Etchegoyen – Na fila do comando

Talvez o leitor já tenha se esquecido, mas em 2014 tentaram fracassadamente reeditar a chamada “Marcha da Família com Deus pela liberdade”.

A versão original da tal marcha foi uma manifestação anticomunista de apoio ao golpe militar,  realizada em 19 de março de 1964, já a versão reeditada pedia pela mesma coisa “intervenção militar constitucional”… Só que trocava o comunismo pelo PT.

O resultado foi que apenas 500 pessoas sem um pingo de vergonha na cara caminharam pela na Praça da Sé, em São Paulo. Um número risível de manifestantes em vista do Auê danado que os organizadores conseguiram despertar na imprensa.

Rimos muito. A impressão que se tinha era de que o assunto “retorno dos militares” estava morto e enterrado. Até que em 2017 uma nova noticia fez com que a chamada”intervenção militar” voltasse aos noticiários.

Veio a tona o fato de que as casernas do exercito brasileiro não estavam tão tranquilas quanto se pensava. Tudo foi regurgitado quando o General Antonio Hamilton Mourão surgiu em uma loja maçonica, surpreendendo a todos os incautos com o seguinte discurso:

 

“Na minha visão, que coincide com a dos meus companheiros do Alto-Comando do Exército, estamos numa situação de aproximações sucessivas, até chegar no momento em que ou as instituições solucionam os problemas políticos, com o Judiciário retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícios, ou então nós teremos que impor isso”.

Gen.Mourão – Carta branca para falar bobagem.

A partir de então esperava-se por uma punição, afinal de contas o regulamento do exercito não permite que um oficial emita opinião politica (ainda mais com uniforme) em publico.

Só existiam três pessoas capazes de punir exemplarmente Mourão. O ministro da defesa Raul Jungmann, o presidente Michel Temer e o comandante geral do exercito, Eduardo Villas Boas.

Esquecendo os outros dois que não tem moral nenhuma, todos estavam aguardando um posicionamento do comandante geral (com fama de moderado e democrata), e ele veio no palco mais adequado para isso, uma entrevista no programa Conversa com Bial.

Entretanto a entrevista ao jornalista Pedro Bial foi um desastre, em especial quando Villas Boas alegou que o Exército poderia intervir se o Brasil estivesse na “iminência de um caos” – o que é inconstitucional.

Muitos se perguntaram de forma retórica:

“se esse é o militar democrata, imagina os que não são!?”

De qualquer forma, lhes garanto, uma intervenção não partiria de Villas Boas. O que não poderia afirmar com tanta segurança sobre quem irá sucede-lo e a sucessão do nosso comandante geral do Exercito não deve demorar a acontecer já que o General Villas Boas tem uma doença degenerativa e está visivelmente debilitado.

Mas quem assumiria caso o atual comandante deixasse o cargo?

Um dos nomes mais cotados certamente é o do General Sérgio Westphalen Etchegoyen, atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do Brasil.

 

 

Apesar de ser uma figura do alto escalão do governo de Michel Temer não vemos muitas noticias sobre Etchegoyen por aí, entretanto tudo o que sai sobre ele  é de deixar qualquer um, no minimo, com a pulga atrás da orelha.

Para inicio de conversa Etchegoyen é um o nome  historicamente vinculado às agitações e as revoltas militares desde os anos 20!

A começar por (mais especificamente) 16 de novembro de 1926,  quando a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi palco de uma revolta de milicos liderada pelos primeiros-tenentes Alcides Gonçalves Etchegoyen, Nelson Gonçalves Etchegoyen, Heitor Lobato Valle e Iguatemi Moreira para impedir a posse do presidente Washington Luís.

Alcides Etchegoyen.

 

 

Derrotado e perseguido, o tenente Alcides  (avô do general Sérgio Etchegoyen), participaria quatro anos depois do levante que originou o chamado “Estado Novo” de Getulio Vargas. Durante o governo Vargas, ele trabalhou no gabinete do ministro da guerra Eurico Gaspar Dutra e, depois, substituiu Filinto Müller como chefe da polícia do Distrito Federal  (então sediado no Rio de Janeiro). Em agosto de 1954, Alcides assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas. Acabou preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor o presidente interino Carlos Luz.

