EZLN: E Rompemos o Cerco

Traduzido do Enlace Zapatista

AO POVO DO MÉXICO, AOS POVOS DO MUNDO:

AO CONGRESSO NACIONAL INDIGENA – CONSELHO INDIGENA DO GOVERNO

AS REDES DE APOIO E RESISTENCIA E REBELDIA

IRMÃOS IRMÃS, COMPANHEIROS, COMPANHEIRAS E COMPANHEIRXS

Aqui lhes trazemos nossa palavra que é a mesma de antes, de hoje e amanhã, porque é de resistência e rebeldia!

Em outubro de 2016, há quase 3 anos, em seu vigésimo aniversário, os povos irmãos organizados no Congresso Nacional Indígena, junto com o EZLN, se comprometeram a passar a uma ofensiva em defesa do território e da Mãe Terra. Perseguidos pelas forças de mau governo, caciques, empresas estrangeiras, criminosos e leis; contando mortos, provocações e ameaças, os povos originários, os guardiões dessa terra, concordamos em passar para a ofensiva e expandir a palavra de ação, resistência e rebeldia.

  Com a formação do Conselho Indígena de Governo e a designação de sua porta-voz, Marichuy, o Congresso Nacional Indígena se deu a tarefa de levar, irmão e irmãs do campo e da cidade, a palavra de alerta e organização. O ELZN também passou para a ofensiva pela palavra, pela ideia e pela organização.

Agora é chegado o momento de responsabilização à CNI-CIG e sua porta-voz. E seus povos dirão se temos cumprido. Mas, não só à eles, também temos o dever com as organizações, grupos, coletivos e indivíduos (especialmente da Sexta e das Redes, mas não só), que, no México e no mundo, se preocupam pelos povos zapatistas e em seu tempo, em sua geografia e a sua forma, sem se importar com a distância de muitos quilômetros, sem se importar com muros e fronteiras, nem com as cercas que nos colocam, seguem com seu coração palpitando junto ao nosso.

A chegada de um novo governo não nos enganou. Sabemos que os detentores do poder não têm mais pátrias que dinheiro, e que governam o mundo na maioria dos terrenos que chamam de ‘países’.

Sabemos também que a rebeldia está proibida, como estão proibidas a dignidade e a revolta. Mas, em todo mundo em seus cantos mais esquecidos e desprezados, há seres humanos que resistem a ser devorados pela máquina e não se rendem, não se vendem e não renunciam. Têm muitas cores, muitas são suas bandeiras, muitas línguas que os vestem, e gigantesca são sua resistência e rebeldia. Ainda que se escondam por trás de seus muros, fronteiras, suas cercas, seus exércitos e policiais, suas leis e decretos, essa rebeldia chegará cedo ou tarde para prestar contas. E não haverá perdão ou esquecimento.

Sabíamos e sabemos que nossa liberdade só será obra de nós mesmos, povos originários. Com o novo capataz no México, seguiu também a perseguição e a morte: em apenas alguns meses, uma dezena de companheiros do Congresso Nacional Indígena-Conselho Indígena de Governo (CNI-CIG), lutadores sociais, foram assassinados. Entre eles, um irmão muito respeitado pelos povos zapatistas: Samir Flores Soberanes, executado depois de ser apontado pelo capataz que, além disso, continua com os megaprojetos neoliberais que fazem desaparecer aldeias inteiras, destroem a natureza e transformam o sangue dos povos originários em lucro das grandes capitais.   

Por isso, em honra aos irmãos e irmãs que são mortos, perseguidos e estão desaparecidos ou encarcerados, decidimos nomear como ‘SAMIR FLORES VIVE’ a campanha zapatista que hoje culmina e tornamos pública:

Depois de anos de trabalho silencioso, apesar do cerco, apesar das campanhas mentirosas, apesar das difamações, apesar das patrulhas militares, apesar da Guarda Nacional, apesar das campanhas contra-insurgentes disfarçadas de programas sociais, apesar do esquecimento e do desprezo, temos crescido e temos ficado mais fortes.

E nós quebramos o cerco

Nós saímos sem pedir permissão e agora estamos de novo com vocês, irmãos e irmãs, companheiros e companheiras. O cerco do governo ficou para atrás, não serviu e nunca servirá.  Seguimos caminhos e rotas que não existem em mapas ou satélites, e que só se encontram no pensamento de nossos mais velhos.

