Feministas do Chile inspiram uma nova onda de luta social

Tradução por  Kaique Pimentel

Revisão por Matheus Saldanha

Por Bree Busk, originalmente publicado na Roar Magazine

É maio de 2018 enquanto o inverno cai sobre Santiago, Chile, uma nova onda de ações feministas está explodindo de vida. Grafites anti-patriarcais cobrem as paredes da cidade e as ruas estão repletas de evidência das marchas recentes. A tensão nas universidades aumenta e as redes sociais estão inundadas de posts que variam de perguntas cautelosas a pronunciamentos jubilosos: “O campus central da PUC está ocupado?” “A UCEN foi ocupada?” “Instituto Arcos em greve feminista!”

Quase todos os dias, uma nova variedade de cartazes feministas podem ser vistos nos muros das instituições mais proeminentes de Santiago. Uma por uma, as universidades e escolas de ensino médio estão se tornando ocupações feministas, mas por algum motivo parece ser apenas o começo. O feminismo está em ascensão, e embora possa haver mensagens de sororidade em abundância, elas são intensificadas por uma raiva intensa dirigidas diretamente àqueles que exercem o poder patriarcal contra as mulheres deste país.

Para um forasteiro, o movimento feminista no Chile passa por um movimento de massas forte e unificado, com um grande número de organizações diversas aderindo às mobilizações anuais. Mas o que à primeira vista pode ser encarado como uma expressão bem desenvolvida de força feminista, na realidade é muito mais fragmentado. O movimento estava em uma transição caótica, perturbando e desafiando a esquerda como um todo, mas sem uma visão clara de quais novas práticas ocupariam o lugar das velhas.

A Nova Onda do Feminismo Chileno

A frustração e o ultraje sentidos pelas mulheres, pessoas trans, e pessoas queer que claramente  se intensificaram por anos, mas a tensão ainda não tinha encontrado forma de se liberar entre as massas, por um movimento popular. Todos podiam sentir que algo estava para acontecer, mas ninguém tinha certeza qual combinação de eventos finalmente romperia a represa. A enchente viria em abril de 2018, com um onda massiva de ocupações de universidades e escolas de ensino médio, todas em nome do feminismo.

O movimento estudantil chileno tem uma história longa e rica, mais recentemente marcada por períodos de luta em 2006 e de 2011 a 2013 e pode parecer um tanto exótica para audiências estrangeiras, graças às fotos icônicas das escolas ocupadas e às mobilizações massivas. Entretanto, há um perigo na romantização dessas imagens superficiais de luta. O risco é que, sem contextualização histórica ou uma análise contextual, o atual espetáculo de uma rebelião jovem e feminista oculte os desenvolvimentos políticos, muito mais fascinantes, que acontecem longe das câmeras.

Os estudantes podem ter sido os primeiros a abrir as portas, mais  muitos outros logo passarão por elas. A militância feminista voltou a despertar nos bairros da classe operária de Santiago e está se movimentando na crescente comunidade de migrantes. Movimentos de trabalhadores estão integrando uma análise do trabalho reprodutivo e alguns sindicatos tradicionalmente masculinos estão considerando entrar em greve por exigências feministas.

Essa nova onda do feminismo chileno será explorada em uma série de três artigos com foco específico nas tendências multissetoriais e transversais do movimento que, provavelmente, tem  o potencial para unir os diversos movimentos sociais do Chile em uma força capaz de apresentar um desafio real à trindade capitalismo, patriarcado e Estado. Essa primeira parte da série aborda as condições que deram início a esse ciclo revigorado de lutas assim como a emergência de La Coordinadora 8 de Marzo, coalizão que atualmente serve como principal veículo dessa abordagem política.

Feministas Contra o Feminicídio

Atualmente, a onda de greves já está diminuindo e o movimento está traçando um novo curso. Entretanto, as feministas chilenas ainda lutam para analisar o momento em que se encontram. Não é o bastante apenas reagir; nós precisamos compreender onde estamos para determinar para onde vamos. Esse processo de reflexão está acontecendo, mas vários fatores podem ser  claramente identificados: o crescimento da visibilidade global do feminismo, as ascensões paralelas de outros movimentos sociais e a pressão exercida sobre os chilenos e os povos indígenas pela aplicação contínua das políticas neoliberais instituídas desde o retorno da democracia.

