DEUS ME PROTEJA DA DITADURA GAY!

Da palavra de ordem à identificação de uma das frações do partido da ordem

1. Rafael Vianna e o direito de negar os direitos.

    O artigo do camarada Rafael Viana é o ponto de partida de nossa reflexão sobre a questão de como se articulam os elementos teocráticos de nosso Brasil. O Artigo “O ‘direito’ de acabar com o direito do outro?”, de Viana,1 se debruça sobre como “os setores que são contra os direitos dos homossexuais usam um recurso discursivo muito oportunista para continuarem atacando” as minorias políticas – sobre tudo as referentes ao gênero e sexualidade.

      Viana mapeai que o problema configura-se, sobretudo, nas alas neo-pentecostais. O recurso discursivo do qual Viana fala é aquele em que estes “têm o direito de ser contra o casamento homossexual e outras questões LGBTT’s”, isto é mascarado como a defesa da liberdade de expressão. Afinal, ter o direito de negar o direito dos outros, é, acertadamente, para Viana algo de problema lógico, de tal modo que “o direito [seria] em sua plenitude nunca é possível para niguém ou quase ninguém”. O fato contraditório, reside também, em que apesar dos “neo-pentencostais falarem em Estado democrático de direito”, fundamentam sua postura e suas ações políticas na Bíblia.

      A partir daqui, o texto de Vianna, passa do elemento analítico histórico, para o analítico tático. Como devemos nos posicionar frente aos setores (fascistas) que defendem esse paradoxo lógico: o direito de tirar o direito dos outros. Fica um tanto confuso algo no texto de Viana, afinal, um leitor desavisado pode se perguntar:

    -Mas, senhor Viana, não estarias também a exigir o fim do direito dos outros? Os outros, no caso em questão, dos fascistas?”

       “-Veja bem, veja bem!”, diria ele. Não é disso que se trata, apesar da confusão ser possível. Os nazistas e fascistas historicamente são os inimigos das minorias políticas, isto é, os setores excluídos de voz e de direito e que compõe a maioria absoluta da sociedade e que, em sua luta, procuram a ampliação geral do direito de todos. Já os nazistas e fascistas se constituem enquanto agrupamento político, que defende a manutenção do status-quo, com o retrocesso político referente às conquistas sociais daquelas minorias. Assim, um possível paralelismo fica desfeito, afinal, um é um agrupamento que propaga o discurso de ódio. O outro é um conjunto étnico, ou sexual, ou religioso da sociedade que têm sua luta voltada para a garantia de sua existência e, além do que, da igualdade social dentro do Estado laico e democrático de direitos. As minorias defendem a igualdade, os fascistas defendem o ódio e o “privilégio”. Completa, Viana, “Um direito para existir precisa ser universal”, o que os movimentos de sexualidade e gênero reivindicam é, por exemplo, o direito à adoção e ao casamento – que hoje não são universais.

       O mesmo vale para os problemas relativos à propriedade de terra e à moradia, no Brasil – alguns monopolizam as terras e as cidades e excluem uma maioria de ter qualquer espaço. O direito a propriedade é uma insuficiência, elemento proudhoniano da análise de Vianna, era preciso ir além. Acontece que aqui podemos muito bem levantar a bandeira histórica de igualdade de direitos e deveres. Todos devem trabalhar, ninguém deve usufruir do trabalho do outro.

        Por fim, a conclusão, é esta: o casamento dos LGBTT’s é um direito que deve ser garantido a todos, enquanto os elementos que lutam contra isso é que estão a exigir um não-direito ou o fim do direito universal, são os “que negam o direito dos outros de terem direitos”.

      O artigo do camarada Vianna, além de ser de uma atualidade aterrorizadora, é de uma clareza impressionante. Vai ao cerne de umas questões deste problema moderno, contudo, partiremos desta reflexão, para tratarmos de algumas outras faces que o camarada no possibilitou refletir.

 

2. F. Engels e a definição de “palavra de ordem”.

Na minha perspectiva, o programa tem que ser tão curto e tão preciso quanto possível.

Frederich Engels, Crítica ao Programa de Erfurt, 1891.

