeriram uma amplo leque de possíveis melhoras. Mais notavelmente, o ex presidente Nicholas Sarkozy, comissionou os laureados do Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen da Universidade de Harvard, e o economista Jean-Paul Fitoussi, no Institut d’Études Politiques de Paris, para sugerir como o PIB pode ser repensado para medir mais corretamente o progresso econômico e social. O relatório resultante contém uma longa lista de sugestões de melhorias, com sugestões que visam a desigualdade, e também ideias sobre como a qualidade ambiental, e a satisfação com a vida, podem ser melhor considerados nas estatísticas sociais de economia.

 

Esse relatório determina um objetivo mais modesto, mas igualmente importante: ao invés de revolucionar o PIB, os criadores de políticas dos EUA deveriam evoluí-lo. As páginas que se seguem, explicam porque os Estados Unidos precisam adicionar um componente distributivo para o PIB, e discutir como esse objetivo pode ser alcançado. Se adicionarmos uma medida sobre como a renda é distribuída isso nos permitiria quantificar a desigualdade em nossa economia, e em seu formato mais avançado, permitiria que as agências de estatísticas dos EUA desagregassem o crescimento econômico, para podermos ver como a economia está se comportando para subgrupos de pessoas, de acordo com as suas rendas, localizações geográficas, gênero, e mais. Poder fazer isso, permitiria que os legisladores, a nível federal, estadual e local, tivessem uma ideia melhor das consequências da crescente desigualdade econômica e a criar leis que encorajariam um crescimento econômico mais igual e sustentável.

 

A hora de fazermos essas melhorias na NIPA é agora. Em um nível puramente pragmático, avanços na metodologia e a crescente disponibilidade de poder computacional, tornam prática a introdução de uma NIPA mais sofisticada. Mas até mesmo nos anos 30, os economistas entendiam que a NIPA eventualmente deveria incorporar informações sobre distribuição. Fazê-lo, é uma resposta a um crescente desafio econômico: em anos recentes, a parcela de renda acumulada pelos 1% mais ricos, atingiu níveis pré- Grande Depressão, criando uma nova classe de indivíduos super ricos, que gozam de um crescimento econômico muito mais rápido do que os “meramente” ricos e o restante da sociedade de hoje.

 

Esse relatório se dá em três partes. A primeira seção descreve o desenvolvimento histórico da NIPA e recentes esforços para atualizá-la para refletir as novas realidades econômicas. A segunda seção explica porque a distribuição nacional de renda é importante. E a seção final enumera as características desejáveis que deveriam estar presentes em um Sistema Nacional de Contas distributivo, e discute a implementação dessas características nos EUA.

 

Pontos chave

 

  • A medição do PIB encorajou uma fixação nacional com o “crescimento do bolo” que ignora como o crescimento é distribuído. Essa sabedoria convencional se tornou ultrapassada, enquanto cada vez mais, o crescimento da nação beneficia o 1% dos mais ricos.
  • Legisladores interessados em combater a crescente desigualdade de renda, não conseguem avaliar a efetividade de suas políticas, sem uma medição consistente, de alta qualidade, de como o crescimento econômico é distribuído.
  • As estatística existentes sobre desigualdade e a distribuição dos ganhos econômicos, feitas pelo Governo Federal, não levam em conta todo tipo de renda, subestima vastamente o rendimento dos mais ricos, ou não recebem o nível de atenção recebida por outros produtos estatísticos mais importantes.
  • Um componente distributivo poderia ser adicionado à NIPA atualmente, ao menos em parte. Os EUA poderiam incluir muitas das características desejáveis desse tipo de sistema, mesmo que outros possam requerer investimentos em novas infraestruturas de estatística.
  • Para criarmos um sistema de contas distributivo, é necessário que o Bureau of Economic Analysis (escritório de análises econômicas), tenha seu acesso expandido às informações de impostos, de posse do Statistics of Income division of the Internal Revenue Service (Divisão de Estatísticas de Renda do Imposto de Renda).

 

 

COMO UM NÚMERO SE TORNOU O ÚNICO MARCADOR DE PROGRESSO ECONÔMICO.