Os chilenos são muito sensíveis às tendências políticas internacionais. O movimento #metoo nos EUA e seu equivalente na Espanha, o #yotecreo (“Eu acredito em você”), se alinha firmemente com a história das funas do Chile – uma tática onde o povo se reúne perto da casa de figuras públicas ou de abusadores conhecidos para denunciá-los ou envergonhá-los por violações dos direitos humanos ou por violência patriarcal. Essa ferramenta é usada quando as pessoas acreditam que não existe outro recurso para alcançar justiça, o que é frequente no caso de indivíduos que escaparam de processos criminais por suas ações durante a ditadura militar. Infelizmente, isso também se aplica à agressores que frequentemente vivem suas vidas livremente e perpetuam comportamentos violentos sem sofrer nenhuma consequência.

#NiUnaMenos(“Nem Uma [Mulher] A Menos”) é um slogan contra o Feminicídio que surgiu na Argentina e que ressoa fortemente nas feministas chilenas, dando vida  a organizações como a Coordinadora #NiUnaMenos, que instigou com sucesso mobilizações massivas em 2016 e em 2017. O feminicídio é um tema dominante na América Latina,tanto que a cada semana surge uma manchete nova de uma mulher assassinada por ciúmes ou como punição por escapar das expectativas tradicionais de gênero.

Marcha contra a violencia contra a mulher, 2018, foto por Carlos Wagner.

Atualmente, as funas se tornaram digitais e as jovens postam bravamente fotos de seus rostos machucados nas redes sociais, acompanhadas por histórias explícitas dos abusos que sofreram. Essas mulheres estão dando nomes e compartilhando prints, usando as vantagens dos meios modernos de comunicação para destacar sua luta diária.

25 de junho de 2018, por exemplo, marcou o segundo aniversário da morte de Nicole Saavedra, uma jovem lésbica de uma comunidade rural que foi sequestrada, torturada e assassinada. Familiares e militantes acusaram que a investigação da morte de Nicole foi negligenciada pela pouca importância dada à vida das mulheres, particularmente à das lésbicas. Este é um tema recorrente para as feministas chilenas, que encontram resistência tanto do governo quanto da mídia quando insistem na existência do feminicídio como uma categoria única que não pode ser entendida ou combatida da mesma forma que os outros homicídios.

Para aquelas que se organizam para combater os temas permanentes do abuso doméstico, da violência sexual e do feminicídio, a luta contra a apatia e a resignação é uma luta em si mesma. No Chile, é preciso levar em conta, que se lembrar não é apenas um ato de reflexão pessoal. Ao contrário, é um processo político que previne a perda de conhecimento coletivo e preserva a memória dos mártires. Feministas contemporâneas usam a politização da memória da mesma forma queas gerações anteriores, que viveram sob a ditadura: honrando as vítimas de feminicídio pela arte e pela luta política.

No final de 2017, a luta contra o feminicídio e a violência de gênero convergiu com o movimento pelos direitos dos imigrantes com a morte de Joane Florvil, uma jovem haitiana acusada de abandonar sua filha pequena. Ela foi presa posteriormente e mantida na detenção até sua morte 30 dias mais tarde, supostamente por conta dos ferimentos que ocorreram durante sua prisão. Como uma migrante recente que não falava espanhol, Joane foi colocada numa posição de extrema vulnerabilidade, sem a possibilidade de se explicar para a polícia ou de se defender contra suas acusações. Sua morte tornou-se desde então emblemática quanto à crescente xenofobia, um problema que é agravado pelo racismo e pela misoginia.

“Justiça pra Joane Florvil” poster por La Coordinadora 30 de Septiembre

Como migrantes continuam a chegar ao país em números sem precedentes, a esquerda luta para se adaptar à nova paisagem política. As feministas chilenas foram as primeiras a estender a mão para a comunidade haitiana, construindo laços por meio da militância e de projetos de educação popular. A aprovação de um novo decreto que aponta os haitianos para um processo de imigração mais restritivo, o feminismo tem o potencial para se tornar a lente pela qual essa crise pode ser compreendida e enfrentada.