  Com nós, zapatistas, em nossos corações caminha também a palavra, a história e o exemplo de nossos povos, de nossos filhos, anciãos, homens e mulheres. Do lado de fora encontramos casa, comida, escuta e palavra.  Nos entendemos como apenas aqueles que compartilham não apenas a dor, mas também a história, a indignação, a raiva se entendem.

  Entendemos assim, não só que as cercas e muros só servem para morte, também que a compra-venda de consciências dos governos cada vez é mais inútil. Não enganam, não convencem mais, oxidam, quebram, falham.

É assim que saímos. O controle foi deixado para trás, pensando que sua cerca, nos manteria isolados. De longe, vimos suas costas com guardas nacionais, soldados, policiais, projetos, ajuda e mentiras. Nós fomos e retornamos, entramos e saímos. 10, 100, 1000 vezes o fizemos e a autoridade assistiu sem olhar para nós, confiante no medo que o seu medo causava.

Como uma mancha suja, os cerceadores foram deixados, circundado dentro de um território agora mais difundido, um território que espalha a rebelião.

Irm@s, companheir@s:

Aparecemos diante de vocês com novos Caracóis e municípios rebeldes zapatistas autônomos em novas áreas do sudeste do México.

Agora também teremos Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista. Na maioria dos casos, esses centros também abrigam Caracóis, Conselhos de Bom Governo e Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (Marez).

Embora lentamente, como deveria ser pelo nome, os 5 Caracóis originais foram reproduzidos após 15 anos de trabalho político e organizacional; e o MAREZ e seus Conselhos de Bom Governo também tiveram que criar e vê-los crescer. Agora haverá 12 caracóis com os seus Conselhos de Bom Governo.

Este crescimento exponencial, que hoje nos permite deixar o cerco novamente, é principalmente devido a duas coisas:

Um deles, e o mais importante, é o trabalho político organizacional e o exemplo das bases zapatistas de apoio a mulheres, homens, crianças e idosos. De maneira marcante, das mulheres e jovens zapatistas. Companheiros de todas as idades se mobilizaram para conversar com outras irmãs com ou sem organização. Os jovens zapatistas, sem abandonar seus gostos e desejos, aprenderam sobre ciência e artes, e assim infectaram cada vez mais jovens. A maioria desses jovens, principalmente mulheres, toma posse e os embebe em sua criatividade, engenhosidade e inteligência. Assim, podemos dizer, sem tristeza e com orgulho, que as mulheres zapatistas não apenas seguem em frente, como o pássaro Pujuy, marcam o caminho e não se perdem: também para os lados, para que não nos desviemos; e de volta para não atrasarmos.

A outra é a política destrutiva do governo de comunidade e natureza, particularmente a do atual governo da “Quarta Transformação”. As comunidades tradicionalmente partidárias foram feridas pelo desprezo, racismo e voracidade do atual governo, e entraram em rebelião aberta ou oculta. Quem pensava que, com sua política de contra-insurgência, dividiria o zapatismo e compraria a lealdade dos não-zapatistas, incentivando o confronto e o desencorajamento, daria os argumentos que faltavam para convencer esses irmãos de que é necessário defender a terra e a natureza.

O mau governo pensou e pensa que o que as pessoas esperam e precisam são esmolas monetárias.

Agora, os povos zapatistas e muitos povos não-zapatistas, bem como as cidades irmãs da CNI no sudeste do México e em todo o país, respondem-lhe e provam que ele está errado.

Entendemos que o atual capataz foi treinado no PRI e na concepção “indigenista” em que os nativos anseiam vender sua dignidade e deixar de ser o que são, e que o indígena é uma peça de museu, artesanato multicolorido para os poderosos esconderem o cinza de seu coração. É por isso que sua preocupação é que seus muros de trem (do Istmo às mal chamadas de “Maias”) incorporem as ruínas de uma civilização na paisagem, de modo que encantem o turista.

Mas os nativos estão vivos, rebeldes e resistentes; e o poder pretende agora reeditar um de seus capatazes, um advogado que já foi indígena, e que agora, como em toda a história mundial, se dedica a dividir, perseguir e manipular aqueles que já foram seus pares. O titular do INPI trata a consciência no cotidiano com pedra-pomes para eliminar qualquer vestígio de dignidade. Ele acha que sua pele está embranquecida e sua razão é a da autoridade. O capataz brinda os detentores do poder e a si: não há nada melhor para tentar controlar os rebeldes do que um arrependido, transformado por pagamento, no fantoche do opressor.

