Duginismo: a onda conservadora adentra o próprio seio da esquerda

  A esquerda não está imune ao fascismo por se definir ‘esquerda’.

Placa sérvia em Montenegro: O encontro de interesses do Putinismo e do partido republicano impulsionaram a “quarta teoria política” tanto no ocidente quanto no oriente.

O duginismo (de Dugin, cientista político russo) é um movimento político de natureza conservadora que se forma na confluência de opiniões da extrema-direita e setores mais centralistas de esquerda. Também chamado de eurasianismo, nacional bolshevismo ou quarta teoria política, seu crescimento ficou mais evidente quando alguns grupos de esquerda estalinistas, chamaram um “apoio crítico” a eleição de Donald Trump para evitar a continuidade do governo Obama em uma nova presidência do partido democrata nos EUA, na linha da estratégia geopolítica do governo russo de Vladmir Putin.

Essa corrente cresce nutrida por material jornalístico de mídia russa ou da Ásia (daí o nome eurasianos), onde o governo Putin, identificado politicamente à direita, demonstra interesses em contrabalancear a hegemonia americana e apoia, ao mesmo tempo, regimes centralistas de esquerda (Venezuela) e alternativas de extrema-direita nos países ocidentais (Trump nos EUA, Le Pen na França, e partidos fascistas na Áustria, Alemanha, Grécia e Bulgária). Propaganda putinista já é compartilhada nas redes sociais como o Whatsapp e Facebook por grupos como “Avante”, “Legião Nacional Trabalhista”, “Nova Resistência”, além de outras organizações visíveis ao olhar mais atento, com boa aceitação tanto pelo público que se identifica com o jargão “Stalin matou foi pouco” quanto pela turma do “bandido bom é bandido morto”.

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Memes com referências “positivas” a Putin são bem frequentes nas redes sociais e desencadeiam especulações sobre a natureza política (direita, esquerda) de seu governo.
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reação de militantes de extrema-direita expostos à propaganda conservadora putinista

Duginistas tem por estratégia borrar as noções de direita e esquerda políticas, ou de resignificar a esquerda como sinônimo de nacionalismo, no contexto de uma luta de países anti-imperialistas contra a globalização. A esquerda clássica (anti-capitalista) é empurrada para a “extrema-esquerda”, em uma tentativa da ideologia em ganhar o centro ‘moderado’, escondendo seus aspectos mais totalitários. Fazem defesa acentuada do Estado nacionalista, militarista e bélico, como manifestação suprema de sucesso tecnológico, científico e cultural de um povo.

No Brasil, duginistas tendem a cultuar figuras históricas como Getúlio Vargas e Enéas Carneiro. Mesmo com Bolsonaro afirmando que não é extrema-direita e Lula assumindo que nunca foi socialista, os duginistas fogem dessas figuras políticas altamente polarizadas e parecem estar confluindo para a eventual candidatura de Ciro Gomes (PDT), em 2018. Outra importante referência atual é Aldo Rebelo (ex-PCdoB), que lançou um manifesto de união nacional, contra o maniqueísmo e pelo diálogo com os militares, que contém vários elementos do discurso duginista. Aldo foi ministro dos Esportes do Governo Dilma durante a copa de 2014, um marco importante devido à sequencia de eventos esportivos da aproximação da FIFA com o grupo de países dos BRICS.

Fala do finado Enéas ilustrativa do discurso político dos afinados com a quarta teoria.
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Tentativa rotular as críticas à realização da copa de 2014 como anti-patrióticas. A copa foi marco importante pois muitos grupos de esquerda criticaram o evento, enquanto os mais nacionalistas se portaram no estilo “Brasil: Ame-o ou deixe-o” da década de 1970.

Essa ‘nova velha’ ideologia valoriza a educação e cultura, sobretudo a erudição, afirma a importância da tradição e auto-determinação dos povos, mas se os elementos de luta se dão em países não alinhados aos EUA, como nas greves na China, rebeliões anti-homofobia na Geórgia, protestos como os de 2013 no Brasil, ou rebeliões indígenas como as de Chiapas no México, são denunciadas por que estariam ‘inevitavelmente’ ligadas a uma agenda imperialista global coordenada por Think Tanks americanos ‘deterministicamente’ no comando dos principais eventos políticos do planeta. São, assim, presas fácil de teorias da conspiração.

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Charge política com dupla função: Igualar as críticas ao Estado feita pelo liberalismo personificado no personagem do burgês e por setores de esquerda, retratados pejorativamente como se fossem delinquencia juvenil pós-moderna personificada na figura do punk.

Contra a globalização, fazem apologia a qualquer governo de direita ou esquerda que se defina como ‘nacionalista’. Tome, por exemplo, a defesa do governo quasi-ditatorial da Turquia que sobreviveu recentemente a uma tentativa de golpe de Estado combatendo tanto a direita burguesa urbana ligada à Europa quanto a oposição de esquerda clássica. Uma vez que as diversas ideologias de esquerda têm, em graus diferentes, críticas ao papel das instituições governamentais na manutenção do status quo, a hipervalorização duginista do papel do Estado delimita, por consequencia direta, uma estratégia narrativa que consiste na tentativa de igualar a idéia de “Estado mínimo” dos neoliberais (de direita) com ideais de autonomia de seus adversários socialistas mais libertários (de esquerda), como se a crítica ao Estado feita por ambas ideologias fosse exatamente a mesma.

