Entrevista sobre anarquismo com militante da CNT também conhecido por integrar a banda El Noi del Sucre.

Tradução e edição livre da entrevista sobre anarquismo com Lorenzo Morales, militante da Confederação Nacional do Trabalho (CNT)¹ de Utrera (Sevilla) na Espanha e também conhecido por integrar o projeto musical El Noi del Sucre².

Realizada pela sua filha, Antuanett, em janeiro de 2015, aqui ele nos conta como foi ter nascido em Utrera e ter que deixar a escola cedo para seguir sua aprendizagem de maneira autodidata e sem diplomas universitários. Estudou direção, roteiro e edição de cinema ao longo de muitos anos e, há quase três décadas formou a banda de rock Los Muertos de Cristo, que hoje se chama El Noi del Sucre. E fundou sua própria produtora chamada Odyssey Records.

Confira:

Com uma frase, como você definiria o anarquismo e por quê?

O anarquismo é um estado de consciência, onde o ser humano passa de adormecido a desperto. Onde seus olhos veem a vida como ela é, em sua ordem natural e não como querem impor aqueles que têm controle e poder.

Com que idade você percebeu ou começou a ter essa consciência política?

Eu não me aproximei do anarquismo por ter lido obras do Kropotkin, Proudhon ou Bakunin, para citar alguns dos mais notáveis pensadores ou canalizadores de tais ideias. Até porque, naquela época nem sabia ler bem. Me aproximei quando comecei a trabalhar na fábrica e descobri o que a humilhação e a impotência eram por sermos o que éramos e, o tratamento humilhante por parte dos empregadores. Foi quando minha consciência realmente acordou, entendendo o que estava acontecendo ao meu redor e o porquê da minha situação nesta vida. Isso foi aos 17 anos de idade.

Algumas questões surgiram na minha mente: É essa a vida que me espera? Este é o meu futuro? Envie ordens ou obedeça, humilhe ou seja humilhado? Viver sem vida, como um zumbi, mergulhado na mais absoluta ignorância? Eu não quero viver assim. Eu sou uma pessoa livre, um ser pensante, por que tenho que pedir permissão para viver àqueles que não governam em minha vida, mas tomaram posse dela pela força? Deve haver outros como eu, com as mesmas preocupações, com as mesmas perguntas, com os mesmos sentimentos. Onde estão? Foi isso que moldou minha consciência de classe e o começo da minha aprendizagem como libertário na luta por uma sociedade justa e igualitária.

Quando você começou a militar na CNT?

Antes de ingressar na Confederação Nacional do Trabalho (CNT), organizei um pequeno grupo de caráter libertário, sem saber muito bem o que essa palavra realmente significava. Eu era apenas um jovem muito inquieto com forte desejo de fazer as coisas. O resultado disso foi que comecei a conhecer pessoas que se moviam no mesmo ambiente. E, foi uma dessas pessoas que me aproximou do sindicato. Na minha cidade (Utrera) não havia CNT, então tive que me mudar para Sevilha para participar. Eu já havia começado meu período de leitura sobre a história do movimento libertário de um modo superficial e dentro das minhas próprias possibilidades naquele momento. Quando cheguei em Sevilha, decidi que não queria me juntar à eles e perguntei como formar uma união da CNT na minha cidade. Eles me deram todas as informações, e eu já fui direto participar de uma união com vários ofícios da CNT em Utrera. Essa responsabilidade acelerou meus ensinamentos e, acima de tudo, comecei a militar sem descanso. Essa experiência fez outra pessoa emergir do meu próprio ser. Uma nova pessoa, que ao longo dos anos descobriria, que as revoluções começam consigo mesmo e que todo o resto não depende mais apenas de você. Mas o comportamento dos outros pode depender de você.

Há quanto tempo você está com a CNT?

Em breve serão 25 anos e espero que, antes de morrer, desapareça, pois isso irá significar que não haverão explorados ou exploradores e que a sociedade será estruturada de uma forma muito diferente daquela em que vivemos hoje, onde não haverá necessidade de organizações como a CNT, porque esta é apenas uma ferramenta de luta, e uma vez que o objetivo tenha sido alcançado, ela não fará mais sentido. Não é uma organização que procura se estabelecer no poder, nem serve aos interesses de qualquer partido político. É apenas uma grande escola onde os rebeldes são forjados e canalizam essa rebelião na luta por uma causa nobre e honesta.

Quais são as pessoas que influenciaram sua vida na CNT e por que?

Desde que me juntei à CNT todas as pessoas que conheci me influenciaram e aprendi algo com todas elas. Porque somos todos diferentes, mas temos uma causa comum e isso é muito enriquecedor. Não é o mesmo de quando uma cabeça ou várias pensam por todos como em outras organizações, sejam lá de qual cor forem e criando assim castas autoritárias de comando e controle. Dessa maneira poderemos pensar e oferecer nossas capacidades a fim de melhorar o que afeta a nós todos.