 

Durante décadas, nosso políticos e jornalistas recorreram à um número para avaliar o bem estar econômico: PIB, ou, Produto Interno Bruto (GDP or Gross Domestic Product), que mede o total de produtos e serviços produzidos em uma nação. Nossa preocupação nacional com o PIB, e a padronização mundial do PIB, como a medida das fortunas econômicas de um país, resultam hoje em políticas justificadas pela máxima econômica do “crescer o bolo”. Mas o PIB não foi feito para se medir bem-estar. Para isso, nós precisamos entender como o “bolo econômico” é distribuído. Prestou-se atenção insuficiente na distribuição de renda, e ao longo de várias décadas, essa inatenção teve como resultado, uma grande maioria dos Americanos registrando rendas espartanas, enquanto os ricos gozam de crescimento rápido.

 

Aumentos na igualdade demonstram porquê um único número não é mais adequado para se analisar as fortunas econômicas de nossa nação. Enquanto o PIB captura o que acontece no agregado, o problema econômico central da nossa era é, como o crescimento econômico divergiu entre aqueles no topo do espectro de renda, e o resto da sociedade. O PIB é insuficiente para entender esse fenômeno, o que por sua vez, quer dizer que tanto economistas quanto legisladores, não conseguem entender claramente os efeitos da desigualdade de renda em uma economia mais ampla, nem criar políticas econômicas mais iguais, que resultem em um  crescimento econômico mais amplo e sustentável.

 

A economia dos EUA no século XXI, é caracterizada por rendas estagnadas para a vasta maioria de trabalhadores, enquanto a renda no topo cresce rapidamente. A desigualdade de renda começou a crescer em meados dos anos 80, e a crescente distância entre os 20% do topo da pirâmide de renda, e aqueles abaixo disso, já era bem conhecida no início dos anos 90. Mas a ascensão do 1% não foi tão bem estudada, porque os economistas não tinham informações sobre as rendas dos membros mais ricos da sociedade. Daniel Feenberg, do National Bureau of Economic Research (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica), e James Porteba do Massachussets Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachussets) – Autores de um dos primeiros estudos acadêmicos a documentar, precisamente, as crescentes fortunas daqueles que estavam no topo do topo da escada econômica – notaram que “as vidas econômicas dos ricos, especialmente os ricos que não são famosos, têm um quê de mistério”.

 

Ainda que acadêmicos, corajosamente, tenham tentado preencher as lacunas, as estatísticas econômicas oficiais, publicadas pelo governo dos EUA, não apontaram a súbita explosão de ganhos entre o 1% do topo, cujas parcelas de renda nacional praticamente dobraram entre 1980 e o início dos anos 2000. Em parte, isso se dá, porque muitas das agências de estatística federal que rastreiam as fortunas econômicas da nação, tradicionalmente focam no agregado, ao invés das medidas distributivas de bem estar. Mais ainda, essas mesmas agências não têm acesso à informação necessária para mostrar mudanças de renda, no topo do topo da distribuição de renda. A infraestrutura federal de estatística, que outrora liderou o mundo na produção de estimativas de alta qualidade de fenômenos econômicos, foi amplamente desenvolvida em meados do século XX. Enquanto esses produtos, agora, são medidos mais precisamente, em muitos casos sua essência natural não mudou em nada. (vide apêndice para uma comparação das publicações do Bureau of Economic Analysis, desde 1967 a 2017). Essa é a verdade do nosso mais conhecido e significante produto estatístico, a NIPA – National Income and Products Accounts.

 

NIPA: um avanço significativo na manutenção de registros econômicos nos EUA.

  • A NIPA é uma agência de estatística estadunidense, similar ao nosso IBGE, no entanto, enquanto o IBGE produz estatísticas sobre diversas áreas da nação, a NIPA foca somente em estatísticas financeiras, deixando outras informações a cargo de outras agências. (Ex: o Censo é realizado pela United States Census Bureau) N. do T.

