El Coyote entrevista Emilio Crisi. Autor do Livro “Revolução Anarquista na Manchúria (1929-1932)”

Emilio Crisi é pesquisador autodidata, militante sindical e integrante da Federação Anarquista de Rosário (FAR), Argentina. Também integra a coordenação de uma iniciativa de pesquisa internacional, intitulada Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA). Nesta pesquisa tentamos obter mais informações sobre seu livro recém-traduzido ao português e que será lançado pela Editora Faísca ainda este ano.

 

1. Primeiro, gostaríamos de lhe parabenizar por essa contribuição a história do anarquismo no mundo. Começamos perguntando como você iniciou essa investigação?

Obrigado companheiros! Esta pesquisa começou por volta de 2008 quando li vários textos que falavam de uma revolução camponesa de coreanos no exílio na região da Manchúria. Em materiais de Alain MacSimoin e Ha Ki-Rak, eles dão conta desses fenômenos e, ao mesmo tempo, abordam com quão pouca profundidade o assunto tem sido tratado. É aí que escrevo o primeiro rascunho de algumas páginas reproduzindo apenas parte do material compilado até 2009. Finalmente, em 2013, o companheiro Felipe Correa insiste em aprofundar a tarefa investigativa e é aí que ele me envia um guia de trabalho para iniciar uma investigação mais exaustiva. Seguindo essa tarefa, eu finalmente consegui chegar ao que atualmente conhecemos como “Revolução Anarquista na Manchúria 1929-1932”.

De qualquer forma, estando ciente de que este trabalho é uma primeira aproximação ao assunto e que ainda há muito a pesquisar e especificar, espero que outros companheiros/as possam aprofundar essa tarefa na hora de extrair mais elementos que contribuam para a reconstrução desse importante episódio da história do anarquismo organizado.

 

2. Por quais razões essa revolução permaneceu desconhecida para a maior parte do anarquismo e do socialismo até hoje?

Como se tenta expressar no livro, existem várias causas pelas quais o fenômeno ganha pouca relevância em nível mundial, tanto dentro como fora da militância anarquista.

Primeiro, devemos mencionar o que diz respeito à historiografia ocidental quando se trata de contar a história da classe oprimida e suas lutas pela emancipação.

A concepção eurocêntrica de grande parte do anarquismo, como o resto da tradição de esquerda, deixou de lado processos revolucionários de imensa importância histórica. Inclusive tampouco se realizaram esforços para conhecer e difundir contribuições teóricas de importância formuladas pelo anarquismo na Ásia e outras regiões. Compreendendo este aspecto, podemos localizar a importância e a magnitude dos eventos revolucionários na Manchúria, talvez a altura dos outros dois grandes marcos do anarquismo, como a Revolução Social Espanhola e a Makhnovtchina Ucraniana.

Outro fator que indubitavelmente influenciou esse problema foi a distorção dos fatos da historiografia marxista e nacionalista que, embora tenham fornecido ainda mais informações do que a própria fonte libertária, chegaram a tergiversar aspectos ideológicos centrais do evento.

Por último, algo que também impediu a importância mundial do processo na Manchúria, teve uma relação com o contexto da região e a multiplicidade de conflitos desencadeados nele. Nesse sentido, simultaneamente à revolução libertária, uma resistência anticolonial e uma guerra de independência estavam se desenvolvendo, seguida pela Segunda Guerra Sino-Japonesa, depois a Segunda Guerra Mundial e depois a Guerra das Duas Coreias. A perseguição política, os exílios, prisões e assassinatos, somados à queima de documentação e registros dos exércitos coloniais, contribuíram sem dúvida para a perda de informações, relatos e interpretações orais e escritas desses fatos.

Capa do livro em Espanhol lançado pela editora Utopia Libertária.

3. Você poderia rapidamente dizer quais foram os elementos determinantes do desenvolvimento do processo revolucionário “Manchu” e qual foi o papel do anarquismo nessa revolução?

Existem vários elementos que se aglutinam para dar vida a esta experiência que, de fato se encontram mais desenvolvidos no livro.

Um deles é a situação em que o povo coreano se encontrava no início do século XX, imerso em um sistema de escravidão que gerou apenas misérias e dificuldades em seu meio. Sistema cimentado sob a opressão das duas últimas dinastias coreanas, bem como a sangrenta invasão do Império Japonês.

Outro elemento importante tem a ver com a vasta experiência organizativa do campesinato coreano, desenvolvida no calor de todas as convulsões realizadas nos últimos séculos.

Finalmente, é indispensável destacar o exílio econômico e político ao qual foram empurrados centenas de milhares de coreanos  – à partir da invasão japonesa – que concentraram, por um lado, grandes setores camponeses na região da Manchúria, ao mesmo tempo em que aglutinou os militantes anarquistas coreanos com centenas de militantes libertários de outros países e regiões do leste da Ásia. Esse fluxo crescente alimentou indubitavelmente um singular internacionalismo revolucionário, cujo papel foi indispensável para o processo de resistência anticolonial na região.