Movimentos Multissetoriais

As discussões sobre disparidade salarial, trabalho reprodutivo, e precariedade foram retomadas como pauta principalmente pela Coordinadora Nacional de Trabajadores y Trabajadoras No Más AFP (Coordenação Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Não Mais AFP), a aliança organizada para reformar ou substituir o sistema previdenciário corrupto. Esse movimento foi impulsionado por mulheres sindicalistas – entre outras – e não hesitou em ressaltar como as mulheres têm desvantagens únicas sob o sistema capitalista atual por conta da disparidade de  gênero no pagamento e pela natureza não remunerada do trabalho doméstico. As mulheres da NO+AFP frequentemente são participantes ativas de assembleias de bairro e de organizações políticas e representam a imagem tradicional da militância da classe trabalhadora chilena.

Uma tensão emerge quando as feministas do movimento operário e das poblaciones – favelas ou comunidades operárias – se cruzam com o feminismo do movimento estudantil, que se desenvolveu, em grande parte, porém não exclusivamente, no contexto das escolas de ensino médio e universidades mais politizadas. Seguramente há um vasto abismo entre os chilenos pobres da zona rural e aqueles que são capazes de ir às melhor universidades em Santiago. Dito isso, é o projeto de todo movimento social identificar pautas comuns capazes de unir esses grupos atravésde suas experiências diversas.

As políticas neoliberais implementadas sob a ditadura e expandidas pelos governos de direita seguintes tiveram impacto na vida de todos os chilenos e dos povos originários. Portanto, os movimentos contra violência estatal e as privatizações nas áreas de educação, previdência social, saúde e trabalho tem grandes chances de ganhos ao reconhecer e agir em objetivos complementares.

Essa abordagem multissetorial é exemplificada pela organização nacional  Movimiento Salud para Todas y Todos (Movimento Saúde para Todas e Todos), que une trabalhadores da saúde, estudantes de medicina e pacientes que exigem a saúde pública como um direito. Eles buscam esse objetivo por meio de campanhas diversas, incluindo apoio à greves de fome dos mapuches, melhora nas condições de atendimento aos pacientes, oficinas de educação sobre saúde pública e a descriminalização do aborto. Na linguagem da esquerda chilena, setores são áreas delimitadas de luta, como sindical, territorial – rural e comunitário – e estudantil.

Multissetorialismo significa uma análise transversal desses movimentos sociais e o desenvolvimento de relações solidárias entre esses setores, resultando no apoio multissetorial para demandas específicas.

Os movimentos multissetoriais de hoje refletem os experimentos e avanços do passado, como fica evidente pelo movimento estudantil chileno, que se mostrou extremamente flexível, capaz de dar luz a novas ideias e colocá-las em prática. Uma dessas ideias é a “dissidência sexual”, uma resposta radical às políticas neoliberais de inclusão e diversidade. Popularizada por grupos como o Colectivo Universitário de Disidencia Sexual (Coletivo Universitário de Dissidência Sexual ou CUDS), a dissidência sexual significa “ resistência constante ao sistema sexual dominante, a sua hegemonia econômica e sua lógica pós-colonial” e rejeita a ideia de identidades subversivas – gay, lésbica, queer, trans, drag,etc. – em favor de análise e ação subversivas. O resultado é uma política inclusiva e combativa que não pode ser facilmente cooptada ou institucionalizada, não importa quantos indivíduos forem enrolados por reformas de fachada.

Já que a teorização e prática da dissidência sexual foi desenvolvida em conjunto com o crescimento da atividade feminista estudantil, existe uma tendência que se provou resistente ao feminismo radical trans-excludente. Essa influência é mais visível nas assembleias feministas e protestos em Santiago em que feministas trans e não-binárias comparecem em números bem maiores que podemos ver nos EUA e até ocupam posições de liderança nas suas organizações.