Durante estes mais de 25 anos, aprendemos.

Em vez de escalar as posições de mau governo ou tornar-se uma cópia ruim daqueles que nos humilham e nos oprimem, nossa inteligência e conhecimento foram dedicados ao nosso próprio crescimento e força.

Graças às irmãs, irmãos e irmãs do México e do mundo que participaram dos encontros e canteiros que convocamos neste momento, nossa imaginação e criatividade, assim como nosso conhecimento, se abriram e tornaram-se mais universais, isto é, mais humano.  Aprendemos a olhar, ouvir e falar com outro sem escárnio, sem condenação, sem rótulos. Aprendemos que um sonho que não cobre o mundo é um pequeno sonho.

O que é agora conhecido e público, foi um longo processo de reflexão e busca. Milhares de assembléias comunitárias zapatistas, nas montanhas do sudeste do México, pensavam e procuravam caminhos, formas, tempos. Desafiando o desprezo dos poderosos, que nos despreza como ignorantes e tolos, usamos inteligência, conhecimento e imaginação.

Aqui nomeamos os novos Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista (CRAREZ). Existem 11 novos Centros, além dos 5 caracóis originais, 16. Além dos municípios autônomos originais, que são 27, o total de centros zapatistas é de 43.

Nomes e localização dos novos Caracóis e Marez:

1.-Novo caracol, seu nome: Coletivo o coração das sementes rebeldes, em memória do Companheiro Galeano. Seu Conselho de Bom Governo é chamado: Etapas da história, para a vida da humanidade. Sua sede é La Unión. Terra recuperada. De um lado de San Quintin, onde fica a sede do exército do mau governo. Município oficial de Ocosingo.

2.-Novo município autônomo, denomina-se: Esperança da Humanidade; Sua sede está em: Santa María. Município oficial de Chicomuselo.

3.-Outro novo município autônomo, é chamado: Ernesto Che Guevara. Sua sede é em El Belén. Município oficial de Motozintla.

4.-Novo Caracol, seu nome: Espiral dignidade, tecendo as cores da humanidade em memória dos caídos. Seu Conselho de Bom Governo é chamado: Semente que floresce com a consciência daqueles que lutam para sempre. Sua sede é em Tulan Ka’u, terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

5.- Novo Caracol, seu nome é: Florescendo a semente rebelde. Seu Conselho do Bom Governo é chamado: Nova alvorada da resistência e rebelião pela vida e pela humanidade. Sua sede é no Pueblo Patria Nueva, terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

6.-Novo município autônomo, denomina-se: Semeando conscientização para colher revoluções pela vida. Sua sede é em: Tulan Ka’u. Terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

7.-Novo Caracol. Seu nome é: Em honra da memória do companheiro Manuel. Seu Conselho de Bom Governo é chamado: O pensamento rebelde dos povos originais. Sua sede é em: Dolores Hidalgo. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

8.-Outro novo Caracol, seu nome é: Resistência e Rebelião, um Novo Horizonte. Seu Conselho de Bom Governo é chamado: A luz que brilha no mundo. Sua sede é na Vila Nova Jerusalém. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

9.-Novo Caracol, é chamado: Raiz das Resistências e Rebeliões para a humanidade. Seu Conselho de Boa Governação é chamado: Coração de nossas vidas para o novo futuro. Sua sede fica no Jolj’a ejido. Município oficial de Tila.

10.-Novo Município Autônomo, é chamado: 21 de dezembro. Sua sede é em Ranchería K’anal Hulub. Município oficial de Chilón.

11.-Novo Caracol, é chamado: Jacinto Canek. Seu Conselho de Bom Governo é chamado: Flor da nossa palavra e luz dos nossos povos que reflete para todos. Sua sede é na Comunidade da CIDECI-Unitierra. Município oficial de San Cristóbal de las Casas.