Vale a pena destacar aqui os debates que se davam no interior do anarquismo do Leste asiático, representados em duas posições significativas. Uma representada pelo anarquismo japonês que defendia uma revolução social impulsionada pelo proletariado urbano,  num país em pleno processo de industrialização. A outra posição, encabeçada pelo anarquismo chinês, levantou a necessidade de inserção nas áreas rurais por entender que muma região onde a maioria da população vivia em áreas agrárias, a revolução seria liderada principalmente pelo campesinato. Nesse sentido, o anarquismo coreano – que na época já atingia altos níveis de desenvolvimento e inserção social dentro e fora da península – avaliou seriamente as duas possibilidades, e finalmente decidiu enfatizar o desenvolvimento do trabalho militante nas comunidades camponesas dos exilados a leste da Manchúria.

 

4. Havia alguma organização política anarquista atuando na Manchúria, antes ou durante a revolução? Qual foi a sua participação no processo?

Este ponto é importante. Ao iniciar a pesquisa sobre este processo revolucionário eu já havia lido sobre a experiência de outros processos do mesmo tipo: uma revolução social construída à partir da rica experiência de luta dos povos oprimidos. Foi assim que me deparei com excelentes trabalhos escritos sobre a Revolução Camponesa na Trácia e Macedônia em 1903 impulsionada pelo anarquismo búlgaro, a Revolução Magonista na Baixa Califórnia e sua influência sobre a Revolução mexicana entre 1905 e 1912 (com o impulso do Partido Liberal Mexicano), o importante legado da experiência da Makhnovtchina Ucraniana e a incidência do anarquismo na Revolução Russa e na revolta de Kronstadt, e o processo revolucionário mais conhecidos pela nossa militância que foi a Revolução Espanhola e a dinâmica da FAI nesta. Por influência direta em nossa região, inevitavelmente encontrei uma rica história organizacional do anarquismo latino-americano influenciando diretamente as primeiras décadas de greves operárias no continente. Como um resumo dessa leitura – e como uma das principais referências ideológicas do Cone Sul – temos o exemplo dos 60 anos da Federação Anarquista Uruguaia, dos 30 anos de coordenação do anarquismo brasileiro e repetidas tentativas de organização na Argentina da última década.

Partido desta ideia é que eu pude mergulhar na leitura e encontrar informações sobre a existência de uma organização anarquista que estava influenciando – com planejamento e acordo programático – o processo na Manchúria. Efetivamente é aqui que surge a Federação Anarquista do Leste, por exemplo, com a participação de delegações da China, Vietnã, Taiwan, Japão, Filipinas, Índia e, obviamente, da Coréia.  Na península já existia há muitos anos a Federação Anarquista Coreana, mais tarde convertida na Federação Anarco-Comunista da Coréia. À partir da expansão organizativa no seio da FACC se cria a Divisão Kwan Seo com atuação na península, a Divisão Japão, a Divisão China e a Divisão Manchúria, mais conhecida como a Federação Anarquista  da Coréia na Manchúria. Esta última, com referências importantes como o jovem Kim Jong-jin, Yu Rim, os irmãos Lee Jung-kyu e Lee Eul-kyu, Kwon Wha-san, Han Cheong-am, Chung Shin, Parque Kyeong-cheon, Lee Bong-hae Kang Seak-cheon, Lee Dal, Kim Ya-bang, Kim Ya-won, Lee Deok-pae, Eum Hyeong-soon e o já veterano Lee Hwae-young. A maioria das referências desta organização política fará parte da primeira estrutura administrativa da Comuna, encarnada pela APCM (Assembléia do Povo Coreano na Manchúria).

Emilio em atividade de apresentação do livro.

5. Que lição você acha que podemos extrair hoje deste episódio?

Como se tentou expressar no livro, há vários elementos a ter em conta para pensar a militância dos anarquistas. A necessidade de uma organização política federal que contenha um programa, uma estrutura, planejamento, acordos orgânicos, princípios, uma estratégia clara de inserção e propostas concretas. A importância de um envolvimento total da militância anarquista com as lutas sociais do seu tempo, a inserção social, o trabalho de base – que como mostraram os nossos companheiros no meio camponês da Coreia – que gera ao longo do tempo resultados coerentes com nossa estratégia revolucionária. Também é imprescindível conhecer experiências de inserção do anarquismo nas camadas mais baixas de um exército regular, como aconteceu em vários momentos da história – Rússia, Ucrânia, etc – e como foi proposto na Coréia, o que resultou na fratura da Divisão Norte do Exército de Independência contribuindo para a causa libertária.

 

6. Finalmente, deixamos um espaço para você comentar algo relevante nesse debate e agradecemos sua entrevista.

Um aspecto importante que eu não tive consegui acessar tem a ver – com exceção de alguns dados perdidos – com o papel das mulheres em todo o processo revolucionário e nas organizações políticas anarquistas. Há certas indicações – que podem fornecer hipóteses – que aparecem com as quais poderíamos pensar esse papel. Por exemplo, analisando a estrutura da família camponesa coreana, o constante tráfico de armas para a região, assim como os dados referentes ao extenso trabalho educativo durante anos, realizado pela militância. No entanto, este aspecto de grande importância cai, infelizmente, em um vácuo historiográfico que deve ser completado com o trabalho de futuros/as companheiros/as

Agradeço ao El Coyote pela entrevista e estou ao seu dispor.

 

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