 

O PIB é um componente da NIPA dos EUA. A NIPA é uma contabilidade dos valores monetários de toda a produção feita nos EUA e por cidadãos americanos, que usa o double-entry accounting (método das partidas dobradas, ou método veneziano): A produção total é catalogada tanto em rendimento, como com o que é gasto em bens e produtos produzidos. O Escritório de Análise Econômica relata os resultados dessa tabulação trimestralmente.

 

A principal estatística da NIPA é o PIB, e suas publicações trimestrais são famosas por suas estimativas de crescimento do PIB sobre os últimos três meses. Mas existem muitos mais detalhes disponíveis, pode-se observar a mudança na produção de veículos, por exemplo, ou a mudança de gastos em produtos importados, e o crescimento do PIB estará geograficamente desagregado no nível municipal. A infraestrutura estatística por trás da NIPA é considerável. O BEA (Escritório de Análises Econômicas) usa pesquisas e informações administrativas do US Census Bureau (órgão responsável pelo censo nos EUA), the Internal Revenue Service (órgão responsável pela cobrança do imposto de renda), the Department of Labor’s Bureau of Labor Statistics (escritório de estatísticas trabalhistas, do ministério do trabalho), and the U.S. Department of Agriculture (departamento de agricultura).

 

O crédito pelo desenvolvimento da NIPA, geralmente é atribuído ao laureado do Nobel, Simon Kuznets, que veio para o Departamento de Comércio, do National Bureau of Economic Research (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica). Acadêmicos, organizações de pesquisas, e até mesmo agências federais fizeram estimativas da renda nacional antes que Kuznets o fizesse, mas seu trabalho seria institucionalizado e se tornaria o produto de renda nacional oficial do governo federal.

 

O ímpeto para o trabalho inicial de Kuznet foi uma resolução introduzida pelo Senador Robert La Folle, do Wisconsin, fazendo do Departamento de Comércio, o responsável por publicar novas estimativas de rendimento nacional de 1929-1931. Rendimento nacional não era um conceito novo, mas é fácil imaginar porque esse conceito finalmente conseguiu apoio legislativo em 1932, logo após a eleição de Franklin D. Roosevelt para presidente, e somente poucos anos depois do começo da Grande Depressão. Kuznets entregou um estudo, dos anos solicitados, em janeiro de 1934. O estudo pintava uma forte imagem da devastação forjada pela Grande Depressão: O estudo mostrou que o rendimento da nação caíra em mais de 50%.

 

A entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, elevou ainda mais a estatura de Kuznets e da NIPA, que é frequentemente creditada como sendo o maior trunfo para o esforço de guerra. Ao longo do tempo, O PIB suplantou o Produto Nacional Bruto, como a principal estatística da NIPA, porque abrange toda a produção dentro da nação, independente de propriedade. Em 1953, devido ao sucesso nos Estados Unidos, a ONU publicou as suas normas para Sistemas de Contas Nacionais, sob a orientação do economista Richard Stone. Essa norma fornece guias para uma medição uniforme do PIB, usado por nações ao redor do globo.

 

Nas décadas que se passaram, o PIB se tornou, de fato, o padrão para se medir o progresso econômicos das nações ao redor do globo. Ele alcançou um nível único de autoridade, ao ponto de excluir os outros marcadores de desenvolvimento de uma nação. As determinações oficiais de que os EUA estão em recessão, são baseadas, em parte, pelo crescimento do PIB. Após a Grande Recessão, desvios de tendências do PIB foram usados para sugerir o tamanho apropriado de um pacote governamental de estímulo. Aspirantes a presidência prometem um maior crescimento do PIB, e as promessas econômicas do presidente giram em torno de um valor alvo de crescimento. Ao que parece, estamos viciados no PIB.

 

Se adicionarmos um componente distributivo à NIPA, ele não substituiria o PIB ou a medida de crescimento do PIB. Ao invés disso, se adicionaria um contexto a mais, ao fornecer informações sobre o crescimento de renda, por exemplo, dos 50% mais pobres dos trabalhadores, ou dos 10% mais ricos. Essas medidas nos auxiliariam a entender melhor quem é que se beneficia do crescimento econômico.

Facebook Comments