O feminismo chileno contemporâneo é revigorantemente experimental e flexível, baseado na análise histórica de esquerda, mas aberto a integrar novas teorias e táticas que surgem no nível global. Ao manter a orientação na luta de classes e infundir influências encontradas no feminismo negro e indígena em suas análises, essa geração de feministas levou a luta mais adiante do que era possível prever antes. Entretanto, há um número de forças que se colocam em oposição ideológica e buscam sabotar o movimento a cada oportunidade.

Cooptação, Fascismo e as Ameaças Internas

A primeira ameaça vem da atual administração Piñera, que imediatamente implementou reformas enganosas da saúde e trabalhistas com a intenção de dar uma cara “pró-mulher” às velhas políticas que causaram tantos danos à infraestrutura social do Chile. Essas reformas são a isca jogada para os politicamente moderados, enquanto a vara é representada pelas novas políticas cruéis que buscam criminalizar tanto imigrantes quanto os mapuches – povo indígena que habita as regiões central e sul do Chile.

A abordagem neoliberal de Piñera pode ser entendida como uma postura “mais delicada” se comparada com as posições que beiram o fascismo tomadas pelos políticos da extrema direita contemporânea, como José Antonio Kast, cuja campanha presidencial em 2017 prometia um retorno da “lei e ordem” e que foi bem recebida pelos conservadores tradicionais. Suas posições linha-dura quanto à imigração e os assuntos sociais, como o aborto, tornaram-no uma inspiração para que grupos fascistas se organizassem no nível de base. A ascensão global de movimentos nacionalistas e etno-supremacistas deram aos fascistas chilenos a percepção de uma crescente legitimidade, e a ameaça de uma violência crescente contra imigrantes negros e feministas está saindo do discurso vazio para a violência real nas ruas.

Infelizmente, a ameaça final – e possivelmente a mais potente – vem de dentro do movimento, que tem sofrido rachas ideológicos e embates por poder. Depois de desencadear as mobilizações de 2016, a Coordinadora NiUnaMenos (NUM) se dividiu efetivamente. O primeiro racha veio como resultado das ações tomadas por uma das organizações integrantes, a Pan y Rosas (Pão e Rosas), que pretendia usar seus números superiores para forçar a aliança a defender posições controversas. Isso expõe um racha ideológico significativo entre as feministas anti-organizacionistas que defendiam o separatismo e as feministas que mantinham sua filiação a grupos tradicionais mistos de esquerda.

Enquanto as crises internas continuaram a desgastar a aliança, a atmosfera tornou-se tóxica e o debate político se degradou em bullying e ataques pessoais. Antes que essa série de eventos terminasse, as feministas organizacionistas remanescentes decidiram que a aliança não era mais  um veículo seguro ou mesmo produtivo para sua política e optaram por sair.

Para algumas, a desintegração da NUM foi uma decepção cruel, especialmente depois de experimentar um ressurgimento vibrante da atividade feminista. Entretanto, as feministas que descobriram afinidades políticas enquanto navegavam pela miríade de conflitos da aliança não estavam nem um pouco desanimadas. Pelo contrário, a adversidade que elas experimentaram forçou o aprimoramento de sua análise política e a articulação de alternativas novas frente às posições e práticas às quais se opunham.

Dessa forma, o derramamento metafórico de sangue nesse período difícil permitiu o adubamento do solo a partir do qual o próximo estágio do movimento veio a crescer. No fim de 2017, algumas feministas continuaram a se voltar para grupos de afinidade ou espaços separatistas para a política, enquanto outras começaram a lutar pelo projeto de demarcar o feminismo como algo transversal, multisetorial e mais ambicioso do que o que veio  antes.

Batizando Um Movimento

Assim chegamos em janeiro de 2018, com um mosaico de movimentos sociais, partidos de esquerda, coletivos culturais, assembleias de bairro e indivíduos politizados se recolocando para confrontar o novo cenário político que se desdobra enquanto a administração Piñera se prepara para asumir. E é neste contexto que a Coordinadora 8 de Marzo (Coordenação 8 de Março, ou C8M) se encontrou para discutir a conjuntura – a combinação de fatores que caracterizam o momento político – do feminismo chileno.

A C8M é uma aliança com uma missão enganosamente simples: reunir uma variedade de organizações sociais, sindicatos e feministas individuais para planejar a marcha anual associada a essa data. Todo ano, participantes veteranas e novatas precisam se reunir em torno de uma análise comum do estágio da luta feminista e identificar um tema capaz de unir um movimento heterogêneo e conflituoso.