Morrendo em 1956. Deixou dois filhos no Exército: Leo Guedes e Cyro.

Leo, é o pai do general Sérgio Ethcegoyen. Ele participou do golpe militar que derrubou João Goulart em 1964 se tornando secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul até 1965.

Foi mais tarde também assessor do presidente da ditadura militar General Emílio Garrastazu Médici.

Identificados como linha dura, os Etchegoyen perderam espaço no Exército quando Ernesto Geisel iniciou a abertura do regime.

Em 1979, Leo foi nomeado chefe do Estado-Maior do então comandante do 2.º Exército.

Seu irmão Cyro Etchegoyen chefiou a 2.ª Seção do Estado-Maior. Juntos, os irmão Etchegoyen foram responsáveis pela repressão às famosas greves do ABC e pela prisão de sindicalistas nesta mesma  época, além de serem acusados pale Comissão da Verdade do sequestro de integrantes de organizações de direitos humanos que prestavam solidariedade aos trabalhadores, como os advogados José Carlos Dias (então presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo) e Dalmo Dallari.

O pai de Sérgio decidiu ir  para reserva após o irmão ter sido preterido na promoção para general, em 1983. Em 2003, depois dos atentados de 11 de setembro no Estados Unidos, deu uma sugestão aos americanos sobre como lidar com Osama Bin Laden: “Bastava oferecerem US$ 1 bilhão para o Mossad – o serviço secreto israelense – que eles iriam lá e resolveriam o problema”. Leo morreu em 2003.

Mas não para por aí.

De acordo com a Comissão da Verdade, em texto repercutido pela jornalista Tânia Monteiro no Estadão, em 2014, o general Leo Etchegoyen, enquanto chefe do Estado Maior e supervisor das atividades do DOI-CODI, em 28 de dezembro de 1979, elogiou os serviços prestados pelo tenente coronel Dalmo Lúcio Muniz Cyrillo, chefe do DOI CODI do II Exército, destacando “sua experiência no campo das informações e por sua dedicação, boa vontade, capacidade de trabalho e espírito de cooperação”.

Dalmo Cyrillo atuou no DOI-CODI do II Exército como chefe de equipes de interrogatório e desempenhou a função de subcomandante nos períodos de Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel.

Em 1979, ele assumiu o comando do DOI-CODI de São Paulo, período no qual atuou sob as ordens de Leo Etchegoyen e Milton Tavares de Souza.

O Etchegoyen e a Casa da Morte

Essa não foi a única menção a um familiar de Sergio Etchegoyen nos trabalhos da Comissão da Verdade.

Em depoimento concedido à Comissão Nacional da Verdade, o coronel Paulo Malhães apontou o coronel Cyro Guedes Ethegoyen, tio de Sergio, como a autoridade responsável pela chamada “Casa da Morte”, residência localizada em Petrópolis (RJ), que serviu de cárcere, centro de tortura e execução de  presos políticos durante a ditadura militar.

De acordo ainda com matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, em seu depoimento, Malhães admitiu ter participado de diversas sessões de tortura e de ter ordenado e participado de várias ocultações de cadáveres que envolviam, entre outras práticas, a mutilação dos corpos, com a retirada das digitais, mediante o corte das mãos, e da arcada dentária. Questionado em seu depoimento sobre as torturas e as mutilações de cadáveres, ele defendeu a prática como “uma necessidade” e disse que os corpos eram mutilados “para não deixar rastros”.

“Quebrava os dentes. As mãos (cortava) daqui para cima”, afirmou, apontando as próprias falanges. Cerca de um mês depois de prestar depoimento à Comissão da Verdade, Malhães foi assassinado por asfixia em sua casa localizada na zona rural de Nova Iguaçu.

A nota divulgada por Sérgio Etchegoyen e familiares, em dezembro de 2014, qualifica o relatório da CNV como “patético esforço para reescrever a história” e afirma que “Leo Guedes Etchegoyen representa a segunda geração de uma família de generais que serve o Brasil, com retidão e patriotismo, há 96 anos”.