Irm@s e companheir@s:

Da CNI-CIG, convocamos vocês para conhecer o trabalho com o qual nos comprometemos, compartilhar os problemas, as dificuldades, os golpes, as quedas, mas também as sementes que servem para colher o melhor da luta, e as sementes que vemos que não nos dá uma boa colheita, o que nos leva ao contrário, de modo que não fazemos mais isso. Para conhecer aqueles que estão realmente querendo a luta organizacional, nos encontramos para conversar sobre as boas colheitas e as ruins também. Especificamente, propomos a realização conjunta, em um dos Caracóis, do que poderia ser chamado de FÓRUM EM DEFESA DO TERRITÓRIO E MÃE TERRA, ou como você vê melhor, aberto a todas as pessoas, grupos, grupos e organizações que estão comprometidos com isso, lutar pela vida. A data que propomos a você é neste mês de outubro de 2019, nos dias que acharem mais convenientes. Da mesma forma, oferecemos um dos Caracóis para a reunião ou montagem da CNI-CIG, na data que lhes convier.

Chamamos a SEXTA e as REDES para iniciar a análise e discussão para a formação de uma Rede Internacional de Resistência e Rebelião, Polo, Núcleo, Federação, Confederação, ou seja o que for chamado, baseado na independência e autonomia daqueles que a formam. Renunciar explicitamente a hegemonizar e homogeneizar, em que a solidariedade mútua e o apoio são incondicionais, compartilhemos as boas e más experiências da luta de cada um e trabalhemos na disseminação das histórias dos de baixo e à esquerda.

Por isso, como somos zapatistas, convocaremos reuniões bilaterais com grupos, grupos e organizações que trabalham em suas geografias. Nós não vamos realizar grandes reuniões. Nos próximos dias, anunciaremos como, quando e onde essas reuniões bilaterais que propomos. Claro, para aqueles que aceitam, e tendo em conta os seus calendários e geografias.

AQUELES QUE FAZEM DA ARTE, CIÊNCIA E PENSAMENTO CRÍTICO COMO SUA VOCAÇÃO E VIDA, nós o convidaremos para festivais, reuniões, canteiros, festas, intercâmbios, ou quaisquer que sejam as ações que serão chamadas. Nós já saberemos como, quando e onde eles poderiam ser feitos. Isso inclui o CompArte e o Festival de Cinema “Puy ta Cuxlejaltic”, mas não apenas. Pensamos em fazer CompArts especiais de acordo com cada Arte. Por exemplo: Teatro, Dança, Artes Plásticas, Literatura, Música, etc. Haverá outra edição do ConCiences, talvez começando com as Ciências Sociais. Mudas de pensamento crítico serão realizadas, talvez começando com o tema da tempestade.

E, ESPECIALMENTE, AQUELES QUE ANDAM COM A DOR E A RAIVA, COM RESISTÊNCIA E REBELDIA, E SÃO PERSEGUIDOS:

Convocaremos reuniões de parentes dos assassinados, desaparecidos e presos, bem como organizações, grupos e grupos que acompanham sua dor, sua raiva e sua busca pela verdade e justiça. Terá como único objetivo que se conheçam e troquem não apenas dores, mas também e principalmente suas experiências nessa busca. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Os companheiros zapatistas convocarão um novo Encontro de Mulheres que lutam, nos tempos, lugares e modalidades que decidirem, e os informarão quando e por meio dos meios que eles disserem. Uma vez que você saiba que será apenas para mulheres, você não poderá fornecer mais dados até que digam.

Veremos se há uma maneira de fazer um encontro com os outrxs (outras identidades, não-binários), com o objetivo de compartilharem, além de suas dores, as injustiças, perseguições e outras injúrias que as fazem, suas formas de luta e sua força. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Veremos se é possível uma reunião de grupos, grupos e organizações que defendem os Direitos Humanos, na forma e modalidade que eles decidirem. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Companheir@s e irm@s:

Aqui estamos nós, somos zapatistas. Para sermos vistos, cobrimos nossos rostos; para sermos nomeados, negamos nosso nome; apostamos no presente para ter um futuro e, para viver, morremos. Somos zapatistas, em sua maioria indígenas com raízes Maias, e não nos vendemos, não desistimos e não desistimos.

Nós somos rebelião e resistência. Somos um dos muitos martelos que quebram as paredes, um dos muitos ventos que varrem a terra e uma das muitas sementes das quais nascerão outros mundos.

Nós somos o Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Das montanhas do sudeste mexicano.

Em nome dos homens, mulheres, crianças e idosos, bases de apoio zapatistas e do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Subcomandante Insurgente Moisés.

México, agosto de 2019.

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