Em memoria de Aaron Swartz.

Gostaria de iniciar este artigo com uma pergunta simples: o que é poder para você?

A sordidez da política profissional, que fez de alguns homens ricos, fez também voltar à moda a velha frase atribuída a Abraham Lincoln: “se quiser por à prova o caráter de um homem dê-lhe poder”. Creio eu (como um esperançoso irremediável) que a maioria da população, vitimada pela ganância dos poderosos sem caráter, ainda acredita em outra máxima, a que reza que “conhecimento é poder”.  Se procurarmos no dicionário ou mesmo na internet, veremos que várias são as definições possíveis de poder, entre as mais conhecidas estão as relacionadas à influência, ao dinheiro, a autoridade e ao saber. Também pode vir à mente do cidadão comum super-heróis dos quadrinhos e do cinema, com seus poderes sobrenaturais e extraordinários. Dedico este texto a contar um pouco da história de um herói, não dos quadrinhos, mas da vida real, seu nome é Aaron Hillel Swartz.

Grafite com os personagens Bradley (atualmente Chelsea) Manning, “Anonymous”, Edward Snowden, Julian Assange e Aaron Swartz. Artista: Bergen.

A vida de Aaron Swartz mostra que ele teve todas as oportunidades de concentrar em torno de si mesmo “o poder”, em suas mais diferentes formas e em quase todos os conceitos citados até este momento. Não fosse Aaron Swartz ele poderia ser Mark Zuckerberg ou Steve Jobs. Só para se ter uma ideia, ele aprendeu a programar ainda criança, em um curso Online do Massachusetts Institute of Technology  (MIT). Com apenas 14 anos de idade, Swartz foi co-autor da ferramenta de atualização de sites conhecida como RSS e aos 15 já ajudava a escrever as especificações do Creative Commons (que hoje permite a utilização de alguns conteúdos livres de cobrança por parte dos autores). Mas, em especial, Swartz era conhecido por ser um dos fundadores da plataforma de compartilhamento de noticias e rede social Reddit. Foi o Reddit que fez de Aaron popular nos anos 2000 e um homem rico muito cedo, ele ainda tinha seus 20 anos quando, em outubro de 2006, o Reddit foi comprado pela gigante Condé Nest.

No auge da juventude, com uma mente privilegiada e muito dinheiro no bolso, Aaron Hillel Swartz tinha tudo para ser capa da Forbes e magnata do Vale do Silício, acumulando ainda mais dinheiro e bens materiais e conquistando assim um exercito de bajuladores, mas não se adaptou ao chamado “curso natural das coisas” em nossa sociedade, lembrando a filosofia de Jiddu Krishnamurti  “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Aaron Swartz teve a coragem de ser Aaron Swartz.

Em 2006 nosso jovem herói estava simplesmente de saco cheio do emprego,  chegou até a postar um desabafo em seu blog pessoal a respeito do assunto. Em janeiro de 2007 foi demitido, porque deixou de ir ao trabalho, como na velha historia do sujeito que foi comprar cigarros e nunca mais voltou. A partir de então dedicou a vida integralmente a lutar pelas causas que acreditava, atuou em movimentos pelos direitos civis, pela liberdade na rede e pelo uso da internet como ferramenta de mudança da sociedade. E foi nesta esteira de modificação do mundo através da rede mundial de computadores, que Aaron ajudou a criar outras ferramentas importantes como o site Watchdog, de  criação de petições públicas; o Demand Progress, plataforma que tem como objetivo solucionar demandas de cidadãos comuns através de contato com membros do congresso e ações judiciais movidas em causas coletivas e  a Open Library, cujo o objetivo é ser, um dia, a maior biblioteca do planeta. Em 2008 ele se irritou com o Pacer, serviço online que fazia cobrança pelo acesso a documentos jurídicos criados com dinheiro público, assim criou um programa no qual pessoas poderiam ter acesso a milhões desses documentos (em  três semanas, ele tinha conseguido carregar mais de 18 milhões de páginas), passou então a ser perseguido pelo FBI. De acordo com familiares do protagonista da nossa história, um agente do FBI chegou até mesmo a invadir a garagem da casa da família de Aaron . 