As feministas da C8M, muitas das quais veteranas dos conflitos da época do #NiUnaMenos, sabiam que o separatismo isolacionista era um beco sem saída para seus objetivos políticos. Para construir o movimento que elas sabiam ser necessário, elas precisaram encontrar um fio comum que passasse pelas vidas de todas as mulheres da classe trabalhadora e pelas dissidentes de gênero: algo que uniria as pessoas em vez de separá-las. Para esse fim, adotaram uma abordagem feminista transversal.

Política transversal é um método organizacional desenhado para gerar uma identidade coletiva em alianças não-hierárquicas entre as posições diversas de seus membros. De fato, essas diferenças são consideradas uma vantagem, já que apenas analisando um problema por múltiplas perspectivas que a “verdade” pode ser determinada. Esse método busca evitar que o universalismo excessivo da esquerda esmague diferenças,  frequentemente de uma maneira etnocêntrica, assim como o excessivo relativismo das políticas identitárias contemporâneas, que frequentemente são essencialistas e substituem a identidade coletiva por identidade individual. Em Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment (Pensamento Feminista Negro: Conhecimento, Consciência e Políticas de Empoderamento), Patricia Hill Collins escreve que, para construir laços de solidariedade através de nossas diferenças, “empatia, e não simpatia, deve se tornar a base da aliança”.

A C8M viria a definir dois pontos comuns para os quais essa empatia política deve ser dirigida: a experiência de violência individual e estrutural e a condição de trabalhar para os outros. Este último foi interpretada de forma ampla, reconhecendo que o trabalho das mulheres toma várias formas, tanto assalariado quanto informal, e deve ser tornado visível em todos os lugares em que ocorre. Essa análise abriu as portas para a luta feminista em todas as frentes, permeando todos os movimentos sociais que se posicionam contra a exploração capitalista e a opressão do Estado. Era possível, elas postularam, que o feminismo em si pudesse se tornar o ponto de convergência para unir e revigorar a esquerda como um todo.

Qual slogan poderia falar dessa condição comum de exploração do trabalho e violência em toda   sua a multiplicidade de expressões? Esse ano (2019), a C8M decidiu que as feministas se mobilizariam “Contra a Precarização da Vida”. Esse tema falou sobre os efeitos de 30 anos de políticas neoliberais instituídas no Chile após o retorno da democracia. Ainda que nem sempre com alvo explícito nas mulheres, o resultado dessas políticas foi um aprofundamento da  pauperização de um grupo já colocado em uma posição de desvantagem histórica.

Seja uma mapuche em seu território ancestral, um estudante na sala de aula, uma trabalhadora em seu emprego, uma mãe ou uma cuidadora mantendo sua casa e sua família ou uma imigrante construindo uma nova vida, todas as mulheres sentiram a mordida da violência íntima ou estrutural e a retirada sistemática de sua autonomia e seus recursos pelo Estado. A marcha de 2018 iria, pela necessidade, reunir as organizações territoriais das  poblaciones, as formações regionais da NO+AFP, os sindicatos de maioria feminina, as numerosas organizações feministas estudantis, organizações de imigrantes e de direitos humanos e muitas, muitas mais, basicamente representando um quadro amplo dos movimentos sociais chilenos, todos unidos por meio do feminismo.

Essa convergência de lutas ficou evidente em 8 de março de 2018, quando um fluxo de feministas que parecia não terminar inundou as ruas. O sentimento geral foi o de que algo significativo havia mudado, que as forças estavam chegando a um alinhamento. Meses depois, membros da C8M refletiram que a insatisfação estava aumentando nas universidades desde seu primeiro encontro, em janeiro. Dito isso, poucas poderiam prever a onda massiva de greves feministas e ocupações que varreriam escolas e universidades pelo país apenas algumas semanas depois ou o revigoramento do movimento pelo direito ao aborto que aconteceria logo em seguida.

Facebook Comments

Kaique Pimentel

cozinheiro, propagandista, rabisca uns textos de vez em quando....