Ecologia e a sua Assimilação pelos Capitalistas

por Brian Morris, Originalmente publicado na Libcom em 2010

Traduzido em 2020 por Zenorev

Muito tempo atrás, o biólogo Paul Sears descreveu a ecologia como a “ciência subversiva”, e não há dúvida de que quando me envolvi com questões ambientais pela primeira vez na década de 1960, a ecologia era vista como um movimento radical. Os escritos de Barry Commoner e Murray Bookchin enfatizaram que estávamos enfrentando uma crise ecológica iminente e que as raízes desta crise estão firmemente apoiadas em um sistema econômico – o capitalismo – que era voltado não para o bem-estar humano, mas para a geração de lucro, que não viu limites para o crescimento ou a tecnologia, até mesmo comemorando as conquistas da “megamáquina”.

Em última análise, foi sentido, por Commoner e Bookchin, que o capitalismo era destrutivo não apenas para nós, mas para toda a estrutura da vida no planeta, pois a ética subjacente do capitalismo era de fato a dominação tecnológica da Natureza, uma ética que via a biosfera como sem valor intrínseco; era simplesmente um recurso a ser explorado – pelo capital.

Por mais de 30 anos Bookchin descreveu o capitalismo como “pilhagem do planeta” em busca de lucro, e destacou com alguma antecipação – muito antes de Al Gore e George Monbiot – que as emissões de CO2 levaria a  padrões climáticos destrutivos e, eventualmente, ao derretimento das calotas polares e o aumento do nível do mar (em “Post Scarcity Anarchism” 1971: 60). 

Isso foi para além de muitos outros problemas ecológicos que Bookchin identificou como constituindo a “crise moderna” – desmatamento, urbanização, o impacto da agricultura industrial, poluição dos oceanos, produtos químicos tóxicos e aditivos alimentares, e a destruição desenfreada da vida selvagem e da perda subsequente da diversidade de espécies.

A crítica ecológica pioneira de Bookchin ao capitalismo industrial foi mais recentemente reafirmada (com pouco reconhecimento a Bookchin!) No excelente “The Enemy of Nature” de Joel Kovel (2002) – o inimigo, é claro, é o capitalismo global.

Como as coisas mudaram! O “aquecimento global” está agora firmemente na agenda política, reconhecido por quase todos, exceto alguns neoliberais de direita obstinados, e todos estão sendo persuadidos a encontrar maneiras de “salvar” o planeta. Essa arrogância é bastante incompreensível! Os humanos são totalmente incapazes de destruir o planeta; o que eles estão fazendo por meio de um sistema econômico baseado na ganância e na exploração, é tornar muitas partes da terra virtualmente inabitáveis para os humanos e outras formas de vida.

Questões “ecológicas” ou “verdes” têm, portanto, sido adotadas por indivíduos e grupos de todo o espectro político. Até os neonazistas afirmam ser anti-capitalistas e abraçar a perspectiva verde. Portanto, você não ficará surpreso ao saber que a maioria das grandes corporações transnacionais – incluindo Shell, Nestlé e Coca Cola – embarcaram no movimento verde e estão exigindo com entusiasmo que todos reduzamos nossas emissões de carbono.

Então, o que está acontecendo? Quatro vieses, eu acho, são dignos de nota.

O primeiro é que as corporações capitalistas estão agora em processo de “tornar mais verde” sua imagem pública. Algo em que a corporação Shell está engajada há várias décadas, devido ao seu péssimo histórico em termos de destruição ambiental. Seria difícil encontrar qualquer grande empresa transnacional hoje em dia que não aclama e anuncia com orgulho sua sensibilidade ecológica e suas credenciais “verdes”.

Em segundo lugar, embora a maioria das pessoas agora reconheça que existe uma crise ambiental, esforços estão sendo continuamente feitos para nos convencer de que essa crise não tem nada a ver com a economia capitalista em si.

Os “eco-espiritualistas” há muito nos informam que tudo se deve à falta de espiritualidade, ou que há muitas pessoas no mundo, ou mesmo que os humanos são por natureza “alienígenas” ou “parasitas” indesejados na Terra. Esses sentimentos misantrópicos foram criticados há muito tempo por Bookchin. Portanto, de acordo com essas pessoas, o que precisamos é um casamento adequado entre capitalismo e espiritualismo! Não mesmo!

Os especialistas em desenvolvimento, ao contrário, colocam a culpa dos problemas ecológicos, como o desmatamento, nas vítimas, os camponeses pobres que, por sua pobreza e falta de técnicas agrícolas modernas, estão destruindo – dizem – as florestas. Porém, é claro, os principais culpados são as madeireiras, as mineradoras, e as empresas de pecuária em expansão que atendem à crescente demanda por carne.

Os especialistas em desenvolvimento criaram há muito tempo o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Isso não tem nada a ver com a conservação da Natureza; é tudo uma questão de sustentar o “desenvolvimento”, ou seja, o crescimento capitalista.

O que também obscurece a questão é a sugestão de que o aquecimento global e outras questões ambientais nada têm a ver com um sistema econômico voltado para o crescimento e o lucro privado: deve-se exclusivamente às ações de “consumidores” individuais. Portanto, todos nós somos instados a fazer o que pudermos para “salvar” o planeta.

Em terceiro lugar, esta louvável preocupação com o meio ambiente por parte das corporações transnacionais é claramente uma frente para permitir que essas corporações busquem novas oportunidades de expansão capitalista e de geração de ainda mais lucro. Assim, parques eólicos industriais cobrindo grandes áreas do campo, a produção crescente de biocombustíveis (às custas da produção de alimentos) e a expansão e exportação da indústria nuclear para todas as partes do mundo, todas as três iniciativas são anunciadas como grandes maneiras de cortar “emissões de carbono” e assim ajudar a salvar o planeta. Mas a que custo social e ecológico? Vale ressaltar que cada uma dessas iniciativas está nas mãos de grandes empresas, amplamente subsidiadas pelos governos ocidentais.

Por fim, o que também vivenciamos nas últimas décadas, como mais uma defesa do capitalismo verde, é a emergência do conceito de “gestão global”.  Para proteger o planeta, portanto, precisamos (dizem-nos) de uma infinidade de especialistas em conservação e ecotecnocratas para monitorar o planeta e oferecer consultoria a governos e corporações transnacionais sobre a melhor forma de “salvar” o planeta. Mas “salvar” o planeta, como Wolfgang Sachs argumentou (em “Planet Dialectics”, 1999) é na verdade pouco mais do que uma justificativa para uma nova onda de intervenções do Estado na vida das pessoas comuns.

Os anarquistas precisam ser cautelosos e críticos com cada uma desses quatro vieses. Precisamos, portanto, desenvolver um projeto que combine o socialismo libertário (não o individualismo radical dos estetas nietzschianos) e uma sensibilidade ecológica (não neo-primitivismo) como sugeriram Piotr Kropotkin, Edward Carpenter e Eliseé Reclus há muito tempo.

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