Mas como é evidente, há também pessoas com quem você tem mais afinidade ou que historicamente suas vidas têm sido um verdadeiro exemplo de honestidade e sacrifício. Com histórico há muitos, sejam cenetistas, anarquistas ou sem ideologia definida e até mesmo de outras ideologias. Para mim, há muitas pessoas que se sacrificaram e embora não se definam como anarquistas, seu comportamento acabou sendo, porque, como eu disse anteriormente, o anarquismo é um estado de consciência, não um rótulo ou uma marca comercial. Não se trata de impor uma ideia, é sobre viver entre iguais, com as mesmas oportunidades e com dignidade.

Eu poderia citar personagens reconhecidos historicamente em maior ou menor medida, por suas obras, escritos ou seus atos perante a vida: León Tolstoy que foi chamado de anarco-cristão, ou Salvador Segui “El Noi del Sucre” assassinado por pistoleiros à mando de empregadores em 1923, e que foi quem negociou a conquista de 8 horas pela primeira vez na história da classe trabalhadora, com o triunfo da famosa greve “La Canadiense” em 1919, em Barcelona. Néstor Makhno e sua Makhnovtchina, que desmascararam a falsa revolução social bolchevique. Emma Goldman, Emiliano Zapata, Ricardo Flores Magon, Buenaventura Durruti, Joan Peiro, Tab Angel, Dr. Pedro Vallina, Cipriano Mera “Mason Geral”, Melchor Rodríguez “Anjo Vermelho”, Mahatma Gandhi, Henry David Thoreau; o desconhecido mas historicamente indispensável para entender a revolução e a guerra civil espanhola, Bernabé López chamado de “guarda civil anarquista”. E assim poderia continuar uma longa lista, tanto a nível nacional quanto internacional das influências nos em meus pensamentos, na minha vida e na militância na CNT.

Você tem ou teve parentes anarquistas? Se sim, eles te transmitiram alguma mensagem?

Sim, eu os tive, e eles são os que mais diretamente me influenciaram e que deram significado à todas as figuras históricas acima mencionadas (até porque só li seus trabalhos ou suas vidas). Com relação aos meus parentes, eu os conheci pessoalmente e eles foram minha verdadeira influência no amadurecimento das ideias e abordagens. Meu tio-avô, José Garrido Acevedo (Pepe) foi uma das maiores influências, ele era camponês, pedreiro, autodidata e, um grande leitor (nunca estudou na escola, o que ele teria amado). Também viveu duas guerras, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Passou pelo exílio, pelos campos de concentração, a perseguição, a separação de sua família (ele só foi conhecer sua filha aos 10 anos de idade). O exemplo personificado do sacrifício de toda uma geração de pessoas corajosas, em que tudo o que pediam era um futuro melhor para todos nós.

Ele me incentivou a ler, a entender ideias e não cair em fanatismo ou sectarismo. Com seu exemplo diário me fez perceber muitas coisas e conceitos com as quais me equivocava. Morreu em 31 de dezembro de 1999 e isso me afetou muito, fazendo com que me envolvesse ainda mais com a compreensão do ideal libertário de sua militância.

Um anarquista tem que ser necessariamente afiliado ao sindicato?

Não. O anarquismo é uma coisa e a união é outra. Na verdade, existem anarquistas que são contra o sindicalismo, chamando-o de ferramenta reformista. Opinião essa que não compartilho e que gerou debates difíceis. A CNT não é uma união anarquista, essa etiqueta foi colocada por pessoas ignorantes e contrárias às suas ideias, o que só criou confusão. A CNT é uma organização anarco-sindicalista, onde todos os trabalhadores têm lugar, sem distinção de sexo, raça, religião, nacionalidade ou pertencimento político partidário (para esses trabalhadores de dupla filiação, por conta de seu envolvimento político partidário, a única questão é que eles não estão autorizados a ocupar qualquer posição dentro da organização, mas como trabalhadores eles têm o direito de serem sindicalizados). Os únicos que não podem pertencer à CNT, conforme acordado nos congressos são: os órgãos repressivos do Estado e os empregadores que têm salários a cargo de sua responsabilidade.

Existem organizações anarquistas mais específicas, como a histórica FAI (Federação Anarquista Ibérica) ou a FIJL (Federação Ibérica da Juventude Libertária), também há organizações por afinidade e grupos que formam seus coletivos com publicações próprias e a intenção de expandir o ideal libertário.

A função dos anarquistas na CNT (que estão em maioria) é dar exemplo com suas ações e seu trabalho diário, e não impor ou dominar, pois isso seria uma grande contradição. A CNT já possui identidade própria desde a sua fundação em 1910.