E acrescenta: “Seguiremos defendendo sua honrada memória e responsabilizando os levianos que a atacarem”.

Em 2014 o Coronel Paulo Malhães encontrado morto com marcas de asfixia em seu rosto e pescoço. Em depoimento prestado à polícia pela esposa do coronel, Cristina, ela,o marido e o caseiro do sítio (em que a família Malhães residia) foram rendidos por três homens encapuzados. Um deles teria rendido Cristina, outro, imobilizou o caseiro e o terceiro levou Malhães para um quarto. Um computador, uma impressora e três armas antigas da coleção do coronel foram roubadas.

Sergio Etchegoyen – A continuação da familia?

General de quatro estrelas, Sergio Etchegoyen é gaúcho de Cruz Alta e ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras em 1º de março de 1971. Foi chefe da Comissão do Exército Brasileiro em Washington (EUA), de 2001 a 2003, comandou, como general, a 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, de 2005 e 2006, em Dourados (MS), a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, de 2007 a 2009, no Rio de Janeiro, e a 3ª Divisão de Exército – Divisão Encouraçada, de 2011 a 2012, em Santa Maria (RS), tendo sido considerado por alguns militares como um perfil  “linha dura”.

Desde março de 2015 atua como chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro, coordenando a atuação operacional e a política estratégica dos militares em todo o país, foi também assessor especial do ministro Nelson Jobim no Governo Lula e chefe do Estado Maior do Exército (EME) no Governo Dilma.

Aos 64 anos, foi o escolhido por Michel Temer para assumir como ministro-chefe da Secretaria de Segurança Institucional. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também ficando subordinada à pasta, que havia sido extinta por Dilma Rousseff em 2015.

Em 2016, por determinação do então residente interino, Michel Temer, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) comandado pelo General, passou a monitorar os movimentos do Partido dos Trabalhadores (PT), comandado por Rui Falcão.

Apesar de ser considerado um dos principais conselheiros de Temer, Etchegoyen também é alvo de ataques de assessores presidenciais por supostamente interferir demais em decisões políticas, como na cogitada troca no comando da Polícia Federal.

Ainda em 2016 , a agenda de Sergio Etchegoyen entregou um encontro com Duyane Norman, “Chefe do Posto da CIA em Brasília”.

Em 2017, o governo Temer pediu que PF investigasse atos de vandalismo em uma manifestação ocorrida em Brasilia chamada #OcupaBrasilia.

Em pronunciamento ao lado do, então ministro da justiça Osmar Serraglio, Etchegoyen disse que os envolvidos nos atos de vandalismo são criminosos e devem ser tratados como tal. “Eu não os chamo de grupos radicais. Eu os chamo de vândalos, de criminosos. É um pouquinho diferente de grupos radicais. Os radicais são pessoas com quem se pode conversar. Neste caso, não são pessoas com quem se pode conversar. São posições criminosas”, disse o general.

De acordo com o que foi publicado pela Agência Brasil, ao ser questionado sobre o uso de bombas e armas letais contra manifestantes que não estavam praticando vandalismo e contra jornalistas, Etchegoyen respondeu: “meu amigo, eu acho que polícia jogar bomba em manifestantes em geral é uma visão um tanto quanto unilateral do problema e uma consequência que não faz parte da nossa discussão hoje”.

Foi também durante o periodo de Etchegoyen na GSI, de Raul Jungmann como ministro da defesa e de Eduardo Villas Boas como comandante geral do exercito que o Capitão do exercito Willian Pina Botelho sob o codinome “Baltazar Nunes” se tornou alvo de investigação do ministério público federal por espionagem em uma manifestação ocorrida em São Paulo.

Ah, e sobre o pronunciamento do General Mourão ( o qual falamos no inicio deste texto) o General Etchegoyen apenas disse:

Eu não vou explicar a frase do general Mourão, porque é um amigo muito grande que eu tenho. É um soldado que tem muito valor. Não sei em que circunstâncias ele deu a declaração. Não sei como era a pergunta. O ministro do Exército e o comandante do Exército conduziram a questão .

Fiquemos de olho.

 

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