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Material usado para atrair tanto a direita quanto a esquerda política, com apelo à união de raças em um ideal nacionalista unificado.

Geralmente maquiavélicos, costumam nutrir uma visão de que a essência da natureza humana é má e incapaz de cooperação sem a estrutura social repressiva; e que as demandas por autonomia degenerariam a sociedade em uma “anarquia”, palavra usada no sentido do banditismo de um filme de faroeste. Essa negação de autonomia é cruel principalmente aos povos distintos dentro de um Estado nacional multiétnico. Assim, índios e quilombolas são apenas “brasileiros”, os mapuches são “chilenos” e a guerrra síria é super-simplificada como uma luta entre um agressor externo e um bravo povo que resiste ao imperialismo, ignorando que a guerra se deu, por entre outras causas, porque o conceito de povo sírio unificado só existia sob repressão. Da mesma forma, a luta dos curdos nos quatro Estados onde existem, seja Síria, Iraque, Irã ou Turquia, é assim deslegitimada porque se opõe a estruturas estatais consideradas “anti-imperialistas”, ignorando que foram os próprios europeus que, de modo imperialista, influenciaram a definição dessas fronteiras ao final da 1a Guerra Mundial.

Propaganda contra Jean Willys (PSOL). Sua atuação ‘identitária’ na defesa de homossexuais não apenas no Brasil, mas nas críticas aos governos de países aliados ao putinismo como a Geórgia e o Irã, o torna alvo preferencial desses ataques pessoais. Homofobia explícita é comum entre os adeptos, mas desencorajada nas postagem formais.

Seus expoentes costumam ser sujeitos eruditos, cultos, mas os seus adeptos têm dificuldade em distinguir o povo das ações de seu respectivo Estado nacional. Críticas ao Estado de Israel, por exemplo, costumam descambar rapidamente para antissemitismo. Críticas ao papel de hegemonia militar dos EUA, ou seja, ao imperialismo, viram críticas a estupidez dos “yankies”. Se são feitas críticas ao papel “alter-imperialista”, da Rússia, China, ou mesmo do Brasil na África, elas costumam ser “rebatidas” como necessidade de desenvolvimento dos outros povos, especialmente os mais “atrasados”, exatamente como é feito no mesmo discurso do imperialismo “raiz”, associado aos Estados Unidos ou aos países da União Européia.

Essa confusão entre o papel do Estado e as ações de um povo também os leva a simplificar processos de conquistas sociais como méritos de líderes políticos. Por exemplo, a derrota dos nazistas não seria obra do exército vermelho, ou os bons indicadores em saúde pública não foram vitórias da revolução cubana, mas são méritos dos respectivos Estados personificados na suposta genialidade política de Stalin e Fidel. O culto à personalidade pode exagerar a importância dos líderes a tal ponto de imaginar que não haveria a segunda Guerra Mundial se uma hipotética viagem no tempo impedisse o nascimento de Hitler, não considerando que, no caso, talvez o nome do führer fosse Göring, Himmler ou Goebbels.

 

 

O combate aos aspectos internacionalistas do socialismo leva a situações cômicas, como crítica à “Internacional Socialista”, hino revolucionário e que já foi o hino da União Soviética, lamentada como apologia à globalização, por versos como “Bem unidos façamos, nesta luta final, uma terra sem amos: a Internacional”

Outras características identificáveis no discurso duginista são: a hierarquia de pautas submetidas à prioridade anti-imperialista ou mesmo a repressão de ativismo ‘identitário’ (anti-racismo, feminista e anti-homofobia); a ridicularização do internacionalismo como utópico em oposição ao nacionalismo “pé-no-chão”; eufemismos para com o período da ditadura militar brasileira do tipo: “pelo menos eram nacionalistas e não entreguistas” e até a defesa de empresas privadas como a Odebrecht e JBS como “patrimônios nacionais”.

“Os Eua e a nova ordem mundial” é o resultado da iniciativa de “tradicionalistas” russos e brasileiros de colocar em debate as figuras de Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho

Por fim, de todas as mazelas que a ideologia traz, a ênfase é dada na naturalização, via “cavalo de tróia”, de idéias de extrema-direita no seio da esquerda e a redução de seu papel ao mero anti-imperialismo (americano), não propondo fim das diversas formas de opressão, nem melhorias na sociedade, e apenas a reorganização da ordem mundial conservadora porém eurasiana, ou como eles definem, multipolar… A onda conservadora,processo bastante discutido no contexto político atual, se faz, também, através da esquerda, que não está imune ao fascismo por se definir ‘esquerda’. Se não houver auto-crítica, estes militantes estarão criando, como cita Karl Marx, em o Capital, ‘um caminho para o inferno pavimentado por ‘boas intenções’.

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Mauro Cardoso

Médico Epidemiologista e Estatístico, atua na área de saúde pública estudando os cavaleiros do apocalipse: a peste, a fome e a guerra.