Quais são as diferenças entre a CNT e os outros sindicatos como CCOO, UGT ou CGT?

Todas. Na verdade, o país está marcado por essa diferença. A transição espanhola, que consistiu em um pacto de silêncio e uma nova roupagem ao sangrento regime franquista, para estabelecê-lo e levá-lo a um bom porto até os dias de hoje, necessitou desses sindicatos para que seus planos frutificassem tal como os teria concebido. A CCOO e a UGT tinham a função de levar os trabalhadores para um beco sem saída, domá-los e tirar toda a sua capacidade de opinar e decidir. É por isso que eles assinaram os famosos pactos da Moncloa, ao qual a CNT se opunha. Suas cúpulas foram bem recompensadas pelo estado e transformadas em uniões sindicais do regime.

Decidem então destruir a CNT por não entrar no jogo e não se vender. E qual a melhor maneira de fazê-lo senão acusando-a de “terrorista”? Palavra essa sempre na moda, não importa em qual época seja. Do Ministério do Interior se preparou a trama e, em 1978 a sala de festas SCAAL de Barcelona vai em chamas, matando a quatro trabalhadores, dois da CNT e dois da UGT. A televisão e toda a imprensa nacional já tinham a notícia preparada, e acusaram a CNT e os anarquistas de serem os artífices. Este foi um dos principais gatilhos para que no ano seguinte, em 1979, durante o V Congresso da CNT seja realizada uma grande divisão, que 10 anos mais tarde se passaria a chamar a parte dividida de Confederação Geral do Trabalho (CGT). O regime havia conseguido isso. Têm a UGT e CCOO como principais sindicatos a seu serviço, e uma CNT reduzida, dividida, que vai passar mais de 30 anos com lutas internas e sem levantar a cabeça. Enquanto isso, as palavras sindicalismo revolucionário são apagadas da mente coletiva dos trabalhadores e os acomoda ao sindicalismo sedentário e burocrático.

Concluindo:
A CNT não recebe nenhum subsídio do estado nem de ninguém.
A CNT não possui lançamentos pagos com dinheiro público ou do contribuinte.
A CNT não possui líderes nem comitês executivos que atuam e decidem por conta própria. São as assembleias quem decidem e os comitês são responsáveis pela execução do acordado.
A CNT atua de forma autogestionada, mantendo a própria organização com o dinheiro gerado por seus membros. Assim é há mais de 100 anos.

O que você acha do resto dos sindicatos?

Todos são livres para se juntar onde quiserem. São os próprios trabalhadores quem têm que decidir onde lhes interessa estar e qual ferramenta é mais válida para obter seus objetivos. À nós nos resta continuar trabalhando e demonstrar através de nossos atos, que há uma organização com mecanismos suficientes para realizar a transformação social, política e econômica, mas que só depende das próprias pessoas e do conjunto dos trabalhadores querer fazê-lo. Quanto a todo restante vamos seguir lutando.

Cada sindicato tem seu comitê e secretário ou secretário geral, que é aquele que representa o sindicato, mas não quem decide por ele. Há também um comitê em nível nacional chamado comitê confederado, que também tem sua secretaria geral e, assim como a dos sindicatos ou confederações regionais, cumpre com o acordo da organização e não tem caráter executivo. A CNT está vinculada à AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores). A base da CNT é a solidariedade e o apoio mútuo, levados a cabo por meio da ação direta, ou seja, sem intermediários e lidando diretamente com o conflito, o trabalhador como sindicato e o patrão.

Com que personagem da guerra civil você se identifica e por quê?

Melhor que dizer sobre a guerra é dizer da revolução. Porque a guerra interessava a outras pessoas que desejavam o poder e é por isso que brigavam. Mas os anarquistas e os membros da CNT estavam interessados em fazer a revolução social e, ao mesmo tempo, como não havia outras opções, defender-se da guerra que havia sido provocada pelas forças reacionárias através de um golpe de Estado. Tarefa difícil para um povoado, dois por um. É por isso que é difícil se identificar com personagens concretos, acho que me identifico com esse povo e com essa geração.

Qual é a estrutura interna e os meios para reivindicações da CNT?

