Entrevista: Federação Anarquista Gaúcha

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O El Coyote entrevista a Federação Anarquista Gaúcha, que foi alvo junto a outros espaços sociais de um mandado de busca e apreensão pela Polícia Civil e de uma reportagem tendenciosa e criminalizadora por parte dos veículos corporativos de comunicação.

 

1 – Primeiramente, poderiam nos falar um pouco sobre o que é o anarquismo e qual é a perspectiva política da sua organização? 

O anarquismo é a corrente libertária do movimento socialista, forjado historicamente na experiência viva da luta de classes como crítica, proposta e ação. Como projeto de emancipação social não ficou casado com o passado como um dogma. Ganhou variantes na sua dinâmica, agregou elementos de discurso para pensar novas circunstâncias histórico-concretas e se deu modos específicos de organizar e expressar as aspirações de socialismo e liberdade nos conflitos sociais segundo seu tempo e lugar. É a referência histórica de um tronco de princípios e fundamentos que marcam a continuidade dessa tradição revolucionária na luta global contra o capitalismo e seus modelos de dominação. 

E sobre nossa perspectiva, que  é a do Federalismo e Especifismo, ou seja, uma organização política, específica de anarquistas, para a prática de ruptura revolucionária. E por suas finalidades revolucionárias, a organização reúne em uma minoria ativa para poder atuar na luta pública e fora dela. A organização é uma federação de militantes com unidade ideológica e estratégico-tática, com democracia interna e uma disciplina consciente para suas realizações. O anarquismo que propomos não substitui nem representa as organizações sindicais e populares. Dentro dessa concepção, não é um partido para tomar o poder, mas para ajudar a desenvolver capacidade política nas massas para construir poder popular.

Nossa concepção de anarquismo só se justifica pela inserção social, pela capacidade de nossa militância política estar em constante trabalho e vinculo com as lutas do dia a dia dos de Baixo. Acreditamos e defendemos que é no trabalho de base, com democracia e ação direta que podemos ir germinando outro futuro, um futuro que se batalha no presente para ser conquistado, que não se dobra pros conchavos da democracia burguesa, nem para as rédeas curtas do Estado opressor.

O anarquismo que tem voz em nosso projeto é uma luta estratégica contra o poder que se apoia em estruturas de desigualdade social, de violência colonial, de gênero e raça, de dominação de classe. Anarquismo que abraça um programa de socialismo na economia e no poder político, com autogestão da produção pelos trabalhadores e democracia direta e federalismo no regime da vida pública. A nossa é uma organização política pra atuar pela tática nas lutas sociais e políticas e cavar mundo novo pela ação das organizações de base do movimento social. Lutar e criar PODER POPULAR com ação direta de classe e independência dos governos e patrões

2 – Pelo que consta a FAG já foi reprimida três vezes no curto espaço de seis anos. A que se dá a essa perseguição?

Sim, este último é o quarto episódio de assédio repressivo que estamos sofrendo. Não só nós, todas e todos demais anarquistas agora vivem este avanço da campanha midiática-policial anti anarquista. Mas, nossa organização sabe que os governos e suas policias sempre estarão de prontidão para caçar os pensamentos e praticas mais rebeldes, principalmente as  que ousem desafiar as suas medidas de ajuste e repressão. 

Em 2009 foi o primeiro episódio repressivo que sofremos, nossa sede foi invadida pela policia civil do RS, a mando da governadora Yeda Crusius do PSDB, onde nossos materiais de propaganda, livros  e objetos da sede foram apreendidos. Na época estávamos em campanha de denuncia contra o covarde assassinato do sem terra Elton Brum da Silva, cometido pela Brigada Militar. Seis militantes nossos forma indiciados, mas o processo caducou na justiça…Nosso materiais, porém, nunca mais forma devolvidos. Já em Junho de2013, em meio as grandes mobilizações populares, onde modestamente tomamos nosso posto, fomos atacados de novo, mais busca e apreensão no nosso espaço, que já estava em outro endereço. Novamente livros e materiais de propaganda foram apreendidos. Aqui, já era governo do PT, com o comando do governador Tarso Genro, a policia ganhou as manchetes dizendo ter apreendido como provas de crime ” vasta literatura anarquista”, não bastasse isso, Tarso Genro, afirmou que se tratava de grupos “anarcos-fascistas”. Certamente Tarso não soube manter um nível razoável de lucidez política contra seus adversários/opositores e preferiu desatar seus desafetos de forma vil, categorizando uma ideologia de esquerda como algo semelhante ao lixo das ideias autoritárias. E, em 1° de outubro, também de  2013, o Ateneu é novamente visitado com violência pela polícia durante uma operação de caça as bruxas sobre militantes e organizações que formavam o Bloco de Lutas. O mandado faz buscas em locais coletivos e domicílios. O plano buscava elementos pra provar a teoria do domínio do fato sobre o setor mais ativo das jornadas de junho. A ideia tão simples como estúpida que estava embutida na peça era de que tudo que se produzia ao interior da revolta de massas que foi desatada pelas ruas da capital, em onda com o país, passava pelo comando dos compas e locais investigados. Resulta dessa operação 6 militantes do Bloco, de diferentes filiações ideológicas, processados pela figura penal de quadrilha e “formação de milícias privadas”, com tramite até os dias atuais.

