O espirro do Leão

A onda anti-vacinação como sintoma da crise das instituições

Bastet, originalmente a deusa-leoa da guerra durante boa parte da história do Egito antigo, posteriormente adaptada a imagem mais comum de deusa-gata da proteção.
Bastet, originalmente a deusa-leoa da guerra durante boa parte da história do Egito antigo, posteriormente adaptada a imagem mais comum de deusa-gata da proteção.

Conta um provérbio árabe da época dos mitos do dilúvio que o gato é o espirro do leão, criado por Deus para controlar as pragas que infestaram a arca de Noé. Outros mitos mostram gatos como presentes divinos para os homens aprenderem a conviver com felinos mais ferozes. “O gato é um tigre que se alimenta com a mão”, diz o ditado. “Não devemos lamentar os leões” — diz o provérbio africano — “mas agradecer pois Deus não lhe deu asas”.

Na mitologia grega, Hércules inicia seus 12 trabalhos derrotando o terrível Leão de Neméia e usa sua pele como um manto protetor, com a cabeça do leão servindo-lhe de elmo. A ato heroico lhe conferiu uma proteção divina no melhor estilo nietzschiano de “o que não mata nos deixa mais forte”. Mitos de gatos e leões são inspiração para abordar um problema que ocorre em diferentes níveis em todo mundo: a resistência à vacinação.

Vacinas nada mais são do que agentes patológicos muito atenuados capazes de treinar o sistema imune a reconhecer e combater a doença real. A analogia de que o gato é um tigre que alimentamos com a mão já me ajudou a explicar que o corpo pode treinar defesas e aprender com “o domesticado gato” presente na vacina a lidar com o problema real, “os tigres mais ferozes”, inclusive as formas mais graves da doença, “os tigres com asas”.

A comparação mítica com felinos foi útil em 2016, durante a epidemia de Febre Amarela em Angola, África, quando eu integrava uma equipe de saúde que ajudou a lidar com a tragédia. A epidemia pode ser combatida com relativa facilidade pela vacina que é altamente eficaz para impedir o espalhamento da enfermidade. O problema é que a população local era bastante suspeita das intenções do governo em abordar o problema.

Angola sofreu com a guerra civil que opôs a etnia dos ambundus (25% da população e maioria na capital Luanda) contra a maior etnia do país, os ovimbundus (37%), das províncias do Huambo, Benguela e do Bié onde a população desconfiava das intenções do governo do MPLA de Luanda, com crenças de que a vacina iria esterilizar mulheres, enfraquecer homens e matar crianças entre os simpatizantes da UNITA, facção derrotada na guerra.

A analogia felina serviu para dialogar com uma população desconfiada e humilde porque colocava a vacina em uma perspectiva natural, próxima ao cotidiano rural, sem enfrentar a ideia pré-concebida do caráter nocivo, embora atenuado da vacina, compatível com a ideia de fácil aceitação popular de que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose e também criava amuletos de poder a partir do equivalente a uma mitologia vacinal.

A desconfiança em relação aos governos, instituições, corporativismos e multinacionais está por trás de praticamente todas as formas de resistência à vacinação. O movimento anti-vacina cresce proporcional à gigantesca crise de representatividade democrática que afeta todos os países atualmente. Os temores que afetam uma mãe de tribo africana são os mesmos que afligem, embora em uma escala diferente, uma típica família ocidental.

Quando a ciência também se torna vítima da desconfiança nas instituições, vale a cautela do ditado: “Não jogue fora o bebê junto com a água suja do banho”. A biotecnologia, distante e incompreensível à população, é recebida com cinismo e ceticismo, uma tragédia irônica pois a dúvida é a metodologia da ciência. Ao contrário do senso comum, não são os mais burros que rejeitam a vacina, mas aqueles pensantes sem acesso à boa informação.

Além disso, certas estratégias públicas ou privadas de vacinação costumam ser autoritárias ao não ver sujeitos autônomos, mas objetos a serem vacinados, como um gado. A recente notícia de que amostras da carne brasileira exportada continha abscessos ligados à reação a vacina contra febre aftosa reforça um fenômeno pontual de rejeição à carne, mas também às vacinas humanas pela percepção de um tratamento impessoal, de gado.

Capa da Revista da Semana, outubro de 1904, criticando aspectos autoritários da Vacinação ligados à higienização do Rio de Janeiro durante a Revolta da Vacina.
Capa da Revista da Semana, outubro de 1904, criticando aspectos autoritários da Vacinação ligados à higienização do Rio de Janeiro durante a Revolta da Vacina.

Rejeição a intervenções sanitárias consideradas eficazes, seguras e baratas pela comunidade científica não são novidade. Em 1904, o Rio de Janeiro conheceu a Revolta da Vacina. O estopim foi o “bota-abaixo” higienista que expulsou do centro para os morros e para a periferia a população pobre, bem como as leis draconianas que davam poderes ao Estado para entrar nas casas das pessoas e vacinar “à muque” como se dizia na época.

Talvez não seja apenas coincidência que o sentimento anti-vacina da época da Revolta de 1904, ligado à higienização social forçada tenha um paralelo similar com os novos sentimentos anti-vacinação que estão reaparecendo no Brasil, país com uma crise política grave e um Estado policial capaz de fazer a remoção forçada de cerca de 170 a 250 mil pessoas como as que ocorreram para as obras da Copa em 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Conversando com céticos da vacinação, percebo que desconfiança da vacina coexiste com sentimentos ambíguos como os de que é ótimo para as crianças brincar descalças, sujar na terra, sair nas ruas, comer alimentos diversos para fortalecer o sistema imunológico e evitar alergias. A rejeição à vacina se dá pela deturpação da naturalidade e pela alienação decorrente da inversão da lógica científica experimental de auto conhecimento.

A minha hipótese é de que o sentimento anti-vacinação está ligado uma deficiência de autonomia não só pessoal, mas também coletiva em uma sociedade alienada. Isso se manifesta da forma similar à rejeição das cervejas industriais de milho transgênico das multinacionais em favor das cervejas “puras” de cevada e lúpulo ou de fabricação artesanal. No caso das vacinas, não há o equivalente a indústrias e fórmulas alternativas de cervejas.

O que proponho para lidar com o problema não é bem uma abordagem que desmistifique as vacinas. Popularizar a ciência é preciso, mas, ao mesmo tempo, mitificar as vacinas como patrimônio cultural e natural da humanidade, visto que, assim como os antibióticos, estão entre as principais conquistas sociais desde o Iluminismo. Devemos reconectar a ideia científica da vacina como proteção natural e dádiva de Gaia, a mãe natureza.

Campanhas de vacinação podem fugir do tecnicismo e da imagem arrogante dos políticos e focar em um marketing popular, com profundeza mítica, onde o conhecimento é auto adquirido: histórias com velhos barbudos de cajado revelando ao herói que “a jornada da vida é perigosa, leve essa poção para te proteger” ou a ousadia rebelde de um jingle adaptado do Planet Hemp: “Se vacine já, se vacine já, uma dose natural não pode te prejudicar”.

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Mauro Cardoso

Médico Epidemiologista e Estatístico, atua na área de saúde pública estudando os cavaleiros do apocalipse: a peste, a fome e a guerra.