A grosso modo e de maneira rápida, a base da CNT é a assembleia do sindicato. Os comitês são administrativos e rotativos de tempos em tempos. A CNT é uma confederação de sindicatos autônomos, pertencentes entre si à regional que pertença ou ao seu âmbito geográfico. Por exemplo, durante anos, a CNT das Ilhas Canárias pertencia à confederação regional da Andaluzia. Hoje é na confederação regional das Ilhas Canárias, onde todos estão localizados todos os sindicatos que existem nas ilhas. A CNT é regida pelos seus acordos de congressos. A realização dos congressos é marcada pela própria organização. Nos congressos é onde se pode mudar outros acordos. A CNT também realiza pleitos e plenárias nos níveis local, regional e nacional. Onde os acordos sobre as propostas e apresentações feitas pelos sindicatos são tomadas, desde que não afetem os acordos do congresso. Também se realiza conferências de militantes, onde o membro não fala em nome de seu sindicato, mas fala em seu nome e expressa seus sentimentos do ponto de vista individual.

Você pode destacar algum momento específico da sua militância?

Posso lembrar de muitos, porque são muitos anos e muitas experiências. Mas sempre me recordarei do dia em que fui me juntar a Sevilla. Foi tanto pelo choque que recebi quando vi o lugar onde estavam e quão baixa a organização era, que preferi organizar um sindicato no meu povoado com toda a responsabilidade que isso implicava.

Ser anarquista é ser utópico?

Ser anarquista é ser curioso. Ser anarquista é ser 50% realista e 50% sonhador, e como Eduardo Galeano expressou muito bem: Ela está no horizonte, me aproximo dois passos, ela se afasta mais dois passos. Eu ando dez passos e o horizonte corre dez passos adiante. Tanto quanto eu andar, nunca vou alcançá-la. Então, o que é bom utopia? Serve para isso, andar.

Você acha que o anarquismo irá algum dia abolir o estado?

O estado está em sua mente. Aqueles que o inventaram e aperfeiçoaram o introduziram como um chip que manipula seus atos e te impede de agir livremente. Tire isso de você, e poderão ter seu corpo, mas nunca sua mente.

Você quer acrescentar algo?

Meu muito obrigado por ter dedicado sua tese³ a este grande e belo ideal do anarquismo.

Você já escreveu algum livro sobre esse tema?

Sim. Eu fiz um trabalho de três volumes, no qual explico a trajetória do movimento libertário, desde seus primórdios até o presente.

O primeiro volume é uma compilação de escritos de pensadores, biografias de figuras proeminentes e fatos históricos a nível internacional concluindo com a chegada do anarquismo na Espanha. Feito em ordem cronológica e citando muitas fontes para dar o primeiro passo ao fascinante mundo do anarquismo e sua história.

O segundo volume é sobre a revolução e a guerra civil espanhola. Ele também contém alguns escritos, como no primeiro, coletado de outros livros e biografias de figuras proeminentes, mas ao contrário da primeira parte, aqui escrevi como se fosse um diário de um militante anônimo da CNT.

No terceiro volume, uma primeira parte inclui biografias de personagens que se destacaram na guerra civil e na revolução para situar o leitor, e todo o resto do livro já o escrevi como a continuação do diário do miliciano anônima, já que ele perde a guerra civil, o exílio, a luta na segunda guerra mundial, a volta para a Espanha, o Maquis e a resistência, os sacrifícios pessoais, até chegar até a atualidade em que vivemos.

¹. Fundada em 1910 em Barcelona, a partir da união das sociedades obreras não vinculadas às correntes social democratas, a CNT segue fiel aos princípios anarco sindicalistas e é a única herdeira, no estado espanhol, do espírito da Primeira Internacional. É o único sindicato do país com total independência política, cujas decisões são tomadas a partir dos próprios trabalhadores filiados e não de um comitê de profissionais do sindicalismo. Para manter sua independência econômica e não deixa as negociações nas mãos de intermediários, a CNT sempre renunciou aos financiamentos do Estado e da classe patronal.


². Lorenzo Morales escolheu o nome da banda em homenagem ao anarco sindicalista catalão Salvador Segui, apelidado de “El noi del sucre” (o garoto de açúcar), assassinado por pistoleiros a mando da classe patronal e da burguesia catalã em 23 de março de 1923, em Barcelona. Os integrantes da banda costumam se maquiar e se vestir com apelo crítico em suas apresentações públicas e costumam dizer que não tem um estilo musical definido, mas sim uma base ideológica sólida. A banda está em turnê com o lançamento do filme “Ya no hay locos” e seu último disco foi lançado em 2016 com o título A MI MANERA VOL. 3 “Utrera Calling” e 4 “Que no calle el cantor”. Para conhecer melhor visite a página da banda no Youtube.

³. A entrevista foi originalmente publicada pela banda na própria página no FB, mas havia sido cedida à filha do entrevistado como parte da tese acadêmica da mesma. Uma entrevista inédita e com questões mais pontuais com relação ao contexto brasileiro foi enviada à banda que até o momento não pode responder por questão de agenda interna.

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Anelise Csapo

é jornalista formada pela PUC-SP e pesquisadora com pós graduação em Psicologia Política pela Each-USP.