 

        Dado o enorme sucesso da outra “Crítica ao programa”, o leitor não iniciado pode se confundir com o texto de Marx da década de 1870, sobre o programa da social democracia alemã, em que Marx ataca de modo fulminante os elementos lassalianos do programa votado no Congresso ocorrido em Gotha2 (este texto é usado por excelência do antiestatismo de Marx). Há também na crítica de Gotha marxista uma certa aceitação à crítica bakuniniana contra o “Estado Popular”, elemento polêmico até hoje e ponto de defesa central das frações “marxistas heterodoxas”3. Contudo, o caminho entre Gotha e Erfurt compreendem três elementos: ampliação do partido socialdemocrata alemão (consecutivamente com o aumento de sua influência), ampla influência do marxismo na fileira deste partido e a morte de Marx em 1883. Quando o Congresso ocorre as leis de proibição da propaganda socialistas haviam sido abolidas e há a concretização da virada marxista no partido, cabendo a Engels, o maior guru do socialismo científico da época, traçar alguns apontamentos.

      Devemos assinalar que o texto de Engels, é um combate deste contra os elementos “oportunistas”, conceito para apontar os reformistas. Assim, a defesa do fim da sociedade de classes e da ditadura do proletariado são alguns dos posicionamentos que Engels defende e que não são “aceitos” na resoluções finais. Um problema que poderemos nos debruçar num outro momento, além do que, o estudo das variáveis tanto dos respectivos programas quanto das respectivas teses daria, em si, uma ou várias teses.

     Tiramos da poeira e da crítica do roedores este texto para extrairmos dele um aforismo, que deveria ser retomado por todo partido antes de fechar seu programa e seus estatutos:

 

No geral, estes padecem da tentativa de compatibilizar duas coisas incompatíveis: ser tanto programa como comentário ao programa. Teme-se não se ser suficientemente claro quando se é curto e percuciente e, por isso, acrescentam-se explicações que tornam a coisa comprida e arrastada. Na minha perspectiva, o programa tem de ser tão curto e tão preciso quanto possível. Mesmo que também alguma vez sobrevenha uma palavra estrangeira ou uma proposição não apreensível à primeira vista em todo o seu alcance, isso não importa. A exposição oral nas reuniões, o esclarecimento escrito na imprensa, farão o necessário e a proposição curta, expressiva, uma vez entendida, consolidar-se-á na memória, tornar-se-á palavra de ordem, e isto, nunca se passa com a explicação mais comprida. Não se sacrifique demasiado em relação à popularidade, não se subestimem os dotes espirituais e o estádio de cultura dos nossos operários. Eles entenderam coisas de longe mais difíceis do que as que lhes pode pedir o programa mais curto e mais sucinto; e, se o tempo da lei dos socialistas dificultou e, em alguns lugares, impediu também a completa boa formação das massas recém-vindas [ao Partido] — sob a direcção dos antigos, isso será em breve recuperado, agora, que os nossos escritos de propaganda podem de novo ser lidos e conservados sem se ser incomodado. (ENGELS, s/d)4

         

    Analisemos, agora, pormenorizadamente. Da parte que vai de “No geral” até “arrastada”. O tema é único, trata-se somente de explicar os problemas da formulação do programa. O programa, na verdade é um programa e um manual, o que é um erro na visão de Engels. Trata-se de juntar dois momentos num só, não tendo na verdade nenhum dos dois só uma amalgama mal feita. Não se consegue ser sucinto, por isso se explica, torna prolixo e entediante o texto.

     A parte seguinte ele é categórico: “na minha perspectiva o programa tem de ser tão curto e preciso quanto possível”. O elemento então por trás do programa, para Engels, é a capacidade de ser sintético, isto é, conseguir traduzir em pequenas sentenças elementos complexos gerais. Pode-se considerar: ‘como se fará caso haja um conteúdo mais extravagante?’ Isto, para Engels, se resolve na prática do partido e na utilização viva do programa, por meio da: “… exposição oral nas reuniões, o esclarecimento escrito na imprensa, farão o necessário e a proposição curta” terá na mente das massas operárias um sentido tão profundo, de tal modo que, o conteúdo irá além da frase.

     Então, percebe-se uma clara dinâmica, Programa-prática. O programa não é um documento de sede, que enfeitara e resolverá problemas organizacionais, mas, na verdade, é um instrumento de coesão interna e difusão propagandística, com vias do convencimento e do combate de massa. Ao realizar este combate “programático-propagandístico”, os elementos do programa se tornarão: palavra de ordem. Então, a palavra de ordem, diferente do que ocorre em muitos movimentos, é o fim de um processo de reflexão, delineamento programático, ação propagandística. É o fim de um ciclo de luta, trazendo consigo os elementos mais claros e profundas nas mentes e corações da massa.

