Dois mortos e um funeral – O fim de semana não contado da Argentina

Atravessando a fronteira da desinformação”, este é o slogan do El Coyote. Ele resume bem o que faremos aqui agora. A razão disso? É que, de repente, parece que a chamada “grande mídia brasileira” resolveu ignorar o que vem ocorrendo com nossos vizinhos Argentinos. Tudo que, eventualmente, poderia botar em xeque a imagem de “moderado” que tentam fazer de Mauricio Macri por aqui, assim como arranhar a imagem de empresários multimilionários como os membros da família Benetton e o britânico  Joe Lewis vem sendo sumariamente jogado para debaixo do tapete.

A Argentina tem vivido tragédias que demonstram que pessoas com grande concentração de capital sentem-se no direito de fazer absolutamente qualquer coisa! E será que elas podem?

Já escrevemos aqui dois textos importantes sobre o assunto, o primeiro chamado de “a resistência mapuche” trata-se de uma introdução a luta dos indígenas Mapuche na Patagônia contra a gigante têxtil Benetton após serem expulsos de suas terras. Um conflito que vem desde 1991, quando a empresa comprou estas terras para criar ovelhas que produzem  cerca de 10% da lã que a marca usa para fazer roupas. O texto  também fala da violenta repressão policial decorrente disso em operações de desocupação solicitadas pela empresa, algo que tomou proporções dramáticas durante a era Macri. O  segundo texto chama-se “Onde está Santiago Maldonado?”  e dedica-se a traçar um perfil do ativista anarquista Santiago Andres Maldonado (28), que desapareceu misteriosamente em uma operação de desocupação de territórios ocupados pelos índios, encomendada pela Benetton.  Santiago Maldonado foi encontrado morto no rio Chubut em 17 de Outubro de 2017, seu funeral ocorreu no último fim de semana (25/26), após uma perícia um tanto contestável que deu como causa da morte afogamento e hipotermia.

Especialistas presentes na autopsia concluíram que o cadáver teria, pelo menos, 60 ou até 80 dias no rio. Dando a entender que Santiago teria morrido ao tentar atravessar o rio nadando, o que contraria testemunhas que afirmam que o ativista teria sido encurralado em um arbusto e levado em uma caminhonete branca. Endossando esta tese das testemunhas surgiu na história o jornalista investigativo  Ricardo Ragendorfer, que companha o caso desde o inicio e que afirmou ter tido acesso aos dados  preliminares da autopsia. De acordo com ele: “O corpo não teve nenhuma sugestão de ter sido submerso por 80 dias e sim 5 dias”. Outra informação que torna o resultado bastante estranho foi publicado pelo jornal El Disenso,  a informação de que descoberta do corpo de Maldonado  se deu  a 300 metros do puesto de guardia, um lugar onde as pessoas costumam buscar água. Dois dias antes do corpo ser encontrado pessoas  estiveram no local e não havia nenhum corpo lá.

Após concluída a autopsia pelos orgãos oficiais a família de Santiago Maldonado emitiu uma carta aberta em que informou que :

“A verdade de como, quando e onde morreu Santiago ainda é desconhecida e é por isso que continuaremos a exigir uma investigação imparcial, independente, eficaz e exaustiva.

Uma vez que o  médico-legal  terminou, o juiz Federal Dr. Gustavo Lleral ordenou, a nosso pedido, novas medidas de teste a serem realizadas nas próximas semanas.

Ao mesmo tempo em que exigimos justiça e conhecemos a verdade, estamos colaborando permanentemente na causa para descobrir quais foram as circunstâncias que levaram ao desaparecimento e morte de Santiago.

Confirmamos que as seguintes certezas permanecem válidas:

a) que em 1 de agosto houve uma repressão selvagem por uma força de segurança do estado conduzida e apoiada pelas autoridades políticas;

b) que houve desvios e obstruções no que parte da Justiça Federal de Chubut e do Poder Executivo Nacional;

c) que é necessário contar com o apoio de pesquisadores especializados e independentes para conhecer a VERDADE, obter JUSTIÇA e evitar IMPUNIDADE no caso da morte de Santiago.

Velório de Santiago Maldonado. Foto:Silvana Colombo, La Nacion

Santiago Maldonado foi velado em sua cidade natal, 25 de Mayo.