Mais que um pacifista marchando pelas ruas de Nova York ou um ciberativista comum Aaron se pôs na linha de frente, assumindo riscos e pondo também em xeque a própria liberdade. Segundo seu amigo Lawrence Lessig “cada ação e cada passo na vida de Aaron Swartz visou o bem público”, e através de sua capacidade fora do comum de por ideias em prática ele buscou alcançar uma sociedade em que o povo fosse o real detentor de todo o poder que lhe é de direito. Uma das formas de poder a qual Swartz acreditava que deveria ser de total acesso ao povo era a informação. Por sua crença inabalável  na liberdade de acesso a informação escreveu o  “Manifesto da Guerrilha pelo Acesso Aberto” .

Em 2011 o manifesto  da guerrilha pelo acesso aberto deixou de ser apenas um punhado de palavras e foi posto em prática.  Swartz foi detido por usar a rede do MIT para fazer um download massivo de todo o repositório do Jstor (uma publicação restrita de artigos científicos), para disponibiliza-los  na internet. Aaron pagou o preço de sua coragem, US$ 100 mil de fiança só para se livrar da cadeia, para ser mais exato, mas não apenas isto, passou a enfrentar também  um processo, levado a cabo pelo Jstor. Tendo sido enquadrado em uma série de crimes, se condenado nosso herói  poderia pegar uma pena de até  50 anos de reclusão, tendo também que arcar com uma multa de 1 milhão de dólares. Entre as cenas mais marcantes do processo é memorável a procuradora Carmen Ortiz (incumbida da acusação) afirmando que   “Roubo é roubo, não interessa se você usa um computador ou um pé-de-cabra, e se você rouba documentos, dados ou dólares”.

Documento com a lista de acusações de Aaron Swartz no processo do Jstor.

 

No inicio de 2012 Aaron Swartz, também  foi um dos principais articuladores do movimento que derrubou os projetos de lei conhecidos como SOPA e PIPA, que com a justificativa de combater a pirataria poderiam levar a censura de vários websites. Mas, longe de nosso olhos, o ativista ainda lidava com a perseguição das autoridades dos EUA e com um processo do qual ele se recusava a se declarar culpado até o fim da vida.  Em 11 de janeiro de 2013, aos 26 anos,  Aaron Hillel Swartz foi encontrado enforcado em seu apartamento, a causa oficial de sua morte foi o suicídio, embora muitos de seus admiradores contestem esta versão. Para a família e amigos próximos Swartz foi vitima da pressão e de uma série de injustiças por parte do Jstor, do MIT (onde Aaron chegou a trabalhar com Tim Berners Lee – inventor da World Wide Web) e do governo dos EUA. De qualquer maneira é provável que o hacker tenha pagado com a vida sua desobediência civil e sua não-adaptação a sociedade capitalista, como um legitimo herói.

Meu primeiro parágrafo, em que chamo Aaron Swartz de herói, pode parecer piegas aos que levam ao pé da letra aquela citação de Bertold Becht que diz “Infeliz a nação que precisa de heróis”. Penso diferente, digo a estes que precisamos de pessoas dispostas a realizar atos heroicos, não falo aqui de mitos, sentados em cavalos brancos ou de figuras exaltadas por uma mídia corrupta, mas de homens e mulheres, que acreditam que podemos fazer um mundo melhor, independente de glórias em vida ou mesmo pós-morte. Minha mãe costumava dizer, em minha época da escola, que se quisermos tirar um seis ou um sete precisamos focar em tirar um dez, e é precisamente disso que se trata a luta por mudanças  no mundo, que não deve esmorecer em razão dos julgamentos ou de pressão da sociedade, porque as pequenas conquistas são movidas pelas grandes utopias.

Aaron Swartz acreditava que o mundo poderia ser melhor e que  poderia contribuir para isso.  Espero que este texto sirva de inspiração aos que ainda acreditam que podem mudar o mundo.

Viva Aaron Swartz!

 

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