     Engels tenta no trecho final combater uma espécie de preconceito dos elementos organizados contra os operários. Afinal, defende ele, que os operário, seu estado de espírito e sua cultura não sejam subestimados. Engels tem em mente o fim da lei de proibição aos socialistas, o que permitiria um trabalho de propaganda mais calmo e de longo prazo e de longo alcance. Para ele, com a liberdade de expressão as idéias serão esclarecidas e difundidas.

    Concluindo, o central, tanto por localização quanto por reflexão é a palavra de ordem. Engels liga necessariamente programa-prática-propaganda, numa dinâmica em que os vários momentos estão presentes um nos outros. O programa: é o momento de maior sintetização das idéias acumulados no período anterior pela teoria revolucionária do partido; a propaganda: é a difusão em todos os cantos do programa que deve ser, necessariamente, acompanhada de uma prática. Esta, que leve a cabo tanto o que programa defende quanto o explique pormenorizadamente. A palavra de ordem é a concretização do acerto disso, é o programa tornando-se orgânico, para usarmos um termo gramscista, isto é, um vínculo estreito entre a intelectualidade e seus os componentes ideológicos com determinado grupo ou classe social.

      Feito este parêntese, sobre a questão engelsiana, o que isso tem a ver com o problema levantado por nosso camarada? O fato é, que se tomarmos a perspectiva dialética da palavra de ordem para mapear a realidade hoje, com vias a identificar o discurso que Vianna denúncia, o problema toma um grau de profundidade e de explicação maior.

3. O argumento de Vianna à luz da teoria dialética da palavra de ordem

     O que fez magistralmente, nosso camarada? Ele se debruçou sobre o momento da explicação da ação prática. Vianna basicamente desvela um dos componentes essenciais da agenda dos conservadores, que é, como já foi dito: a defesa de um direito que nega direitos. Mas, se nós fizermos o movimento retrospectivamente, em qual forma discursiva isto vem compactado? Qual é a “palavra de ordem” que explícita toda está argumentação que Vianna esmiuçou.

     As câmaras do Senado e dos Deputados estão repletas de elementos discursivos que tratam do assunto, alguns dos casos mais gritantes foram os do: kit gay e o da cura gay. Ambos são levados como elementos mais particulares do problema, pois, vejamos:

     -o kit gay é a palavra de ordem tática dos elementos conservadores para barrar a “cartilha anti-homofobia” para as escolas, então, aquela, apesar de bombástica e vitorioso é um momento menor do movimento maior que observamos;

      -já a cura gay é um componente de disputa individualizante e institucionalizante, levados a cabo na disputa das igrejas na conversão e doutrinação, principalmente, da população homossexual de risco como travestis e garotos de programa e, em âmbito mais institucional, dentro da “psicologia” como matéria desta disciplina a adoção desta prática.

     – “Deus tenha misericórdia deste país!”, utilizado como elemento de identificação dos “elementos religiosos conservadores e reacionários” no dia da votação do impeachment.

     Mas, defendemos que é, uma outra palavra de ordem, que sintetiza as estratégias globais, e que, estas agem como elementos táticos complementares. A palavra de ordem estratégica por excelência dos conservadores é: ditadura gay ou, como se apresenta mais eufemisticamente “gayzismo”. Porque, basicamente, consegue: expressar o inimigo, a intencionalidade e aponta para a “resposta” do problema.

4. Algumas coisas por traz da palavra de ordem: Ditadura gay e gayzismo.

     Estabelecimento de um inimigo externo e suas consequências na psicologia social. “In” e “out”, algumas palavras mágicas da teoria freudiana do ego. O que ela explicita tentaremos resumir aqui. É necessário para a propaganda política fascista a disposição sexual de um grupo para com o líder, dado que, a individualidade de cada membro da “horda” fica fragilizada e sucetível a sugestão e a atitudes extremas, mas, no caldo problemático do ascenso da violência fascista o “Outro” tem um papel central na definição do “Eu”. O medo, a mistificação, a ignorância são elementos centrais para a construção de quem é o “Outro”.

     “Outro” é o mal encarnado, no hino francês isto é bem interessante como se é construído: “Allons enfant de la patrie/ le jour de gloire est arrivé!” (avante filhos da pátria, eis o dia da glória), “Entendez-vous dans la campagne, mugir ces feroces soldats?, ils viennent jusque dans vous bras ergoger vous fills e vous compagnes” (Escutais-vós, dos campos, urrar os ferozes soldados, eles vem até vós, para degolar vossas mulheres e vossas crianças). Aux armes, citoyens!

     Reparem a dinâmica tal como é posta no hino, o dia de glória é feito pelo aparecimento do outro, que urra e mata o que mais se estima. Então, a dinâmica da glória e do medo, leva a única alternativa possível: o levante, o combate.