No funeral de Santiago o rosto de Santiago estava espalhado por todos os lugares, em cartazes e em murais, assim como os recorrentes pedidos de justiça e os gritos de  “Santiago Maldonado!”, “Presente!”,” Agora! “,” E sempre! “.

A cerimonia teve a presença das Mães da Plaza de Mayo, cujo os filhos desapareceram durante a ditadura militar argentina, de amigos, de representantes das organizações pelos Direitos Humanos e da família, além de outras pessoas que estiveram no local enquanto a cerimonia foi aberta a comunidade.

Enquanto este velório ocorria na cidade de 25 de Mayo durante o sábado, os presentes foram surpreendidos com a noticia (que chegava até eles por mensagens em SMS) da morte de Rafael Nahuel (22), um mapuche da comunidade  Lafken Winkul Mapu, assassinado em uma operação policial da prefeitura naval autorizada pelo juiz Gustavo Villanueva, com o apoio de forças de segurança nacional, em Villa Mascardi, na província argentina de Río Negro em circunstancias parecidas com a que ocorreu o desaparecimento de Santiago.  “Mais do que uma operação repressiva, foi uma caça racista”, disse o advogada Natalia Araya, também representante da Assembléia Permanente dos Direitos Humanos. 

A caça foi a manchete do jornal Página 12 neste domingo(26).

Rafael Nahuel, conhecido também como “Rafita” era  ferreiro e carpinteir,  profissões que aprendeu graças a um programa social de uma ONG e teve uma história familiar marcada por conflitos dolorosos.A autopsia no corpo de Nahuel determinou que o calibre do projétil corresponde ao utilizado pela patrulha de Albatros, um grupo de elite da policia argentina, que usavam metralhadoras MP5, bem como armas com cartuchos de borracha e bombas de efeito moral.

No operativo em que morreu Nahuel crianças (entre 1 e 10 anos) e mulheres ficaram detidas por cerca de 12 horas.

O Ministério da Segurança Nacional da Argentina, encabeçado por Patricia Bullrich, exerceu ontem uma forte defesa dos procedimentos da policia, de forma semelhante à seguida após o desaparecimento de Santiago Maldonado. “Foi uma ação legal e legítima contra uma ação ilegal, violenta e inaceitável para a democracia de um povo que quer viver em paz”, afirmou a ministra. Bullrich acrescentou que “confia na investigação judicial para demonstrar que [a policia e a prefeitura] agiu sob todas as medidas operacionais e protocolos utilizados em um confronto armado”.

A policia tem apresentado a tese de quem havia armas de fogo com os Mapuche. Porém isso é negado pelos indígenas, até o momento, o grupo de Mapuches conhecido como RAM (Resistência Ancestral Mapuche) liderado por Facundo Jones Huala, (que está preso em Esquel acusado de incendiar um latifúndio em 2013),  tem reagido as repressões policiais, porém, ao que se tem noticia, apenas com a utilização de pedras.

Os Mapuche Fausto Jones Huala (irmão de Facundo) e Alejandro González, que socorreram Nahuel quando foi atingido pelas costas foram presos, e outras duas pessoas foram feridas.

Frente ao assassinado de Nahuel foi convocada uma manifestação na Praça de Mayo em Buenos Aires através da Red de Apoyo Comunidades en Conflicto – MAP , da organização Memória da Reunião, da Verdade e da Justiça e da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Institucional, no mesmo domingo em que Santiago Maldonado foi enterrado. Na marcha  estiveram presentes dezenas de pessoas entre populares e organizações de direitos humanos e grupos ligados a esquerda argentina. Houve grande comoção e mais pedidos de justiça.

Manifestação ocorrida domingo, 26/11/2017 na Praça de Mayo
Além do uso de armas com balas de chumbo em  operações de desocupação contra os mapuche é notável o aumento da repressão durante a Era Macri. O governo se recusa a qualquer tipo de negociação com os indígenas e prepara uma ordem judicial para identificar vários fugitivos do despejo em que morreu Nahuel.
Policiais agindo durante manifestação mapuche no Chile, em protesto ao assassinato de Rafael Nahuel.
E nada disso você viu na grande mídia brasileira.
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