Agora, no dia 25 de outubro de 2017, vem novo factoide associado com nossa Organização e que atinge também outros espaços e concepções libertárias. A polícia civil diz ter cerca de 10 locais e 30 pessoas investigadas e criminalizadas pelo seu factoide. Nossa solidariedade irrestrita com a Ocupa Pandorga da Azenha e o Parrhesia na Cidade Baixa, que foram invadidos e tiveram publicações e equipamentos de trabalho sequestrados pela operação policial durante este dia. São locais públicos e conhecidos por seus projetos sociais junto a vizinhança ou a comunidade de interesses que reúnem.

3 – O delegado responsável pela última operação é conhecido por investigar crimes de ódio, geralmente ligados ao neonazismo. Vocês já tinham ouvido falar dele? 

Sim, já tínhamos ouvido falar do Delegado Jardim, não só por ser a figura responsável por investigar grupos de intolerância, como os neonazis no RS, mas também por cúmplice do indiciamento de 3 professores ligados ao sindicato do CPERS, onde o mesmo os acusava de “vandalismo e dano ao patrimônio publico”, mais uma vez sem provas e sem flagrantes. Então não é muita surpresa que ele esteja no comando desta infame operação contra a nossa ideologia. 

Sabe-se que ele se vangloria muito por ter “expertise” nos assuntos relacionados aos neonazis, o que já não pode afirmar sobre o anarquismo. Também, percebesse que pelo escandaloso barulho que faz nos veículos de comunicação dominante, carrega um perfil deveras vaidoso, o que o coloca agora, na obrigação de dar alguma resposta sobre o caso de criminalização ideológica que ele assumiu. 

4 – Esse Domingo (29/10), a Globo exibiu no Fantástico uma matéria à respeito da operação policial. O que acharam dela?

Mais um factoide, uma tentativa escancarada de preparar o terreno para a criminalização das ideias combativas, em especial do anarquismo. Não dava pra esperar nada diferente da Globo que apoiou a ditadura militar, onde centenas de pessoas foram assassinadas, torturadas, sequestradas, presas, inclusive crianças, familiares de militantes políticos, etc. Estas ações que sim são dignas de punição e até hoje muito pouco ou, quase nada se avançou neste sentido.

Desde o início da operação (dia 24/10), a grande mídia local, com a RBS na linha de frente, já demonstrava ser parte ativa nessa conspiração. Acompanhando e difundindo quase que em tempo real todo o procedimento da Polícia Civil, os telejornais endossavam completamente a versão policial, emitindo toda sorte de juízo e condenações. Em meio ao show de horrores destacou-se também o telejornalismo do SBT afirmando que se tratavam de grupos neonazistas.

5 – Vocês receberam apoio de outras organizações de esquerda?

Sim, somos profundamente gratos pela imediata solidariedade de distintos grupos, organizações, sindicatos e de pessoas que se colocaram junto a nós. Cabe ressaltar que também, a solidariedade, do nosso ponto de vista, não pode se cristalizar somente a nossa organização, mas a todos os grupos e coletivos anarquistas que foram atacados, é assim que a gente acredita que pode avançar na campanha anti criminalização. Mas, também se sente, por parte de alguns setores da esquerda um silencio muito confortável, talvez porque não queiram se “queimar” defendendo os anarquistas, não queiram ser alvos, por serem solidários, enfim. Para nós é um péssimo sinal, o não sinal solidário. O país vive momentos muito difíceis, período duro para a vida dos mais oprimidos e, é pequena a capacidade de resistência dos setores da esquerda brasileira, muito por conta da conciliação de classes que o PT e toda patota da burocracia sindical, de movimentos populares foram disseminando nos últimos anos, porque não estamos só falando de um avanço da direita, mais de uma insuficiência da esquerda em criar raízes profundas na luta dos de baixo, longe dos conchavos e da politicagem de gabinete do qual foram se acostumando . Ainda cabe destacar que foi no governo Dilma (PT) que a lei anti terror foi aprovada, lei esta que esta sendo cogitada contra nossa ideologia. O PT, portanto, é também um dos responsáveis, deste nefasto caso de perseguição política.  

Ainda sobre solidariedade destacamos que é de extrema importância que os setores se colocam publicamente contra a criminalização, que não se calem, que fortaleçam esta campanha, sabemos que os precedentes disso são gravíssimos e não podem ser aceitos. Hoje é contra os anarquistas, amanhã pode ser com todos os demais.

6 – As forças policiais são conhecidos por terem forte relações com organizações de extrema-direita e de serem simpáticas ao deputado federal e apologista da ditadura militar Bolsonaro. Acham que isso pode estar influenciando?

Pode ser que sim, estamos falando de relações que se cruzam, com diferentes tipos de interesse. Se não teve influencia direta, esta operação acaba colaborando com este tipo de pensamento apologista de regimes autoritários. E falando em regimes autoritários,   damos uma dica para o delegado Jardim: ‘quadrilheiros do mal’ são os responsáveis pelo regime de terror que instaurou a ditadura civil-militar de 64. Assim, como são os mesmos que hoje em dia proliferam discursos de ódio contra os pobres, que aprovam ajustes que causam fome, sofrimento na vida da maioria da população brasileira, ‘quadrilheiros do mal’ é a corja da câmara dos deputados, os engravatados de Brasília. ‘Quadrilheiros do mal’ delegado, é quem mata na periferia e na favela, mata porque são negros e pobres, o massacre contra os indígenas também é comandado pelos ‘quadrilheiros do mal’. 

 

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Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....