    Retornando ao problema da palavra de ordem, ela leva exatamente a isto, aquele estranho sujeito que vem perturbar a calmaria “dos campos”. O gay, o homossexual, aparece para perturbar o “sujeito de bem”, de modo que irá perder tudo que mais ame. Então, o gay, neste caso, é o medo encarnado, é o “Outro”. Como só pode existir um “Outro” quando existe um “Eu”, agora cabe perguntar, quem é o “Eu”?

    Neste caso em específico, parece que o “Outro” está mais definido do que o “Eu”. Pois, torna-se “Eu”, aqueles suscetíveis ao medo da perda de direitos para os homossexuais. Aqueles que não aceitam sua vida pública e mesmo aqueles que não aceitam sua existência (estes, por enquanto, uma minoria). Então, temos a parte ativa “um líder fascista coletivo”, encarnado em vários pastores e políticos birutas, assim como, em alguns católicos e uma dispersa base que está em constante alerta contra a ditadura gay e em alerta quando ao chamado dos líderes.

   Sobre líder fascista coletivo, pretendemos nos debruçar melhor sobre este problema em algum outro momento, dado que, há uma estética padronizada do modo de falar e de pensar de vários sujeitos, sendo alguns mais elementares que outros. Mas há uma importância fundamentalmente imprescindível nos menores que estabelecem um vínculo orgânico com as comunidades, favelas e bairros: os pastores conservadores de bairro.

     Dado o estabelecimento do sujeito (Eu x Outro), qual é a intencionalidade?

    A intencionalidade, ou o programa, é de uma sociedade sem direitos para os homossexuais. Mas, qual é o meio para que isto seja imposto? Em um discurso público recente o Deputado Bolsonaro afirmou que o Brasil é um Estado Cristão, não um Estado Laico5. Este foi o momento em que as coisas foram ditas por inteiro, a finalidade é esta. A fenomenologia do movimento da provas disto, que o combate as minorias sexuais é programático para defesa do fim do Estado Laico. Pois, o Estado Laico é uma garantia que o Estado (sua burocracia e seu monopólio da violência) “defenderá” as minorias da caça feita pelo extremismo religioso, ou mesmo, relativo à perseguição contra minorias religiosas, raciais e ou sexuais.

    Então, quando se fala em kit-gay, cura-gay e nas formas mais genéricas ditadura gay e gayzismo o que se tem no fundo programático destes setores é o estado fundamentalista cristão. Então, a palavra de ordem “ditadura gay” é a defesa do Estado Cristão. Cabe ao setores progressistas e revolucionárias a defesa intransigente das formas avançadas do Estado Laico, em detrimento das formas reacionárias dos Estados religiosos. O combate não só das figuras públicas, como das idéias venenosas da serpente pró-fascio que se apresenta neste momento delicado. Alguns apontamentos para o combate a estas tendências serão desenvolvidas em outro artigo.

Conclusões preliminares

         A palavra de ordem ditadura gay consegue fazer um delineamento de um agrupamento ideológico de tipo “horda fascista”, cuja finalidade é construção de um “Estado Cristão” brasileiro de tipo autocrático. A palavra de ordem é o delineamento de todo um projeto muito bem pensado, com pessoas trabalhando de modo agrupado e disperso em prol desta causa, em que algumas igrejas neopetencostais têm um papel central.

notas:

1. https://encruzilhadasdolabirinto.wordpress.com/2013/05/06/o-direito-de-acabar-com-o-direito-do-outro/

2. https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/gotha/

3. Felipe Corrêa, no texto “Marx Antiestatista” (do qual segue o link), exporá alguns pontos relativos ao debate do antiestatismo marxismo dentro deste texto. Link: https://ithanarquista.wordpress.com/2016/07/05/felipe-correa-debate-marx-antiestatista/

4. https://www.marxists.org/portugues/marx/1891/06/29.htm

5. http://www.esquerdadiario.com.br/Bolsonaro-defende-Estado-cristao-que-as-minorias-desaparecam-e-fuzil-contra-os-sem-terra



Facebook Comments

Mazzoni

Um proletário e estudante do interior do Estado de São Paulo. Mestrando em Ciências Sociais pela Unesp de Marília. Interessado em áreas como: história do movimento operário, lutas das classes subalternas, teoria política do socialismo, o problema da ideologia, sociedade civil e hegemonia. Tomado pela clareza do tamanho da própria ignorância, pois sabe, que, ainda há muito a ser questionado e principalmente a ser aprendido.